Pª Vera Cristina
Weissheimer *
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Igreja Evangélica Reformada
Huguenote,
em Erlangen
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Passando
um final de semana na cidade de Erlangen, com um casal de amigos muito
queridos, não quis deixar de participar de uma
celebração pela Reforma Protestante. Afinal são
488 anos desse acontecimento histórico e estou nas terras do
protestantismo. Seria um pecado perder tal oportunidade. No domingo
30 de outubro, procuramos uma igreja protestante e encontramos uma
Igreja Reformada, a Evangelische Reformierte Hugenottenkirche (Igreja
Evangélica Reformada Huguenote). Chamou-me atenção, é claro,
a palavra “huguenote”.
Huguenotes eram os seguidores do movimento reformador na França
do século XVI. O nome deriva do alemão Eidgenossen – “os
confederados”. Como sabemos, a Reforma não foi um movimento
pacífico: provocou divisões, guerras e mortes. Na França,
de 1562 a 1598 ocorreu um fenômeno político complexo que
recebeu o nome de “guerras de religião”, em que
um dos lados, por suas coligações, ficou conhecido como
o dos “confederados”.
As guerras religiosas, infelizmente, sempre fizeram parte da história
do cristianismo, e um de seus episódios mais trágicos
se deu na noite de 24 de agosto de 1572, quando os huguenotes foram
alvo de uma chacina que passou à história como a Noite
de São Bartolomeu. Milhares foram mortos em Paris, e depois
a perseguição e o terror continuaram por toda a França.
Esses protestantes franceses se espalharam pela Europa tentando se
proteger da fúria de Catarina de Médicis (mãe
do rei da França) e da Igreja Romana. Parte dessa história,
incluindo o relato da Noite de São Bartolomeu, está contada
no livro “A Rainha Margot”, de Alexandre Dumas, que há alguns
anos foi adaptado para um belo filme. Vale a pena procurá-lo
nas locadoras.
Os huguenotes chegaram também a essa região da Alemanha
onde ficam as cidades de Erlangen e Nüremberg, sua vizinha mais
conhecida, e que pertencia ao reino da França – por isso é chamada
de Francônia. Na bagagem, levavam a sua fé, o seu Deus,
a sua tradição, a sua culinária.
A igreja huguenote de Erlangen foi construída entre os anos
de 1686 e 1693. Mesmo ali, onde reinava o luteranismo, os huguenotes
foram encarados com resistência, temor e preconceito. Eles também
eram protestantes, mas eram “diferentes” – no jeito
de prestar culto, de se vestir, de comer. As duas tradições
protestantes levaram trezentos anos até que viessem a trabalhar
juntas na cidade. Somente no ano de 1985 é que assinaram um
tratado para ação em conjunto.
Em Erlangen, o templo fica na Praça Huguenote, na esquina da
Calvinstrasse (que homenageia João Calvino) com a Goethestrasse
(rua Goethe). Na noite do domingo 30 de outubro, a esquina onde Calvino
e Goethe se encontram recebeu por algumas horas outro nome. Ali foi
Lutero que se encontrou com Calvino para celebrar mais uma vez a Reforma
Protestante. Na celebração, os pastores da Igreja Luterana
e da Igreja Reformada iam contando a história e intercalando-a
com hinos de um hinário comum usado pelas duas tradições
na Alemanha inteira.
Também a cidade de Erlangen quer aprender com a história
dos huguenotes a soletrar a palavra tolerância com o coração
e a mente para saber integrar os 13 mil estrangeiros que vivem hoje
na cidade, disse uma advogada que falou durante a celebração,
referindo-se às muitas colônias de pessoas de outros países
que vivem na cidade.
Cada um leva em sua bagagem as suas experiências com Deus, mas
isso não quer dizer que essas experiências sejam as únicas
verdadeiras e válidas. A humanidade precisa aprender a soletrar
a palavra Deus através do coração e da mente – porque,
para vivermos juntos e em paz, é preciso mudar nosso jeito de
pensar. Essa foi a frase de despedida de um dos pastores nessa noite.
Assim também a palavra tolerância só vai conseguir
ser soletrada se passar pela mente (com mudança de mentalidade
de ambas as partes, de quem chega e de quem recebe) e pelo coração,
com acolhimento e respeito. Integração de povos e culturas é um
caminho de duas vias: há deveres e direitos de ambos os lados. É encontrar-se
para andar juntos em reconstrução (onde ela for necessária),
respeito e aceitação do outro.
Que possamos entender que o propósito de Deus é a paz.
Vivamos, portanto, em paz.