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em louvor de Maria
 

Dr. Valério Guilherme Schaper *

Este texto é dedicado
ao Fr. Felix, ao Pe. Ferreira, ao Pe. Luís, ao Sr. Messias,
ao Sr. Paulo, ao Pe. Natanael, Pe. José Resende,
a Sra. Regina, ao Múcio, a Pe. Aloísio, à Zélia,
amigas/os no caminho de Emaús do ecumenismo

Em 381 d.C., no chamado Segundo Concílio Ecumênico, realizado em Constantinopla, a Igreja Antiga elaborou e legou a todos nós a seguinte formulação comum da fé cristã acerca de Maria:

"Cremos em um só Deus, Pai, Onipotente (...) E em um só Senhor, Jesus Cristo,
Filho Unigênito de Deus, (...) o qual, por nós homens e por nossa salvação
desceu dos céu, e encarnou por obra do Espírito Santo, da Virgem Maria,
e foi feito homem. (...)
" (Credo Niceno-Constantinopolitano.
In: A Confissão da Fé Apostólica. 1983, p.22. Editado pelo IEPG/SP e CONIC)

O Credo Apostólico, anteriormente chamado de "Romanum" e considerado um credo batismal, diz algo semelhante a respeito de Maria. Entretanto, o "Romanum", ainda que antigo, expressa o consenso apenas da parte Ocidental da Igreja Antiga. O Credo Niceno-Constantinopolitano inclui também a parte Oriental. É verdade que a formulação nicena-constantinopolitana não evitou debates sérios acerca da verdadeira "obra" de Maria: seria ela "mãe de Deus" (Theotokos), "mãe de um homem" (Anthropotokos) ou "mãe de Cristo" (Christotokos)? Foi uma questão discutida por muito tempo. O Terceiro Concílio Ecumênico (431-3 d. C.) considerou que Maria era, de fato, "mãe de Deus" (Theotokos). Essa doutrina foi ratificada pelo Quarto (451 d. C.), Quinto (553 d. C.), Sexto (680-1 d.C.) e Sétimo (787 d.C.) Concílios Ecumênicos.

No correr da história da Igreja, durante o período medieval, surgiu, então, toda a elaborada mariologia latina. A Reforma Protestante do séc. XVI aceitava a formulação de Maria como "mãe de Deus", expressa no Terceiro Concílio e ratificada no Quarto, mas se afastou profundamente de toda a mariologia latina, desenvolvida ao longo da Idade Média.

Assim, em conformidade com a afirmação de que Maria é "mãe de Deus", Lutero podia dizer "Maria amamenta Deus com seus seios, dá banho em Deus, o embala e carrega (...)", mas isso tinha mais o sentido de frisar a "integridade do culto a Cristo como Deus" e a "presença de Deus em Cristo" (Dogmática Cristã. Vl. I. 1990, p. 519). Não obstante, Lutero, em 1523, por solicitação de uma comunidade, elaborou, de uma série de três propostas, uma "Ordem do Culto", em que conservou pelo menos duas festividades litúrgicas ligadas a Maria (Anunciação e Purificação), que foram, com algumas variações, reafirmadas nas duas propostas seguintes. O critério para conservar essas festividades era o fato de Lutero considerá-las, em primeira análise, como "festas de Cristo" (Martinho Lutero. Obras Selecionadas. 2000, p. 65-70, 146-172, 173-205). Ainda presentes nas agendas litúrgicas luteranas (por exemplo, Celebrações do Povo de Deus, 1991, nota da p. 84) essas festividades, no entanto, perderam importância ao longo da história do Movimento da Reforma.

De novembro de 1520 a março de 1521, Lutero, porém, dedicou-se à preparação de um texto em que apresentava sua compreensão do "Magnificat" ou, como dizemos hoje, do "Cântico de Maria" (Lucas 1.46-55). Lutero afirmava que esse texto, como era comum na época, devia continuar sendo cantado nas celebrações vespertinas. Mas não só por essa razão Lutero o considerava importante. Lutero viu nesse "Cântico" uma "imagem profundamente evangélica de Maria" (M. Dreher). Maria, em seu "Cântico", em sua vida, expressa a verdade de uma vida a partir do Espírito Santo, pois é do Espírito que aprendemos que Deus, porque faz "grandes coisas" criando do nada, olha "necessariamente" (Lutero) para baixo, para as humildes, as fracas, as que nada são, como a simples Maria. Nisso expressa-se toda a liberdade de Deus para misericórdia. Maria transforma-se assim em exemplo de uma vida a partir do agir gratuito, gracioso de Deus. É Deus, em sua infinita bondade que contempla, olha e volta-se para a simplicidade, a humildade de Maria. Ela não é o que é por seus próprios méritos e virtudes, mas pelo "olhar de Deus" que olha para baixo, para os que não pensam de si mais do que convém. Ao mesmo tempo, Maria torna-se o exemplo de como Deus age na nossa história, pois ela afirma que Deus "derrubou dos seus tronos os poderosos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos" (Lc 1.52-53).

O "Cântico de Maria" é um louvor. Lutero afirma que alguém "jamais pode louvar a Deus sem que antes o ame; da mesma forma, ninguém pode amar a Deus se não conhece a Deus do modo mais amável e perfeito. E não podemos conhecer desta forma senão por suas obras que são reveladas em nós e que sentimos e experimentamos (...)." (Martinho Lutero, Obras Selecionadas. Vl. VI, p. 24-25). E no "Cântico de Maria" Lutero identifica as seis obras de Deus: ser misericordioso, destruir a soberba espiritual, humilhar os grandes, exaltar os humildes, saciar os famintos e deixar os ricos vazios. O texto de Lutero é forte e convida a tomarmos Maria como um exemplo de vida a partir do Espírito Santo, como exemplo de quem espera e vive unicamente da gratuidade de Deus.

A cartilha ecumênica Diversidade e Comunhão, editada pelo CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs) e pelo CLAI (Conselho Latino-americano de Igrejas) em 1998, ao falar da história da Reforma Protestante, apontava para as dificuldades no tocante à "piedade mariana" e para as dificuldades do evangélicos em entender essa "piedade" como "expressão de um caminho do amor a Jesus". A cartilha sugere que o diálogo nesse ponto "deveria começar pelo encontro com a Maria da Bíblia." (Diversidade e Comunhão. Um convite ao ecumenismo. 1998, p. 21-22). Espero ter exposto aqui, a partir de Lutero, uma perspectiva bíblica, evangélica de como nós, luteranos, entendemos e aceitamos Maria. Que esse "pontapé" inicial enseje um profundo diálogo, animado pela oração e pela escuta da Bíblia.

(Texto publicado em "A voz do Evangelista", Maio de 2001, Ano 2, nº 24,
Órgão Informativo da Paróquia São João Evangelista - Belo Horizonte.)


* Dr. Valério Guilherme Schaper
Professor da Escola Superior de Teologia / São Leopoldo - RS


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