Dr. Valério
Guilherme Schaper *
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I - "no princípio
era o verbo" (Jo 1.1) |
Cristo e o cinema
Na história do cinema, foram feitas várias tentativas
para registrar em som e imagem a obra de Cristo (mensagem e atos). Desde
o começo o cinema parece ter visto no personagem Jesus um grande
tema. Basta mencionar aqui algumas experiências cinematográficas
marcantes para reavivar a memória: a proposta de Nicholas Ray
com "Rei dos reis" (1961), Pier Pasolo Pasolini com "O
Evangelho segundo São Mateus" (1964), o musical de Norman
Jewison "Jesus Cristo Superstar" (1973), Jean-Luc Godard com
"Je Vous Salue Marie" (1985) e Martin Scorcese com "A
Última Tentação de Cristo" (1988).
Cristo
e cultura: um antigo dilema
Cada um desses esforços, não obstante méritos inegáveis,
refletiam uma cultura e uma cristologia (a maneira de compreender Cristo
para um determinado tempo) determinadas. O sóbrio filme de Pasolini,
que apresentava um Jesus aberto e acolhedor, e a criativa abordagem
de Jewison, musical que mostrava um Jesus "pop", procuravam,
com relativo sucesso, sintonizar enfoques da mensagem e das atitudes
de Jesus com o mundo moderno e seus dilemas. O filme de Godard, abordando
a sacralidade de Maria, e o de Scorcese, apresentando um Jesus menos
divino e mais humano, geraram uma intensa polêmica, pois optaram
por propor novas leituras de temas teológico candentes: o papel
de Maria no nascimento de Cristo e a humanidade de Jesus. No Brasil,
o filme de Godard não teve permissão de exibição
pública por um bom tempo e motivou um longo debate sobre a liberdade
de expressão no momento em que o Brasil que estava saindo da
noite invernosa da ditadura militar. O filme de Scorcese, "A última
tentação de Cristo", rendeu-lhe até mesmo
acusações de heresia. Tanto Godard como Scorcese não
foram bem sucedidos com a bilheteria dos seus filmes, embora a polêmica
fosse muito mais ácida do que a gerada recentemente pelo filme
"A paixão de Cristo", de Mel Gibson.
A pergunta que surge é singela: por que, então, mesmo
gerando polêmica, o filme de Gibson transformou-se numa caixa
registradora monumental? Em geral, as reservas ao filme de Gibson foram
e são de ordem pessoal: o grau de sensibilidade do expectador,
disposto ou não, a se expor ao teor de violência do filme,
apregoado pela imprensa. Houve, claro, a oposição da comunidade
judaica ao enfoque anti-semita do filme. Então, pelo menos, setores
dela assistiu ao filme. Falou-se ainda do delírio de comunidades
religiosas inteiras que compraram sessões fechadas para assistirem
ao filme. Ninguém propôs boicote, como no caso do filme
de Scorcese. Por que? Eis a pergunta insistente! Talvez a resposta esteja
na própria ambigüidade humana em relação à
violência: ela amedronta e fascina. A violência é
uma experiência dos extremos. É o extremo do poder sobre
o limite da vida! Voltaremos a este tema mais adiante.
"Tempo de violência"
Prédios que desabam atingidos por aviões repletos de passageiros
e combustível. Quilos de dinamite que fazem voar pelos ares um
trem cheio de passageiros. Exércitos devastando países
e fustigando populações na África, no Afeganistão,
na Chechênia e no Iraque. Jovens armados invadindo escolas e fuzilando
todos que encontram pela frente. Cidade sitiada por traficantes; população
perdida no fogo cruzado entre traficantes e polícia. Os programas
de televisão inundam nossas casas com imagens cruas da miséria
humana sob a truculência cotidiana. A famigerada "mídia"
oferece um cardápio variado de terror e sangue sob o nome de
entretenimento. Mel Gibson protagonizou alguns dos títulos mais
célebres desta onda (Mad Max, Máquina Mortífera,
O Resgate, O Troco, etc.). Este é o nosso tempo: o das violências.
