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palavras sobre os santos
 

Alexandre Gomes Nordskog *

Não raramente vemos nos jornais ou na televisão autoridades religiosas cristãs falando sobre os santos, estes homens e mulheres, heróis da fé, que no seguimento de Jesus, oferecem amorosamente o melhor de suas vidas em favor do próximo.

Em que pese qualquer divergência a respeito de quem são os santos, creio que não seria demasiado pretensioso se, observando a vida dos seguidores de Cristo, narrada na Bíblia, disséssemos algumas palavras sobre estes entes humanos especiais. Eles (as), em um primeiro momento, são pessoas simples, muitas vezes pecadores; são pessoas contraditórias que erram, porém se arrependem; são pessoas que, amiúde, vivem dúvidas e, sem trégua, sentem visceralmente o peso de um dilema: servir ou não servir.

Os santos, a priori, são gente como a gente. A diferença, me parece, está na resposta dada por eles diante da trama existencial que envolve suas paixões, desejos, fé e, enfim, o amor ao próximo, refletido na responsabilidade pelos que mais sofrem. Eles escolhem abrir mão de um “Eu” para tornarem-se “eu” totalmente entregue ao outro; eles experimentam uma espécie de insônia que não cessa nunca, como se fosse impossível o descanso, lá onde interioridade se esconde, sem a consciência plena de que o outro ESPAÇO DE REFLEXÃO “Palavras sobre os santos” Alexandre Gomes Nordskog vive uma vida digna. Abrindo hospitaleiramente sua morada interior ao próximo, o santo dá ao estrangeiro o seu afeto, o seu entusiasmo e, em tantos casos, seu sacrifício.

Emmanuel Lévinas, filósofo lituano de ascendência judaica, radicado na França e falecido em 1995, certa vez perguntado sobre quem poderia mudar o mundo não tergiversou em sua resposta: “os santos e os justos”. Lévinas, que desenvolveu uma filosofia da alteridade e propôs um novo humanismo denominado “humanismo do outro homem”, título de um de seus livros, nos mostra a impossibilidade de toda e qualquer liberdade fundada no si-mesmo e em detrimento do outro. Em muitos de seus escritos, ele foi ainda mais fundo, denunciando a falência e o comprometimento das filosofias ocidentais, ancoradas no egoísmo ou em lógica que exclui o outro já no advento do ato de pensar.

Lévinas nos ajuda a perceber que santidade e justiça andam de mãos dadas. Eles, os santos, se sentem convocados pelo Eterno a se posicionarem na direção do bem e da justiça. A justiça a qual me refiro não é aquela que julga, mas, sim, aquela que não mede esforços para consubstanciar a reconciliação e o amor entre os homens. Neste sentido, cada um de nós recebe o mesmo chamado recebido pelos santos consagrados aqui, ali ou acolá. Este chamado não é apenas uma inclinação subjetiva para sermos justos, nem somente um desígnio ético para sermos verdadeiros diante do outro. O chamado é a própria escuta que conduz ao despertar de uma compreensão íntima, anterior ao pensamento grego, de que o outro precede e deve prevalecer sobre os propósitos do ser individual.

Concordo com quem diz que o mundo está carente de santos. Todavia, os santos existem e estão por aí, realizando suas obras de amor anonimamente. Tudo que um santo ou uma santa jamais gostaria de ver, me parece claro, é o exercício de sua profunda entrega reduzido a uma imagem. A melhor forma de homenageá-los, creio, é seguirmos seus exemplos, dedicando o melhor do nosso amor “a estes nossos pequeninos irmãos” necessitados, como nos ensinou Aquele cuja santidade ninguém há de duvidar.


* Alexandre Gomes Nordskog é sociólogo, professor universitário,
membro da Paróquia Bom Samaritano.
Texto publicado no Jornal da paróquia.

 

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