Após
o sucesso da primeira fase da Campanha do Desarmamento e do Mutirão
Nacional de Entrega de Armas, as organizações, redes
parceiras e igrejas estão se mobilizando para disponibilizar
elementos para que os cidadãos possam refletir sobra e pergunta
que será feita
a cada um e cada uma através de referendo, no próximo
dia 23 de outubro:“ O comércio de armas de fogo e munição
deve ser proibido no Brasil?”. Para auxiliar, o grupo divulgou
alguns subsídios como o que transcrevemos abaixo - uma questão
de vida em 10 pontos pacíficos - que traz dados muito interessantes
para auxiliar na reflexão. Confira e passe adiante!
Referendo do desarmamento - uma questão de vida em 10 pontos pacíficos
Procurai a paz da cidade e orai por ela ao Senhor, porque na sua
paz vós tereis paz. (Jr 29.7)
No dia 23 de outubro, será realizado o primeiro referendo da história
brasileira. Essa é uma importante conquista de nossa democracia. A
pergunta será: O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido
no Brasil?
Muitos mitos e mentiras estão sendo veiculados pelos defensores das
armas. Para decidir com consciência, os brasileiros precisam conhecer a
verdade dos fatos. A cada 13 minutos, morre uma pessoa no Brasil
vitimada por arma de fogo. São muitas as razões para dizer SIM à
proibição do comércio de armas e munição no Brasil. Vejamos 10 pontos
pacíficos:
1. MAIS ARMAS, MENOS VIDAS
O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham
vida e vida abundante. (Jo 10.10).
A arma de fogo não é a causa da violência. A arma de fogo propaga a
violência e agrava a sua natureza, tornando-a mortal. No Brasil, a
violência é uma epidemia e a arma o seu mais perigoso transmissor.
Segundo a UNESCO [Mortes Matadas, 2005], o Brasil é o país onde mais se
mata e mais se morre por arma de fogo no mundo, mesmo em comparação com
países que estão em guerra. Em 2003, morreram 39.284 brasileiros
vitimados por arma de fogo. São 108 mortos e 53 feridos por dia. Ao
contrário do que afirmam os defensores das armas, os dados do
Ministério da Saúde provam que, no Brasil, as armas de fogo matam mais
do que acidentes de trânsito.
2. TER ARMAS EM CASA AUMENTA O RISCO, NÃO A PROTEÇÃO
Se o Senhor não guardar a cidade em vão vigia a sentinela. (Sl 127.1b).
Todo cidadão tem o direito à legítima defesa da sua família, da sua
casa e propriedade. Mas é um equívoco achar que uma arma vai ajudá-lo.
Muito pelo contrário, as armas em casa costumam se voltar contra a
própria família. Segunda pesquisa americana, uma arma em casa tem 22
vezes mais chances de ser envolvida em suicídios, acidentes ou
homicídios entre conhecidos do que de ser usada em situação de legítima
defesa [J. of Trauma, 1999]. Segundo o governo norte-americano [FBI,
2001], para cada sucesso no uso defensivo de arma de fogo em homicídio
justificável, houve 185 mortes com arma de fogo em homicídios,
suicídios ou acidentes. No Brasil, os dados do Ministério da Saúde
também comprovam este fato [Datasus, 2002]:
Suicídios:
- A arma de fogo é o método de suicídio mais utilizado por homens
no Brasil.
Acidentes:
- Um terço das pessoas feridas por arma de fogo no Brasil foram
vítimas
de
tiros acidentais.
- Os hospitais brasileiros atendem três crianças por dia feridas por
arma de fogo. Duas delas foram vítimas de acidentes. Os pais guardam
armas em casa para se defender, mas o próprio filho acaba
encontrando-as e causando trágicos acidentes.
3. A PRESENÇA DE UMA ARMA PODE TRANSFORMAR QUALQUER CONFLITO EM TRAGÉDIA E QUALQUER CIDADÃO
EM CRIMINOSO
Então disse Jesus: Mete a tua espada no seu lugar; porque todos os que
lançarem mão da espada, à espada morrerão. (Mt 26.52).
