Stephen Kanitz
*
A
Inquisição gerou uma série de comportamentos humanos
defensivos na população da época, especialmente
por ter perdurado na Espanha e em Portugal durante quase 300 anos, ou
no mínimo quinze gerações.
Embora a Inquisição tenha terminado há mais de
um século, a pergunta que fiz a vários sociólogos,
historiadores e psicólogos era se alguns desses comportamentos
culturais não poderiam ter-se perpetuado entre nós.
Na maioria, as respostas foram negativas, ou seja, embora alterassem
sem dúvida o comportamento da época, nenhum comportamento
permanece tanto tempo depois, sem reforço ou estímulo
continuado.
Não sou psicólogo nem sociólogo para discordar,
mas tenho a impressão de que existem alguns comportamentos estranhos
na sociedade brasileira, e que fazem sentido se você os considerar
resquícios da era da Inquisição.
Primeiramente, como se explica a enorme dificuldade de nossos intelectuais
firmarem uma posição pessoal sobre um assunto? É
notória a posição dos intelectuais do PSDB, de
estarem sempre "em cima do muro". Quantos não conhecem
a frase "Não sou a favor nem contra, muito pelo contrário",
uma expressão coloquial pouco usada em outros países.
Leia alguns textos de intelectuais e você notará que a
maioria sempre cita dezenas de autores, a idéia é sempre
do outro ou pelo menos atribuída ao outro. O que passa por erudição
pode ser uma tática de preservação da própria
pele. Numa Inquisição você não vai querer
se expor defendendo suas próprias idéias, a saída
é sempre atribuí-las a outrem.
Uma das coisas mais difíceis neste país é saber
o que se passa na cabeça de um mineiro. Não permitir que
alguém pudesse ler sua mente, ou chegar a uma aproximação
de suas reais intenções, era uma condição
básica de sobrevivência na Inquisição, algo
que os mineiros cultivam até hoje.
Nossa Constituição e nossas leis tentam sempre agradar
a todos, somos sempre conciliadores, nunca há perdedores, mesmo
que isso gere absurdos. A começar pela Constituição
de 1988, que consegue ser de esquerda, de direita e liberal ao mesmo
tempo. Contrariar alguém na época da Inquisição
era contrair um potencial inimigo ou incentivar uma denúncia
anônima.
Nada me deprime mais do que uma pessoa humilde que me presta um serviço
se despedir com a frase "Desculpe qualquer coisa". Por que
alguém iria se desculpar por ter feito algo que ele nem mesmo
sabe o que poderia ser? Uma forma de se proteger de alguma denúncia
posterior à Inquisição.
Fernando Henrique Cardoso, em seu livro O Presidente Segundo o Sociólogo,
define a imprensa brasileira como extremamente atenta ao deslize. Se
um presidente anunciar o fim da pobreza no Brasil, segundo FHC, e no
meio do discurso caírem seus óculos, a manchete e a foto
de primeira página serão sobre a queda dos óculos,
e não sobre o fim da pobreza.
O deslize era talvez o maior perigo de um português na época.
Era justamente disso que a Inquisição ficava à
procura. Se um português mencionasse que havia tomado banho na
sexta, isso poderia ser considerado indício de que se tratava
de um cristão-novo. Todo português precisava se policiar
diariamente. É essa preocupação com o deslize e
a consistência interna do discurso coloquial que explica a maioria
de nossas piadas de portugueses, em que rimos de sua lógica extremamente
rígida e hermética.
Por exemplo, saindo de um hotel em Portugal às 5 da tarde, eu
perguntei ao porteiro a que horas costumava escurecer naquela época
do ano. O porteiro olhou para mim em pânico, provavelmente querendo
decifrar o significado da pergunta capciosa que eu havia feito. Ficou
minutos tentando achar uma resposta que não o comprometesse de
nenhuma forma, uma resposta que não pudesse ser subjetiva, revelando
o mais íntimo do seu ser, mas uma resposta calcada na lógica
cristalina, pelo racional mais cartesiano possível. Finalmente
achou a resposta, sorriu e me disse: "Mas, meu senhor, aqui não
escurece. Aqui em Portugal nós temos luz elétrica".
Coloco a questão mais como uma hipótese a pesquisar,
a de que nosso comportamento não foi determinado exclusivamente
pelo índio, pelo negro nem pelo europeu, mas que uma boa parte
foi moldada pelos quase 300 anos de Inquisição.
* Stephen Kanitz é administrador
por Harvard (www.kanitz.com.br)
Editora Abril, Revista Veja, edição 1890, ano 38, nº
5, 2 de fevereiro de 2005, página 23