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a nudez moral
 

Dr. Valério Guilherme Schaper *

Invertendo "as regras do método sociológico", atrevo a dizer que há momentos em que as atitudes diante do fenômeno são mais interessantes do que o fenômeno em si. É o caso do momento político brasileiro.

O rei está nu! Viva o rei!
Como na história do rei que, ansioso por vestes sempre inusitadas, encomenda aos seus tecelões um novo traje real e é agraciado com uma vestimenta maravilhosa de tecido invisível, a imprensa e os demais partidos, assumindo o lugar do menino na história, enchem pulmões para gritar com prazer: "O rei está nu! O rei está realmente nu!" Alguns dizem que o menino, que na história profere a verdade vista e silenciada por todos os demais súditos, é um filósofo, gênio da raça, um visionário. Entretanto, no quadro cultural brasileiro, outra leitura é possível.

Caetano sugeriu certa vez que, talvez, o rei fosse mais bonito nu. O menino, nessa versão peculiar de Caetano, é reduzido a um idiota de plantão, incapaz de contemplar a beleza da nudez. O menino projeta na nudez do rei sua ausência de criatividade. Invertem-se os signos: o que nele é falta torna-se conteúdo, transferindo a ausência para o rei.

A nudez do rei tem, então, que ser denunciada e exposta. O rei nu aponta para a nudez dos súditos, pois desnuda a sua incapacidade de sonhar, de imaginar, de criar, projetando sobre a nudez oferecida, a utopia de uma nova veste real. A nudez do rei é autoreveladora, autodesnudadora. Assim, da falta moral do rei chega-se à nudez como falta política de seus súditos, incapazes de contemplar a nudez como cenário sobre o qual fosse possível projetar uma veste coletivamente sonhada.

A nudez do rei escancara mais uma vez nossa dificuldade de forjar, como nação, consensos elementares: um jogo político com parâmetros éticos, uma economia inclusiva. Definitivamente, a nudez do rei não é imoral. Ela aponta para a indecência política de uma elite dirigente sem maiores ideais do que os interesses particulares ou imediatos, como a próxima eleição. Sem anseios maiores, chafurda no charco podre que consome o futuro nacional qual um buraco negro moral.

"Toda nudez será castigada!"
Curiosamente, a imprensa une-se aos setores mais retrógrados da classe política brasileira para, num gozo geral diante do naufrágio do governo petista, saudarem, com um samba-réquiem, os novos habitantes da grande lama nacional onde toda diferença perece: "Bem-vindo, PT, ao limbo da indiferenciação política. Aqui somos todos uns pulhas, mas somos todos iguais. Façamos, pois, conchavos, destituídos todos de qualquer anelo de dignidade política".

Desde o início do governo do PT os analistas da imprensa entregaram-se, lacanianamente, a detalhadas e furiosas análises semânticas dos discursos de Lula. As páginas dos jornais, telejornais e revistas jorravam um cipoal de conceitos e análises que julgavam ter chegado, para além da semântica anedótica e fabularesca de Lula, ao cerne da verdade: Lula se desdizia, ele cerrava o galho sentado na ponta. Em síntese, havíamos elegido um suicida político com um discurso "kamikaze". A imprensa abria os portões para o sitiamento do governo, com base na suposta incompetência discursiva, administrativa e, por fim, ética. O PT poderia ser oralmente claudicante, administrativamente confuso ou equivocado, mas, jamais, jamais, eticamente torpe.

Todos se afundam numa "geléia geral" discursiva, achincalhando a cruzada ética do PT de anos anteriores. Entretanto, ela não depõe contra o PT. Era a gênese de um partido. A alegria generalizada e mal disfarçada, essa sim, escancara uma sociedade incapaz de prantear a perda do sonho "ingênuo" de um espaço político sem "maracutaias". É verdade que o PT arrogou-se, em muitos momentos, o papel de palmatória da classe política brasileira, mas uma tristeza infinita deveria se abater sobre nós quando os ideais éticos - ainda que ingênuos - ameaçam naufragar na lama indiferenciadora do famigerado realismo político brasileiro, em outros termos de triste memória, a ´política realmente existente´.

