E o Verbo se fez carne prega o evangelista João no início
de seu evangelho. Dessa forma testemunha a encarnação
de Deus. Já que Deus se torna concreto e palpável, também
a igreja procura testemunhar, de maneira concreta, o amor divino para
dentro de cada contexto novo. Já que os tempos e as situações
mudam, a igreja precisa redefinir conteúdo e jeito de seu testemunho,
seja por meio da pregação, da vivência ou através
da ação diaconal.
Esse redefinir implica considerar o evangelho e os escritos confessionais
em seus contextos distintos bem como levar a sério a realidade
atual. Essa se caracteriza por muitas facetas nos níveis social,
cultural e religioso. A sociedade multifacetada, em que vale tudo
e nada, afeta também as nossas comunidades. Elas se sentem
desnorteadas num mercado do pluralismo religioso. Sentem dificuldade
em articular a sua identidade confessional e não mais percebem
o que as une. Contra as ameaças de desintegração
clamam, junto a sínodos, ao Conselho da Igreja e à Presidência,
por redefinições da ética e conduta da vida comunitária
e de uma releitura da nossa identidade confessional. A pergunta que
se coloca é: Qual é o lugar da IECLB no pluralismo religioso?
Qual é a nossa contribuição específica
nessa generalizada fome e sede por sentido e rumo? A resposta só
pode ser encontrada em conjunto, envolvendo as bases.
Foi o que aconteceu, a partir do primeiro documento Sentindo o pulso
das bases. A Presidência o discutiu com os pastores sinodais,
os presidentes sinodais e com o Conselho da Igreja. Desse debate resultou
um texto reformulado sob o título IECLB em busca de seu lugar
e papel no pluralismo religioso. Esse texto foi discutido em nível
sinodal. Sugestões de emenda e alteração foram
incorporadas nesse novo documento: IECLB no pluralismo religioso.
Objetiva afirmar positivamente quem somos, como vivemos em comunidade,
como realizamos culto e como servimos nesse mundo pluralista. Justamente
para viabilizar a nossa convivência em comunidade, sínodo
e IECLB e para melhorar os resultados de nossa ação
missionária, necessitamos de um mínimo de consensos
em torno dessas bases norteadoras. Por isso o documento prima pelos
afirmandos, identificados pelo sinal verde dum semáforo. Algumas
legendas na margem lhes dão ainda maior destaque. Nesses parâmetros
e referenciais exploramos amplo espaço para contextualizar
o nosso testemunho missionário. Esses marcos norteadores de
nossa identidade confessional nos permitem dar forma livre e criativa
às manifestações de vida comunitária.
Dão coragem para nos arriscar em formas e caminhos novos, até
os limites identificados pelo sinal amarelo.
Tudo o que, de alguma forma, ultrapassa esses limites, põe
em cheque a nossa identidade e confessionalidade luteranas e, como
tal, não contribui em nada para a construção
e edificação de comunidade da IECLB. Pelo contrário,
desintegra a comunhão e prejudica a nossa contribuição
específica. Observamos, pois, os sinais de vermelho, pensando
em nosso próprio bem, em termos de integridade e identidade
comunitária de IECLB. Ao mesmo tempo, honramos os limites,
visando à força e eficácia do testemunho missionário
luterano no mercado religioso. Os sinais vermelhos, portanto, não
nos querem cercear a liberdade, mas garantir aquele mínimo
de consenso, necessário para a convivência fraterna e
indispensável para a credibilidade de nosso testemunho missionário.
Nesse sentido entregamos o presente documento para os e as líderes
em nível comunitário, paroquial, sinodal e nacional,
para os colaboradores leigos e as colaboradoras leigas, para as entidades
e os setores de serviço, para as obreiras e os obreiros da
IECLB.
Rogamos que o Espírito Santo, por meio desse instrumento,
revigore a nossa comunhão, com vistas à eficácia
do nosso testemunho missionário no mundo de Deus. Sopre fortemente,
Espírito Santo!
Porto Alegre, Pentecostes de
2000
Huberto Kirchheim
Hélio Erni Walber
"A
religiosidade está em alta, a religião em baixa",
constatou G. Brakemeier na Conferência Luterana sobre o Espírito
Santo, em Ivoti, em novembro de 1999. Em reação a um
mundo excludente e marginalizante pessoas procuram sentido de vida
para sobreviver. Lançam mão dos mais diferentes recursos,
sendo que no Brasil a religiosidade é um dos meios mais procurados.