Há um debate interminável sobre as possíveis relações
entre a violência na sociedade e a violência nos filmes.
Cabe, nessa discussão, a pergunta: houve um tempo não
violento em nossa civilização. Se, digamos, sempre fomos
violentos, o que distinguiria esse tempo, essa época, de outras?
Se for uma questão de escala, isto é, termos instrumentos
e meios para atingir violentamente um número sempre maior de
pessoas, não há, então, uma diferença qualitativa
no caráter intrinsecamente humano da violência. Embora
religião e violência tenham um longo histórico de
promíscuas relações, há um interesse renovado
da mídia e das pesquisas nas conexões entre religião
e violência. Algumas dessas supostas conexões tornaram-se
lugares-comuns. Assim, Gibson, combinando com esperteza os elementos,
oferece um cardápio perfeito para esse tempo: polêmica
para os adultos, violência para os jovens e religião para
todos.
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II - "a luz resplandeceu
nas trevas - o verbo se fez imagem |
Imagem e violência
O que podemos dizer do filme de Gibson? Seria a violência empregada
no filme a linguagem capaz de "traduzir com mais perfeição
a agonia de se viver a falta de discursos éticos, de projetos
de novas (ou caducas) revoluções"? Teria sido "a
descarnada presença do sofrimento, a violência e o sangue"
responsável por levar multidões aos cinemas? É
verdade que a tradição cristã jamais ocultou o
teor de dor e sofrimento dos momentos finais de Jesus. Não é
sem razão que se fala de uma "paixão" de Cristo.
O verbo grego "pasxo" significa, no Novo Testamento, "sofrer,
suportar, morrer". Sintomaticamente na tradição mística,
não faltaram também ao cristianismo visões sobre
o martírio de Cristo, como as de Anne C. Emmerich (1774-1824)
que inspiraram Gibson.
Em
que medida, então, podemos qualificar de violento o filme de
Gibson uma vez que o próprio testemunho bíblico e sua
tradição mística apontam para a paixão-morte
de Cristo, resultado de uma violência? O denominador comum dessas
questões é, sem dúvida, a violência. O que
dizer da violência no filme, sem ceder aos simplismos de toda
a natureza que rondam o tema e o filme?
O sociólogo Paulo Menezes, da USP, nos esclarece que "(...)
o sentido de uma imagem não está somente nem primordialmente
na própria imagem. Nenhuma imagem carrega sentido em si mesma.
O que dá sentido a qualquer imagem é sua relação
com o espectador que a olha e não obrigatoriamente o que ela
retrata ou mostra." Disto se pode deduzir que a "(...) a constituição
do sentido da violência não está inscrita nas próprias
imagens, mas se dá na relação imagem-espectador
(...). Decorre metodologicamente daí que "(...) o sugestivo
não é ver se tal ou qual imagem é 'violenta', mas
tentar investigar se no discurso das imagens, como no dos filmes atuais,
os fundamentos daquilo que se concebe naquelas imagens como violento
estão nelas mesmas explicitados." (Paulo Menezes. As relações
(im)possíveis entre imagem e violência. Ciência e
Cultura, 54 (1): 63-4, jul./ago./set. de 2002.). Temos aí uma
pauta para ler o filme!
No "discurso das imagens" do filme de Gibson encontramos
a explicitação dos "fundamentos" do que aparece
como imagem violenta? Diga-se, de passagem, que imagem nesse filme é
tudo. Por sorte o espectador pôde ler trechos dos diálogos
que se dão em aramaico e latim. Gibson não queria as legendas.
No seu entender, as imagens seriam o suficiente. De fato, o filme é
basicamente visual. As imagens deveriam rodar sob um suposto sistema
operacional implantado na civilização ocidental, que conhece
mentalmente as falas bíblicas, o contexto da história
que se desenrola. As imagens interagiriam com esse "depositum fidei"
anônimo, sem tempo e sem geografia.
