Haidi Jarschel*
Na história da Igreja e em nosso continente Latino-americano,
Maria é uma personagem muito matizada, com muitos significados.
Há uma coleção sem fim de ícones durante
toda a história religiosa e da arte. Mulher iconografada com
muitos traços, expressões, cores de pele, modelos de roupa.
Cada cultura expressou esta mulher de acordo com seus traços.
Em torno de Maria temos uma das mais ricas expressões de arte
e fé popular. Na América Central ela é indígena,
no Brasil é negra, na Europa é branca de muitos jeitos...
Em Maria reúne-se a diversidade (ecumênica)
religiosa desde os primórdios. Ela é Madona para poetas
e trovadores, é a Pietá e Mãe dolorosa para outros
fiéis, é Mãe do Perpétuo Socorro que acolhe
todos/as os/as desesperados/as... é Aparecida para pescadores
com fome... Cada grupo social na história recorre a ela com suas
necessidades e suas crenças. As vezes, ela é uma mistura
de deusa indígena com a mãe de Deus (Nossa Senhora de
Guadalupe que é também...) Na medida que o cristianismo
vai se encontrando com outras culturas, os símbolos vão
se fundindo, sendo re-significados para darem respostas a nível
da espiritualidade/ mística para as pessoas no seu dia a dia.
Os povos, em diferentes lugares e em diferentes épocas vão
se apropriando dos personagens de uma religião (no caso de Maria
é o cristianismo) e dando vida a partir de sua fé, do
seu cotidiano, das suas inquietações.
É interessante observar que as culturas afro-indígenas
na América Latina incorporaram muito rapidamente Maria no seu
universo religioso, até porque esta mulher tem características
muito semelhantes a algumas deusas destas culturas. Na Umbanda ela é
ao mesmo tempo Iemanjá, deusa das águas, principal deusa
na tradição afro-brasileira. Na tradição
indígena ela é semelhante a Iara, também deusa
das águas doces. Não é por mero acaso que a Nossa
Senhora Aparecida, empretecida pelo lodo e achada nas águas do
rio Paraíba é a Maria brasileira. Uma imagem que vem das
águas e é negra tal qual a maioria do povo empobrecido
brasileiro. No fundo ela é uma deusa, da mesma natureza divina
de Deus cristão, mãe de Jesus Cristo.
Por incrível que pareça, a dificuldade
ecumênica em torno de Maria, não surge de culturas e religiões
não-cristãs, mas por dentro do próprio cristianismo.
E nesse caso, a história da Igreja nos ajuda a entender algumas
questões nesta controvérsia. Ao redor desta mulher formulou-se
quatro dogmas pela igreja cristã: Em Éfeso, no ano 431
foi declarada “Mãe de Deus”, em 649 o Sínodo
Lateranense a declara “Virgem”. Estes são os dois
dogmas da igreja antiga, Católica Apostólica, antes da
Reforma. Somente no ano de 1854 ela foi reconhecida como Imaculada Conceição
(livre do pecado original) e recém em 1950 afirma-se que foi
elevada aos céus em corpo e alma. Estes dois últimos dogmas
é muito recente. Na tradição da igreja, Maria é
chamada como filha de Deus Pai, mãe de Deus Filho e esposa de
Deus Espírito Santo. Duas afirmações antigas (os
dois primeiros dogmas) sobre Maria encontram-se no Credo Apostólico,
professado pelas igrejas cristãs.
Os caminhos da Igreja cristã se bifurcam ao longo
da história e com ela a devoção mariana também.
Nas igrejas do Oriente a devoção mariana começa
no século III enquanto que no Ocidente torna-se algo mais relevante
no século IV, mas foi a partir do século X apenas que
esta devoção teve uma expressão mais significativa
na fé popular e na igreja cristã. Mais tarde, com a Reforma
prostestante, há um rompimento com a Mariologia então
professada pela igreja. O principal obstáculo para uma mariologia
nas igrejas de ramo protestante é a compreensão de Maria
como “mediadora” entre Deus e os seres humanos. A Reforma
protestante rejeitou qualquer tipo de mediação entre Deus
e os seres humanos – mudando com isso a sua eclesiologia completamente.
Lutero, o reformador mais proeminente não abandonou sua devoção
mariana por completo. Maria está presente na sua espiritualidade
nas horas difíceis pelas quais passou após a excomunhão
da igreja e perda de cidadania em alguns principados.
O obstáculo ecumênico pelo lado protestante
está na veneração de uma imagem ou peregrinações
a santuários e acima de tudo no papel de Maria como mediadora,
reconhecida na mariologia católica. Por outro lado, gostaria
de levantar uma hipótese em relação ao protestantismo:
a sua dificuldade de inculturação na América Latina
(veja estatísticas das religiões no Brasil, p. ex. O protestantismo
histórico está descrescendo). Há uma negação
muito grande no reconhecimento das culturas locais, suas tradições,
ritos e símbolos, e neste aspecto a religiosidade popular em
torno a Maria, matizada pelas culturas locais também. A mariologia
popular na América Latina tem seu caminho próprio apesar
das diretrizes da igreja oficial. A dificuldades no diálogo ecumênico
neste aspecto, não tem apenas razões doutrinárias,
tem descaminhos históricos e desencontros culturais.