Experiência religiosa, com emoção, afeto e, preferencialmente,
com cura, está em alta. Novos movimentos religiosos com características
neo-pentecostais e orientais proliferam. Há em nosso meio um
impressionante e crescente pluralismo religioso. Parece que as igrejas
históricas ainda ou novamente interessam as massas à
medida em que correspondem a essas expectativas. Eis por que o movimento
carismático, ou como for denominado, perpassa todas as igrejas
históricas. Seria esse fenômeno uma irrupção
do Espírito Santo?, perguntou Brakemeier, na conferência
em Ivoti, convidando a uma criteriosa avaliação.
Esse é o nosso propósito, com vistas à vivência
e à prática missionárias em nossos dias.
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as bases em processo de planejamento
missionário |
Na nova estrutura sinodal da IECLB, norteada pela visão
do Ministério Compartilhado, comunidades e sínodos redescobrem
a sua missão de ser sal da terra e luz do mundo (Mt 5.13-16)
e a grande comissão de fazer discípulos em todo o mundo
(Mt 28.18-20). A partir do batismo são incorporados na grande
família de Deus. São feitos filhas e filhos de Deus,
irmãs e irmãos uns dos outros. São ordenados
sacerdotes e sacerdotisas do sacerdócio
universal de todos os crentes. Pela fé aceitam
a graça imerecida e assumem a sua condição, colocando
sinais de gratuidade. Com razão sublinham que a missão
não é dada a alguns especialistas, mas à comunidade.
Nem sempre, porém, considera-se que Deus concede ministérios
específicos com o intuito de conscientizar
e equipar a comunidade com vistas à sua missão. Onde
não se distingue entre sacerdócio universal e ministérios
nem se interrelacionam os mesmos devidamente, a exemplo de Lei e Evangelho,
aí surgem deturpações: ou se sacramenta o "pastorcentrismo"
e a acomodação da comunidade ou se clericaliza o laicato,
o que dá margem a todo tipo de desordem e desintegração
no Corpo de Cristo.
Igualmente redescobrimos que a missão abarca
todas as necessidades de vida das pessoas bem como de toda a criação.
Falamos, portanto, em dimensão
holística da missão. A alternativa entre
missão pela palavra ou missão pela ação
diaconal devemos ter como superada. Palavra e ação não
se excluem, nem podem ser colocadas em seqüência prioritária.
Muito antes, ambas necessitam uma da outra. Elas se mesclam e se complementam
mutuamente, visando à salvação integral em nível
pessoal, sócio-estrutural, bem como cósmico. Segundo
o evangelista Mateus, a missão se resume no peregrinar pelas
vilas e cidades ensinando, pregando e curando (Mt 4.23; 9.35). De
fato, Jesus viu as multidões e delas se compadeceu (Mt 9.36).
Nesse mesmo espírito de misericórdia,
passamos a enfocar alguns aspectos que caracterizam o mundo em que
vivemos e ao qual somos enviados como comunidade missionária.
O sonho indígena por uma Terra sem Males foi
frustrado pela invasão européia, iniciada há
500 anos. Com ela se instalaram corrupção, exploração,
falência da saúde pública, falência da previdência
social, espoliação do capital e dos recursos nacionais,
injustiça, má distribuição de renda, desemprego,
fome, miséria, violência, ... Dessa forma os indígenas
falam hoje em "Terra de muitos males". No mundo globalizado,
os avanços científico-tecnológicos em todas as
áreas, inclusive na comunicação e informática,
beneficiam minorias, enquanto a grande maioria de pessoas e povos
sofre seus efeitos excludentes e marginalizantes. Sistemas de dependência
em todos os níveis, também no econômico e cultural,
estão aumentando. A política neoliberal não consegue
ou não quer mudar, substancialmente, esse quadro. No mundo
globalizado culturas e religiões não somente se aproximam,
mas também se mesclam e guerreiam, provocando crises de identidade
em todos os sentidos.
A
sociedade atual, chamada "pós-moderna", está
se tornando multifacetada, a ponto de provocar crises de identidade,
desorientação e solidão. Desespero se manifesta
na busca por sentido de vida, por experiência religiosa e cura
dos males individuais e imediatos. O número de pessoas que
se confessam cristãs está diminuindo em comparação
ao crescimento da população mundial. Na IECLB, embora
o número de obreiras/os esteja aumentando, não podemos
registrar um crescimento significativo do número de membros.
