Este documento sobre a Pastoral de Família na IECLB é
resultado de uma Consulta Nacional realizada em Porto Alegre (RS),
de 04 a 06 de outubro de 1996. A consulta teve como objetivo definir
o trabalho e as atividades relacionadas com as famílias na
IECLB, ou atingidas por ela. O presente documento, aprovado pelo Conselho
Diretor, é uma orientação em meio à diversidade
de iniciativas existentes no âmbito da IECLB. O documento contém
três aspectos importantes:
- análise da realidade
(a família atual e as influências às quais está
exposta);
- visão bíblica
(a família nos tempos da Bíblia e os propósitos
de Deus com relação à vida familiar);
- pastoral de família
(sugestões da IECLB para o convívio familiar e o trabalho
com as famílias). Em seu todo, o documento está fundamentado
na confessionalidade luterana.
Trata-se
de uma Pastoral porque procura-se inserir as famílias no rebanho
de Cristo, o Bom Pastor. Assim também o rebanho, a congregação
cristã, tem uma função familiar. Todas as pessoas
têm o direito de receber a orientação e a proteção
do Bom Pastor. Este documento é uma palavra orientadora para
a vida e o convívio familiar de pessoas, comunidades e entidades
ligadas à Igreja.
Sob família a Igreja entende o grupo de pessoas relacionadas
entre si por laços de parentesco, afetividade, compromisso
ou comunhão cristã. Portanto, o conceito de família
vai além do grupo de pessoas formado por pai, mãe, filhos
e filhas, vivendo legalmente sob o mesmo teto. Com respeito e amor,
a comunidade cristã também aceita, acolhe e ampara grupos
familiares com características especiais.
Por causa da grande diversidade de relacionamentos no convívio
humano, o presente documento não pode abranger todos os aspectos.
Quer, no entanto, ser um agente motivador para membros e comunidades
da IECLB, a fim de que abracem a Pastoral de Família como uma
tarefa inserida na missão cristã.
A IECLB confessa e vive da graça de Deus revelada no Senhor
Jesus Cristo. Esta graça de Deus tem profundas conseqüências
na vida pessoal, nos grupos familiares e no convívio comunitário.
A Pastoral de Família quer ajudar os membros e as comunidades
a vivenciarem sinais deste grande amor de Deus.
Como resposta a este amor, a Pastoral de Família traz consigo
também uma dimensão de serviço. O convívio
comunitário e familiar tem aspectos profundamente diaconais,
ou seja, de serviço ao próximo. Este documento, portanto,
quer ser uma ajuda à Igreja, para que esta possa servir cada
vez melhor.
A família, como instituição, tem recebido profundos
impactos por causa de mudanças ocorridas na esfera cultural,
com reflexos, inclusive, na formulação de leis civis.
Percebe-se que estes impactos são, entre outros motivos, provenientes
da liberação sexual, do movimento feminista, da aprovação
do divórcio, da urbanização desenfreada, do processo
migratório, da crise econômica e da aprovação
da nova Constituição do Brasil. Há elementos
positivos e negativos nestas mudanças. É um desafio
para a Igreja tratar de forma diferenciada os aspectos positivos e
negativos.
A Constituição de 1988 trouxe mudanças na base
legal do matrimônio e da família. As Constituições
até então mantinham, por exemplo, uma visão patriarcal
da família: o marido era o chefe da família, detinha
o direito de fixar domicílio, administrar os bens e decidir
em casos de divergência. A Constituição de 1988
trata de superar esta discriminação legislativa. O item
Da família, da criança e do adolescente e do idoso estabelece
um conceito ampliado da família, quando reconhece a união
estável entre homem e mulher como entidade familiar. Foi suprimida
a expressão constituída pelo casamento. Esta nova Constituição
concede às mulheres igualdade de direitos, livrando-as do desamparo
e da discriminação legal. Apesar da legislação,
na realidade, continuam vigorando estruturas hierárquicos-patriarcais
que definem a vida familiar de muitas pessoas.
