A medonha peleja de Santa Esperança
contra o dragão da maldade que surgiu da lama
Um cordel para uma nação
entre o espanto e o luto
"Tudo se esboroa; o núcleo
não se mantém;
pura anarquia espraia-se sobre o mundo;
Maré turvada de sangue avança
e afoga os ritos de inocência
em toda parte;
Aos melhores falta convicção e os piores
estão cheios
de intensidade passional."
(W. B Yeats - 1865-1939)
I - De como surgiu o repugnante dragão
da lama
Depois que o pestilencial e repugnante
dragão matou o último sinal de algo bom que havia
no reino e no coração das pessoas, um pranto enorme
ouviu-se da outra margem do Ipiranga. O rei decretou período
de luto e recomendou que se orasse para Santa Esperança.
A história recente da república
já registrou o memorável embate entre a esperança
e o medo. Daquela feita, a primeira saiu vencedora e encheu de sonhos
o país. Agora, a esperança está de volta à arena
e as razões não são tão nobres. É um
embate contra um novo adversário, a lama, que também
atende pelo trivial apelido de corrupção. É uma
velha conhecida da vida política brasileira. Nem por isso,
o consideramos da família. Continua sendo um monstro a ser
combatido, não obstante seus inúmeros nomes e disfarces.
Não deixa de ser simbólico
e anedótico que um dos envolvidos nestes últimos fatos
tenha o significativo nome de "Jacinto Lamas". De fato,
não só ele, todos nós já sentimos a lama
que ameaça fazer naufragar tudo o que havia ou parecia decente
neste país.
II - De como um "saco de vermes" deixou
duas ou três fascinantes idéias como herança
para a teologia luterana.
Entre os que pranteavam e guardavam
luto havia uma estranha estirpe que não se sabe bem como
havia chegado ao reino. Viviam, entretanto, entre a pertença
e o estranhamento. Lembraram-se, naqueles dias, que um "saco
de vermes", respeitado entre eles, havia lhes dado, antes
da partida, um baú de idéias que deveria ser aberto
quando chegasse a hora certa. Alguns dentre eles julgaram que
a hora era esta.
- Há na tradição
luterana um realismo antropológico que não
nos autoriza a considerar o ser humano além do que convém.
Não se trata de pessimismo, mas de justa medida. Martinho
Lutero (1483-1546), reformador da igreja, sintetizou sua compreensão
do ser humano com a seguinte expressão: "o ser humano é simultaneamente
justo e pecador". Isto significa que não podemos nos
iludir quanto à natureza humana. O pecado, ainda que tenha
sido vencido por Cristo, continua fazendo parte da natureza e da
história humana. Não há boa intenção,
esforço ou capacidade humana ou de instituições
que os coloque a salvo deste veredicto: existimos numa dinâmica
que oscila entre a justiça e o pecado, entre o acerto e
o erro, a perfeição e a precariedade. Por isso, Lutero
alerta que não há como "contornar as tentações" e
que isso "não se modificará", pois "temos
de suportar as tentações e até estar atolados
nelas"; porém, oramos para não sucumbir aos
seus apelos, para que não "afoguemos nelas". Assim,
a cristã e o cristão, ensina Lutero, estão
sempre preparados e à espera do ataque contínuo das
tentações. Entre as três formas de tentação
que lista, Lutero enfatiza a que vem do próprio Satanás,
pois seu propósito é "arrancar-nos da fé,
do amor e da esperança". Frise-se bem que esta compreensão
da natureza humana não torna nossos erros (pecados) legítimos
nem nos exime de procurar com toda a intensidade de nosso coração
- no amor a Deus e ao próximo - agir com vigor para transformar
o que deve ser transformado, ainda que saibamos de nossa frágil
condição humana "justa e pecadora".