Esses flashes enfocam alguns aspectos do contexto em
que queremos ser comunidade missionária. Em meio a essa realidade
angustiante, porém, percebemos, com alegria, sinais de renovação
e animação de nossa prática missionária.
Na nova estrutura sinodal da IECLB, norteada pela visão
do Ministério Compartilhado, comunidades e sínodos redescobrem
a sua missão de ser sal da terra e luz do mundo (Mt 5.13-16)
e a grande comissão de fazer discípulos em todo o mundo
(Mt 28.18-20.)
Vemos tais sinais, por exemplo:
- quando obreiros/as e líderes leigos,
nos diferentes níveis, se reúnem com outros especialistas
para avaliar e planejar a sua ação missionária;
- quando comunidades e/ou sínodos investem
em programas de formação de líderes;
- quando comunidades e obreiros/as com elas
buscam renovar sua forma de culto, tornando-o mais participativo;
- quando visitadores/as regularmente fazem visitas
a pessoas doentes, idosas e enlutadas;
- quando paróquias, sínodos ou
entidades reúnem milhares de pessoas em Dia da Igreja, contribuindo
para saciar a sede por experiência religiosa e comunhão;
- quando comunidades e membros ofertam, espontânea
e generosamente, em apoio a tarefas missionárias mantidas
ou subvencionadas pela IECLB;
- quando assumimos a missão e a solidariedade
entre e para com povos indígenas;
- quando em parceria com outras igrejas aceitamos
o desafio de ser presença missionária em Moçambique
e outros países.
Basta a menção desses poucos sinais
para sinalizar que o Espírito Santo está operando em
e através da igreja.
De outra parte, em meio aos sinais de esperança, também
é forçoso e igualmente evangélico reconhecer
e confessar que temos fraquezas e, inclusive, tensões internas
que preocupam um número crescente de membros e comunidades
de nossa igreja. Nesse sentido, queremos compartilhar alguns dos clamores
que têm sido manifestados verbalmente ou por carta:
- obreiras/os e líderes manifestam grande preocupação
com a mentalidade de igreja-supermercado - paga-se o mínimo
possível para cobrar o máximo de atendimento;
- membros se queixam da liturgia não envolvente e dos hinos
difíceis;
- jovens afastam-se da vida comunitária por considerá-la
monótona ou desatualizada;
- membros queixam-se da falta de maior uniformidade litúrgica
em cultos e ofícios;
- membros expressam seu mal-estar quando ocorrem excessos em festas
da comunidade;
- outros criticam que o obreiro ou a obreira mandou tirar do templo
todos os símbolos;
- membros estranham que o/a pastor/a preside cultos e ofícios
sem vestir o talar ou adota o traje típico de pregadores
pentecostais;
- membros percebem, com profunda preocupação, que
o/a pastor/a procura imitar, desajeitadamente, pregadores de sucesso
de igrejas neo-pentecostais;
- outros membros expressam sua desconformidade com a aceitação
de manifestações mediúnicas na IECLB;
- vizinhos do centro comunitário queixam-se do barulho no
culto e da extensão do mesmo até altas horas da noite;
- membros inconformados com a "pentecostalização"
do culto afastam-se, ostensiva ou silenciosamente, da comunidade;
- exige-se que a igreja excomungue anabatistas e exorcistas, estabelecendo
normas claras para a vida comunitária e criando monitoramento
(mecanismos de cobrança).
Tais queixas e clamores - e outros mais, não mencionados
aqui - parecem indicar uma crescente sensação de que
a IECLB seria um barco à deriva, sem comando, em que cada qual
se dá o direito de fazer suas próprias tentativas de
levá-lo adiante. Como quer que seja, todos eles devem ser analisados
com muita seriedade, à luz do testemunho bíblico-confessional.
Dessa maneira o Espírito Santo poderá transformar as
dificuldades e os clamores em bênção para a Igreja.
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como lidar com os clamores
por definição |
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de doutrina, conduta e ética luteranas? |
Simplesmente expulsar todas aquelas pessoas que pensam e agem de
maneira diferente não pode ser a solução para
situações de tensão e conflito na igreja. Nessa
linha, poderia acontecer que, por fim, não sobrasse ninguém...
A afirmação e o aprofundamento de nossa unidade, bem
como a necessária disciplina fraterna, não pode ter
como pano de fundo a concepção de que alguns são
salvos e outros, já condenados.
