Stephen Kanitz *
Todo
jovem tem de tomar pelo menos duas grandes importantes decisões
na vida. A escolha da profissão e a do cônjuge. A maioria
estuda e namora o futuro cônjuge nos mínimos detalhes,
mas escolhe e descarta dezenas de profissões com uma única
frase. Muitos passarão mais tempo no emprego do que com o marido,
a esposa e a família. Quando chegarem em casa, todos já
estarão dormindo.
Como melhorar a escolha da profissão com a mesma
dedicação com que se escolhe um cônjuge?
1. Namore também sua profissão. Se seus
pais possuem um conhecido que exerça uma profissão, peça
permissão para acompanhá-lo por algumas semanas para sentir
como é seu dia-a-dia. Mesmo que tenha de ficar nos corredores,
você verá o ambiente, sentirá um pouco a rotina
diária. Assista a uma semana de aulas em sua futura faculdade.
Comece a explorar as variantes da profissão, descubra as linhas
de pensamento, os estilos. Quem são as "feras" dessa
área e como são os estilos de vida. Combinam com o seu?
2. Não se apresse. Se você estiver na dúvida
quanto à escolha da profissão, tire um ano mochilando
pelo mundo afora. É preferível "perder" um ano
a perder toda uma vida profissional. A escolha da profissão precisa
ser cuidadosa, porque hoje em dia é mais fácil trocar
de cônjuge que de profissão. Aos 32 anos você não
terá mais disposição para prestar um novo vestibular.
Essa pressão da sociedade e dos pais para uma escolha imediata
vem do tempo em que a expectativa de vida de um adulto era de somente
quarenta anos. Hoje a expectativa média de vida é de 82
anos. Um ano ou dois não farão a mínima diferença.
3. O não por exclusão. Nossa tendência
é sempre achar algum defeito numa idéia nova. "Engenheiros
sujam as mãos", "contabilidade é para tímidos",
"advocacia é para quem fala bem", "finanças
e economia são para especuladores". Toda profissão
tem seus defeitos. Se você andou escolhendo algumas profissões
por exclusão, volte atrás e pense de novo.
4. Explore o cinza. Justamente porque o estereótipo
do advogado é aquele que fala bem, existe enorme falta de advogados
que sejam bons em matemática. Por isso, advogados tributaristas,
os que mexem com números, são muito bem pagos no Brasil.
5. Não confunda interesse com proposta de vida.
Todos nós deveríamos ter interesse em história
e filosofia. Espero que nos fins de semana vocês leiam esses temas,
e não mais um livro técnico. Todo mundo deveria estudar
um pouco de economia, psicologia e direito, mas nem todos irão
querer estudar essas matérias a vida inteira. O simples interesse
não é suficiente para fazer de você um profissional
dedicado e totalmente comprometido para o resto da vida. Uma fã
do pianista Arthur Moreira Lima disse que daria a vida para tocar como
ele. "Pois eu dei a minha vida", respondeu Moreira Lima. Se
você está disposto a dar sua vida por história ou
filosofia, aí não é um mero interesse, é
sem dúvida uma vocação. Portanto, vá em
frente. Se você escolher uma profissão no par-ou-ímpar,
lembre-se de que poderá estar tirando a vaga de alguém
que tem vocação, a vaga de um futuro Moreira Lima.
Faça um favor à sociedade e àqueles
que adorariam estar em seu lugar: não tome a vaga de quem realmente
precisa. A sociedade, os excluídos e seus futuros professores
agradecerão efusivamente. Portanto, vá com calma. Estude
a vida inteira e escolha sua profissão de uma forma profissional.
Boa sorte e meus votos de sucesso.
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Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
Artigo Publicado na Revista Veja,
edição 1781, ano 35, nº 49, 11 de dezembro de 2002.