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paz de espírito
 

Stephen Kanitz *

A maioria das entidades beneficentes, aquelas que ajudam os outros, vive intranqüila. A cada recessão e a cada aumento na taxa de juros elas também são afetadas, como todas as empresas, embora não almejem lucro. Para piorar a situação, em épocas de recessão as doações das empresas "socialmente responsáveis" caem pela metade, e, ao contrário das empresas, as entidades não mandam ninguém embora.

Um orfanato não coloca a metade dos órfãos na rua só porque os juros subiram. Há oito anos organizo o Prêmio Bem Eficiente, com o apoio de cinco generosos patrocinadores. É um dos poucos prêmios dedicados aos que devotam 100% de suas energias e receitas ao social: as entidades beneficentes. Elas são o contrário das empresas, que gastam em média 0,1% de suas receitas no social e acham que merecem prêmios por isso.

Das 380 entidades que analisamos anualmente, de 80% a 90% têm dinheiro em caixa para suprir despesas por no máximo uma semana. Vivem do prato para a boca, constantemente em stress, preocupadas se sobreviverão até o fim do mês.

Essa falta de reservas líquidas ou de colchão de segurança financeira deixa todos os nossos líderes sociais intranqüilos e complica o esforço de arrecadação. Nenhum doador quer doar para cobrir salários atrasados. Quer doar para construir um prédio novo ou ampliar o serviço prestado.

Para tentar mudar esse paradigma, há quatro anos decidimos premiar uma das cinqüenta entidades vencedoras com 200.000 reais. Escolheríamos uma eficiente mas que estivesse nesse sufoco financeiro, resolvendo de vez seu problema.

Sugerimos às entidades que colocassem a doação num fundo de investimento, e só a utilizassem em última necessidade. Era um pedido que fazíamos, sabendo que talvez não fosse cumprido.

No ano passado, uma das duas entidades recebedoras dessa doação nos procurou para prestar contas. Construiu uma nova sede, que batizou de Prédio Bem Eficiente, que deve ter custado uns 600.000 reais. Perguntei como conseguiram a diferença, e para minha surpresa me mostraram que a entidade não havia gasto um tostão dos 200.000 da doação, que continuava toda aplicada em fundos financeiros, conforme havíamos pedido. Fiquei mais confuso ainda. "Aquilo foi muito mais do que uma doação, aquele dinheiro nos deu a paz de espírito de que precisávamos", disse o diretor.

Paz de espírito para não entrar em desespero em cada recessão, com as constantes mudanças na política econômica. Puderam ser mais agressivos, procurar recursos adicionais sem desespero, mostrando planos futuros, e não despesas passadas. A arrecadação explodiu.

O que me deixa perplexo nessa história toda, e por isso a estou relatando, é que do ponto de vista financeiro não fizemos absolutamente nada. O dinheiro não foi usado, e pelo jeito nunca será. Ainda bem.

Hoje, a maioria das empresas ditas socialmente responsáveis está cancelando seus donativos para as entidades que já existem, preferindo criar institutos e fundações com a marca de suas empresas, reinventando a roda, tirando muito mais do que a tranqüilidade e a paz de espírito de muita gente boa nesse setor e que acaba desistindo.

Por essa razão, sempre tenha um dinheirinho de reserva. Um dia sua empresa também o despedirá, ou achará que seu trabalho não é mais interessante. Prepare-se para esse dia, que fatalmente virá. Tenha seis meses ou um ano de gastos pessoais em caixa. Eu sei que é difícil, você terá de fazer sacrifícios, como não comprar uma televisão ou não trocar de carro.

Mas ter um dinheiro guardado para os anos de vacas magras não fará mal a ninguém. Dinheiro pode não trazer felicidade, mas ter uma certa quantia poupada pode lhe trazer muita paz de espírito nos momentos difíceis.

Sua primeira compra na vida nunca deveria ser um televisor financiado pelo cartão de crédito. Sua primeira compra deveria ser sua paz de espírito, que não custa tanto, pode crer.


* Stephen Kanitz é administrador por Harward (www.kanitz.com.br)

Artigo Publicado na Revista Veja,
edição 1775, ano 37, nº 7, 18 de fevereiro de 2004.


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