Ao contrário, devemos lembrar sempre a parábola do
joio misturado ao trigo (Mt 13.24-30). A distinção e
a separação últimas entre ambos não nos
competem nem acontecem agora.
São reservadas ao Senhor da seara quando da sua volta. Também
a igreja leva em seu corpo a marca de sermos todos pecadores justificados
e, enquanto vivermos, simultaneamente justos e pecadores. Por conseguinte,
devemos sempre estar atentos ao perigo de cairmos na tentação
de assumir o papel do fariseu que se considerava justo, dando graças
a Deus por não ser como o publicano pecador. (Cf. Lc 18.9-14)
Por todas essas razões convém lembrar que conflitos,
por via de regra, sinalizam algum problema mais profundo e podem,
portanto, quando bem trabalhados, contribuir para o bem da igreja
(Rm 8.28). O Espírito Santo nos faz avaliar e reorientar a
caminhada.
Contudo, para poder preservar o convívio fraterno na igreja
visível (no caso, a própria IECLB), torna-se indispensável
uma base consensual em torno da doutrina, da conduta e da ética
luteranas. É o que tem sido sugerido com o conceito de "consenso
mínimo", que respeita a legítima diversidade, mas
também preserva as condições para a unidade da
igreja. Todas as pessoas que atuam em espírito eclesial e,
portanto, abominam a instrumentalização da igreja para
fins particularistas ou de grupos, saberão valorizar um tal
consenso e empenhar-se-ão por ele. Nesse sentido, lembramos
os consensos já expressados pelo encontro da Presidência
com os pastores sinodais, publicados em IECLB às portas do
novo milênio, cad. 1 (2.1 - 2.5).
Ou seja: antes de tudo, devemos afirmar, positivamente, nossa identidade
confessional. Essa atitude positiva é fundamental e, falando
em sentido figurativo, poderia ser simbolizada pela cor verde do semáforo,
que nos permite avançar.
Vejamos alguns dos tópicos teológicos que norteiam nossa
identidade confessional:
Deus se revelou como aquele que justifica e liberta, por graça
e mediante a fé, a quem não tem mérito próprio.
É o que o apóstolo Paulo classificou de "justificação
do ímpio", e não dos justos! (cf. Rm 5.6-8). Jesus
também recordou: "Não vim chamar justos, e sim,
pecadores". (Mc 2.17).
Pela pregação da palavra, pela administração
dos sacramentos e pelo testemunho prático do amor, o Espírito
Santo faz crer nesse Deus. Assim cria e mantém a igreja. Ele
é autor, mantenedor e consumador da fé. Esta atua pelo
amor, no mundo em que vivemos, a fim de que muitos reconheçam
Cristo como Senhor e que Deus seja glorificado.
Há na IECLB, em diversas comunidades, manifestações
de carismatismo de cunho pentecostal
ou, como alguns preferem, de "renovação espiritual".
Há, de parte de membros, de comunidades e de sínodos,
uma crescente demanda por posicionamento da IECLB frente ao carismatismo.
Este posicionamento toca, direta ou indiretamente, diversas facetas
do movimento carismático. Neste tópico, apresentamos
algumas considerações teológico-pastorais gerais.
Sob o sinal verde do semáforo devemos reconhecer que o Espírito
Santo pode utilizar-se dos mais diversos meios para renovar e fortalecer
a igreja. O movimento carismático não deixa de constituir
um alerta a notórias deficiências, existentes em várias
comunidades de todas as igrejas. É, portanto, também
um intento de sanar essas deficiências. Ele procura dar amplo
espaço à participação dos membros, prestar
atenção a suas necessidades psíquicas, físicas
e sociais e fomentar a oração. Nesse sentido, o movimento
carismático também exerce um papel missionário,
atraindo à igreja significativas parcelas da população
à sua margem. Também se pode observar um incremento
da disposição para contribuir financeiramente para o
trabalho da igreja.
Contudo, há outras facetas que são preocupantes ou,
mesmo, merecem clara reprovação - os sinais amarelo
e vermelho do semáforo! Há, no movimento carismático,
com freqüência e até mesmo regularidade, uma crítica
severa e de tom autojustificante à espiritualidade "tradicional"
das comunidades, o que não apenas fere o amor ao próximo
como constitui uma desconsideração da própria
obra do Espírito Santo já efetuada. Esse é um
problema real, que pode ser atestado pelo fato de que muitos membros
da IECLB - não apenas membros "afastados", mas também
dentre os atuantes - têm se sentido discriminados e rejeitados,
afastando-se da igreja ou buscando outras comunidades das proximidades
geográficas.
