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em terra de olho quem tem um cego é rei!
 

P. Dr. Valério Guilherme Schaper *

Tenho escrito neste espaço sobre temas do momento nacional. Sempre procuro tratar estes temas sob o olhar da ética. Em minhas análises procuro analisar o que julgo ser o espelho de uma mentalidade ética nacional. Não se trata da ética dos indivíduos, da ética do governo ou da ética dos nossos políticos. Creio que todos os elementos mencionados criam o caldo da mentalidade ética brasileira. Não há "eles", representantes do povo, sem um povo que os tenha elegido. Não há um comportamento ético deles que não expresse os nossos próprios. Não há maus profissionais que não encontrem pessoas dispostas a pagá-los para que exerçam seu ofício. Nos problemas éticos brasileiros, não há "eles" e "eu". A questão ética nacional é um "nós", ainda que procuremos por todos meios, racionalizações e explicações "afastar de nós este cálice". Portanto, qualquer referência que eu faça aqui sobre o governo não tem o intuito da defesa ou desoneração. Quero apenas captar nosso instantâneo ético nacional nas relações que vão do privado ao público.

Posta esta clarificação, quero tecer breves considerações sobre o momento que vive o Congresso Nacional. Não pretendo comentar aqui o que significou a derrota do governo na eleição do presidente da Câmara. A questão não é política, mas ética. Pois bem, qual o significado ético pode ter o fato de o Congresso querer impingir uma derrota ao governo, elegendo o Sr. Severino Cavalcanti?

Entendo que as disputas entre governo e oposição são parte do jogo democrático. É o embate das forças aí representadas que encaminha o possível equilíbrio dos interesses em jogo. Mas o que significa alçar a condição de representante máximo da casa do povo (o Congresso) o Sr. Severino? Ora, ora, não é preciso conhecer profundamente o cenário político brasileiro para perceber, num relance, o que o Sr. Severino significa. Este senhor personifica o que de mais atrasado, retrogrado e repulsivo a lama política brasileiro pode produzir.

Provavelmente faltou habilidade aos articuladores governistas para produzir o consenso necessário para a vitória. Aliás, a imprensa gastou muita tinta e papel para fazer considerações sobre a "arrogância" do PT por ter sido muito intransigente na negociação com o "baixo-clero" do Congresso. Não saberemos jamais qual era o tamanho da concessão (sinal de boa vontade política) que o "baixo-clero" esperava do governo. Somente tomando conhecimento do tamanho da "expectativa" do "baixo-clero" poderemos decidir se a intransigência do governo foi ética ou arrogante.

Independente da resposta à questão acima, podemos dizer que, se ao governo faltou a noção de grandeza da coisa pública ao conduzir de forma tão inábil uma questão tão importante como a presidência da Câmara (implica a tramitação de todos os projetos), a representação coletiva dos interesses nacionais também não teve a grandeza de corrigir isso, conduzindo à presidência um nome realmente a altura do cargo. Não, o Congresso conseguiu, em sua mesquinhez, eleger para seu representante uma figura anedótica para gáudio dos cartunistas e humoristas de plantão. O Congresso transformou um erro político do governo numa tragédia ética nacional de proporções monumentais.

Um resumo do cenário foi traçado com lucidez pelo jornalista Vilas-Bôas Côrrea no JBOline de 18.03.05: "Com a eleição do nobre deputado Severino Cavalcanti para presidente da Câmara, na rebelião dos mansos do baixo clero, com a ajuda irresponsável da oposição, um surto demencial de falta coletiva de decoro desmontou a maioria governista, deixou o presidente Lula à deriva e ensandeceu o plenário, contaminado pela insensatez da Mesa Diretora, na orgia de gastos para multiplicar mordomias, vantagens e benefícios que transformaram o mandato de representante do povo num dos melhores empregos do mundo."

De fato, precisamos concordar que se trata de um "surto demencial de falta coletiva de decoro". A sanha vingativa do Congresso tornou a nação refém de uma forma de condução da coisa pública para a qual já estávamos costurando a mortalha. O Congresso conseguiu ressuscitar o morto e o elevou aos píncaros da glória.

Infelizmente os comportamentos éticos não conhecem progresso definitivo. Todo avanço ético está sempre sujeito à capacidade coletiva de assegurar que os retrocessos não serão tolerados. Entretanto, tudo parece indicar que estamos dispostos a tolerá-los, ainda que seja para espezinhar a suposta "arrogância" petista. O mel da vingança é realmente muito doce, inebriante, mas seu prazer é efêmero. O resíduo é um travo amargo na boca que atende pelo nome de responsabilidade. No momento, este discurso provavelmente encontre poucos ouvidos acolhedores. No momento, nossa raiva é grande, o desejo de vingança é ainda maior. Dormimos embalados pelo riso da imprensa diante das baboseiras que o Sr. Severino Cavalcanti cospe diariamente, respaldado pela sua nova função no cenário político. Haveremos de acordar com o som ríspido da responsabilidade batendo em nossa porta. Sim, nós: o congresso e a sociedade.

A imprensa e a sociedade civil desperta são os olhos atentos e críticos. O que se passa então? Quem sabe seja necessário mudar o conhecido adágio sobre os cegos e os olhos. Agora, talvez, aplique-se melhor o seguinte ditado: "Em terra de olho quem tem um cego é rei" (Stanislaw Ponte Preta).

Há, no entanto, sinais de que, em meio ao alarido triunfal dos ressentidos e o som do dinheiro público escorrendo pelo esgoto da apropriação irregular, um "Severino só" não faz verão. Deixa-se entrever os sinais de que os outros inúmeros "severinos" deste país não estão dispostos a aceitar que as excrescências residuais da história política brasileira tomem de assalto o congresso e tratem a Casa do Povo com sua propriedade particular e o dinheiro público, como coisa privada. Lançando mão dos versos do poeta João Cabral de Melo Neto em seu clássico "Morte e vida Severina", podemos dizer da "formosura" de cada novo "Severino" que nasce:

" (...) é tão belo como um sim numa sala negativa.
Belo porque é uma porta abrindo-se em mais saídas.
Belo porque tem do novo a surpresa e a alegria.
Como qualquer coisa nova inaugurando o seu dia.
E belo porque o novo todo o velho contagia.
Belo porque corrompe com sangue novo a anemia.
Infecciona a miséria com vida nova e sadia.
Com oásis, o deserto,com ventos, a calmaria."


* P. Dr. Valério Guilherme Schaper
Professor da Escola Superior de Teologia/ São Leopoldo - RS

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