Estas modificações na área jurídica trouxeram
novas questões para a prática da Igreja. A realização
da Bênção Matrimonial estava naturalmente vinculada
à sanção do Estado. Só se concedia a Bênção
Matrimonial ao casal que casava no civil. Em muitos lugares também
só se batizava a criança de um lar legitimamente constituído.
A nova realidade admite uniões fora do modelo tradicional.
Existe a possibilidade legal de uniões por concubinato. Fala-se,
inclusive, na legalização de uniões de parceiros
do mesmo sexo, tendo em vista ser uma realidade a existência
da indiferenciação entre os sexos. Por causa da complexidade
e amplitude da questão, sugere-se que a IECLB promova um amplo
e profundo estudo sobre a homossexualidade, fornecendo posteriormente
um documento que defina a posição da Igreja a respeito
do assunto.
As pesquisas indicam que os brasileiros e as brasileiras casam menos
e se separam mais. Aumenta o número de uniões de casais
sem o registro civil. Cresce a quantidade de famílias só
com mãe e crianças, sem pai. Surgem cada vez mais filhos
e filhas com quatro pais, ou seja, mães e pais divorciados
e recasados. As formas de geração de crianças
também sofrem mudanças. Muitas vezes, a gravidez acontece
sob situações adversas. A discussão sobre a descriminalização
ou legalização do aborto não pode acontecer sem
a posição franca da Igreja. Por isso também se
sugere que a IECLB manifeste, em documento específico, sua
posição com relação à discussão
atual sobre o aborto.
Constata-se que a iniciação sexual da juventude já
acontece na pré-adolescência. Disto resultam: gravidez
precoce, mães adolescentes e solteiras, uniões instáveis
e sem respaldo econômico, prostituição juvenil,
mas lembra-se também que muitos avós assumem a tutela
destas crianças.
A família modifica-se constantemente e, por sua vez, modifica
também o meio no qual se encontra inserida. Em sua própria
trajetória ela passa por momentos denominados de eventos críticos.
Entre estes podem ser citados: a) o ajustamento do casal; b) o nascimento
de uma criança; c) a escolaridade; d) a adolescência;
e) a saída de filhos e filhas de casa; f) a eventual separação
do casal por divórcio; g) o envelhecimento e a senilidade;
h) a morte de um familiar.
A vida em família é um processo de constantes rupturas,
perdas e ganhos, apegos e desapegos, construção e reconstrução
da trajetória de uma existência compartilhada. Neste
processo, a fé religiosa é um fator de reordenação
do caos. Constata-se, contudo, que a proliferação de
propostas religiosas causa confusão, gera conflitos e patologias.
As mudanças políticas e econômicas que estão
ocorrendo nos últimos tempos com o processo chamado de globalização
vêm interferindo também na área cultural. Esta
interferência é sentida, em primeiro plano, pela família
e vem das novas necessidades impostas. Entre estas, podem-se citar:
a) a necessidade que as pessoas têm de se atualizar para competir
num mercado que se especializa e se torna cada vez mais exigente;
b) a insegurança que é causada pela falência de
empresas que não conseguem mais competir, fazendo com que membros
de família, às vezes, tenham que mudar de profissão;
c) a carência de campos de trabalho causada pelo crescente desemprego,
que afeta amplos setores sociais, causando empobrecimento de novas
camadas populacionais, isto é, levando novas famílias
para a marginalização; d) as novas necessidades surgidas
nas famílias que incluem crianças e pessoas idosas,
por causa da valorização exclusiva do homem e da mulher
em idade produtiva; e) a falta de perspectiva sentida por jovens.
Estes são alguns aspectos que podem ser destacados e que são
significativos para a família.
O empobrecimento de uma família altera profundamente sua estrutura
e seu sistema de relacionamentos. Há muitas pessoas e famílias
que vivem abaixo das condições mínimas de dignidade
humana. Isto gera carências, necessidades e desafios que devem
ser enfrentados pela comunidade social e eclesial. Além dos
conflitos com filhos e filhas, das crises afetivas, sexuais e econômicas,
valorizam-se os dados de pesquisas recentes que comprovam ser o alcoolismo
o maior fator gerador de crises familiares.