Há na pregação do movimento carismático
conceitos provenientes do mundo pentecostal ou neo-pentecostal que
são claramente discutíveis ou, mesmo, questionáveis
a partir de uma base confessional luterana e bíblico-evangélica,
como, por exemplo, o de "batalha espiritual" ou "prosperidade".
Teologia luterana conhece e enfatiza a "teologia da cruz",
em contraposição a toda e qualquer manifestação
de "teologia da glória", mesmo e principalmente em
suas variantes "espirituais". A igreja luterana tem razões
evangélicas para uma espiritualidade sóbria, que nem
por isso deixa de ser profunda. Mesmo o "poder de Deus",
conceito tão caro ao movimento carismático, conhecemos
na Escritura como manifestando-se "na fraqueza" (1 Co 12.9).
O rei Jesus entrou em Jerusalém montado sobre um jumentinho
(Mt 21.5) e, quando pendurado na cruz, exclamou: "Deus meu, Deus
meu, por que me desamparaste?" (Mt 27.46) - um escândalo
aos "olhos do mundo"! Da teologia da prosperidade decorre
a tentação de merecer, por meio da contribuição
financeira, a promessa de recompensa. Cria-se, assim, uma motivação
bastante egocêntrica e, não raras vezes, uma propensão
a práticas com características mercantilistas.
No batismo
o Espírito Santo nos faz filhas e filhos de Deus, incorporando-nos
como irmãs e irmãos na grande família de Deus.
Essa é a graça que Deus nos oferece sem que a tivéssemos
merecido por algum mérito nosso. Ele também nos convoca
incessantemente à fé. Contudo, quando cremos, reconhecemos
que a própria fé é dádiva do Espírito
Santo que ele opera e mantém pela pregação da
palavra e pelos sacramentos, na comunhão de irmãs e
irmãos. Aliás, segundo 1 Co 12, a fé é
o primeiro dom, do qual todos os demais dons se derivam, sempre para
a edificação do corpo de Cristo, nunca para a discórdia.
Assim o Espírito Santo nos santifica, diariamente, fazendo-nos
morrer com Cristo para os poderes da morte e fazendo-nos ressuscitar
com Cristo para a novidade de vida (Rm 6.4). No símbolo ilustrativo
do semáforo, aqui adotado, essa graça está expressa
pelo sinal verde.
Contudo, o dom gratuito recebido nos compromete com a prática
de justiça, paz e amor, no mundo em que vivemos. O sinal amarelo
do semáforo nos adverte para os perigos em nossa caminhada.
Assim, por exemplo, somos alertados a que não propaguemos uma
"graça barata", que abusa do precioso sangue de Cristo,
ao não comprometer ninguém com nada. Nesse sentido,
é forçoso reconhecer que há entre nós
deficiências de comportamento ético ou mesmo grande apatia
de fé, com as quais não devemos nem podemos nos conformar.
Nesses casos, a bênção batismal se transforma
em maldição. A igreja luterana leva a sério que
do evangelho sempre decorre o imperativo. Assim ela está a
caminho entre Pentecostes e a volta de Cristo, no final dos tempos.
O apóstolo Paulo afirma que todos os dons, quando exercidos
na necessária ordem comunitária, cooperam para a edificação
do corpo de Cristo. Lembra-nos, contudo, que o maior de todos os dons,
o "caminho sobremodo excelente", é o amor que nos
vem de Deus e nos faz amar a nosso próximo (1 Co 12.31-13.13).
Por causa do amor incondicional de Deus e da nossa compreensão
bíblica devemos admitir e praticar o batismo de crianças
e de adultos. Não devemos permitir a absolutização
de uma das duas formas, e o rebatismo, já ocorrido em âmbito
da IECLB, é totalmente inadmissível numa igreja luterana.
(Nesse particular, vale relembrar o caderno IECLB às portas
do novo milênio (2.6). Voltando à figura aqui empregada,
vemos agora aceso o sinal vermelho do semáforo. Alguns acontecimentos
ou práticas na IECLB são absolutamente inaceitáveis
por razões confessionais ou submetem a igreja à tamanha
tensão que elas devem ser rechaçadas ou coibidas. A
prática do rebatismo encontra-se no primeiro caso da incompatibilidade
confessional. Do mesmo modo é inaceitável quando a comunidade
batiza crianças sem que anteceda um diálogo pré-batismal
com os pais e padrinhos - isso é desrespeito ao que reza o
documento Nossa Fé - Nossa Vida (p. 17).
