A
contínua expansão da Aids, enfermidade causada pelo
vírus do HIV, particularmente em países pobres, é
motivo de permanente preocupação para organismos internacionais,
governos e entidades voltadas para a prevenção da doença
e para o cuidado das pessoas que vivem com a Aids. Também o
é para os movimentos engajados em processos educacionais nas
comunidades, e igualmente deve sê-lo para as igrejas. Dificilmente
se há de encontrar hoje comunidade organizada, em que, de uma
forma ou outra, não haja em seu meio, ou em suas relações,
pessoas soropositivas ou com a doença contraída. Devido
ao estigma social que pesa sobre elas, muitas vezes as pessoas infectadas
se sentem compelidas a ocultar sua condição enquanto
podem, de modo que seu número é seguramente bem maior
do que se torna visível na sociedade, realidade que em nada
contribui para a tão necessária prevenção
e o cuidado para com pessoas soropositivas.
Já em 1989 a IECLB emitiu, a partir da Presidência,
uma carta pastoral acerca do assunto. Afora a terminologia de "aidéticos",
então usual, mas entrementes rechaçada, por poder conter
ou sugerir um estigma discriminatório contra as pessoas soropositivas
ou que contraíram a Aids, o embasamento teológico e
as recomendações lá contidas são plenamente
vigentes, razão por que se remete àquela carta pastoral,
aqui anexada. O Conselho Mundial de Igrejas (CMI) e a Federação
Luterana Mundial (FLM), esta em associação com a ONU,
adotaram programas educacionais de prevenção e de cuidados
a pessoas enfermas e suas famílias. Na última Assembléia
Geral da FLM, em Winnipeg, Canadá (2003), o HIV/Aids foi reconhecido
como uma das áreas mais importantes para a vida e atuação
da entidade e igrejas afiliadas.
O problema é particularmente agudo no Sul do continente africano,
mas não se limita a essa região. O Brasil tem sido elogiado
por seu programa de saúde em relação ao HIV/Aids,
inclusive pela distribuição gratuita de remédios
retrovirais. Ainda assim, muito resta por ser feito, sobretudo no
acompanhamento humano e pastoral das pessoas que vivem com Aids. A
FLM também criou um serviço de assessoria e coordenação
para as igrejas luteranas da América Latina. Como Igreja aderimos
também à Mensagem das Igrejas, Organizações
e Programas no Dia Mundial do HIV/Aids, que enfoca principalmente
em que medida as mulheres, muitas vezes jovens mulheres, são
vítimas do preconceito, da exploração e do abuso
sexual. Também esse documento é anexado a esta carta
pastoral.
Na IECLB, o Departamento de Diaconia realizou este ano um importantíssimo
Seminário Nacional sobre HIV/Aids. A participação
de todos os sínodos, bem como setores e entidades já
envolvidos na prevenção e no cuidado, atesta a importância
que o assunto tem na vida de nossas comunidades. E este é,
sem dúvida, um dado muito positivo. Inclusive, a participação
abrangeu os mais diversos setores e movimentos com orientações
teológicas diferenciadas. Os/as participantes do seminário,
no final do encontro, aprovaram uma declaração, que
foi encaminhada às comunidades da IECLB pelo Departamento de
Diaconia (IECLB nº 87591/04). Na seqüência, citamos
parte desta carta:
"Reunidos em Rodeio, Santa Catarina, nos dias 29 de agosto a
2 de setembro, sob o tema 'Quebrar o Silêncio. Restaurar a Dignidade',
nós, representantes dos sínodos e departamentos da IECLB
e de organizações e setores da sociedade civil que trabalham
com pessoas que vivem com Aids, refletimos sobre o tema e constatamos
que a Igreja necessita quebrar o silêncio sobre HIV/Aids, não
por causa do vírus, mas por causa das pessoas e do evangelho
de Jesus Cristo. Reconhecemos, contudo, a nossa dificuldade de falar
sobre HIV/Aids. Confessamos que existe preconceito e falta de solidariedade
para com pessoas que vivem com Aids. Também constatamos que
tudo isso, associado à falta de informação e
de compreensão, pode agravar a enfermidade e impedir a melhoria
da qualidade de vida das pessoas que vivem com HIV. Por isso, como
Igreja, precisamos pedir perdão a todas as pessoas que vivem
com Aids pelo nosso silêncio que, certamente, contribuiu para
a exclusão e o preconceito e fez aumentar o seu sofrimento
e de seus familiares nestes mais de 20 anos da epidemia.