- É preciso também considerar
uma outra contribuição de Lutero que aponta para
um outro realismo, o realismo eclesiológico. Lutero
chama atenção para o fato do Credo definir a Igreja
(ecclesia) como "comunhão do santos". Lutero afirma
que isto corresponde a realidade fundamental da Igreja, pois ela,
pela ação do Espírito, é "reunião", "comunhão" dos "santificados".
Por ora, porém, somos apenas "parcialmente puros e
santos". O Espírito precisa trabalhar diligentemente
em nós através da Palavra e do perdão rumo
a esta "santificação". O Espírito,
então, "concede, multiplica e fortalece a fé" para
nos manter firmes na esperança. Isto é o que ocorre
na vida em comunidade. Para exemplificar, conto uma história
que ouvi anos atrás. Diz a fábula que um grupo de
roedores levava a sua vida em tranqüila rotina: trabalhavam,
armazenavam, comiam, procriavam, etc. Todos cuidavam de suas rotineiras
tarefas na época de colheita e esforçavam-se para
que o grupo acumulasse o máximo possível para o tempo
de inverno. Entretanto, havia um pequeno roedor que não
se juntava ao grupo nestas tarefas rotineiras. Ele andava pelos
campos sentados sob as flores coloridas por horas a fio. Outras
vezes, eles o encontravam deitado sobre a relva macia, contemplando
o sol. Inúmeras vezes viram-no à beira da fonte,
mirando calmamente suas águas cristalinas. Estranhamente,
passava manhãs inteiras como se estivesse em longas conversações
com os pássaros. Voltava muitas tardes com cristais coloridos
e folhas esquisitamente belas. Pois bem, o tempo passou e veio
o inverno. Todos estavam na toca e a vida ia muito bem, pois tinham
o necessário para enfrentar o tempo tenebroso daqueles dias
ruins. O inverno, porém, parecia recusar-se a ir embora.
As coisas foram ficando mais difíceis e os dias demoravam
a passar: a comida rareava, a paciência minguava e o medo
e a desesperança parecia dominar tudo. Então, aquele
estranho roedorzinho que não trabalhara como os demais pediu
a palavra. Raramente tinham ouvido sua voz. E quando falou sua
voz encantou a todos, pois era calma, firme e parecia preencher
todo o espaço vazio. Ele começou a falar das cores
das flores e da sua beleza. Quando terminou, todos estavam estranhamente
felizes, mais calmos, esperançosos e cheios de saudades
das flores do campo. No outro dia, pediram que falasse novamente.
Ele falou da relva macia e do calor do sol. Ao final, todos se
sentiam aquecidos e confortados. No outro dia, tudo se repetiu
e ele lembrou a todos do canto dos pássaros. Assim, durante
aquele longo inverno, o roedorzinho foi animado a falar todos os
dias e, ao contar aquelas sensações que ele acumulara
enquanto todos acumulavam comida, fez com que todos percebessem
que para viver, para sobreviver precisavam ser animados com a experiência
essencial da vida boa que os aguardava depois que o inverno passasse.
Sem aquela experiência animadora e esperançosa não
havia como sobreviver e superar o tempo ruim. É assim. A
vida em comunidade, a Igreja parece tantas vezes uma coisa inútil
numa sociedade em que todos lutam violentamente pelas coisas primárias
da vida (trabalho, comida, moradia, vestimenta, etc) e na qual
somente o mal e a injustiça parecem triunfar. A comunidade
parece uma coisa supérflua. Porém, na força
do Espírito, a comunidade tem justamente a tarefa de nos
lembrar que tudo o que Deus criou é belo, que somos justos,
que somos santos, que há um futuro porque há a esperança
que brota da vontade do Pai. Para isto servem a Palavra e o perdão:
para nos manter firmes rumo ao reino de Deus.
