Dr. Valério
Guilherme Schaper *
À
primeira vista, o ódio parece uma coisa imutável, isto
é, ódio é sempre ódio em todas as circunstâncias
e em todos os tempos. Desconfio que não seja assim. Ódio,
suspeito, muda, transforma-se, em suma, “evolui”, acompanhando
a história humana. Quero apresentar algumas linhas de reflexão
sobre o estado da “arte de odiar” neste obscuro momento
brasileiro em que “assistimos” a eliminações
sumárias de moradores de rua.
Eu lembro que temos um retrospecto de ódios recentes no Brasil.
Um tempo atrás justiçávamos bandidos. Quantas conservam
ainda esta memória? Foi o tumultuado período dos linchamentos.
A turba popular, por uma fração de tempo, tornava-se um
corpo social com um mesmo pensamento, vontade, decisão e obstinação:
punir o malfeitor, qualquer que fosse. Não havia qualquer hierarquia
nesses linchamentos: estupradores, batedores de carteira, ladrões,
etc. Não importava o crime. Apanhado pela massa desgovernada,
o malfeitor não tinha chance. Outras vezes, eles eram subtraídos
das mãos, supostamente fortes, da lei e submetidos ao julgamento
popular com imediata execução da pena. Eram mortos a pauladas
e depois, em alguns casos, queimados vivos. Assim, em qualquer parte
do país e a qualquer hora podia erguer-se o implacável
tribunal popular com sua tácita legislação que
franqueava a pena de morte após julgamento sumário. Passados
estes anos terríveis, aqueles pais de família, aquelas
mães, aquelas crianças e aquelas mocinhas voltaram às
suas vidas e estão por aí, cumprindo seu papel neste nosso
“belo quadro social”. Acreditavam que um país se
fazia pela justiçamento sumário de criminosos através
de uma massa anônima de cidadãos/ãs-assassinos/as
impunes.
Antes, em seguida e depois, tivemos e temos os grupos de extermínio.
Setores da sociedade financiam grupos (policiais e para-policiais) que
eliminam meninos de rua e delinqüentes – pequenos ladrões
– para tranqüilidade das ruas e do comércio. Depois,
começamos a botar fogo em índios e mendigos. Aí
não tínhamos mais uma massa, mas pequenos grupos isolados,
sem coordenação, sem um código comum partilhado.
Apenas explosões de violência aqui e ali. Nestes casos,
o resto da sociedade reagiu. Indignou-se e houve julgamentos. Parecíamos
haver redescoberto o rumo de uma nação com regras claras
de convivência. Afora a violência do crime organizado (tráfico,
seqüestro, etc.), execrável por si mesma e no aguardo de
medidas cada vez mais efetivas, parecíamos haver reencontrado
a senda para uma sociedade que, embora sob o efeito de tremendas injustiças
(trabalho escravo, miséria, corrupção, etc.), procurava
exorcizar explosões fratricidas.
No entanto, eis que estamos às voltas com eventos da mesma natureza,
cozinhando, na mesma panela suja, novos ódios. Agora, assassinamos
moradores de rua, indistintamente. Assassinamos os “sem-nada”
da nação. Estou usando propositalmente a primeira pessoa
do plural porque, contra todas as evidências superficiais, no
fundo, todos nós já pensamos que o Brasil ficaria melhor
sem tanto/as marginais, menores, mendigos, pessoas inúteis, moradores
de rua, etc. Bom, alguém/alguns dentre nós passou/passaram
do desejo à realização. Aí está nosso
anseio atendido. Eis o nosso sonho transformado em pesadelo para os
que estão do outro lado da margem, do outro lado da linha invisível
que separa, classifica, valoriza, julga e restringe o todo social e
controla o acesso à sociedade de consumo. Para estes/as, nem
mesmo a rua – por natureza espaço democrático de
acolhida irrestrita – cederemos. Sim, queremos os “shoppings”
e também as praças, e os parques, e as ruas e tudo mais,
pois nós somos as/os cidadãs/aos. Isso tudo nos pertence
e não fluiremos nem gozaremos tranqüilamente destes espaços
enquanto tivermos que dividi-lo com estes deserdados da vida. Aos que
nada mais conseguem obter da vida, tiraremos a própria vida para
que tenhamos mais vida. Dos “sem-nada” quitaremos o que
resta para que cheguem mais rapidamente à condição
de “nada”.
Sujos,
feios, desagradáveis, desgraçados, pobres, em síntese,
culpados, estragam o cenário de nossas cidades e são a
causa de nossos males sociais. Sim, assim pensam alguns dentre nós
que personificam a patologia de toda a sociedade brasileira e acham
que certos setores sociais, como os menores infratores, os moradores
de rua, os nordestinos, os homossexuais, os negros, são a razão
de nossas desgraças. Nem mesmo o protesto expresso da sociedade,
alardeado pelos meios de comunicação, nem as declarações
firmes das autoridades constituídas parecem sinalizar para os
assassinos que eles estão na contra-mão da humanidade,
pois se trata de crimes lesa-humanidade. Sim, é da vida que estamos
falando, toda ela. Se transigirmos de qualquer forma com ameaças
ou atentados à vida, reduzimos seu estatuto, reduzimos, conseqüentemente,
o valor do ser humano. Só a defesa coletiva, permanente e irrenunciável
da vida nos abrirá o futuro. O contrário disso, leitores/ras,
é a barbárie.