Referente ao culto, deve ser lembrado que não é a comunidade
que presta culto a Deus, mas é Deus que no culto serve a ela
(por meio da palavra, do perdão, da comunhão, dos sacramentos
e da bênção). Culto, portanto, é a celebração
das misericórdias de Deus que convergem na obra salvífica
de Cristo. O Espírito Santo faz buscar e abraçar o santo
serviço de Deus em nosso favor. A comunidade, assim agraciada,
responde a Deus com louvor e adoração e a ele serve,
com todo o seu ser, no mundo em que vive (Rm 12.1). Desse princípio
trinitário do culto decorrem os seguintes elementos universais
constitutivos do culto cristão luterano: intróito (entrada:
invocação, Salmo ou palavra bíblica de entrada),
confiteor (confissão de pecados), palavra, ofertório
(credo, oferta, intercessão), sacramento, envio e bênção.
O culto não é propriedade ou tarefa somente do/a obreiro/a,
mas é privilégio e tarefa da comunidade. Esta participa
ativamente com suas alegrias, dores, sofrimentos, dons e talentos.
Na figura do semáforo, todos esses elementos constituem o sinal
verde.
Observados esses parâmetros universais constitutivos, a criatividade
deve ter amplo espaço, com vistas à contextualização
do culto. O sinal amarelo consiste na advertência de que com
toda necessária renovação litúrgica, não
desprezemos ou abandonemos os elementos constitutivos de toda verdadeira
liturgia, acima mencionados. Não podemos perder nem os elementos
essenciais da liturgia nem sua dimensão comunitária.
Sua observância é indispensável com vistas à
edificação da comunidade e do testemunho para o mundo.
Contudo - e aí passamos para o sinal vermelho de nossa figura
do semáforo -, com toda legítima e necessária
renovação litúrgica, esses elementos não
devem ser arbitrariamente abandonados. "Todas as coisas são
lícitas, mas nem tudo convém!" afirma Paulo em
1 Co 10.23. É de grande importância que os membros da
IECLB possam reconhecer sua igreja na celebração do
culto, em todos os lugares.
Assim, não podemos admitir celebrações de culto
em que a liturgia esteja totalmente descontextualizada e a comunidade
não tenha participação ativa. Tampouco podemos
tolerar cultos que se assemelham a shows em que a pessoa do celebrante,
ou seja quem for, ocupa o lugar de Deus ou o lugar da comunidade.
Não podemos admitir que se ignorem ou omitam os elementos
constitutivos do culto cristão.
Da mesma forma não podemos aceitar que no culto todos falem
ao mesmo tempo, o que atrapalha a devoção na oração,
mesmo que se trate do falar em línguas. Pois isso não
edifica a comunidade, a não ser que haja, na hora, quem o interprete
(cf. 1 Co 14.5, 28).
Deus se comunica de maneira concreta, toma forma, encarna no mundo
relativo e passageiro. O veículo da comunicação
divina, por excelência, é Jesus de Nazaré. Os
olhos da fé o reconhecem como verdadeiro ser humano, segundo
a imagem de Deus, e como verdadeiro Deus. É vontade de Deus
que o seu santo amor se manifeste de maneira sensível e experimentável
pelos sentidos humanos. Ele é criativo e se utiliza de elementos
terrenos como símbolos da comunicação divina.
São símbolos relativos e, por conseguinte, sujeitos
à ambigüidade. Há símbolos com caráter
universal, tais como: cruz, Bíblia, vela, cores litúrgicas,
as iniciais X e P juntadas, peixe ("ixthys"), coroa, estrela,
água, pão, uva e derivados. Esses e tantos outros símbolos
não são propriedade individual de ninguém. Pertencem
a toda a cristandade. Além destes podem surgir, a partir da
experiência do cotidiano que transcende para o eterno, em cada
novo tempo e lugar, símbolos novos. Tais aspectos alusivos
a símbolos universais e contextuais enriquecem a vida da igreja
e constituem, portanto, o sinal verde do semáforo.