Os
recursos científico-tecnológicos atuais trazem muitos
impulsos novos para a vida pessoal e o convívio familiar. Na
área da medicina por exemplo, os avanços proporcionam
maiores perspectivas de sobrevida e longevidade. Constata-se, porém,
que a maioria da população não tem acesso a estes
recursos. Em vista disso, a medicina natural e comunitária
(popular) tem alcançado, através da prevenção,
uma melhor qualidade de vida. Vale lembrar, além disso, que
a sociedade competitiva e consumista exige cada vez mais das pessoas.
Urge uma conscientização a respeito da necessidade e
importância do lazer para a busca de um equilíbrio pessoal
e familiar. Este visa ao descanso, à diversão e ao desenvolvimento.
Os estudos e as descobertas no campo da psicologia, psicanálise
e terapia trazem novas perspectivas para o trabalho de conflitos e
para a superação de crises conjugais e na educação
de filhos e filhas.
O Antigo Testamento conta a história da criação
e do povo de Deus como história familiar. Adão e Eva
simbolizam a humanidade. São criados por Deus como casal que
deve constituir família e administrar a criação
(Gn 1.27-28; 2.15). Através das famílias dos patriarcas
Abraão, Isaque e Jacó inicia a história da eleição
e salvação. As diferentes famílias se localizavam
no tempo pela memória de sua origem, através da lista
dos antepassados (genealogia) que despertavam a consciência
histórica do povo de Deus.
Conforme o espírito da época, predomina no Antigo Testamento
uma visão patriarcal da família, centrada no homem,
como pai e chefe do clã. Em textos decisivos, porém,
como a história da criação do homem e da mulher
e da queda, transparece a profunda igualdade de ambos entre si e perante
Deus (Gn 1.27-28; 2-3).
É significante que a queda de Adão e Eva (Gn 3) marca
profundamente a história da família humana. Os perigos
e as dores do parto, bem como a luta pela sobrevivência no trabalho
e o estabelecimento de estruturas de poder são conseqüências
da queda e mostram como a realidade da vida familiar é uma
expressão da ambivalência da vida humana. A dominação
do homem sobre a mulher, o ciúme e a violência entre
os irmãos Caim e Abel (Gn 4.1-16) testemunham que, desde o
início, o pecado e o conflito fazem parte da vida familiar.
O Antigo Testamento entende o matrimônio como instituição
social, na qual se realiza de uma forma duradoura a relação
entre homem e mulher (tornando-se os dois uma só carne - Gn2,24),
com a finalidade da procriação e do sustento econômico
dos membros do grupo familiar. Independente da sua forma cultural,
matrimônio e família pertencem à criação
de Deus, são abençoados por ele e instrumentos da sua
promessa de conservar a humanidade como espécie no mundo pecaminoso
(Gn 9.8-17) e da sobrevivência do seu povo (Gn 15.4-5).
O 4º, o 6º e o 10º Mandamentos (Êx 20.1+17)
expressam grande preocupação pela manutenção
da ordem familiar. Diversas outras leis, bem como vários textos
poéticos e proféticos, valorizam o matrimônio
e a família (Oséias 2 e Cantares).
A vida da família no ciclo do ano é estritamente ligada
a rituais e celebrações religiosas (Sábado, páscoa,
colheitas, etc.). Mudanças durante o ciclo da vida familiar,
como o nascimento, a adolescência, o casamento, o falecimento,
são motivos de reunião da família e da realização
de ritos de passagem. Através dos rituais a família
reafirma que pertence ao povo de Deus e vive sob a promessa da sua
bênção.