Vale mencionar que Gibson pediu que o diretor de fotografia, Caleb
Deschanel, se inspirasse em Caravaggio. De fato, cada cena é
construída como uma pintura. Os elementos da pintura de Caravaggio
estão lá: luz e sombras num jogo sempre tenso, revelando
e ocultando. Entretanto, há uma relação sem continuidade
entre a estética deliberada da fotografia e a estética
da violência. A fotografia, decalcada da pintura de Caravaggio,
está para o filme como as embalagens-padrão de loja de
departamento estão para os presentes: é um/a papel/caixa
que embala um conteúdo com o qual não tem uma relação
necessária. A fotografia do filme não tem o efeito transgressor
que tinha a pintura de Caravaggio ao introduzir o humano, o mundano,
o secular na estética canônica da iconografia medieval.
Ou será que para Gibson a hiper-concentração em
imagens violentas teria o efeito revolucionário e transgressor
que teve aquele estilo de pintura sobre a estética medieval?
Esta questão será retomada logo adiante.
A paixão segundo Gibson
Investiguemos esta relação entre imagem e violência
no filme de Gibson. Obviamente não é possível comentar
todo o filme. Mas detenhamo-nos em algumas cenas que são exemplares
do procedimento adotado por Gibson. Ignoremos aqui que Jesus é
espancado desde o Getsemâni, é pendurado por uma corrente
num barranco, etc. Comecemos pela cena da flagelação.
Sim, Cristo foi flagelado. Consta nos evangelhos. Começa a primeira
série de chibatadas com varas fortes e flexíveis. A câmera
demora-se em cada vergastada. Mostra os inchaços no corpo, o
ódio faiscando no olhar dos soldados, o rosto contraído
de Jesus. Moído após a primeira série de chibatadas,
Cristo, trêmulo, levanta-se do chão e fica à espera.
Sua atitude é de desafio: mostra que não foi vencido pelos
impiedosos soldados romanos. Os soldados entreolham-se. Não acreditam
no que está acontecendo. A atitude de Jesus nesta cena - sem
qualquer suporte bíblico - é análoga àquela
dos heróis interpretados por Mel Gibson (Mad Max, Máquina
Mortífera, O troco, Teoria da Conspiração, etc.).
O herói, brutalmente torturado, resiste honrosamente. Sua superioridade
espiritual, seu autocontrole desdenha da incompetência dos algozes.
Tem início, então, a segunda série da tortura.
Escolhem um chicote com pontas de metal. Nas práticas romanas
de tortura, há base histórica para isso. O chicote, com
pontas de metal, corta a pele como se fosse papel. Às vezes,
fica preso na carne e, ao ser puxado, arranca pedaços que voam
por todo lado. Em poucos minutos não há mais pele. O corpo
é esfolado a chicote. Aos poucos as roupas, pernas, sandálias
dos soldados estão ensopadas de sangue. O sangue vertido forma
um verdadeiro poço que a câmera não cessa de mostrar.
Cristo está, finalmente, derrotado, boiando em seu próprio
sangue. Ao final da flagelação, o Cristo de Gibson é
um molambo humano, um monte de feridas, chagas abertas, carne retalhada.
Arrastam o molambo humano para fora da cena.
Na cena seguinte, entram Maria e Madalena. Assustadas, olham o cenário
vazio: uma piscina de sangue e os instrumentos de tortura (chicotes
com pregos, chibatas, machados, etc.). Maria olha silenciosa e atentamente
cada um dos instrumentos sujos de sangue. A câmera passeia lentamente
por cada detalhe. Há um prazer mórbido da câmera
pelo detalhe sórdido. Maria, com alguns panos brancos na mão,
atira-se sobre a piscina de sangue e começa a enxugar cuidadosamente.
Madalena faz o mesmo e alguns momentos parece estar num êxtase
espiritual ao se esfregar sobre aquele sangue e, em alguns momentos,
parece querer tocá-lo com os lábios. Veneração
mística do sangue de Cristo!
Gibson, porém, é criativo em seu suposto realismo e fidelidade
histórica. Ele sabe como infligir dor com a precisão de
um cirurgião, perdão, de um açougueiro. Depois
dos inomináveis detalhes sádicos de uma "via crucis"
que parece sem fim, a cena da crucificação também
merece ser considerada aqui, porque chega às raias do cômico.