- Uma outra herança de Lutero
tem sido gasta de forma equivocada. Usualmente, luteranos têm
se referido à teologia luterana para sustentar uma separação
radical entre Igreja e Estado. Lutero introduziu um realismo
teológico justamente no que diz respeito à relação
entre Igreja e Estado. Lutero fez pesadas críticas á igreja
de seu tempo por ter se transformado em um poder meramente temporal
e político, administrando de forma vil o perdão e
a graça. Num famoso texto de 1520, "À nobreza
cristã da nação alemã, acerca do melhoramento
do estamento cristão", Lutero distingue de forma clara
as competências da Igreja e do Estado. Entretanto, a distinção
de competências não autoriza imaginar uma separação
ou autonomização absoluta de ambos. Ambos estão,
em seu nascedouro, sob o Senhorio de Deus e têm como finalidade
o ser humano. Assim, em seu texto, Lutero dignifica a função
política e social e legitima a participação
cristã neste âmbito. A Igreja, enquanto instituição
social, será regulamentada pelo Estado. No entanto, a Igreja,
quando proclama a vontade de Deus, interpela o Estado, criticando
seus excessos, arbitrariedades e convocando a transformar situações
de injustiça social e econômica. Isto Lutero exercita
de forma exemplar no escrito mencionado (exige melhoria da educação,
da economia, etc.). Entretanto, vale frisar que ambos, Igreja e
Estado estão sob a proclamação e, portanto,
sob o juízo de Deus. De forma mais complexa, é preciso
dizer que o ser humano, a Igreja e o Estado estão enquadrados
na dinâmica da luta de Deus contra as forças de Satanás,
contras as forças da idolatria (injustiça, mentira,
pecado, alienação, exploração, egoísmo,
discriminação, morte, desesperança) para transformar
em realidade o reino de Deus. Em outras palavras, a totalidade
da realidade é atravessada pelas forças do "velho" (pecado)
e do "novo" (justo). "Velho" é tudo
aquilo que vai ser superado, embora pareça forte e atuante. "Novo" é aquilo
que, da perspectiva do reino de Deus, vai triunfar definitivamente,
embora pareça fraco e inexpressivo. O reino de Deus funciona,
então, como critério e como reserva de sentido e
de esperança para atuação dos crentes e da
igreja, pois, enquanto ele não for uma realidade definitiva,
não há lugar para ufanismos nem comodismos como o
que parece "novo", mas também não há lugar
para derrotismos nem subserviência diante do que permanece "velho".
III - De como da lama surgiu a vida
Enquanto todos lamentavam, no abismo
profundo os minerais mesclavam seus elementos, cozinhando-os
na lava incandescente da matéria. Quando chegou a hora,
a terra vomitou a lama vulcânica que foi tomando a forma
de montanhas, rochas, vales; foi adubando florestas e recobrindo
oceanos para que a vida fosse possível.
3.1 - De como alvejar a moral na lama
ou da ética "quarada"
No bairro da minha infância, muitas
mães de família reforçavam a renda familiar
lavando roupa para famílias ricas que moravam no centro da
cidade. Nosso bairro era uma única rua de muitas cacimbas
(cisternas), muito sol, muitos varais, muito vento e inumeráveis
lençóis impecavelmente alvejados, tremulando ao vento.
Corríamos pelos quintais, evitando trombar com aquele cenário
multicolorido e surreal. Não era justo que a nossa alegria
e a nossa vontade de viver manchasse os lençóis imaculados.
Lembro-me como se fosse hoje das conversas
destas mulheres: como remover manchas, como alvejar sem estragar
a roupa. Todas se orgulhavam dos seus métodos infalíveis.
Os dedos viviam em frangalhos. Sim, naquela época, de raras
máquinas de lavar, lavar consistia em atritar uma parte da
roupa contra a outra. Roupas muitas encardidas, manchadas eram suavemente
batidas contra uma pedra e postas para "quarar" (a roupa
com sabão, depois de batida contra uma pedra, era estendida
sobre o gramado para ficar um tempo sob sol. Anos depois a ciência
me informou que o oxigênio liberado na fotossíntese
do gramado tinha um efeito alvejante sobre as roupas).