No mundo do Novo Testamento também predomina a família
patriarcal, a estrutura da casa do pai. Porém os grandes clãs
estão dissolvidos e as famílias vivem de forma mais
isolada. Em conseqüência da ocupação e exploração
pelo Império Romano, as famílias enfrentam grandes problemas,
muita pobreza e fome. Para sobreviver, muitos pais vendem filhos e
filhas como escravos. Há muitas pessoas desenraizadas que migram
através do país, mendigando nas ruas e procurando empregos
ocasionais.
Nos Evangelhos, a posição de Jesus com relação
à família deixa claro que esta é uma realidade
penúltima. A última realidade é o Reino de Deus,
esperado para breve. Frente ao fim dos tempos e à vinda do
Reino, Jesus chama as pessoas para fazerem penitência e converter-se,
a fim de estarem preparadas para participar deste futuro (Mc 1.115).
Isto individualiza as pessoas perante Deus. Sua relação
com Deus e Jesus torna-se mais importante do que os laços familiares
(Mc 13.12-13).
Jesus questiona o encontro com a sua mãe e os seus irmãos
que o procuram e diz: "Qualquer que fizer a vontade de Deus,
esse é meu irmão, irmã e mãe" (Mc
3.35). ele relativiza os laços biológicos que constituem
a família e identifica os seus seguidores como família
constituída pelo laço espiritual, que é o fazer
a vontade de Deus. Ao lado da família biológica, aparece
a comunidade como novo grupo familiar para os cristãos.
Jesus afirma o matrimônio como forma adequada de convívio,
numa união plena de corpo e alma, entre um homem e uma mulher.
É o próprio Deus, o Criador, que une as pessoas numa
relação monogâmica. Ao proibir o divórcio
(Mc 10.2-12), Jesus chama as pessoas para que voltem à vontade
original de Deus. Dizendo que direito do divórcio foi concedido
por causa da dureza do coração, ele afirma a indissolubilidade
original do matrimônio, como realidade da criação.
O que ele ensina sobre o divórcio faz parte da sua pregação
de penitência, que confronta as pessoas com o seu pecado. Por
isso o casamento com um parceiro divorciado é considerado adultério,
porque a decisão humana de se divorciar não dissolve
o sentido original da união matrimonial perante Deus (Mc 10.11).
Na realidade, também o cristianismo primitivo teve que aceitar
o divórcio em determinados casos e achar regras de avaliação
(Mt 19.9; 1 Co 7.15).
A mensagem do Reino leva a uma transformação radical
do sentido das relações familiares. Ao aceitar as mulheres
como discípulas, Jesus dá início à igualdade
espiritual entre homem e mulher. Isto leva o Apóstolo Paulo
à constatação de que em Cristo não há
mais diferença da função social prescrita para
homem e mulher (Gl 3.28). Isto relativiza e transforma as estruturas
de poder na família patriarcal. Certos textos bíblicos
são recomendações específicas para determinadas
épocas, realidades e contextos (Cl 3.18-4.1; Ef 5.22-23). Através
dos séculos, porém, o cristianismo usa estes textos
para manter a ordem patriarcal, obscurecendo, assim, a revolução
que Jesus inicia na relação entre os gêneros.
De forma parecida, Jesus valoriza as crianças, que no mundo
antigo não possuem uma individualidade própria. Contrariando
esta visão, Jesus deixa as crianças chegarem perto e
as toca (Mc 10.13+16). Ele usa a imagem da criança que é
dependente dos adultos como metáfora da relação
do ser humano com Deus (Mt 18.1-5). Jesus se identifica com as crianças,
defende-as e mostra que Deus se faz presente através dos excluídos
e fracos. Ele mesmo se coloca diante de Deus como uma criança,
quando no Jardim Getsêmani, relutando com o seu destino, chama
Deus em tom íntimo e familiar de Aba, Pai (Mc 14.36). Na parábola
do Pai Bondoso (Lc 15.11-32), o conflito e a reconciliação
entre pai e filho(s) aparecem como um modelo da relação
íntima e familiarizada dos crentes com Deus. Por isso, nas
cartas pastorais, a relação entre pais e filhos é
caracterizada pela valorização e pelo respeito mútuo
(Ef 6.1-4; Cl 3.20-21).