O governo do PT não está tendo oposição ou sendo combatido porque foi sempre radicalmente combativo - e ainda o é à medida que a oposição mais ferrenha vem de setores do próprio partido. Não, ele está sendo publicamente esviscerado porque ousou sonhar para o Brasil uma política grandiosa e ética. Na verdade e no fundo, pouco importa o desmonte do PT como partido - para isso devem servir os partidos: alojar nossos desejos, sonhos e utopias. O que importa é a enésima desmontagem do sonho. De fato, talvez tenhamos que dar razão ao Arnaldo Jabor quando diz que o Brasil "(...) se descobrirá por subtração e não por soma". Nossas ilusões ao rés do chão, acabaremos descobrindo que "somos a sobra de nós mesmos". Assim, quem sabe, arremata Jabor, "à força de tanto falir, faremos fortuna", identificados com a lama, este sim nosso lugar, esta sim, a aspiração máxima da elite nacional.

Entre a massa e a elite: "como fazer dessa vergonha uma nação"?
A erosão da popularidade do governo Lula expressa a desilusão da massa: o governo traiu "nossos sonhos"! É possível entender a massa que, cheia de aspirações, afluiu às ruas do país após a eleição de Lula. A massa é assim: urgente, sôfrega, frívola, leviana, desesperada, miserável, imediatista. A massa não tem rosto. Seu rosto cintila - ameaça configurar-se - em momentos críticos, de alegria ou de dor, para sumir logo depois. O rosto da massa esfuma-se ao primeiro sinal de acomodação de interesses.

A massa requer, em termos políticos, cálculos probabilísticos e prudenciais. Nesse sentido, preocupava o flerte populista do governo Lula nos seus momentos iniciais. Entretanto, aquele alto índice de popularidade e a recente perda e popularidade devem ser vistos dentro da seguinte dinâmica: o alto índice de popularidade - ainda é alto - era munição para constranger, num primeiro momento, uma classe política majoritariamente fisiologizante a assumir compromissos programáticos, mas - efêmero como é - não poderia se converter em base de apoio ou sustentação de um governo de quatro anos. O saldo da popularidade decrescente seria um conjunto de alianças vantajosas para o governo e seu programa. Sem esse saldo, é preciso temer a renovada tentação populista.

O "sapo barbudo", como nas histórias de fadas, foi consagrado pelas urnas, beijado pelas ruas, virou um príncipe e foi conduzido ao poder. Porém, contrariando a lógica das histórias de fadas, virou novamente, sabe-se lá através de que conjurações mágicas, "sapo". Perdeu as graças do beijo. É preciso, porém, fugir das metamorfoses determinadas pelas conjurações mágicas da massa e da elite tradicional. A oposição "sapo barbudo" ou "príncipe" revela extrema dependência de modelos pré-determinados.

Qual democracia?
Não existe o conteúdo, a forma e os meios que possibilitem o exercício de uma democracia de esquerda. É preciso construir um navio em mar aberto, como se fosse possível fazê-lo (ou, se quisermos, desfazê-lo) enquanto se navega. A questão não é o mero exercício da democracia, mas que democracia é compatível com esse governo e relevante para essa sociedade singular. Qual democracia "nos salva, nos salvará dessas trevas"?

Vale anotar aqui, a título de provocação, as lúcidas reflexões de Renato Janine Ribeiro, professor de filosofia política da USP, que afirma que o debate, a divergência, o conflito é o cerne da democracia. A elite brasileira tem dificuldade com essa compreensão porque pensa a democracia a partir da "ordem" (M. Chauí) e não do conflito. A ordem não é sempre necessariamente democrática. Entretanto, considerando a democracia a partir do conflito, é preciso, afirma Janine Ribeiro, mais do que instituições democráticas. É preciso uma democracia das práticas, do diálogo e do convívio em que o direito ao conflito tenha como contraponto o respeito ao oponente e ao seu universo de idéias. A redução caricatural das idéias do oponente cria oposições simplistas, que fazem o debate escorregar para o ataque. As oposições simplificadoras granjeam simpatia imediata da massa, mas, ao primeiro choque de realidade, desacreditam e comprometem a ação política. Talvez o PT esteja colhendo as conseqüências das suas críticas simplificadoras da realidade política e dos modelos econômicos existentes. O choque da realidade desacredita e compromete o governo do PT. Resguardadas, porém, as regras do conflito respeitoso, está faltando ao governo do PT mais apetite pela democracia sem o compromisso absoluto com a ordem que caracteriza o conservadorismo da elite brasileira. Está faltando ao PT a coragem de assumir a nudez como virtude. O rei está nu! Viva o rei!


* Dr. Valério Guilherme Schaper
Professor da Escola Superior de Teologia / São Leopoldo - RS


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