Jesus, sobre a cruz, tem sua mão aberta e o espectador acompanha
o cravo entrando na carne lentamente: o sangue escorrendo, a força
do carrasco e som da marreta no ferro. O outro braço, num espasmo
de dor, recusa-se a esticar. Um soldado, nervoso com a moleza dos demais,
amarra uma corda e puxa o braço até ouvirmos o som de
ossos que se partem. Novamente acompanhamos lentamente o cravo penetrar
na carne. O processo repete-se minuciosamente nos pés. O sangue
verte copioso sobre a terra áspera.
Encerrado isso, o espectador respira aliviado: finamente acabou! Engana-se!
Gibson é criativo e, num requinte de delicadeza, a cruz é
virada desastrosamente e a pesada madeira comprime o corpo, saturado
de dores, contra o chão pedregoso. Por que isso agora, pergunta,
estarrecido, o espectador. Simples, todo mundo sabe isso: é preciso
rebater as pontas salientes dos cravos. Realmente é um primor
de detalhamento. Nada escapa ao diligente Gibson. Quando começam
a rebater os cravos é preciso ter espírito forte para
não desatar numa gargalhada. É cômico, porque absurdo,
este apego ao detalhe (não consta no Novo Testamento nada deste
teor). Detalhe irrelevante, diríamos. Não para Gibson.
Ele quer imprimir um selo de veracidade em cada cena. Sim, isso funciona.
Muitos espectadores, muitos com boa formação teológica,
confirmaram: "Sim, de fato foi assim!"
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III - "mas o mundo não
o conheceu" (Jo 1.10) |
"O verbo se fez carne"
Fiel ao que diz o evangelho de João, Gibson levou ao limite do
insuportável a afirmação "o verbo se fez carne"
(o texto grego diz 'carne' mesmo). E Gibson, meticuloso açougueiro,
foi batendo e retalhando esta carne até reduzir um ser humano
a um bife. Ao final, cruz alçada às alturas, Gibson não
crucifica uma pessoa, mas um bife. Óbvio, um açougueiro
lida com carnes sem biografia. Só assim pode seguir trabalhando
de forma impiedosa em relação a toda carne que o rodeia.
O açougueiro não estraçalha a carne de um boizinho
que cresceu com ele desde a infância e foi um grande amigo de
aventuras. Não, os bois do açougueiro não têm
nome. Gibson procede, então, com o mesmo "modus operandi"
do açougueiro: o verbo torna-se uma carne sem nome e sem história,
sem qualquer relação afetiva com os que o cercam e, por
conseguinte, com o espectador.
Sintomaticamente, o recorde de bilheteria do filme de Gibson foi batido
por um filme de terror (Wake of the Dead - Despertar dos mortos), em
que zumbis (mortos vivos) atacam pessoas e devoram sua carne. Sim, o
tema da morte continua, mas agora é um morto-vivo, um zumbi.
O público quer ainda mais sangue e carne. Não basta estraçalhar
a carne é preciso devorá-la literalmente. O público
não quer o bife crucificado de Gibson. O público quer
se tornar o próprio bife de um morto-vivo.
Em que consiste, então, o problema do filme? Na violência
das imagens? Não, em absoluto. O que acontece no filme, mono-tematicamente
centrado nas últimas horas de Cristo, é uma total ausência
de "explicitação dos fundamentos do que aparece como
imagem violenta". No filme de Gibson a violência é
submetida a um processo de naturalização. Trata-se de
ódio e violência sem história, gratuitos, frutos
de um destino, de uma fatalidade atemporal. Os personagens, inclusive
o próprio Cristo, não têm biografia. Os "flashbacks"
com discursos de Cristo soam inócuos, pois sem contexto, sem
referências concretas, históricas. São como frases
extraídas de um manual de auto-ajuda. Sem contexto, servem para
tudo e para nada. Portanto, nada está mais distante do estilo
dos evangelhos do que o punhado de frases que é espalhado a esmo
ao longo da narrativa do filme.
