Karla Dunder
A
arte vista como um instrumento para educar e integrar crianças
que convivem com a pobreza e a violência em favelas e periferias.
Essa concepção une a ação do Edisca - Escola
de Dança e Integração Social para Crianças
e Adolescentes - em Fortaleza e o Projeto Sambalelê, da ONG Corpo
Cidadão, em Belo Horizonte.
Para as duas organizações, a idéia
não é formar músicos, bailarinos ou artistas, mas
sim ampliar o universo cultural de cada criança, utilizando jogos
e brincadeiras que desenvolvem criatividade e habilidades. Meninos e
meninas têm acesso a informações e novas linguagens,
além do acesso à assistência médica, odontológica,
nutrição e vale-transporte.
No final do ano, haverá a apresentação
de um espetáculo. "No entanto, esse não é
o nosso foco; o mais importante está na experiência que
essas crianças adquiriram ao longo do tempo. Discutir se o que
fazemos é arte ou não é secundário, o mais
importante está no que eles vivenciaram, no contato com a arte,
esta deve ser compreendida como um instrumento para o desenvolvimento
humano. A importância não está no resultado, mas
sim em todo o processo", diz Dora Andrade, diretora do Edisca.
O grupo, fundado há dez anos, utilizava uma pedagogia
centrada no balé. O programa cresceu, passando a outras linguagens
como o canto e o teatro.
"Percebemos a importância do trabalho com
as famílias e a alfabetização de adultos",
diz. Grupos de convivência para pais e alunos são mantidos
para promover atividades para toda a família, como oficinas de
arte e uma série de debates que tratam de temas importantes para
toda a comunidade.
"Atualmente, pretendemos atuar em outros municípios
do sertão." A idéia é ampliar a ação
do Edisca em parceria com outras organizações
com a meta de atingir 7 mil pessoas. A proposta, desde a fundação,
segundo os organizadores, consiste em combater a exclusão social,
a miséria e oferecer oportunidades aos jovens talentos.
O Edisca atende uma média de 400 crianças
por ano, meninos e meninas de 7 a 17 anos, moradores de favelas e da
periferia de Fortaleza, vindas do Conjunto Palmeiras, Grande Bom Jardim,
Mucuripe e Dendê.
Para a sua manutenção o grupo conta com
a venda dos ingressos de espetáculos, de CDs e camisetas e de
uma rede de parceiros, como o governo e instituições e
fundações, como a Abrinq, Ayrton Senna e Unesco. As meninas
que compõem a companhia já fizeram diversas viagens, até
mesmo para o exterior, como Áustria e França. "Em
Paris, participamos de um seminário sobre a situação
das crianças em todo o mundo. A discussão girou principalmente
sobre a questão da fome. Há problemas em diversos lugares,
procuramos saídas." As meninas estão arrumando as
malas e, em novembro, voltam a embarcar para a França e Alemanha.
Do dia 30 a 1.º de setembro elas apresentam a coreografia Koi-Guera,
em Fortaleza.
O Edisca também foi a fonte de inspiração
para integrantes do Grupo Corpo em fundar a organização
não-governamental Corpo Cidadão, que atua com o projeto
Sambalelê, nascido em 1998, para atender crianças da favela
Santa Ifigênia.
O grupo age em parceria com entidades como Grupo Fraternidade
Irmã Scheila, Associação Querubins e Centro
de Integração Martinho (clique
aqui para saber mais sobre esta entidade).
O Sambalelê leva aulas de dança clássica,
confecções de instrumentos musicais de percussão
com material reciclado, oficina de canto, canto-coral e instrumentalização
e capoeira de Angola. "O critério para a escolha dos meninos,
no início, era que apresentassem baixíssima renda e dificuldades
no rendimento escolar. No começo tivemos grande dificuldade com
a falta de disciplina dessa moçadinha, eles vivem em uma realidade
sem limites. Hoje, no quinto ano do projeto, estão mais envolvidos
e os professores conquistaram a disciplina da turma", diz Miriam
Pederneiras. A platéia, acrescenta, também age com mais
respeito durante a apresentação dos espetáculos.
Miriam conta que o grupo realizou uma série de
reuniões para decidir como tratar esses meninos e meninas e qual
a melhor forma de conduzir o projeto.
"Decidimos que não importavam os termos artísticos
ou técnicos em si, o que valia era a conquista, os estímulos
novos. As apresentações funcionam como um incentivo, auxiliam
os participantes a verem o que estão aprendendo e aquilo que
são capazes de fazer. A arte sensibiliza e traz uma maneira mais
aguçada de ver as coisas."
Nos primeiros dois anos do projeto, os participantes
eram vistos como problemáticos e havia um estigma negativo entre
os meninos. Com o passar do tempo e as apresentações nos
teatros, houve uma mudança de atitude.
Conseqüentemente, a procura aumentou. O Sambalelê
começou com 120 crianças e atualmente atende 420, de 6
a 18 anos, oferecendo alimentação e atendimento de saúde.
Os pais são convidados a participar, os encontros visam ao desenvolvimento
do processo de aprendizagem dos seus filhos. O projeto Sambalelê
tem patrocínio da Petrobrás.
Karla Dunder
Sexta-feira, 16 de agosto de 2002
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