Stephen Kanitz *
Nenhum
ditado popular explica tão bem os problemas do Brasil e do mundo
como "Em terra de cego quem tem um olho é rei". Ele
mostra por que existe tanta gente incompetente dirigindo nossas empresas
e nossas instituições. Mostra também por que é
tão fácil chegar ao topo da pirâmide social sem
muita visão ou competência. Basta ter um mínimo
de conhecimento para sair pontificando soluções.
Todo mundo palpita em economia e futebol como se fosse Ph.D. no assunto.
Se o técnico Luiz Felipe Scolari tivesse ouvido os palpiteiros,
jamais seríamos pentacampeões mundiais de futebol. Por
isso temos tantos intelectuais para lá de arrogantes, que se
acham predestinados a dirigir nossa vida com muita teoria e pouca informação.
Existe um corolário desse ditado que me preocupa por suas conseqüências.
"Em terra de cego, quem tem um olho é rei, e quem tem dois
olhos é muito malvisto." Indivíduos inteligentes
e capazes são encarados como uma enorme ameaça e precisam
ser rapidamente eliminados pelos que estão no poder.
Por essa razão, pessoas com mérito e competência
dificilmente são promovidas no Brasil. Promovidos são
os bajuladores e puxa-sacos. Quando aparece alguém com dois olhos,
os reizinhos tratam de eliminá-lo, quanto antes melhor.
Já cansei de ver gente competente que, de um momento para o
outro, deixou de ser ouvida pela diretoria. Já vi muito jornalista
que, de repente, caiu em desgraça. Já vi muito jovem comentar
algo brilhante na aula e ser duramente criticado pelo professor, sem
saber o motivo. Todos cometeram o erro fatal de mostrar que tinham dois
olhos. Por favor, não deixe que isso aconteça com você.
Se você é dos milhares de brasileiros que possuem dois
olhos, tome cuidado. Em terra de cego, você corre perigo. Nunca
mostre a seu chefe, professor ou colega de trabalho os olhos que tem.
Lamento não poder dar nenhum bom conselho, eu sou dos que têm
um olho só.
A
maioria dos dois-olhos que conheço já desistiu de lutar
e optou pelo anonimato. Quando eles têm uma idéia brilhante,
colocam a solução na mesa de seus chefes e deixam que
a idéia seja descaradamente roubada. Eles se fingem de mortos,
pois sabem que, se agirem de modo diferente, poderão tornar-se
vítimas. Mas há saídas melhores.
Se seu chefe tem um olho só, mude de emprego e procure companhias
que valorizem o talento, que tenham critérios de avaliação
claros e baseados em meritocracia. São poucas, mas elas existem
e precisam ser prestigiadas.
Ou, então, procure um chefe que tenha dois olhos e grude nele.
Ele é o único que irá entendê-lo. Ajude-o
a formar uma grande equipe. Se ele mudar de empresa, mude com ele. Seja
diferente, procure os melhores chefes para trabalhar, não as
melhores companhias. Normalmente, as grandes empresas já são
dominadas por reizinhos de um olho só.
Por isso, considere criar um negócio com outros como você.
Vocês terão sucesso garantido, pois vão concorrer
com milhares de executivos e empresários de um olho só.
Nosso erro como nação é justamente não identificar
aqueles que enxergam com dois olhos, para poder segui-los pelos caminhos
que trilham. Eles deveriam ser valorizados, e não perseguidos,
como o são. O Brasil precisa desesperadamente de gente que pense
de forma clara e coerente, gente que observe com os próprios
olhos aquilo que está a sua volta, em vez de ler em livros que
nem foram escritos neste país.
Se você for um desses, tenha mais coragem e lute. Junte-se a
eles para combater essa mediocridade mundial que está por aí.
Vocês não se encontram sozinhos. Nosso povo tem dois olhos,
sim, e é muito mais esperto do que se imagina. Ele está
é sendo enganado há tempos, enganado por gente com um
olho só.
Foi-se o tempo de uma elite pensante comandar a massa ignara. Hoje,
a maioria do povo tem acesso à internet e a home pages com mais
informação do que essa intelligentsia tinha quando fez
seu doutorado. Se informação é poder, ela não
é mais restrita a um pequeno grupo de bem formados. Nosso povo
só precisa acreditar mais em si mesmo e perceber que cegos são
os outros, aqueles com um olho só.
*
Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
Artigo Publicado na Revista Veja,
edição 1796, ano 36, nº 13, 2 de abril de 2003.