A descarnação do Verbo
Não, não se trata de opor ao filme uma forma suave de
docetismo (heresia que negava um corpo real de carne e sangue a Cristo),
atenuando a tortura (não sofreu tanto como o filme mostra, pois
os torturadores não eram tão maus) ou a dor (não
doeu tanto como o filme mostra, pois Cristo não tinha braços
quebradiços nem pele que sangrasse). De forma alguma. Este texto
partilha também o enfoque pretendido pelo filme: reafirmar a
historicidade de Jesus, verdadeiro homem e verdadeiro Deus.
Justamente por isso, é interessante o esforço de Gibson
ao tentar imprimir uma humanidade radical à Jesus. Para isso
ele concentra o filme nas horas finais e procura mostrar detalhadamente
a violência a que foi submetido o Filho de Deus. Dá especial
destaque à carne, ao sangue. Entretanto, a "carnalidade"
de Jesus é tão acentuada no filme que, no limite, ela
é transfigurada. A dor e o sofrimento que Gibson inflige ao seu
Cristo sem biografia são tão intensos que se tornam irreais.
É a mutilação de um corpo sem história.
Jesus é estranhamente reduzido à divindade justamente
pelo caráter extremado com que sua "carnalidade" é
apresentada. É irônico, observou alguém, que, no
filme, o corpo de Cristo verta mais sangue do que um corpo humano pode
conter. É uma hemorragia de fato, mas acaba se tornando uma hemorragia
divina. Gibson chega, assim, ao anti-evangelho. Ao invés de termos
a história da morte do verbo encarnado, Gibson nos apresenta
a mais radical descarnação do verbo. A vida - com biografia,
com história - dá lugar ao violento processo de uma morrer
que não teve vida.
A estetização da violência e da dor
Mais do qualquer outra coisa, o filme é uma estetização
da violência e da morte. No entanto, a estetização
da morte violenta nos rouba o seu conteúdo, isto é, a
própria morte. A estetização serve-se de uma hiper-concentração
na imagem. Infelizmente, a fotografia não nos faz transcender
o sofrimento, a violência da morte, para um sentido mais amplo
e profundo da vida, do mundo. Somos arremetidos contra esta estética
que nos subtrai seu conteúdo: a própria morte, que deixa
de ser historicamente inevitável e, no caso desse filme, transforma-se
em fatalidade inexorável. Violência e morte, naturalizados
desta forma, tornam-se inapeláveis, destino divinamente imposto.
A estetização da violência no filme de Gibson reintroduz,
de forma original, um tipo de metafísica que se supunha superada
nas recentes cristologias.
O
que dizer da dor? Não se pode negar que o Cristo de Gibson sofre...e
como sofre. Não é possível, porém, reduzir
a concreticidade, a historicidade de Jesus à sua "abertura
para a dor" (cf. Luiz Felipe Pondé. Cad. Mais!, Folha de
São Paulão, 28 de março de 2004, p. 14). Se reduzirmos
a humanidade de Cristo à sua disponibilidade para a dor, transformamos
Deus num sádico e o ser humano, num masoquista. Além disso,
animais também sofrem, têm dor. Se o histórico se
constitui na dor, aí tanto faz então se Jesus ou um carneiro
qualquer morra. Ora, isto é estapafúrdio do ponto de vista
da teologia cristã! Sem qualquer desdém pela dor dos animais,
o distintivo está na possibilidade de atribuirmos sentido à
dor, à morte. A historicidade do humano constitui-se na dor que
é revestida de sentido a partir de uma história (com coordenadas
sociais, políticas e econômicas), de uma biografia. Em
outras palavras, no Cristo dos Evangelhos, a morte e a dor obtêm
sentido a partir da vida. Isso é ignorado solenemente no filme.
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IV - "que é a verdade?"