Contudo,
como pessoas acolhidas por Deus e feitas um em Cristo Jesus no batismo
(Gálatas 3.23-29), assumimos, agora, o compromisso de ser Igreja
que serve, acolhe, ampara, consola, orienta, profetiza (Lucas 4.18-21).
Isso implica no resgate de valores éticos cristãos como
a fidelidade, a solidariedade, a esperança e o amor nos relacionamentos
humanos. (...) Também em nossas comunidades há pessoas
que vivem com HIV/Aids. Por isso, as comunidades e seus membros são
desafiados a abordar o tema transversalmente nos grupos de Ensino
Confirmatório, de Jovens, de Mulheres, de Casais, de Terceira
Idade, na OASE, nos presbitérios, entre outros".
No domingo passado, no âmbito já usual de motivos comuns
para intercessão, nossas comunidades, em todo o país,
intercederam em culto, nos seguintes termos: Deus, ajuda-nos a ser
solidários com pessoas portadoras de HIV/Aids e suas famílias.
Esta carta quer estimular as comunidades e seus setores organizados
a tornar ainda mais realidade aquilo por que intercedemos, ou seja,
desenvolvermos programas e serviços de solidariedade para com
pessoas portadoras de HIV/Aids. Por que não incentivar, por
exemplo, a que se constitua um grupo permanente na comunidade com
esse propósito?
Devo ainda referir-me a um importante aspecto teológico para
nossa motivação evangélica nesse engajamento.
O Seminário realizado na IECLB, acima referido, teve, à
parte de um grande consenso de propósito e compromisso, também
um momento de tensão que se refletiu em debates posteriores
na IECLB. O documento final deveria fazer menção ao
sexto mandamento (Não adulterarás) e à interpretação
de Martim Lutero no Catecismo Menor? A proposta foi, por fim, rechaçada,
limitando-se à referência ao duplo mandamento do amor,
com o qual Jesus resumiu o sentido da lei. O episódio deixou
os proponentes da referência ao sexto mandamento desapontados.
Não se poderia mais falar de fidelidade matrimonial? Houve
protestos posteriores via internet.
De parte da Presidência devo primeiramente lamentar que num
seminário de tal importância, e que no mais transcorreu
num espírito de grande identidade de propósitos, não
tenha sido possível elaborar uma declaração consensual
nesse assunto. Adicionalmente, a questão suscita algumas considerações
que têm a ver com a necessária distinção
entre lei e evangelho. Quais são os frutos do evangelho? Onde
estão os limites do que se pode alcançar com a lei?
Não há, nem pode haver, qualquer dúvida de que
a proclamação e o ensino dos dez mandamentos (Êxodo
20) é parte integrante e irrenunciável da prática
da IECLB. Igualmente é sabido que Jesus Cristo resumiu todos
os mandamentos no duplo mandamento do amor a Deus e ao próximo
(Mateus 22.34-40). De nossa confissão luterana sabemos que
o cumprimento da lei de Deus não se dá por nossas próprias
forças, mas apenas a partir da graça de Deus. Assim,
o cumprimento do primeiro mandamento, reconhecer que Deus está
acima de todas as coisas, é a base para o cumprimento de todos
os demais mandamentos. Por isso, em sua explicação dos
mandamentos, no Catecismo Menor, Lutero, iniciou todos eles com "Devemos
temer e amar a Deus, para que..." Ou seja, o pleno cumprimento
dos mandamentos se dá apenas no temor e amor a Deus, em fé,
sob a orientação do Espírito Santo.