Eram vidas simples, mas a limpeza, o dever,
a palavra empenhada, a honra era coisas fundamentais. A sabedoria
da roupa alvejada, batida contra a pedra, quarada ao sol era irmã de
uma vida digna, limpa, alva, ou seja, eticamente "quarada".
Roupa batida, alvejada, quarada era contraparte laboral daquela ética
e daquela forma de conduzir a vida moral.
O Brasil de hoje nasceu deste Brasil profundo,
trabalhador e honrado, que "quarava" a vida como "quarava" a
roupa. Ninguém consegue explicar como do orgulho pela limpeza,
por uma roupa sem mancha, por uma vida alva e honrada chegamos ao
despropósito de pensar que é possível alvejar
a vida com lama, como querem nos fazer crer hoje. O que é uma
grande verdade é que o Brasil de hoje precisa merecer aquele
Brasil profundo de ontem, de gente digna e batalhadora, que lhe deu
origem. Nenhum fato ou acontecimento tem o poder de apagar esta
memória profunda do Brasil. Queremos crer que Lula, como disse,
veio desse meio e que saberá encontrar uma forma de honrar
esta memória profunda.
3.2 - "E tomando um monte de barro
..." De algumas lembranças do Éden (Gn 2.7)
Todos sabem isto: Deus cria do barro,
ou da lama, se quisermos. Jesus, e isto poucos se lembram, cura com
lama (Jo 9.6-7). Por que não da lama surgir a esperança
de uma sociedade mais justa? Por que não da lama recriarmos
o Brasil? Por que não da lama curarmos as chagas sociais?
E por que falar agora de esperança,
de recriar e de curar? Ora, é preciso falar para que a lama
não sufoque a esperança; para que os "ritos de
inocência" (os que sonharam e sonham com um Brasil e um
mundo melhor) não sejam esquecidos ou desdenhados como ilusões;
para que aos bons e aos melhores não falte a convicção
que é própria dos grandes sonhos, dos grandes desejos;
para que os "piores" não posem de campeões
morais, botando no peito a estrela da esperança - manchada
por setores do PT - desdenhada por todos nós. Um país
melhor precisa tornar-se uma obsessão de toda a sociedade.
Partidos são recipientes para os
sonhos. É preciso crer que numa sociedade democrática
os partidos possam ninar o sono para que sonhemos com a sociedade
que merecemos. Se, neste caminho, os pesadelos nos assaltam não é o
caso de desistirmos do sonho ou temermos o sono - como na apavorante
história de Freddy Krügger -, mas reconhecermos e convivermos
com a fragilidade característica dos empreendimentos humanos
a saber, também dos partidos, sobretudo na atual estrutura
e legislação partidária brasileira. É urgente,
portanto, que redesenhemos a legislação que estrutura
os recipientes (partidos) que acomodam nossos sonhos (interesses).
Neste sentido, abusando do dito popular, precisamos dizer, então,
que "HÁ MALAS QUE VÊM PARA BEM".
IV - De como hastear a bandeira "quarada" da ética
no mar de lama
"Não podemos realizar um
trabalho duradouro com relação
aos problemas da vida política e econômica, sem que os enfrentemos
como seres humanos desejosos de progredir na direção do pensamento ético.
(...).
Toda a meditação devotada à ética tem por conseqüência
um aumento
e um estímulo da mentalidade ética."
(Albert Schweitzer. Cultura e ética.
1923, p. 44)
4.1 - Dos equívocos, das mentiras
e dos ideologismos
Não é admissível,
em hipótese alguma, argumentar, em defesa do PT, que o dinheiro
usado (para campanhas ou para o suposto "mensalão")
tinha um fim nobre, qual seja azeitar a travada e corrupta máquina
do congresso para que as engrenagens girassem a favor da nação,
aprovando projetos de interesse do país dentro de um programa
de governo alinhado com a idéia de promoção
de justiça social redistributiva, em síntese, alinhado
com os interesses dos mais fracos. Esta ética, em que os fins
se sobrepõem aos meios, é, na prática, um vale-tudo
moral. Atribuída a Maquiavel, ela tem uma história
na esquerda mundial e também na brasileira. Os partidos de
esquerda e seus programas tendem a assumir feições
messiânicas e, por isso, julgam que sua causa é tão
nobre e tão pura que transcende os meios que devem ser usados
para sua implementação. Todavia é preciso estar
imbuído de extremo "ideologismo", como classificou
Arnaldo Jabor, para supor, ingenuamente, que meios ilícitos
podem realizar um fim lícito sem contaminá-lo.