O sinal amarelo do semáforo, porém, nos alerta para
não confundirmos o símbolo com o simbolizado. Isso seria
idolatria. Entretanto, o símbolo participa do simbolizado,
é por ele inspirado e para ele quer apontar. Ao mesmo tempo,
nos admoesta para verificar e evidenciar a contextualidade dos símbolos.
Isso nos exige o devido cuidado.
Por isso não é admissível que tais e outros
símbolos, próprios de nossa tradição,
sejam desprezados ou rejeitados, seja por obreiros/as ou comunidades.
Não pode ser tolerado que se tirem dos templos os símbolos
que caracterizam o lugar como espaço de culto cristão.
O sinal vermelho do semáforo se acende diante de tal descaracterização
do ambiente devocional de nosso culto.
A vestimenta litúrgica também tem caráter simbólico.
Ela não depende do gosto ou direito de um/a obreiro/a ou de
uma comunidade individualmente, mas sua forma e seu uso são
regulamentados pela IECLB como um todo. O talar, por exemplo, na cor
preta ou a alba na cor clara (bege) com suas estolas nas cores do
tempo litúrgico, são aceitos pela IECLB. Essa vestimenta
litúrgica identifica a pessoa como obreiro/a pastoral que a
IECLB ordenou para o exercício público do ministério
pastoral, em âmbito nacional e internacional. Legitima e protege
a pessoa em âmbito público. Ao mesmo tempo, a vestimenta
litúrgica compromete o/a obreiro/a com a IECLB em âmbito
ecumênico, identifica a sua identidade confessional luterana.
Esses são os aspectos afirmativos simbolizados pelo sinal verde
do semáforo.
Não é admissível, portanto, que um/a obreiro/a
ou uma comunidade dispense arbitrariamente, em celebrações
públicas, o uso do talar, substituindo-o por traje civil. Ao
contrário, seu uso está claramente prescrito nos regulamentos
da IECLB, que todo/a obreiro/a em sua ordenação promete
observar.
Onde não mais se crê na onipotência de Deus, os
demônios proliferam, em todas as esferas da vida. Na visão
de Deus, porém, o diabo não é mais poderoso do
que um cachorro acorrentado - ele não consegue ir além
do alcance de sua própria corrente. Segundo o apóstolo
Paulo, o pecado, a morte e o diabo já foram derrotados pela
ressurreição de Cristo: "Onde está, ó
morte, a tua vitória? Graças a Deus, que nos dá
a vitória, por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo."
(1 Co 15. 57)
Doenças psicossomáticas e psicossociais requerem tratamento
especializado e, sobretudo, a acolhida, através de uma comunidade
que promove cura em todos os sentidos. Falamos em comunidade terapêutica.
Tais recursos Deus os coloca à disposição através
da intermediação humana. Deus coloca muitos meios à
disposição, como por exemplo: visitação,
aconselhamento, encaminhamento para atendimento especializado, intercessão
com imposição de mãos, além dos recursos
médicos que nunca devem ser desprezados. Nos cultos e nas reuniões
dos grupos pode e deve haver espaço onde as alegrias bem como
as dores e os sofrimentos são compartilhados. Pois alegria
compartilhada duplica o seu sentido e alcance, e dor repartida perde
a metade do seu peso. A comunidade cristã ora em favor das
pessoas que estão enfermas. Tudo isso devemos afirmar; é
o sinal verde do semáforo.
Doenças psicossomáticas e semelhantes requerem especial
serenidade, responsabilidade e discrição da nossa parte.
É preciso haver discernimento entre a competência espiritual
e psicossomática. Esse é o alerta do sinal amarelo.
Tais doenças não poderão ser curadas por decreto,
muito menos em forma de show e espetáculo público, ou
seja, em assim chamados cultos de libertação. Quando
há suspeita de que uma pessoa seja possessa, "necessário
se faz um criterioso e abalizado estudo, assessoramento de especialistas
na área da saúde e envolvimento da liderança
da comunidade para uma tomada de decisão a mais objetiva possível.
Como em outras áreas, também nesse assunto decisões
monopolizadas pelo pastor ou pastora e, mesmo, por um pequeno grupo
exclusivo, abrem portas ao abuso e à arbitrariedade. Constatada
a veracidade do caso, o exorcismo dar-se-á pela oração,
com o envolvimento do pastor ou pastora e da liderança da comunidade.
A cura requer também discrição, em respeito ao
paciente e à sobriedade da atuação do Espírito.