No livro de Atos e nas cartas de Paulo encontram-se os lares e as
famílias como fundamento social da missão. Eram células
da comunidade, lugares de reunião, celebração
e partilha.
Na Bíblia, a família é encarada como uma oportunidade
para o crescimento e o desenvolvimento saudável, tanto na esfera
física como também na emocional, social e espiritual.
Esse crescimento é previsto para esposa e marido, pais/mães
e filhos/as, para crianças, pessoas adultas e idosos/as.
A Bíblia confronta as pessoas com o fato de que são
pecadoras em relação a Deus e ao próximo. Todas
as pessoas carecem da graça de Deus. São aceitas e perdoadas
gratuitamente pela dádiva do seu amor. Assim, portanto, indistintamente
crianças, mulheres e homens são justificados pela fé,
independente das obras da lei.
As comunidades e paróquias da IECLB promovem muitas atividades
que envolvem diversos membros da família (Culto Infantil, Ensino
Confirmatório, JE, Grupo de Singulares, OASE, Estudo Bíblico,
Grupo de Casais, Presbitério, Coral, Legião Evangélica,
Grupo da Terceira Idade, etc.). Tais grupos podem ser uma família
para muitas pessoas que vivem ou se sentem sós. Eles podem
inclusive ser uma ajuda para o convívio familiar.
Os líderes comunitários são incentivados a usar
sua criatividade no sentido de promover acontecimentos que unam as
famílias e que ajudem as pessoas a se sentirem uma família.
O culto, como acontecimento central da vida comunitária, também
é um evento familiar. Valoriza-se a celebração
de cultos que envolvam as famílias e que façam com que
as pessoas que deles participam se sintam como povo de Deus, o qual
se abre para ir ao encontro de outras pessoas.
Na intenção de ser comunidade acolhedora, ela abre
espaço para o envolvimento e engajamento de pessoas e grupos
sociais normalmente marginalizados pela sociedade. O próprio
Senhor e Criador de toda a comunidade cristã, com seu exemplo,
desafia a Igreja a supera preconceitos.
Os programas e as propostas desta Pastoral de Família não
podem se restringir ao aconselhamento e aos desafios da família
nuclear. Ela necessita de coragem para integrar na comunidade de fé
também aquelas pessoas e aqueles grupos familiares com características
especiais. Para tanto necessita de ações conjugadas
com outros setores da vida comunitária, tais como programas
de educação, geração de empregos e renda,
busca de qualificação profissional, luta por trabalho,
saúde e habitação. No âmbito da comunidade
há muita riqueza a compartilhar.
A comunidade pode ser um lugar onde se resgata a dignidade, onde
há boa comunicação entre as pessoas, onde se
encontram apoio, amparo e consolo. Através de portas abertas
e visitação, a congregação presta um bom
serviço no ambiente em que está inserida. Este espaço
diaconal da Pastoral de Família é muito relevante.
A fé cristã atinge a vida singular, conjugal e familiar.
As pessoas merecem ser respeitadas em suas opções ou
nos acontecimentos que as colocam em determinada situação.
Por isso o serviço comunitário deve procurar aceitar,
envolver e amparar todas as pessoas, sem medo, constrangimento ou
preconceitos. O sofrimento causado pela rejeição, por
parte da família e da sociedade, é um motivo de preocupação
para a comunidade cristã.
Os Ritos de Passagem merecem uma valorização específica,
pois são momentos de convívio familiar aliados à
vida e ao serviço da comunidade. Mencionam-se o Batismo, a
Confirmação, a Bênção Matrimonial,
as Bodas de Jubileu, o Sepultamento. É muito importante que
pessoas e famílias passem pelas diversas fases da vida de uma
maneira saudável. Por isso, em tais momentos e ventos, a Igreja
tem a mensagem evangélica para proclamar, a comunhão
cristã a oferecer e o serviço do amor a prestar.
