"Mulheres que se decidem pelo aborto
normalmente o fazem coagidas. São na sua maioria vítimas
dos homens que não se responsabilizam pela vida que geraram,
ou da ignorância que não soube proteger-se contra a gravidez
indesejada. Não raro são vítimas da violência
sexual na sociedade e família."
Voltou
a ser assunto de debate, no Congresso Nacional e nos meios de comunicação,
a legislação concernente ao aborto provocado por intervenção
externa. Trata-se de um assunto controvertido, mexe com a vida de
muitas pessoas e evoca o apelo a princípios éticos,
tanto dos defensores quanto dos que são contrários.
Por esta razão o debate deverá abranger os mais diversos
segmentos da sociedade, sempre em busca de critérios orientadores
que possam ajudar as pessoas a posicionar-se nesta matéria
tão difícil. Para tanto a IECLB, procurando entender
a vontade de Deus a partir do Evangelho de Jesus Cristo, apresenta
as seguintes considerações:
- Conforme a revista Veja, estima-se que no Brasil são realizados
1,4 milhões de abortos por ano. Por ser considerado crime,
exceto em caso de perigo de vida para a mãe e de estupro,
a interrupção da gravidez está sendo jogada
para a clandestinidade, onde costuma acontecer sem os devidos cuidados
médicos. Muitas mulheres morrem em conseqüência
de intervenções inadequadas realizadas por pessoas
despreparadas. Outras sofrem seqüelas para o resto da vida.
A primeira pergunta a fazer é pelos motivos que levam mulheres
a submeter-se a tais riscos.
- Mulheres que se decidem pelo aborto normalmente o fazem coagidas.
São na sua maioria vítimas dos homens que não
se responsabilizam pela vida que geraram, ou da ignorância
que não soube proteger-se contra a gravidez indesejada. Não
raro são vítimas da violência sexual na sociedade
e família. Em todo aborto também está envolvido
um homem. Há muitos motivos sociais, econômicos ou
outros que forçam as mulheres a procurar solução
na interrupção da gravidez. Em nossa sociedade falta
disposição para discutir esses motivos. Prefere-se
criminalizar as vítimas.
- Mesmo assim o aborto não pode ser aceito como uma solução
para o problema da gravidez indesejada. Implica riscos para a saúde
física e psíquica da gestante e é uma agressão
à vida. Como igreja cristã recebemos do nosso Criador
a tarefa de defender a vida humana desde a sua formação
no ventre materno. lnterrompê-la, fere o mandamento que proíbe
matar. Não podemos concordar, portanto, que se dê à
gestante sozinha o direito de decidir sobre a interrupção
da gravidez, nem podemos permitir que seja coagida pelo parceiro,
pela família ou pela sociedade. O aborto não pode
ser simplesmente liberado, nem pode ser adotado como método
de controle populacional.
- A inconformidade com o aborto, porém, não pode limitar-se
à penalização do ato consumado. Ela nos leva
a empenhar-nos por uma série de medidas preventivas:
- promover uma educação
sexual adequada e conscientizar para a necessidade
do planejamento familiar;
- reavaliar a prática sexual masculina e insistir em que
os homens assumam a responsabilidade
pela vida que geram;
- promover leis severas
que visam punir o estupro e coíbem a violência sexual;
- facilitar o acesso a métodos
anticoncepcionais e a informação
sobre estes, para evitar que gestantes se vejam em situações
em que a única saída parece ser o aborto;
- pressionar o Estado para que seja cumprido o direito
de crianças e adolescentes para assegurar vida digna a toda
vida que está aí e que está para nascer.
- Estamos conscientes, porém, que há situações
em que o aborto é o mal menor. Por isso devem permanecer
as assim chamadas "indicações", ou seja
a especificação de casos em que o aborto se justifica.
Jamais passará de uma "solução de emergência".
Mas também não se pode colocar a vida ainda não
nascida acima do direito à vida da gestante, visto que dela
dependem em boa medida as condições para o desenvolvimento
normal e sadio da criança. Precisa-se levar a sério
a angústia e aflição de mulheres que carregam
em seu ventre uma vida gerada por violência ou coação,
que não vêem condições psíquicas
e econômicas de acolher a criança em gestação
ou que sabem que ela nascerá com graves defeitos. A proteção
à vida das mulheres é o meio mais eficiente para proteger
a vida pré-natal. Nos casos de conflito a mera lei não
basta para resolver as questões. Há que se buscar
a co-responsabilidade da gestante, dos familiares, dos/as médicos/as
e de outras pessoas envolvidas.
- A partir do nosso compromisso que considera tanto a vida das
gestantes, da criança concebida e dos familiares e está
consciente de que somos culpados, como sociedade, pelo sofrimento
que a questão do aborto envolve, pleiteamos uma legislação
justa que regulamente os casos de interrupção de gravidez.
Nestes casos incluímos o risco de vida da gestante e a gravidez
que resulta de estupro.
A partir das considerações acima, conclamamos a sociedade
brasileira a instaurar uma legislação que, mesmo ao
tratar de casos conflitivos, colabore para manter um máximo
de responsabilidade individual e coletiva e que, através dos
órgãos competentes, dê proteção
à pessoa humana e à sociedade. Sabemos que, como em
todos os momentos, também na busca de orientação
para a questão do aborto, deverão prevalecer e iluminar-nos
sua graça e seu perdão e sua dádiva de nova vida
pela fé em Cristo. Neste sentido, a igreja é desafiada
a vivenciar o seu lema atual: "Aqui você tem lugar!"
Porto Alegre, setembro de 1997
Pelo Conselho Diretor da IECLB
Huberto Kirchheim