(Jo 18.38) |
A verdade pornográfica
Não se pode negar que há um afã de verdade no filme
de Mel Gibson. A concentração na violência não
é condenável por ser violência, mas pelo fato de,
ao negar-nos uma explicitação do que fundamenta a imagem
violenta, buscar uma intencionalidade impossível: o filme crê
poder desnudar para o público a verdadeira verdade da morte violenta
de Cristo, o Salvador do mundo. Portanto, o que é condenável
na cristologia apresentada por Mel Gibson não é o recurso
à violência, mas a presunção de verdade que
se esconde atrás dessa tentativa. Gibson espera que, no esforço
de escancarar a crueza violenta dessa morte, alcancemos, redimidos,
o "quérigma" cristão. Gibson, cético
pós-moderno, edifica uma cristologia sobre uma fé pós-Tomé.
Ele não se contenta em tocar a chaga. Ele quer vê-la sangrando
novamente. Ele coloca a mão e revolve a ferida para que o sangue
esguiche mais uma vez. Gibsom busca um ´verismo´ mais que
a veracidade.
Nos anos 60, diante da exploração das imagens de terror
do holocausto, Godard cunhou a expressão "pornoconcentracionário",
isto é, excessiva concentração temática
que, por analogia, remete à obsessão do filme pornô:
desvendar o ato sexual. É possível aplicar essa expressão
ao filme de Gibson. Trata-se também de um filme obsessivo, monotemático:
violência, dor, sofrimento. Neste sentido, a violência no
seu filme está para a verdade como a pornografia para a sexualidade.
A pornografia anseia por uma visibilidade total, imediata. O erotismo,
por sua vez, contenta-se com a sugestão. A câmara pornô,
como a câmara de Mel Gibson, quer mostrar, surpreender o impossível.
A câmara pornô trabalha por esfacelamento dos corpos. Não
há corpos inteiros nos filmes pornôs, mas pedaços
e fragmentos em planos saturados. Tampouco há história
nos filmes pornôs. Mesmo quando tende para uma espécie
de dramaturgia, descamba no documentário (As reflexões
sobre o "pornô-filme" devo a Arnaldo Jabor, Os canibais
estão na sala de jantar, p. 77-85). No filme de Mel Gibson, como
no filme pornô, quem evolui dramaticamente, dramaturgicamente,
é o espectador: fecha os olhos, chora, grita, vomita, morre do
coração. No filme, a ação, apesar do que
parece sugerir, é des-dramatizada: ninguém se comove com
o personagem Cristo, mas com a violência infligida.
Essa obsessão pela visibilidade seria a chave do mistério:
a visibilidade exaustiva como transcendência. A visibilidade pornográfica
da violência seria como canal para a transcendência. Sem
sugestões, sem simbolismos, sem metáforas: o mero signo
em sua materialidade acachapante! Transcendência pelo reverso
da medalha: infiltração completa na carnalidade. Quem
sabe seja isso que o filme de Gibson nos oferece: uma resposta para
a nossa intensa busca de saciedade. Não queremos mais o mistério
como promessa que repousa sobre o inexplicado de uma morte salvífica.
Não! Agora queremos ser saciados da verdade que, supomos, estar
escancarada na violência das cenas repetidas à exaustão.
Não, não mais a promessa da verdade, contida num mistério
continuamente protelado e colocado à disposição
daqueles que, mediante o trânsito de uma existência sob
o véu da ignorância, estejam dispostos a acolhê-lo
definitivamente "post mortem" (a própria morte, frise-se).
Chega da certeza da fé edificada sobre a incerteza do mistério.
Queremos a certeza do mistério edificada sobre a certeza da fé
na violência desnudada da morte de Cristo. "Quid est veritas?"
(O que é a verdade?), pergunta Pilatos a Jesus dentro dos cânones
da metafísica tradicional. Entretanto, à metafísica
atemporal de Pilatos, Gibson antepõe uma metafísica ´espacial´:
"Ubi est veritas?" (Onde está a verdade?). Ele responde
com imagens: na violência! Precisamos, portanto, flagelar o mistério
até, então, transcendamos. Flagelar o mistério
até que ele nos entregue, enfim, o mistério. Eis a nova
metafísica: transcendência pela violência.
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V - "a vida estava Nele
e a vida era a luz dos homens" (Jo 1.4) |
Ars moriendi: acomodações do morrer!
