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a ilusão monetária
 

Stephen Kanitz *

A primeira reunião do novo governo foi convocada para aumentar os juros para 26,5%.

"Precisamos debelar esta inflação reduzindo o consumo popular", iniciou um dos técnicos do assunto.

"Não entendi. Inflação não é aumento dos preços, e aumento de preço não reduz naturalmente o consumo?", argumentou o ministro Muda, que fizera inúmeras campanhas publicitárias para empresas que pararam de vender justamente porque os preços eram maiores que os da concorrência.

"Aumentar o preço, de fato, reduz consumo, mas aumentando os juros aceleraremos o processo. O perigo é os sindicatos não esperarem a queda dos preços e pedirem a indexação dos salários."

"Então vamos conversar com os sindicalistas", disse o ministro Muda. "Vocês entendem muito mais de sindicalismo do que de juros."

"É que eles não falam mais conosco, acham que somos de direita. Agora só podemos nos comunicar por sinais, sinalizando via juros e vieses indicativos. É muito triste esta situação."

"Tudo bem, mas quem disse que aumentar juros diminui o consumo? Na época do Mailson eu comprei uma TV com os juros ganhos em um único dia", lembrava-se Muda.

"A teoria mostra que a propensão-marginal-a-consumir é MENOR quanto MAIORES os juros. Todos vão preferir poupar a consumir, especialmente com esses juros fantásticos."

"Mas, se esse raciocínio for correto", argumentou Muda, "eles deixarão de gastar 100 reais hoje, o que de fato reduz a inflação, mas poderão gastar 126 reais no ano que vem, e isso sim vai ser inflacionário."

"Vamos resolver um problema por vez, senhor ministro. No ano que vem, a gente conserta nossos erros do futuro."

Muda então contou das propagandas que fizera afirmando que a caderneta de poupança rendia 30,5% ao mês, na época de uma inflação de 30%. Ele achava aquilo uma propaganda enganosa, que se deveria pelo menos descontar a inflação e mostrar que o verdadeiro juro era de somente 0,5%.

"Sabemos disso", diziam os monetaristas na época. "Chamamos a isso de ilusão monetária. O povo acha que o juro nominal é o juro real, mas não é. Você comprou sua TV usando parte da sua poupança achando que o juro do mês era renda. Isso ocorre até hoje."

"Então é tudo isso que gera inflação. Políticas monetárias em que se acaba gastando poupança. Expectativas racionais baseadas em juros irreais e ilusões monetárias, que portanto jamais serão racionais. Juros nominais que não são reais e sim ilusão. Emitir sinais em vez de conversar", bravejou Muda. Foi a gota d'água!

Muda mudou a política monetária baseando-se agora em juros reais, e não irreais. Criou uma campanha conclamando a população a não gastar os juros nominais acumulados que não eram nem juros nem renda para gastar.

"Vamos ter sete anos de vacas gordas, vamos economizar para os anos de vacas magras. Vamos ser espertos desta vez", uma campanha com Einstein como figurino. Reduziu o consumo na hora.

Outra campanha mostrava que, devido ao déficit da Previdência, agora era necessário poupar para a velhice, QUALQUER que fosse o juro. Aliás, quanto MENOR o juro, MAIS as pessoas precisam poupar para sua aposentadoria, o contrário da teoria. É só fazer as contas.

Em vez de aumentar os juros para corresponder à percepção de risco, Muda baixou a percepção de risco fazendo o Marketing do Brasil, a um preço infinitamente menor. Mostrou os jingles "O Brasil que dá certo" mundo afora, mostrou nossas boas notícias, e o investimento veio correndo. O presidente foi reeleito, e Muda virou diretor-geral do FMI.

Muda mudou o mundo. Revolucionou o FMI mostrando que o marketing econômico poderia ser um poderoso instrumento estabilizador. Conteve com campanhas pontuais várias fugas de capitais, impediu que crises de um país contagiassem outros. Atraiu os investidores certos, não os especuladores via juros. Fidelizou o capital volátil. Mudou expectativas e eliminou medos infundados, como fez na propaganda política. Cresceram e viveram felizes para sempre.


* Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)

Artigo Publicado na Revista Veja,
edição 1805, ano 36, nº 22, 4 de junho de 2003.


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