P. Dr. Valério Guilherme Schaper
*
Sobre
Belo Horizonte, a tarde cai imprecisa, cinza, nervosa e barulhenta
como sempre. Ele, boné qualquer de propaganda, camisa escolar
puída na gola e nas mangas, um jeans bem surrado, caminha decidida
e dignamente. Uma velha bota preta, solado solto, torna seu caminhar
engraçado, chapliniante! Nas mãos leva dois
toquinhos de madeira e algo como um cabo de vassoura, caprichosamente
emborrachado. Nas pontas, a borracha forma um tipo de rabiola. Ele
não tem nome: um menino qualquer entre outros milhões.
Pára solenemente junto ao sinal de trânsito,
na confluência das ruas Cláudio Manoel, Getúlio
Vargas e Afonso Pena. O sinal fecha. Destemido, ele avança
e se posta diante das agressivas filas de carros. Sem demora, faz
uma breve reverência e inicia seu número, mantendo o
cabo de vassoura emborrachado no ar com os dois toquinhos de madeira.
Ele faz o cabo emborrachado girar, jogando-o para cima e aparando-o
novamente com destreza. Com habilidade, repete esse movimento com
uma das mãos passando por baixo da perna esquerda e, em seguida,
por baixo da perna direita.
De repente, o cabo emborrachado cai. Imperturbável,
ele apanha o cabo e recomeça. Faz novas evoluções
e, para o grande final, atira o emborrachado bem alto e - momento
crítico - apanha-o com uma das mãos. Vitorioso, curva-se
solenemente para os carros, tira o boné e começa a andar
por entre as filas, recolhendo uma moeda aqui e outra, acolá.
Antes que o sinal abra, retorna rapidamente para a calçada
até que o sinal feche novamente.
Confesso que, a primeira vez que os vi, assustei-me.
Perguntas: Artes circenses na rua? Há um circo na cidade? É
propaganda? E vieram outros... e outros... e outras. A cidade converteu-se
num enorme circo. Hoje, indiferente, transito inconsciente e impassível
pelos picadeiros urbanos desse grande circo, espalhado pelos cruzamentos
da cidade. No início, eram alguns e poucos! Agora, são
muitos... milhares (milhões, não sei!). Eram inicialmente
algo mais profissionais. Agora, qualquer tiquinho de gente, que mal
ainda consegue se equilibrar sobre as pernas, esforça-se por
equilibrar coisas pelas esquinas. Pelos sinais abertos, vejo-os pelos
cantos das calçadas, intercambiando esse konw-how circense.
Na verdade, há uma diversidade impressionante
dessas artes: engolidores de fogo, equilibristas, malabaristas, músicos,
vendedores, somados a um assombroso número de pedintes (a arte
dramática e hiper-realista dos aleijados, dos doentes, dos
maltratados, dos maltrapilhos, dos excluídos), etc. São
saltimbancos de ocasião. Eu, na platéia, não
acho graça de nada. Começo a me sentir o palhaço.
Subitamente, transido de espanto, assalta-me a pergunta: quem será
o dono desse circo? Como eu cheguei aqui? Na verdade, como chegamos
aqui? Quanto custou o bilhete para esse espetáculo deprimente?
Como eu saio daqui? Como sairemos daqui? E se, repentinamente, houver
um quebra-quebra, uma revolta dos artistas-mirins insatisfeitos com
as péssimas condições de trabalho? Não,
não há nem sinal de raiva! Tudo acalma! Tudo é
calma! Tudo transcorre em paz, mas, no fundo, sente-se em todos a
respiração presa como quando o trapezista se prepara
para um salto mortal (duplo, triplo...??)
"Mas há milhões desses seres
Que se disfarçam tão bem
Que ninguém pergunta
De onde esta gente vem."
(Chico Buarque, Brejo da Cruz. 1984)
De onde essa gente vem? Para onde essa gente vai? Pelos
cruzamentos, picadeiros onipresentes, "assumem formas mil"
(Idem). Vidas irremediavelmente perdidas?
"Já nem se lembram
Que eram crianças
E que comiam luz." (Idem)
Aprendem artes novas, truques novos para entreter uma
platéia fria e dispersa. Reinventam a brincadeira: "se
esta rua, se esta rua fosse minha (...)"! Sem casa e quintal,
reconquistam a rua como o lugar da diversão. Querem brincar:
direito fundamental de toda criança! Transformam os cruzamentos
em playgrounds públicos, democráticos e, assim, do lúdico
para o trágico, tentam burlar a injusta partilha dos bens nesses
picadeiros surrealistas. Atiramos moedas!
E brincam... brincam de ganhar a vida, pois toda outra
brincadeira foi interditada, subtraída, interrompida. É
a arte por contingência, pois a vida é mais forte que
a morte. A vida é mais forte que a arte. Mas, quem sabe, a
arte, essa arte, transforme e transcenda a vida, essa miséria
de vida. Quem sabe? Não sei! Não sei! "Não
sei se é um truque banal/ Se um invisível cordão/
Sustenta a vida real.(...)/ Não sei se é uma nova ilusão/
Se após o salto mortal", há uma possível
redenção. "Não sei se é vida real/
Um invisível cordão/ Após o salto mortal."
(Edu Lobo - Chico Buarque, O Circo Místico, 1982.). Não
sei! ´Hoje tem marmelada? Tem, sim Senhor! Hoje tem goiabada?
Tem, sim Senhor! E o palhaço, o que é? (...). Respeitável
público... hoje temos o prazer de apresentar... o espetáculo
da vida!´.
* P. Dr. Valério Guilherme Schaper
Professor da Escola Superior de Teologia / São Leopoldo - RS
Ex-pastor da Comunidade Evangélica de Confissão Luterana
em Belo Horizonte