Entretanto, sem nos darmos conta disso, o Brasil é hoje uma
sociedade dividida em um sem número de “grupelhos”:
“skinheads” (neonazistas), pit-boys da classe média,
gangues de subúrbio, torcidas organizadas de times, fanáticos
religiosos, policiais a soldo de comerciantes para reforçar o
orçamento doméstico, etc. Por todo lado, explode a violência
gratuita destes grupos. É uma nova forma de ódio. É
ódio sem razão de ser, sinalizando a nova etapa evolutiva
da ancestral “arte de odiar”. Em Eunápolis, sul da
Bahia, três jovens, na madrugada do dia 31 de agosto, espancaram
um morador de rua, provocando traumatismo craniano. Em depoimento à
Polícia afirmaram que não tinham motivos para agredir.
Agrediram, disseram, “porque tiveram vontade”.(http://jornalhoje.globo.com/JHoje/0,19125,VJS0-3076-20040831-60386,00.html,
acessado em 01.09.04). A violência brutal dos ataques é
quase como um espasmo “involuntário” do ódio
enquanto norma de convivência.
Seria este ódio gratuito apenas uma espécie de banalização
do mal? Não, é um culto simbólico da violência
como forma de afirmação da superioridade de poder, de
um tipo de superioridade social, da superioridade de gênero expressa
na força do macho, da superioridade étnica em sua versão
branca, do exercício primitivo de delimitação de
espaços vitais, etc. O ódio parece ter se emancipado de
sua matriz social, que tem como uma das referências o nosso anseio
pela introdução da pena de morte na legislação
brasileira. Independente, o ódio cria agora suas próprias
regras – ou ausência delas – e razões e generaliza-se,
e alastra-se. É a metástase do ódio, avançando
ruidosamente sobre o tecido social. Ele principia pelos tecidos mais
frágeis, vulneráveis, do todo social. Como um câncer,
o ódio não conhece limites. Espalha-se por todo o tecido.
Quem garante que no seu bairro, no seu prédio não resida
pacatamente um/a desses/as raivosos/as assassinos/as de “sem-nada”?
São como minas terrestres abandonadas, qualquer movimento em
falso pode detoná-las.
Metodologicamente aparentado com o terrorismo, este ódio espalha
o pavor e alimenta-se do medo generalizado. O terreno é fértil
para os discursos políticos fortes, autoritários, sobre
segurança pública nas campanhas eleitorais municipais.
Quando finalmente parecíamos entrar na ante-sala da democracia,
surgem estes episódios, favorecendo a truculência nos discursos
eleitorais, mas, sobretudo, nas práticas políticas de
enfrentamento à violência. A insegurança instala-se
e passa a determinar nossas escolhas eleitorais e a legitimar práticas
políticas de exceção.
Que candidatas ou candidatos estariam dispostos a colocar sua candidatura
a prêmio, propondo que a solução duradoura para
episódios deste tipo passa por um amplo processo de educação
de toda a sociedade para a tolerância, enfatizando a introdução
de noções de convivência social com as diferenças
sociais, culturais, étnicas, de gênero como matéria
obrigatória dos currículos escolares? Se o fizerem, o
farão timidamente. A sociedade espera medidas de impacto que
solucionem imediatamente a violência. Entretanto, o ódio,
sobretudo este ódio que parece haver se instalado entre nós
e em nós não é fácil de extirpar. Ele não
é da ordem dos problemas sociais estruturais. Ele tem profundas
raízes culturais, antropológicas. Ele é da ordem
dos símbolos, isto é, daquelas imagens-força que
estruturam os sentidos da vida e da sociedade.
Neste ponto, nossos governos (do município à federação)
precisam de ajuda. Certamente neste ponto, as religiões podem
somar forças entre si e com os governos. Obviamente elas não
têm a solução, até porque as religiões
sabem, como poucas instituições humanas, como odiar. Entretanto,
as religiões articulam-se nesta ordem dos símbolos estruturantes
e poderão contribuir, humildemente, com a sabedoria acumulada
de suas propostas éticas, seus valores e seu anseio pela paz.
Para isso, as religiões precisarão sair de seus seculares
estreitamentos para um diálogo franco com a sociedade. A religião
cristã, sobretudo aquele setor que no Brasil organiza-se em torno
do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC – www.conic.org.br),
está dando um significativo passo, trabalhando decisivamente
pela campanha da “Década para a Superação
da Violência (2001-2010)”, proposta pelo Conselho Mundial
de Igrejas (CMI), e pela “Campanha Ecumênica da Fraternidade
2005”, cujo tema é “Solidariedade e Paz” e
o lema, “Felizes os que promovem a paz”. A promoção
da paz reserva-nos uma promessa de felicidade. É afirmação
bíblica! Que os membros de nossas comunidades façam do
esforço de superação de todas as formas de violência
e da busca da paz a sua causa, pois é também a causa de
Deus. Ora, a causa de Deus não é outra que o ser humano,
vivendo uma vida digna em paz e em abundância.
Encerro esta reflexão com um trecho da oração
da “Campanha Ecumênica da Fraternidade 2005”:
Ó Senhor, Deus da vida, que cuidas de toda
a criação, dá-nos a paz!
Que a nossa segurança não venha das armas, mas do respeito.
Que a nossa força não seja a violência, mas o amor.
(...)
Que a nossa vitória não seja a vingança, mas o
perdão.
Desarmados e confiantes, queremos defender a dignidade de toda a criação,
partilhando, hoje e sempre, o pão da solidariedade e da paz.
Por Jesus Cristo teu Filho divino, nosso irmão, que,
feito vítima da nossa violência, ainda do alto da cruz,
deu a todos o teu perdão.
Post scriptum: Encerrei este
texto na manhã do dia 02.09, Semana da Pátria, depois
de receber a informação de que mais um morador de rua,
na madrugada deste dia, foi espancado até a morte em São
Paulo.
* Dr. Valério
Guilherme Schaper
Professor da Escola
Superior de Teologia / São Leopoldo - RS