A morte não faz parte do propósito salvífico
de Deus para com a sua criação. Está diametralmente
oposta à vida, que é característica de Deus (Rm
6.23). Portanto deve ser vencida. É o último inimigo
de Deus. A vitória de Deus sobre a morte já aconteceu
no evento da cruz e da ressurreição de Jesus Cristo.
Jesus, integralmente, se expôs ao poder da morte e com isso
a venceu em seu bojo. Por ser Cristo o primogênito dentre os
mortos, cremos em vida para além da morte. Esta vida nos é
dada por Deus, e nós a podemos viver já agora em comunhão
com ele. Temos a certeza de que a realidade de Deus é mais
forte que a morte (Rm. 8.31-39), razão pela qual esperamos
em que faça nova criação e dê nova vida
ao ser humano. Esta certeza norteia também o sepultamento cristão.
Conseqüentemente, o sepultamento
é para a Igreja oportunidade de testemunho público de
sua fé na ressurreição e de consolo aos enlutados.
Representa igualmente um ato de respeito ao defunto, lembrando que
o corpo humano, mesmo falecido, é criação de
Deus.
O sepultamento é mais que um ato familiar. É um ato
comunitário. A Comunidade cristã é chamada a
cuidar de seus doentes, de seus moribundos, de sepultar os mortos
condignamente e de acompanhar os enlutados. Como o sepultamento diz
respeito a toda a Comunidade, deve-se dar especial atenção
à participação desta Comunidade.
A esperança é o centro do sepultamento cristão.
Ela é testemunhada em meio ao sofrimento e ao lamento diante
da morte. Expressa-se nas leituras bíblicas, nos hinos, nas
orações e principalmente na pregação.
Confessa-se, pois:
- que Deus é o Senhor dos vivos e dos mortos;
- que a "comunhão dos santos" engloba os vivos
e os que morreram em Cristo;
- que todos os presentes ao sepultamento estão caminhando
em direção ao dia da ressurreição.
Assim a família e a Comunidade despedem-se da pessoa tirada
de seu meio pela morte, na certeza de que Jesus Cristo ressuscitou
e há de ressuscitar também a nós.
A pregação deve orientar-se na situação
específica. Esta também determinará a escolha
do texto. (...) A mensagem do juízo e da graça de Deus
deverá ser anunciada em relação ao momento específico.
É convicção luterana que nada podemos fazer
para influenciar a sorte das pessoas falecidas junto a Deus. Deus
é soberano em seu juízo e em sua graça. Por isto
se proíbem "cultos em favor dos falecidos" ou atos
semelhantes. O que podemos fazer é agradecer por suas vidas,
recomendá-los à graça divina e por eles interceder.
(...)
Na fórmula de sepultamento importa evitar falar em "entregarmos
seu corpo...". Tal linguagem pode fomentar compreensões
espíritas, de que o corpo é sepultado enquanto a alma
ou o espírito continuariam vivendo e se reencarnando. Sugerimos
formulações como "entregamo-lo/a" o "entregamos
o/a falecido/a".
A forma de sepultamento é livre. Os familiares do/a falecido/a
decidem sobre ela. A comunidade evangélica de confissão
luterana respeitará a decisão tomada e acompanhará
o sepultamento na forma escolhida.
Na Igreja cristã tem prevalecido a forma de enterro. O cadáver
está sendo devolvido à terra de que, conforme Gn 3,19,
foi formado. Mas também a cremação é uma
forma de devolução da pessoa à terra. Ela não
contradiz os princípios cristãos, e mais e mais tem
se tornado praxe nas Igrejas luteranas.
A membros que se escandalizam com a cremação de uma
pessoa falecida, ou que se sentem inseguros diante da decisão
a tomar, diga-se:
- A fé cristã não prescreve a forma de sepultamento;
portanto, não existe um modo especificamente cristão
deste ato;
- A escolha da forma de sepultamento faz parte do exercício
da liberdade cristã;
- Dentro desta liberdade é lícito levar em consideração
aspectos econômicos, higiênicos, de espaço físico,
de distância geográfica ou outros, na opção
por uma ou outra modalidade.
Quanto a possíveis objeções teológicas
à cremação, convém lembrar:
- O receio de que a destruição do corpo impediria
a ressurreição é infundado. Deus saberá
recriar o que uma vez criou, mesmo que aos olhos humanos a pessoa
falecida tenha desaparecido completamente;
- Quando, no início da Igreja cristã, mártires
foram queimados/as e suas cinzas espalhadas ao vento ou na água
pelos inimigos da Igreja, esta sempre afirmou que estes/as mártires,
sem dúvida, participariam da ressurreição dos
mortos.
A cremação, pois, não se presta a demonstração
anti-cristã. Ela não limita ou impossibilita a ação
re-criadora de Deus.
Há que se combater, isto sim, a idéia de que a cremação
liberta ou purifica a alma ou o espírito de seus laços
materiais e atinge somente o corpo. Toda a pessoa com corpo, alma
e espírito, morre e desaparece desta vida, não havendo
aí nenhuma diferença entre enterro e cremação.
Recomenda-se, ainda, com insistência, que a urna com as cinzas
não seja guardada em casa, mas enterrada em local apropriado,
para evitar que surja veneração de mortos/as ou que
se criem amarras psicológicas.
Diante da falta de prática da IECLB no acompanhamento a familiares
que optaram pela cremação de uma pessoa falecida, sugere-se
que sejam realizados estudos a respeito, por instituições
ou Sínodos, e seja elaborada orientação para
os/as obreiros/as da Igreja.
"Porque eu estou bem certo de que
nem a morte, nem a vida, nem anjos, nem principados, nem cousas do
presente, nem do porvir, nem poderes, nem altura, nem profundidade,
nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus,
que está em Cristo Jesus nosso Senhor."
(Rm 8.38,39)