A ética, é preciso dizê-lo
em alto e bom som, aponta para aquilo que pode ser diferente do que é,
isto é, a perspectiva ética realiza uma ruptura, introduzindo
em nossa compreensão a possibilidade de que o mundo "como
ele é" está muito aquém do mundo "como
deve existir". A ética realiza, então, uma ruptura
no nosso jeito de enxergar o mundo, ou seja, nossa visão passa
a ser determinada pela possibilidade do mundo vir a cumprir a sua
meta, transformando em realidade todo seu potencial. Nós,
pela fé, sabemos a que o mundo está destinado, sabemos
que sua meta é o reino de Deus. Sabemos também que
esta meta já define agora o nosso agir, já dispõe
os meios e instrumentos para sua realização.
4.2 - Da ética política
da tradição luterana - Uma bandeira
O reino de Deus é uma imagem cristã para
falar da plena realização da justiça de Deus.
Como o reino de Deus não é uma realidade futura, mas é uma
força presente e atuante, as/os cristãs/ãos
lutam por uma sociedade justa, um mundo melhor e ele começa
a acontecer ali onde cada um/a tem a possibilidade de acesso ao "pão".
E como ensinou Lutero, o "pão" são muitas
coisas: "Tudo o que se refere ao sustento e às necessidades
da vida, como por exemplo: comida, bebida, roupa, calçado,
casa, lar, meio de vida, dinheiro e bens, marido e esposa íntegros
e fiéis, bom governo, bom tempo, paz, saúde,
disciplina, honra amigos leais, bons vizinhos e coisas semelhantes."
O "pão" necessário à vida é também "bom
governo"! E Deus sabe como precisamos desse "pão", pois nossos
governantes, nossos representantes torcem a justiça, negam
o que é direito da população (Dt 16.18-20, Sl
82.2-4, Is 10.2, Jr 5.28, Mq 3.11) e correm atrás de subornos
(Pv 17.8, Is 1.23, Is 5.23, Mq 7.3). São raros os que conseguem
exercer o seu mandato público com isenção, justiça
e atenção às necessidades da população.
Há, então, aqueles que,
amaldiçoando a política, vêem nela o exclusivo
domínio das forças demoníacas. Conclamam os
cristãos a se afastarem dela para que não sejam maculados.
Outros cristãos entram na política e atuam de forma
tão lamentável que nos envergonham a todos. Nesse quadro
tudo parece indicar que os cristãos não deveriam se
envolver nas coisas públicas. No entanto, lemos no Salmo 115.16
que o céu "é o céu do Senhor, mas a terra deu-a
ele aos filhos dos homens". Temos, então, a capacidade e também
o dever de cuidar da terra, pois tudo o que Deus criou é bom
(Gn 1.31).
No Evangelho de Lucas é dito que
Deus "destituiu de seus tronos os poderosos". A propósito
deste texto, Lutero, num texto escrito entre 1520-1, intitulado "Magnificat" ,
chama a atenção para o fato de que o "Cântico
de Maria" não diz que Deus destruirá os "tronos",
pois "enquanto a terra existir tem que haver autoridade, governo,
poder e tronos". O que não se pode tolerar, diz Lutero, porque é contra
a vontade de Deus, é o abuso do "trono" para infligir injustiça
e violência ou que se faça uso dele em proveito próprio.
