Stephen Kanitz *
"Se o próximo governo não
conseguir corresponder às expectativas de melhoria no social, arrisco
fazer uma estranha previsão. Seguramente veremos surgir um novo
partido político, o Partido do Terceiro Setor (P3S), do qual farei
questão de ser um dos primeiros filiados."
Em março perguntamos aos líderes sociais
das 400 maiores entidades do Brasil, que transitam pelo site www.filantropia.org:
"Qual candidato à Presidência daria maior atenção
ao terceiro setor?". Mais de 1.600 líderes responderam à
questão. Lula recebeu 49% dos votos dos gestores sociais, indicando
já em maio de 2002 que o setor havia optado por ele. Como tudo
em internet, os resultados estavam disponíveis para todos os
políticos interessados no terceiro setor, mas pelo jeito ninguém
deu bola.
As
400 maiores entidades do país auxiliam 13,4 milhões de
pessoas diretamente e muito mais do que isso indiretamente. É
muito voto! Sempre acreditei que um dia o setor seria uma força
política para garantir a eleição de qualquer candidato,
hoje e no futuro. É um setor que tem garra, que tem acabativa
(qualidade de transformar planos em realidade), que busca o que precisa
com unhas e dentes, que não fica no discurso fácil da
academia e da política. Se algum cientista político está
tentando descobrir onde errou, por que Lula obteve tantos mais votos
que o próprio PT, posso garantir que o terceiro setor teve enorme
influência nesta eleição.
A primeira vez que Antoninho Marmo Trevisan, assessor
de Lula e membro do conselho do nosso www.filantropia.org, ouviu que
seu candidato tinha chance de ganhar as eleições já
no primeiro turno foi exatamente seis meses atrás. O terceiro
setor daqui para diante será um marco de referência para
todo marqueteiro político.
O erro de José Serra foi concentrar-se no econômico,
talvez por ser economista. Lula deveria ter dado graças a Deus
por não ter um Ph.D. Por isso, ele observou a realidade brasileira,
e não os livros de economia, para saber que a questão
seria o social, a opção que tomou em sua campanha. Um
governo que acabou com a inflação e imprimiu um crescimento
do PIB de 9% ao ano não tem muito mais a oferecer à população
na área econômica.
Dezenas de estudantes de economia me enviaram e-mails
criticando o artigo sobre o crescimento do PIB (VEJA, 18 de setembro).
Pedi que me enviassem as críticas pelo correio, para que o papel,
o envelope e o selo aumentassem em mais 1% o crescimento de nosso PIB,
segundo os critérios que eles tanto defendem.
Desde 1995 solicitamos mensalmente aos líderes
das 400 maiores entidades do país que avaliem o governo na área
social. Em 1999, 78% consideraram o governo Fernando Henrique Cardoso
ruim ou péssimo. Em setembro de 2002, somente 17% o viam como
excelente e bom. A sorte já estava selada. Fernando Henrique
ignorou o terceiro setor, deixou o social mais nas mãos de dona
Ruth Cardoso, sem verbas nem apoio. Ela teve de se esforçar em
tempo integral para angariar fundos para a comunidade, pedindo verbas
a empresários, num trabalho árduo de fund raising (captação
de recursos junto a empresas e pessoas físicas que resulta em
doações a entidades assistenciais).
As entidades se sentiam ameaçadas quando dona
Ruth visitava uma cidade. No dia seguinte, era quase certo que algum
empresário local cortaria a verba sistemática de ajuda
de vários anos. "Dona Mariazinha, lamento informar que neste
ano não vamos poder colaborar. Nosso apoio foi para ajudar outra
causa que eu não tive como negar." E não poderia
mesmo. Afinal, era a mulher do presidente. Até eu recebi um telefonema
desses, e o serviço Doe Bens para uma Entidade, do www.filantropia.org,
continua sem patrocinador.
As 400 maiores entidades se sentem machucadas, abandonadas
e usadas pelo governo e pelos políticos, que somente as procuram
na semana anterior às eleições. Posso garantir
que a força política do terceiro setor veio para ficar.
Nenhum candidato no futuro ousará negligenciar o setor, que será
muito influente nas eleições de 2006, 2010 e 2014, como
o foi nesta eleição.
Se o próximo governo não conseguir corresponder
às expectativas de melhoria no social, arrisco fazer uma estranha
previsão. Seguramente veremos surgir um novo partido político,
o Partido do Terceiro Setor (P3S), do qual farei questão de ser
um dos primeiros filiados.
Um partido que será para milhares de entidades
sociais, e para os realmente necessitados e excluídos, o que
o PT foi com tanto sucesso para os sindicatos e trabalhadores brasileiros:
uma voz ativa.
*
Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
Artigo Publicado na Revista Veja,
edição 1775, ano 35, nº 43, 30 de outubro de 2002.