Voltemos à pergunta lançada no início: por que,
não obstante todos os senões, engolimos essa violência
toda e corremos para as salas de projeção? Como dito,
o que é violência não está inscrito nas imagens,
mas brota em sua relação com o espectador. Como dito,
a nossa relação com a própria violência é
ambígua: fascinação e horror. São experiências
limítrofes. Não há como negar que há um
prazer em se submeter à descarga de adrenalina que cenas violentas
provocam. É esse prazer que nos move em direção
à violência. Em determinado aspecto Pondé (Luiz
Felipe Pondé. Cad. Mais!, Folha de São Paulão,
28 de março de 2004, p. 14) está certo pelas razões
erradas. De fato, o hedonismo caracteriza nossa sociedade. Há
um hedonismo em fruir toda adrenalina que a experiência midiática
da violência nos proporciona. Há hedonismo bizarro no prazer
que surge de nossa ambigüidade em relação à
violência. Mas, como diz o filósofo esloveno Slavoj Zizek,
trata-se de um "hedonismo envergonhado". Ele tem um certo
prurido em assumir, sem restrições, o que proporciona
prazer. Toma forma, assim, um hedonismo revestido de ascetismo, em que
a interdição é inscrita no próprio objeto
de prazer. (Slavoj Zizek. A paixão na era da crença descafeinada.
Folha de São Paulo, Mais!, 14 de março de 2004, p. 13-15).
O filme de Gibson nos leva justamente ao êxtase: é violência
em doses cavalares, adrenalina pura. Na platéia temos os sinais:
choro, gritos, desmaios, uivos e morte. No entanto, queremos a violência
sem sua dimensão aterrorizante: a violência que nos tira
a nós mesmos. Por isso, consumimos violência, a dor, o
sofrimento sem biografia, sem história, como Gibson nos oferece
em "A paixão de Cristo". É violência sim,
porém, ´despotencializada´!
Diante da morte sem transcendência do Cristo de Gibson e do inútil
esforço de encontrar uma nova transcendência através
da violência, não sobra nada. O nosso sofrimento é
atirado ao desconsolo de uma morte sem acolhida, de uma dor vã,
ao choro convulsivo dos fanáticos marchando para o além
sobre o sangue de Cristo. A ressurreição que poderia,
finalmente, conferir sentido ao desfile de horrores de Gibson é
reduzida a um lençol que murcha, a um corpo magicamente refeito
e às marcas da cruz. Em "A paixão de Cristo",
a ressurreição é tão vazia de significados
quanto a morte. O mundo que a ´paixão segundo Gibson´
nos oferece é o horror do nada, o absurdo do niilismo. O Cristo
de Gibson não tem humanidade (menos ainda divindade) e a sua
morte nada tem de divindade (menos ainda de humanidade). Gibson inventou
uma nova heresia: nega tanto a humanidade como a divindade. Não
há nada além da dor e da morte. Ele não nos entrega
nada a não ser dor e morte. A abordagem da paixão feita
por Mel Gibson tem o dom de esvaziar a terra e o céu. O ardor
religioso de Gibson elabora o niilismo do niilismo.
Em síntese, podemos dizer que Gibson não nos apresenta
nenhuma resposta. O mérito do seu filme é desnudar em
profundidade nossa época: nossa busca de felicidade e nossos
esforços de acomodar o morrer em nosso horizonte de sentido.
Por um lado, a atração mórbida pela violência
traduz o extremo a que chegamos na busca de um prazer que proporcione
felicidade. E como a violência tem o potencial de destruir o veículo
e o recipiente do prazer, o corpo, consumimos violência sem história,
sem biografia. Hoje, o Rio de Janeiro e o Iraque são apenas notícias:
eletrizam nossas vidas sem ameaçá-las. Por outro lado,
descarnado o verbo, a morte é reduzida a um anti-clímax,
pois o que interessa é a violência do morrer e como ela
se configura como uma última grande emoção prazerosa!