Lutero, a partir do texto de Lucas, indica claramente o critério
que deve nortear o governante justo: se ele fizer uso indevido do "trono" o
próprio Deus o destituirá da sua função
e "exaltará" os "humildes" e "encherá de
bens" os "famintos". Este é o critério:
governar com olhar voltado para os "humildes" e "famintos",
para aqueles que não esperam nada a não ser a própria
misericórdia de Deus.
Entretanto, estamos cientes de que a injustiça
não é um problema localizado, circunstancial ou apenas
ausência de conversão; injustiça é um
sistema (Ec 5.8), um jeito de agir que atravessa toda a sociedade
(Jr 5.1), também a brasileira. O suborno, por exemplo, é sempre
uma relação onde alguém oferece e alguém
aceita (Pv 17.8). Infringir a lei, burlar o direito, é uma
praga que vai desde a mais simples infração de trânsito
até o desvio de verba destinada à construção
de hospitais ou escolas (Jó 20.19). Por essa razão,
afirmamos que não adianta por remendo de pano novo em roupa
velha (Mc 2.21). Precisamos de mudanças maiores: precisamos
de uma nova cultura política em que o "juízo corra
como as águas e a justiça como um ribeiro perene" (Am
5.24).
Ausentarmo-nos de uma participação
como cidadãs/ãos na vida pública é fugir
ao testemunho construtivo da nossa fé e, ao mesmo tempo, abandonar
a nossa esperança. Porém, a prática exclusiva
de uma justiça intra-muros (intra-comunitária, intra-eclesial)
faria com que nossa ética não tivesse relevância
alguma para a sociedade e ainda nos tornaria cúmplices da
injustiça. Cremos que no "caminho da justiça está a
vida" (Pv 11.19, 12.28) e entendemos que esta vida deve alcançar
toda a sociedade para que todos possam viver "em abundância" (Jo
10.10).
Por todas essas razões, nós,
cristãos luteranos, afirmamos nosso compromisso de trabalhar,
como cidadãs/ãos, para uma sociedade onde a "paz e
a justiça se beijem", porque estamos convencidos de que é "em
paz que se semeia o fruto da justiça para os que promovem
a paz" (Tg 3.18). Queremos fazer isso através do nosso
voto consciente, através da fiscalização ativa
das atividades dos governantes e legisladores e de nossa atuação
concreta, através de nossas instituições sociais,
em favor dos excluídos, dos injustiçados, dos fracos.
Nossa esperança está expressa
no grande sonho do profeta Isaías quando diz: "O efeito da
justiça será a paz, e o fruto da justiça repouso
e segurança, para sempre. O (...) povo habitará em
moradias de paz, em moradas bem seguras, e em lugares quietos e tranqüilos" (Is
32.17-18). Portanto, às nossas mulheres e homens públicos
deste país devemos dizer que todo poder e toda autoridade
são sempre serviço (Mt 20.25-27) e aquela/e
que "anda em justiça, e fala o que é reto; o que despreza
o ganho de opressão; o que com um gesto de mãos recusa
aceitar suborno; (...), este habitará nas alturas; as fortalezas
das rochas serão o seu alto refúgio, o seu pão
lhe será dado, as suas águas serão certas" (Is
33.15).
4.3 - Das tarefas urgentes e inadiáveis.
Para cima com a bandeira, comunidades!
Esta tarefa é urgente, pois o "depósito
moral" de Lula, acumulado durante as suas campanhas presidenciais
(especialmente as realizadas contra Collor e contra Serra) tornou-se
uma "hipoteca moral". O tempo corre e não há sinais
de que seja possível resgatá-la. Será preciso
entregar o "bem" hipotecado - talvez, seja preciso admitir
que houve benfeitorias inegáveis. O que deveria nos apavorar é que
provavelmente o credor da hipoteca não seja a nação,
a democracia, mas a voracidade rapinante do impressionante balcão
de negócios que é o congresso nacional refém
de uma forma oficializada de assalto aos cofres públicos que
atende pelo nome de partidos.