Costuma-se imaginar que o perigo vem de fora (assaltantes, bandidos,
etc.). Segundo pesquisa do FBI, nos Estados Unidos, entre 1976 e 2002,
só 15% dos homicídios de homens e 8% dos homicídios de mulheres foram
cometidos por estranhos. E no Brasil?
Em São Paulo, em 46% dos homicídios, a vítima e autor se conheciam
(parentesco, vizinhança ou amizade) [NEV/USP, 1996]. No Rio de Janeiro,
em
cada três crimes com vítimas por arma de fogo, um envolve uma pessoa próxima da vítima
[ISER, 1997].
Crimes violentos não são causados apenas por bandidos, mas também entre
pessoas de bem, sem antecedentes criminais, que perdem a cabeça e tiram a
vida umas das outras em situações banais: brigas de trânsito, entre
vizinhos, no futebol, em bares ou dentro de suas próprias casas. Armas
de fogo transformam desavenças banais em tragédias irreversíveis.
4. AS ARMAS DE FOGO SÃO UMA GRANDE AMEAÇA À VIDA DAS MULHERES
Marido, ame a sua própria mulher como a si mesmo... (Ef 5. 33).
Internacionalmente, 40 a 70% dos homicídios de mulheres são cometidos
pelos seus parceiros íntimos. [Dahlburg and Krug, 2002]. Quando o
marido ou
companheiro tem acesso a uma arma, o risco da mulher ser assassinada
por ele é cinco vezes maior [American J. of Public Health, 2003]. Nas
capitais
brasileiras, 44,4% dos homicídios de mulheres são cometidos com arma de
fogo [Datasus, 2002]. A maioria delas é vítima de seu próprio marido ou
companheiro.
5. EM CASO DE ASSALTO QUEM REAGE MORRE
As pessoas que amam a paz deixam descendentes... (Sl 37.37)
Muitos brasileiros, desconfiados da eficácia da polícia, consideram que uma
arma pode ajudá-los a se defender durante um assalto. Mas é um mito
considerar que com uma arma o cidadão está mais protegido! Por quê?
Porque o bandido tem sempre a iniciativa e a vantagem do elemento
surpresa. Na maioria dos assaltos, mesmo pessoas treinadas não têm
tempo de reagir e
sacar sua arma. E o que é mais grave: quando o cidadão reage, ele tem mais
chance de se ferir ou ser morto do que ser bem sucedido no enfrentamento do
bandido. E o criminoso acaba levando a arma da vítima consigo. Isso foi
comprovado numa pesquisa do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais,
de São Paulo.
Existem situações onde arma foi usada para se defender? Existem, mas como
comprovam todas as pesquisas sérias feitas sobre o assunto, são exceções e políticas públicas não são baseadas em exceções.
6. TER ARMA EM CASA NÃO ESPANTA BANDIDO E AUMENTA O RISCO PARA A VÍTIMA,
AFINAL,
ARMAS FORAM FEITAS PARA MATAR
O Senhor repreenderá os povos e estes converterão as suas espadas em relhas de arado e as suas lanças
em foices. (Is 2.4).
Alega-se que lares sem armas correm mais risco de sofrer invasões e
assaltos. Na verdade, uma das razões de assaltos a empresas e
residências é justamente o roubo de armas.
Além de evitar mortes acidentais, suicídios e homicídios entre
conhecidos, a ausência de armas em casa pode diminuir o grau de
violência empregado por assaltantes.
A Associação Nacional de Fuzis norte-americana argumenta que carros
também matam e pergunta se também devem ser proibidos. Todo mundo sabe
que automóveis matam por acidente e não de forma intencional. Ao
contrário,
armas de fogo são desenhadas para matar, e com eficácia, diminuindo o
risco de dano ao agressor por matar à distância e sem dar chance à
vítima. Elas permitem matar várias pessoas em frações de segundos,
podendo atingir inocentes com balas perdidas que, em 2003, causaram uma
morte a cada 6 dias no Estado do Rio, segundo a Secretaria de Segurança
Pública do Estado.
