Stephen Kanitz *
O
problema da globalização é que o tempo está
acelerando cada vez mais. A globalização sempre existiu,
desde o Império Romano, mas o que acelerou não foi a globalização,
e sim a rapidez das mudanças. O ano, que era de doze meses, é
hoje na prática de somente quatro. Por isso todo mundo anda sem
tempo para respirar. Graças ao telefone, celular, internet, e-mails,
conseguimos decidir, analisar, coordenar e implementar tudo muito mais
rápido.
Em 1973 levei seis meses para fazer a pesquisa bibliográfica
inicial da minha tese de doutorado. Hoje eu faria a mesma pesquisa em
doze horas, na internet. Na época, os livros que encomendei demoraram
quatro meses para chegar do exterior. Hoje chegam em uma semana.
Os Estados Unidos, uma economia já madura, voltaram a crescer
7% ao ano, deixando muitos analistas perplexos. Não há
nada verdadeiramente de inusitado. Os americanos continuam a crescer
seus modestos 2,1% ao ano de sempre, só que implantam seus novos
investimentos em somente quatro meses, e não mais em doze, como
antigamente.
Nós, infelizmente, ainda levamos quatro anos para fazer o que
deveríamos fazer em um. Nossas leis precisam de demoradas reformas
constitucionais para mudar. Não é por coincidência
que os maiores críticos da globalização são
professores que continuam dando as mesmíssimas matérias
nos mesmos doze meses de sempre. Reduzir um curso de quatro anos para
três, cortando matérias desnecessárias, ensinar
melhor e mais rápido sem encher as aulas com lengalenga, nem
pensar. Os grandes opositores da globalização são
os conservadores que, como sempre, preferem que o tempo pare, a seu
favor.
Ilustração Ale Setti
No fim do ano que vem estaremos figurativamente em 2007, não
em 2004. Só que ainda estamos discutindo as reformas de 2003.
Ninguém leu corretamente Darwin, que nunca falou da sobrevivência
do mais forte. O que ele mostra é a sobrevivência do mais
ágil, aquele que se adapta às mudanças inevitáveis
do mundo com maior rapidez. São os lerdos que são comidos
pelos tigres. Normalmente as vítimas são animais fortes
que se tornaram velhos e lentos. Na selva capitalista não sobrevive
o mais forte, como todo mundo acredita, e sim o mais rápido,
que enxerga e responde com dinamismo. Não são aqueles
que têm os melhores genes que sobrevivem, apesar de a maioria
dos livros dizer justamente o contrário. São aqueles que
se adaptam mais rapidamente, que mesmo com adaptações
imperfeitas enfrentam o problema.
Temos centenas de partes do corpo que são meros quebra-galhos,
e não as melhores adaptações possíveis.
Se você tem constantes dores nas costas, lembre-se de que a coluna
não foi feita para que ficássemos em pé, e sim
para andarmos de quatro.
Uma das saídas dessa sinuca, no nível pessoal, não
é necessariamente fazer mais em menos tempo, mas sim largar tarefas
menos essenciais e se concentrar naquilo que realmente é importante.
Isso significa largar funções que você continua
a carregar por tradição, para manter poder ou por vaidade.
Sem querer generalizar, todo ser humano tende a procurar mais poder
do que consegue administrar.
Delegar tarefas, funções e trabalho é visto como
derrota, uma perda de poder, fatal para qualquer político, executivo
ou chefe de departamento.
Em vez de encarar a delegação como diminuição
de status, encare-a como uma forma de se concentrar naquele nicho em
que você realmente é mais competente, o que no fundo lhe
trará muito mais poder. O segredo é fazer menos e melhor,
algo que ainda não aprendemos. Eu também gostaria de que
o tempo andasse mais lentamente, ou que o Primeiro Mundo tirasse nove
meses de férias em vez de continuar trabalhando como louco, tirando
nossos empregos.
Por outro lado, essa aceleração do tempo significa que
poderíamos estar resolvendo mais rapidamente inúmeros
problemas brasileiros, em especial nossos problemas sociais.
O fato de que o tempo acelerou pode ser parte da solução,
não somente parte do problema. Portanto mexa-se, e feliz 2007
para todos.
*
Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
Artigo Publicado na Revista Veja,
edição 1833, ano 36, nº 50, 17 de dezembro de 2003.