No entanto, quero apontar possibilidades de ecumenicidade
em relação a Maria: o que temos em comum são os
relatos bíblicos e os dois primeiros dogmas, embora tenham outro
peso. No ramo protestante, Maria é reconhecida como mãe
de Jesus, como apóstola (At 1) junto às outras apostolas
e apóstolos, relatado no livro de Atos, uma personagem histórica
importante na tradição cristã. A mariologia no
protestantismo tem como referência importante o Magnificat do
Evangelho de Lucas (Lc 1, 46-54). Lutero tem um texto belíssimo
sobre o Magnificat onde ressalta alguns aspectos fundamentais da vida
cristã. O Cântico de Maria foi o texto de consolo de Lutero
em momentos cruciais em sua vida, ameaçado de morte. A sua espiritualidade,
brota a partir de sua condição de rejeitado, excluído,
perseguido pela Igreja e por príncipes aliados com o Papa. Lutero
encontrou forças e fortalecimento de sua fé na identificação
com Maria e com seu cântico de boas novas. O momento e contexto
de Lutero foram a porta de entrada para a compreensão e interpretação
da condição de Maria como mulher, pobre e sem grandes
possibilidades de ser reconhecida como gente na sociedade de então,
e, a profecia de suas palavras. Maria é para Lutero modelo de
vida cristã, que experimentou a justificação por
graça e fé. A outra motivação do escrito
de Lutero sobro o Magnificat, foi o pedido de orientação
do príncipe da Saxônia, de como governar cristãmente.
A partir deste fato, a exposição do Magnificat deve ser
lida também como um escrito de ética política.
Talvez seja difícil uma aproximação
simbólica mariana, mas sem dúvida, podemos nos aproximar
ao redor de alguns enunciados fundamentais para a vida encontrados no
Magnificat:
- “Pois contemplou a humildade de sua serva. Por isso me considerarão
bem aventurada todas as gerações” (1,48). É
uma característica de Deus olhar para as coisas insignificantes.
Tapeinophrosyne é o termo grego utilizado neste cântico,
que é a inclinação para as coisas insignificantes
e desprezadas. É Deus que ouve o gemido de dor dos escravos do
Egito, vê a sua opressão e exploração, vem
para libertá-los...
- “E sua misericórdia dura de uma geração
a outra, para os que o temem”. Após ter cantado sobre si
mesma e seus bens divinos e honrado Deus, Maria passa a fazer um passeio
por todas as obras de Deus realizadas em todas as pessoas. Ela também
canta sobre elas. Ensina-nos a reconhecer devidamente suas obras, o
caráter, a natureza e a vontade de Deus. Maria cita seis obras
divinas em seis categorias de pessoas nos quatro versículos seguintes,
dividindo o mundo em duas partes. Em cada lado há três
obras e três categorias de pessoas. Uma parte está sempre
em oposição contrária a outra. Então Maria
mostra o que Deus fez em ambas as partes: os pobres de espírito,
os oprimidos e os necessitados fisicamente, restituindo-lhes a vida;
aos soberbos, poderosos e aos ricos, dispersou-os, derrubou-os dos tronos
e despediu de mãos vazias.
Conforme Lutero o Magnificat mostra várias obras
de Deus:
- Primeira obra de Deus: a Misericórdia. “E sua misericórdia
dura de uma geração a outra, para os que o temem.”
(1,50)
- Segunda obra de Deus: destruir a arrogância espiritual. “Age
poderosamente com seu braço e destrói a todos que são
orgulhosos nas intenções de seus corações”.
(1,51)
- Terceira obra de Deus: humilhação dos grandes. “Destitui
os grandes senhores de seu governo” (1,52a)
- Quarta obra de Deus: exaltação dos humildes. “Exalta
os que são nulos e nada” (1,52b)
- Quinta e sexta obra de Deus: “Sacia os famintos com toda sorte
de bens, e deixa vazios os ricos” (1,53)
Creio que podemos ter uma afetuosa ecumenicidade, mesmo
com as nossas diferenças, reconhecendo a missão fundamental
desta mulher Maria, como canta no seu maravilhoso cântico, principalmente
nestes tempos que estamos empenhadas/os em saciar a fome e restituir
a justiça na terra. Maria pode nos ajudar a todos e todas no
encontro central da vida humana, o projeto da vida abundante para todas
e todos.
*Haidi Jarschel é Pastora da IECLB, professora
no ITESP e na Uniclar
Artigo escrito em junho de 2003