7. AS ARMAS NO BRASIL ESTÃO FORA DE CONTROLE. CONTROLAR AS ARMAS LEGAIS
AJUDA
A LUTAR CONTRA O CRIME
Aparte-se do mal e faça o bem: procure a paz a siga-a. (1Pe 3.11)
Pesquisa publicada pelo Viva Rio, em parceria com os especialistas do Instituto
Suíço Small Arms Survey,
estima o número total de armas em circulação no Brasil em 17 milhões e
500 mil. Apenas 10% dessas armas são do Estado, o resto, ou seja 90%,
estão em mãos civis (a média internacional é de 60%). As armas ilegais
representam 50% do total.
É um mito achar que as armas que mais nos ameaçam têm cano longo, são
estrangeiras e contrabandeadas. Pesquisa feita em colaboração com a
Polícia Civil do Rio de Janeiro revela que 80% das armas apreendidas
entre os anos de 1950 e 2003 são armas curtas: pistolas (15%) e
revólveres (65%); 76% são brasileiras, e 63% de uma só marca, a
Taurus-Rossi. As armas mais utilizadas em assaltos e em conflitos
banais são pistolas e revólveres, em sua maioria fabricados no Brasil.
Vinte e cinco por cento do total das armas apreendidas pela polícia do
RJ entre 1950 e 2003 tinham registro legal [DFAE, 1003]. Quer dizer,
foram compradas legalmente, registradas na policia e depois caíram em
mãos erradas. Involuntariamente, a pessoa que compra uma arma na loja
acaba abastecendo o crime quando a sua arma é furtada, roubada, perdida
ou revendida. Em 2003, a Polícia Federal
informou o roubo de 40.000 armas que estavam em poder de cidadãos de bem.
8. O ESTATUTO DO DESARMAMENTO É UMA LEI QUE DESARMA O BANDIDO
No que depender de vocês, façam todo o possível para viver em paz com todas as
pessoas. (Rm 12.18).
Baseando-se nos dados que comprovam o impacto das armas na saúde
pública, os riscos que elas trazem para a sociedade e a importância de
controlar o mercado legal para diminuir o ilegal, o Congresso aprovou
em Dezembro de 2003 o chamado Estatuto do Desarmamento. O que ele
determina?
- Tornou mais difícil a compra de uma arma de fogo.
- Proibiu o porte de arma para o cidadão comum. Agora é crime
inafiançável com penas de até 6 anos. Em São Paulo, por exemplo, no
decorrer da nova lei, o número de armas em circulação caiu em 24%.
- Previu uma Campanha de Entrega Voluntária de Armas, que foi iniciada
em
julho de 2004 e deve encerrar-se em outubro de 2005. Em um ano, essa campanha
recolheu 400 mil armas!
O Estatuto também determinou que fosse realizado, em outubro de 2005,
um Referendo Popular para abolir o comércio de armas no Brasil. A
implementação do Estatuto é um dos principais instrumentos de que
dispõe hoje a sociedade brasileira para desarmar os bandidos.
9. ABOLIR O COMÉRCIO LEGAL DE ARMAS PREJUDICA O MERCADO ILEGAL E A PROIBIÇÃO NÃO VAI LEVAR A INDÚSTRIA DE ARMAS À FALÊNCIA
Há muito que eu habito com aqueles que odeiam a paz. Eu sou pela
paz; mas
eles falam a favor da guerra. (Sl 120.7).
O mercado ilegal já existe e estima-se que ele seja responsável por
50% das
armas em circulação no país. A proibição de armas não vai criar um fato
novo. A redução da oferta no comércio legal vai levar a um aumento dos
preços no mercado ilegal, tornando mais difícil a aquisição. Esta
tendência já está comprovada, por exemplo, no estado de Santa Catarina
onde, segundo fontes policiais, o preço do revolver 38 quintuplicou
no mercado ilegal.
Depois das medidas recentes de controle de armas no Brasil, as armas
brasileiras vendidas no Paraguai ficaram mais caras e estão custando
o mesmo que as estrangeiras.
O comércio para civis representa uma porção pequena dos negócios das
indústrias de armas. A Taurus-Rossi e a CBC (Cia Brasileira de
Cartuchos) são as principais indústrias de armas e munições no Brasil.