Assim,
não podemos pressupor que a proclamação dos mandamentos
por si só possa levar ao seu cumprimento. Concretamente, isso
significa que a fidelidade matrimonial, fruto do evangelho, deve ser
sempre proclamada em conjunção com a proclamação
do senhorio de Deus, mas não pode ser transformada em programa
social. Na esfera pública, temos que ter em conta a realidade
assim como ela se apresenta e aí servir em solidariedade e
amor. Como sabemos, hoje impera em larga escala a permissividade nas
relações sexuais, o que é alentado, não
por último, por programas de grande audiência na televisão.
É bem verdade que um casal mutuamente fiel e soronegativo não
corre risco de ser infectado pelo vírus do HIV através
de suas relações sexuais, e devemos proclamar essa verdade.
Mas essa não pode ser a base de uma política pública
de prevenção ao HIV e à Aids. Nos casos em que
apenas um dos parceiros é fiel (e muitas vezes supõe
que a outra parte também o é) a pessoa fiel corre grande
risco de contrair a enfermidade através do parceiro que não
mantém a fidelidade. Infelizmente muitas pessoas - particularmente
mulheres - são assim infectadas por seus parceiros. Tampouco
podemos assumir que todas as pessoas que abraçaram a fé
tenham um comportamento irrepreensível na área sexual.
O pecado, obviamente, se faz sentir também nesta área.
Na esfera pública, pois, será preciso, empenhar-se
por modalidades de prevenção mais eficazes, como seja
a promoção do uso do condom ("camisinha")
nas relações sexuais. É terrível que paire
hoje sobre essa dádiva maravilhosa da criação
de Deus, a sexualidade humana, em cujo exercício toda vida
humana tem sua origem, o espectro de que possa ser também o
veículo transmissor de uma enfermidade para a morte, enfermidade
para a qual ainda não dispomos de cura. A ciência deve
dedicar esforços ainda maiores e os governos alocar recursos
ainda mais substanciais, na busca de meios para superar em definitivo
esse insidioso mal. Enquanto isso somos chamados a de todas as formas
possíveis minorar o mal e apoiar as pessoas que sob ele padecem.
Não devemos, porém, esquecer tampouco que há
outras modalidades de contrair o vírus da Aids, não
apenas através de relações sexuais, mas também
através do contato sangüíneo ou pela transfusão
de sangue. Por exemplo, muito acentuada é a contaminação
através do uso múltiplo de seringas, por usuários/as
de drogas injetáveis. Recente pesquisa no Rio Grande do Sul
indicou que praticamente dois terços dos consumidores de drogas
injetáveis contraem o vírus do HIV. O dado é
alarmante e revela quão grandes esforços, educacionais
e de saúde pública, devem ser desenvolvidos na prevenção
do consumo de drogas. Em boa medida, todos conhecem em suas relações
exemplos de vidas destruídas pela drogadicção.
Esta é outra área de importante ação diaconal
para as comunidades.
Animo, pois, nossas comunidades e setores de serviço a constituir
grupos de interesse e ação, bem como a desenvolver programas
voltados para a prevenção do HIV/Aids e para o cuidado
das pessoas soropositivas e que vivem com a Aids. Importante será,
nesse particular, desenvolver parcerias com o setor público,
seja da área da educação quanto da saúde.
Como comunidade de fé, nos conscientizamos uma vez mais e
nos motivamos renovadamente à ação quando nos
recordamos da palavra de Jesus: "Os sãos não necessitam
de médico, e sim os doentes. Ide, porém, e aprendei
o que significa: Misericórcia quero e não holocaustos;
pois não vim chamar justos, e sim pecadores." (Mateus
9.12-13)
Na espera confiada, neste período de Advento, da vinda de
Jesus Cristo, que carregou sobre si todas as nossas iniqüidades
e sara todas as nossas enfermidades, saúdo-os
fraternalmente.
Walter Altmann
Pastor Presidente da IECLB