Quando pessoas ou famílias vivenciam eventos críticos
e inesperados, é tarefa da comunidade prestar apoio e amparo.
Citam-se, como exemplos, a gravidez na adolescência, a separação
conjugal, doenças (quaisquer que sejam), alcoolismo, acidentes,
crises financeiras, a adoção de filhos/as por parte
de casais e singulares.
Uma ajuda substancial para as comunidades é a criação
de Equipes Interdisciplinares. Podem ser advogados/as, médicos/as,
psicólogos/as, analistas, terapeutas, pastores/as, catequistas,
obreiros/as diaconais e diaconisas. Unindo forças e capacidades,
estas equipes podem ajudar decididamente em situações
que dificultam ou ameaçam a vida e o convívio de pessoas
e famílias.
Nesta área também se pode colher bons frutos da Terapia
Familiar. O aconselhamento pastoral tem, muitas vezes, suas limitações.
É um sinal de sabedoria quando, então, se procura encaminhar
um casal ou uma família para a terapia, onde pessoas especializadas
poderão buscar soluções e restabelecer a harmonia
no lar.
Destaque especial deve ser dado à contribuição
que o encontro de casais, como o Programa Reencontro e outros, dão
ao bom convívio matrimonial e familiar. Estas atividades visam
renovar a fé cristã, fortalecer os laços conjugais,
solidificar a vida em família e despertar para a atuação
da comunidade.
Enfatiza-se a criação do Departamento da Pastoral de
Família na comunidade. Este departamento poderá abranger
as questões e atividades que giram em torno da família.
O seu objetivo principal será a concretização
das orientações deste Documento da Pastoral de Família.
Também buscará soluções locais para as
questões que surgirem em seu ambiente.
O Departamento da Pastoral de Família poderá coordenar,
entre outras, as seguintes áreas: a) Educação
para o Matrimônio; b) Comunicação Conjugal e Familiar;
c) Cursos sobre Valores Éticos e Cristãos; d) Celebrações
dos Ritos de Passagem; e) Compartilhar dos Eventos Críticos;
f) Relacionamento Interfamiliar.
As Equipes Interdisciplinares e os Departamentos da Pastoral de Família
poderão ser formados nos diversos níveis que compõem
a IECLB. Nada impede que paróquias ou comunidades se unam nesta
tarefa.
No âmbito de toda a IECLB, as Secretaria de Missão e
de Pessoal estarão à disposição para receber
e responder pedidos de informação, sugerir vias de concretização
deste documento e assessorar na promoção de eventos
relacionados com a família no plano nacional.
A comunidade é chamada a promover a valorização
do lar. Faz parte da dignidade humana poder viver sob um teto acolhedor,
entre pessoas que amam e são amadas. A comunidade também
é vocacionada para colaborar didaticamente para que reine a
paz nos lares dentro e fora de seu ambiente.
Na compreensão luterana, a comunidade cristã tem tarefas
que ultrapassam as fronteiras das famílias que a compõem.
Por isso estas famílias são chamadas a vivenciar sua
vocação cristã, colaborando com a comunidade
na realização de sua missão no mundo.
No cumprimento desta missão de Deus, a comunidade congrega
pessoas e famílias para celebrar, testemunhar, servir e conviver
como irmãos e irmãs em Cristo, ordenados/as a partir
do Batismo, para exercer o sacerdócio geral de todos os crentes.
Nesta perspectiva da comunidade, a família está sendo
desafiada para ser Igreja e viver as funções básicas
da vida comunitária entre si, crescer e amadurecer espiritualmente,
ouvir a palavra bíblica, orar e cantar, bem como apoiar-se,
ajudar-se, aconselhar-se e buscar perdão. Por outro lado, a
família está sendo convidada para ouvir, aprender, ser
ajudada, buscar perdão, engajar-se solidariamente e celebrar
em conjunto na comunhão com outras pessoas.
Porto Alegre, 9 de janeiro de
1997.