A maior parte de sua produção é vendida para as Polícias e Forças
Armadas ou exportadas. No caso da Taurus, o comércio pra civis
representa menos de 25% das vendas (Comissão de Valores Mobiliários,
2003).
A maior parte dessas fábricas, além de armas, produzem também outras
mercadorias, como coletes a prova de balas, ferramentas de mão e
máquinas. Apenas 41% da produção do Grupo Taurus corresponde a armas
[CVM, 2003].
Alega-se que a indústria armamentista emprega 40 mil pessoas que serão
demitidas com a proibição do comércio de armas. Segundo o IBGE, o total
de número de empregados pela indústria brasileira de armas em 2002 não
passa de 6.442 pessoas. Também costuma-se dizer que a indústria de
armas e munição é um bastião da economia brasileira quando, na verdade,
ela tem um peso mínimo na indústria do país: ela representa só 0,048%
da produção industrial total e 0,015% do PIB. Muito menos que a
indústria de meias, por exemplo. No estado do RS, onde estão as maiores
fábricas de armas como a Taurus-Rossi, as armas representam 0,2% da
produção industrial deste estado. [Pesquisa Industrial Anual, 2002].
Pode-se dizer que as armas são um pequeno problema (em termos de
peso
econômico), mas causam grandes estragos. Em 2002, o sistema público de
saúde gastou R$ 140 milhões para tratar de feridos por armas de fogo
[ISER, 2005].
10. CONTROLAR AS ARMAS SALVA VIDAS
Que o Senhor da paz dê a vocês paz sempre. (2Ts 3.16)
As leis de controle de armas ajudam a diminuir os riscos para todos.
Leva tempo para medir efeitos de uma lei votada recentemente e que
ainda não está sendo integralmente aplicada. Porém, alguns resultados
positivos já foram observados.
- Uma pesquisa do Ministério da Saúde mostrou que a campanha do
desarmamento provocou uma redução das internações hospitalares causadas
por arma de fogo nos Estados de São Paulo (-7%) e Rio de Janeiro
(-10,5%) entre Janeiro 2004 e fevereiro 2005.
- Alguns estados já notificaram diminuição nas taxas de homicídios. Em
São Paulo, os homicídios caíram 18,5 % no ano passado, e 22% na capital
[SSP-SP]. Na região metropolitana de Curitiba (PR), o número de
homicídios caiu em 27% entre 2003 e 2004 [SSP-PR]. Em Pernambuco,
segundo a Secretaria de Defesa Social houve uma redução de
10,8% do numero assassinatos, comparando-se os primeiros 9
meses de
2003 e 2004.
REFERENDO: UMA CHANCE PARA TODOS
Existem vários fatores que influenciam a violência (a desigualdade
social, a eficiência dos sistemas de justiça e segurança pública etc).
Estes fatores podem ser corrigidos com reformas estruturais de longo
prazo. O objetivo do desarmamento não é acabar com a violência, mas
diminuir a letalidade da violência.
O referendo se justifica pelo volume de armas no Brasil. Segundo
dados da Policia Federal (SINARM), em 2004 foram registradas 53.811
novas
armas de fogo compradas por civis no Brasil. No primeiro trimestre
de 2005, foram registradas 16.089 vendas de armas para civis. Projeta-se,
para o ano todo, que a venda legal atinja 65 mil armas.
O referendo do desarmamento no Brasil é uma afirmação da democracia.
Convida a população a decidir sobre um tema de imensa relevância para a
construção de uma sociedade mais pacífica. As pesquisas de opinião
mostram que o povo quer participar e votar sim. Segundo o IBOPE
(19/07/05), 81% dos Brasileiros são a favor da abolição do comércio de
armas e munição no Brasil.
O referendo é a oportunidade de mostrar em que tipo de sociedade
queremos viver. O voto é obrigatório acima de 18 anos e opcional
para jovens entre 16 e 18 anos.
Por um Brasil sem armas, sim pela vida. Pontos pacíficos!
Fonte: Coordenação de Religião e Paz do Viva
Rio