"E vós, quem dizes que eu sou?" (Mt 16.15):
uma leitura cristã da morte de Cristo
Dietrich Bonhoeffer, pastor luterano na Alemanha da Segunda Guerra e
mártir da causa cristã, escreveu, numa carta de março
de 1933 às vésperas da Páscoa (Resistência
e Submissão, p. 123) o seguinte: "Páscoa? Nosso olhar
cai mais sobre o morrer do que sobre a morte. É-nos mais importante
neste momento como podemos arranjar-nos com o morrer do que como poderemos
vencer a morte. Sócrates dominou o morrer. Cristo venceu a morte
como ´exthros´ (inimigo: 1Co 15.26). Conseguir arranjar-se
com o morrer ainda não significa arranjar-se com a morte. A dominação
do morrer está ao alcance das possibilidades humanas, a vitória
sobre a morte, todavia, chama-se ressurreição. Um novo
vento de ação purificadora para o mundo presente não
pode soprar da simples ars moriendi, mas só da ressurreição
de Cristo".
Sem acomodações do morrer, vencer a morte! Eis o indicativo
cristão: eis o mistério da fé! Bonhoeffer viveu
também num tempo dominado pela violência e pela desvalorização
da vida. Acomodações, concessões de toda a ordem
eram bem-vindas. Ele, porém, denuncia: é fácil
arranjar-se com o morrer (honra, coragem ou simplesmente cinismo). Isto
está ao nosso alcance, diz ele. A superação do
morrer, a morte como vitória definitiva, ilumina-se a partir
da ressurreição de Cristo. Assim, Bonhoeffer podia dizer:
"Viver tendo a ressurreição como ponto de partida,
- isto é a Páscoa" (Ibid.). Segundo ele, a "perturbatio
animorum" (desassossego dos ânimos) cresce de forma assombrosa
naqueles dias porque a maioria das pessoas "não sabe da
origem de sua existência". Este "desassossego dos ânimos"
deve-se, no fundo, a uma "expectativa inconsciente pela palavra
que tudo soluciona e liberta" (Id., p. 124). Porém, afirma
Bonhoeffer, para essa Palavra ainda não tinha chegado "a
hora de ser ouvida" (Ibid.).
"Habitou entre nós cheio de graça e de verdade"
(Jo 1.14)
Para que não encerremos sem uma palavra que valorize o esforço
de Gibson num filme tecnicamente irretocável, há uma cena
que merece figurar numa cristologia saudável para o nosso tempo.
Não obstante toda mariologia embutida nela, a cena enraíza
na história (imanência) algo do sentido transcendente da
morte de Cristo. Durante a "via crucis", Jesus cai novamente.
Seu olhar encontra o da mãe. Vem à mente de Jesus e da
mãe uma cena da infância: Jesus-menino, correndo por uma
ruela, cai de repente, machuca o joelho e abre-se em pranto. Maria ouve
o choro e, desesperada, corre ao seu encontro. A cena é singela
e tocante. Ali, transcendemos todos. É a dor amparada pela mãe.
O universo inteiro ganha sentido, profundidade e cor: nosso desespero
encontra a acolhida. Assim, é também a morte de Cristo.
Ela não é um desespero, mas um acolhimento das dores do
mundo. É certo, a cruz é como um buraco negro no horizonte
do sentido, da acolhida, do amparo, do amor. É uma vertigem,
uma voragem! É, porém, também um convite para se
atirar em braços invisíveis. Há uma experiência
de abandono: "Pai, porque me abandonaste?" A confiança
de que há um sentido, um abraço acolhedor supera a vertigem:
"Nas tuas mãos entrego o meu espírito". E a
ressurreição confirma essa incomensurável acolhida,
esse grande abraço maternal com que Deus envolve seu Filho e
a todos nós.
É claro, essa cena também não consta dos evangelhos
bíblicos. Contudo, não é improvável. A cena
está dentro da liberdade criativa do autor/diretor do filme.
Justamente, nesse raro momento, em que não está preso
a uma literalidade fundamentalista da história bíblica,
Gibson atinge o núcleo mesmo da humanidade de Jesus e, por analogia,
abre a possibilidade de vislumbrarmos o divino em Cristo. Felizmente,
o açougueiro Gibson também teve mãe!
* Dr. Valério
Guilherme Schaper
Professor da Escola Superior de Teologia / São Leopoldo - RS