Rubem Alves *
Fiquei
triste com a escolha do cardeal Joseph Ratzinger para papa. Muitos
dos meus amigos católicos sentiram o mesmo. Oficialmente
os bispos não podem tornar públicas idéias discordantes.
Obediente um deles se manifestou dizendo que era preciso estar preparado
para surpresas.
Ele assim exprimia, de maneira transversal, a sua esperança
bruxoleante: a de que Ratzinger fosse, como papa, algo diferente do
que fora como presidente do Santo Ofício, quando se dedicou
a caçar e silenciar pessoas com idéias diferentes. Por
ocasião da encíclica Dominus Jesu, saída de suas
mãos, em que se afinava a impossibilidade do ecumenismo porque
a Igreja Católica tinha a plenitude de evangelho, escrevi o
texto abaixo. Ele é apropriado para o momento.
"Faz muitos anos subi ao alto da serra da Boa Esperança.
Lá de cima, vendo o vale que se estendia abaixo, minha imaginação
começou a pensar sobre milênios. Há quanto tempo
aquela montanha contemplava o vale? Dez mil anos?
Cem mil anos? Aí vi uma pedra branca, testemunha impassível
da passagem do tempo, e resolvi traze-la para o meu escritório.
Estou olhando para ela nesse momento. Não mudou nada: o mesmo
branco-rosa, os mesmos planos de clivagem, a mesma forma. Ficará assim,
indefinidamente. São imutáveis, sempre as mesmas, porque
estão mortas.
Trouxe, junto com a pedra, umas plantinhas. Não vingaram. Estranharam
a minha casa. Diferentes das pedras, que não estranham nada.
Indiferentes ao mundo que as cerca, as pedras são sempre as
mesmas.
Porque estão mortas. As plantas estão vivas. Porque
estão vivas, as plantas estão sempre se transfonl1ando
numa outra coisa, diferente do que são.
Nenhuma planta é igual a si mesma num momento subseqüente
de tempo. Tudo o que é vivo muda.
A vida tem horror à mesmice. Um amigo me contou que os bambus
florescem. Espantei-me. Eu nunca vi um bambu florido. Bambus. pelo
que eu pensava saber, se reproduzem assexuadamente: a planta mãe
vai soltando brotos iguais a si mesma. Mas o meu amigo me disse que
em períodos aproximados de 100 anos, uma mesma espécie
de bambu floresce, no mundo inteiro. Florescem e morrem. Os novos bambus
nascerão das sementes. Não serão mais os mesmos
que eram. Se não houver a mistura de genes, se a planta quiser
ficar sempre a mesma, ela se degenera. É preciso deixar de ser
o mesmo e se transformar em outro. Vale para as plantas a sabedoria
evangélica: "Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á".
Quem permanecer o mesmo morrerá. Ou se transformará numa
pedra.
Na procriação existe sempre um pouco de morte. "Morre
e transforma-te!", dizia Goethe. "Casca vazia. A cigarra
cantou-se toda." Haicai. se não me engano, de Bashô.
Antes da casca vazia. a cigarra cantava canções subterrâneas
- a vida acontecia nas profundezas da terra. Mas, de repente, a vida
tornou-se outra. A cigarra subterrânea começou a sonhar
sonhos de ar livre e vôos. Saiu da terra. Sua casca não
era mais capaz de suportar a vida que crescia dentro dela. Arrebentou.
E dela surgiu outro ser, alado. Nós, seres humanos, somos como
as cigarras. Só que nossas cascas
são feitas com palavras. Crescendo a vida, as cascas verbais
se transformam em prisões. Têm de ser abandonadas para
que a vida continue. "A serpente que não pode livrar-se
de sua pele morre. Assim são os espíritos que são
impedidos de mudar suas opiniões. Eles cessam de ser espírito" -
aforismo de Nietzsche.
O ecumenismo foi uma florescência de bambus: o desejo de fazer
trocas, depois de séculos, o desejo de transformar-se em semente,
de cair na terra, de deixar de ser o que era, para ser outra coisa.
Mas agora o Vaticano reafirma a sua imutabilidade pétrea, sua
mesmice, a eternidade de sua casca de palavras: "Quod semper,
ubique et ab omnibus creditum es" (Aquilo em que sempre se acreditou,
em todos os lugares e por todo mundo; são Vicente) . Entre a
semente e a pedra o Vaticano reafirmou a pedra. Os bambus estão
proibidos de florir.
Para que florir? É desnecessário. A Igreja possui a
verdade toda. Não precisa dos outros. Proibido está o
jogo de trocar sementes. Por que ouvir o outro, se possuo a verdade
toda? Por que permitir que o outro fale, se aquilo que ele fala só pode
ser mentira? Todos os que pretendem possuir a verdade estão
condenados a ser inquisidores.
Num pequeno lugar do sul de Minas, Pocinhos do Rio Verde, há um
pico de pedra bruta. a Pedra Branca. Para chegar ao alto passa-se por
um bosque com regatos e poços de água cristalina. Saindo
do bosque, é a pedra bruta, trabalhada pelo vento e pela água,
através dos milênios. Triunfo da pedra? Em pedras não
se plantam flores. A despeito disso a vida foi colocando matéria
orgânica nas gretas e depressões. E o que se vê é um
jardim: musgos, orquídeas, bromélias, avencas. Fosse
a pedra só, e seria desolação. deserto. Mas a
vida cresceu sobre a pedra - e vieram os pássaros. as borboletas,
as abelhas, os pequenos animais. Coitada da pedra! É inútil
reclamar. A vida e a beleza crescem sobre ela, a despeito da sua mesmice
pétrea. As sementes - frágeis - são mais fortes
que a pedra - dura.
Compreendi, então, coisa que nunca havia compreendido: as razões
por que a Igreja Católica havia aquilo em que sempre se acreditou
em todos os lugares e por lodo mundo". São Vicente, escolhido
para si mesma o símbolo Petrus - "Tu és pedra"...
De fato, ela é pedra. Casca de cigarra sobre o tronco da árvore
que continua a afirmar-se a si mesma. a viver de memórias da
vida que foi um dia e que agora é morte. Não se dá conta
de que a \-ida saiu e voou. Compreendi, também, as razões
para a sua dificuldade em lidar com tudo que seja semente - sêmen
-, o líquido do prazer que faz com que a vida nasça outra.
Na estória de Ló e sua mulher.
fugindo de Gomorra, está dito que Deus os advertiu a não
olhar para trás. A mulher de Ló desobedeceu.
Olhou para trás. Transformou-se numa estátua, pedra
de sal. O vento e a chuva levaram o sal. A estátua desapareceu.
Essa é a tragédia das pedras: pensam ser eternas. Não
sabem que são sal. O tempo, água.
faz o seu trabalho. A areia da praia um dia foi pedra...
Mas, a despeito da pedra, as plantas continuam a nascer, crescer.
florescer...
* Rubem Alves, 71 anos, nasceu no interior
de Minas Gerais
e é escritor, pedogogo, teólogo e psicanalista. (www.rubemalves.com.br)