Stephen Kanitz
*
Todo
adolescente passa por uma crise muito pouco diagnosticada. Vou chamá-la
de "Crise dos Pais Imperfeitos", que surge quando o adolescente
descobre que o pai e a mãe não são as pessoas perfeitas
que eles imaginavam.
Embora muitos pais nunca tenham insinuado nada nesse sentido, os próprios
filhos os idealizam como perfeitos. Como a maioria não o é,
mais dia menos dia ocorre a grande decepção.
Muitos pais pioram a situação dando a entender que nunca
erram, que sabem tudo e que são, em suma, o máximo. Até
o dia em que o mundo desaba, e a verdade nua e crua aparece: ninguém
é perfeito.
A maioria dos jovens sonha em ter pais perfeitos para sempre, um governo
perfeito a cada eleição, em criar um mundo perfeito sem
injustiças, onde até os grandes planos de governo funcionam
porque serão sempre perfeitos.
Essa crise traz também uma enorme insegurança pessoal.
A redoma de vidro do pai herói e da mãe heroína
se desfaz. Uma crise dessas mal resolvida pode se agravar e se transformar
em desilusão, desânimo, o que pode levar à exclusão
social e à perda de ambição. Pode também
levar à depressão, às drogas e, finalmente, ao
crime, já que o mundo não é mais perfeito. Pode
gerar desobediência à autoridade paterna, contestação
e revolta contra os pais e as instituições que eles representam.
Um perigo para a democracia.
É uma revolta injusta contra os pais, já que ninguém
é perfeito, e que se manifesta como uma recusa de fazer parte
da sociedade de forma construtiva e incentiva a inserção
social de forma destrutiva e violenta. Jovens se recusam a participar
desta sociedade de várias maneiras, que prefiro não enumerar.
Um dos sintomas é exagerar no intento de "ser diferente",
quando o normal é se inserir na sociedade sendo inovador e criativo.
Por isso uma separação na família é tão
devastadora para a maioria das crianças, não por causa
da separação em si, mas porque antecipa em muitos anos
a "Crise dos Pais Imperfeitos". Quando ouvem o anúncio
da separação, os filhos acabam tendo de lidar com duas
crises ao mesmo tempo, e muitas crianças ainda são novas
demais para aceitar a crise da imperfeição. Elas ainda
precisam daquela imagem dos pais unidos na perfeição.
Muitos brasileiros, se não a maioria, na fase adulta, projetam
esse desejo de perfeição no mandatário de seu país.
Muitas vezes projetamos nos nossos governantes uma imagem do pai perfeito.
Isso ocorreu em relação a Getúlio Vargas.
Novamente
exigimos uma perfeição que não é justo exigir.
A crise política pela qual estamos passando tem alguns contornos
dessa "Crise do Pai Imperfeito". Exigimos uma perfeição
do governo que Lula nunca prometeu, e ficamos profundamente decepcionados
e desiludidos com o primeiro deslize que aparece.
Por isso, alguns países sabiamente mantiveram as suas monarquias.
O monarca encarna aquela figura do pai perfeito, e, como ele não
faz absolutamente nada, não pode causar a menor decepção.
É uma figura preservada, todo mundo se sente seguro e feliz,
e o país cresce. Segundo a revista Economist, monarquias pagam
muito menos juros e são economias bem mais estáveis que
outros regimes. O Brasil está parado economicamente desde 1998,
devido às sucessivas crises políticas envolvendo importantes
membros do governo.
Não estou defendendo a monarquia para o Brasil, mas, se essas
crises políticas continuarem a paralisar a economia, talvez seja
a hora de propormos a volta da família real e a criação
do parlamentarismo, para o bem de todos. Assim, teremos estabilidade
sem juros altos e a volta do crescimento econômico, a um custo
bem menor.
Diga aos seus filhos que você, os políticos, o governo
e nossos presidentes não são perfeitos. Eu sei que a maioria
dos pais adora mostrar o contrário, adora ganhar do filho num
drible de futebol, com medo de que descubram a verdade. Posso garantir
que eles já o achavam perfeito muito antes de você se mostrar.
O que eles precisam aprender é a verdade.
Portanto, mostre aos seus filhos que você não é
perfeito. Ensine que não há utopias perfeitas, somente
imperfeições a serem corrigidas. Comece de preferência
nesta semana, aos poucos, para não assustá-los.
* Stephen Kanitz é
administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril, edição 1847, ano 37, nº
13, 31 de março de 2004, página 20