Se isso se confirmar, assistiremos ao
ocaso não apenas de uma impressionante figura pública,
a de Lula, e de uma experiência partidária (a do PT,
sem paralelo na América Latina), mas a um exemplo de aborto
de um processo de consolidação da democracia e das
instituições brasileiras. Embora seja uma experiência
repetitiva, é preciso parar de recomeçar! Os nossos
constantes recomeços têm significado única e
exclusivamente a recomposição das mesmas forças
retrógradas (elas rejuvenescem: é só analisar
a empáfia moral do neto de Antônio Carlos Magalhães,
que recentemente abriu mão de um mandato para não ser
cassado, como mais novo bastião da moral política brasileira),
continuístas e defensoras da ideologia do quanto pior melhor.
Este cenário só favorece os inúmeros políticos,
cujos feudos e práticas políticas estão acima,
melhor, abaixo de qualquer patamar moral. O cenário é propício
para que eles retomem o terreno perdido. Terreno perdido nas últimas
eleições pelo esfacelamento dos clãs políticos
por este país afora, como foi constatado nas pesquisas. E
eles estão chegando com força, armados do seu moralismo
de ocasião, revitalizado pela crise: é aquela figura
do pai de família truculento e promíscuo que todos
odeiam, mas a quem toda família acaba recorrendo nos momentos
de instabilidade. É a vitória do "moralismo imoral",
como diria Galligaris. Talvez alguns digam: "Trocamos seis por
meia dúzia". A vitória do moralismo, no entanto,
não tem qualquer equivalência. Qualquer situação é melhor
do que a hegemonia deste ou qualquer tipo de moralismo.
A tarefa das/os critãs/aos também é urgente
por que há pergunta no ar: quem governa a crise que estamos
vivendo? A imprensa, com sua habitual falta de humildade e autocrítica,
não percebe que seu ímpeto caótico-investigativo
faz o jogo dos setores mais conservadores do país. A imprensa
não governa a crise. Ela simplesmente fabrica munição,
inteligentemente utilizado por estes grupos conservadores. A imprensa,
que se recusa a ter qualquer tipo de controle social, partilha, inconseqüentemente,
do moralismo imoral de ocasião. A imprensa apaga a fogueira
da crise com gasolina, porque isto vende mais jornal. O papel crítico
da imprensa costuma ter a contra-face da conveniência.
O fato é que a crise está sem
governo. Isto é péssimo! Neste vale-tudo, nesta noite
moral, todos os ratos miam e todos os pseudo-gatos são pardos.
Crise sem governo, sem rumo, tem, na política brasileira,
favorecido sistematicamente os grupos políticos mais conservadores
(oligárquicos) que têm dado as carta nos últimos
decênios. É imperioso que a sociedade civil, os movimentos
organizados, as igrejas, tenham a grandeza e a capacidade de, mirando
para além da sobrevivência de Lula ou do PT, tomem o
leme da crise e pressionem o congresso para que promova uma verdadeira
drenagem da lama que, apodrecida, entope e empesta a vida das instituições
nacionais.
A esperança não é propriedade
particular do governo Lula nem foi seqüestrada por seu malogrado
programa de governo. A esperança - lembram-se? - é uma
das três grandes "virtudes teologais" cristãs
(1 Co 13.13). A esperança é componente essencial de
uma vida de fé cristã e ela não se limita a
esta "vida" (1 Co 15.19). A esperança cristã é o
que nos projeta continuamente para frente, para o futuro. A esperança é o
motor interno da ética cristã, pois é esta esperança
de "um novo céu e nova terra nos quais habita justiça" (2
Pe 3.13) que anima o/a crente , o/a torna um/a inconformado/a com
toda provisoriedade de nossos arranjos pessoais e sociais. A fé esperançosa
anseia sempre mais e vai procurando os meios de tornar concreto este
anseio de um mundo melhor até o dia que Deus reservou para
sua glória final.
Valério G. Schaper
Professor da Escola Superior de Teologia
São Leopoldo - RS