De modo algum, a oração deve ser desvirtuada, pelo exorcismo,
em espetáculo público para a atração de
novos fiéis" (cf. IECLB - às portas ..., cad. 1,
item 2.7; 2.18,6). Aí o semáforo passa para o sinal
vermelho.
A IECLB adotou o ministério missionário. Missionários,
que podem atuar em todo âmbito geográfico da IECLB, devem
ser formados e devidamente ordenados. Podem ser formados no CPM em
Curitiba ou no CETEOL em Mato Preto. Somente a IECLB tem a autoridade
de ordená-los.
Esse ministério não deve ser confundido ou igualado
ao serviço de colaborador/a leigo/a que alguém pode
exercer em nível limitado, em determinada comunidade, por vocação
e mandato da mesma. Nesse caso, portanto, não se admite falar
em "missionário leigo", mesmo que seja remunerado
pela comunidade. Caso contrário, estaríamos confundindo
colaboradores leigos com os "obreiros missionários",
ordenados conforme o Estatuto do Exercício Público do
Ministério Eclesiástico. Analogamente, deve-se observar
que a IECLB tem um ministério pastoral ordenado e comunidades
não se devem atribuir o direito de convocar para o ministério
pastoral em seu meio pastores ou missionários de outras igrejas,
a não ser quando precedido de processo de admissão no
quadro de obreiros/as da IECLB.
Há, na IECLB, crescentes tensões no tocante a abusos
na realização de festas. Quando há um excessivo
consumo alcoólico, podem surgir rixas e contendas. Em caso
de a preocupação por arrecadação financeira
passar a ser a motivação predominante para sua realização,
seu objetivo de celebrar a comunhão é desvirtuada. Em
sua origem, as festas constituem encontros comunitários, em
que se celebra a vida e aprofunda a comunhão diária.
Muitas vezes a música e o canto desempenham um importante papel
de integração e manifestação cultural.
Em tudo isso, as festas são legítimas e condizem com
a liberdade evangélica que temos em Cristo.
Contudo, também é inegável haver abusos que as
comunidades não podem propiciar sem dano público à
credibilidade do testemunho evangélico. Uma comunidade terapêutica
combate o alcoolismo e seus malefícios, não os facilita.
É, portanto, necessário e salutar que mais e mais comunidades
se empenhem por práticas alternativas, como almoços
e jantas comunitárias, e, no tocante à arrecadação,
incentivem a prática de doações espontâneas
e ofertas de gratidão.
Que fazer, quando são rompidos ou colocados em xeque os consensos
mínimos em torno de doutrina, conduta e ética, legitimamente
adotados segundo nossa base confessional ou regulamentações
eclesiásticas? Nesses casos limítrofes, impõe-se
a pergunta pela instauração de um processo disciplinar
e/ou doutrinário, com vistas à disciplina fraternal.
O artigo 30 da primeira Constituição da IECLB nunca
foi regulamentado, embora houvesse clamores para tanto. No dia 14/12/1999
uma comissão, oficialmente incumbida, entregou à direção
da Igreja uma proposta de regulamentação do respectivo
artigo 39 da nova Constituição da IECLB, intitulado
por "Ordenamento Disciplinar e Doutrinário" (ODD).
Necessário se faz que Deus nos liberte de falsa piedade e nos
faça abraçar a vida eclesial no espírito de Bonhoeffer,
teólogo alemão, no tempo da resistência a Hitler.
Em seu livro "Vida em comunhão" o autor faz ver que
a comunhão requer regras que facilitem o convívio, com
vistas ao testemunho e à missão da igreja no mundo.
Na atual estrutura da IECLB, cabe ao sínodo, em primeira instância,
vigiar e exigir a observância desse mínimo de consensos
em torno da doutrina, da conduta e da ética luteranas (cf.
Constituição, Art. 19 e 22). Em caso de desrespeito
o sínodo procura, via informação e diálogo,
corrigir os desvios, com vistas à consolação
fraterna e ao restabelecimento da unidade da igreja. O caminho pastoral
tem precedência sobre o disciplinar, embora este possa vir a
ser necessário ali onde a via dialogal não mais surtir
efeito. Neste caso, o sínodo deverá instaurar o processo
disciplinar e/ou doutrinário.
Também a disciplina deve ser exercida em amor, visando o
restabelecimento da unidade e da concórdia. Contudo, o amor
não pode ser pretexto para uma prática eclesial desregrada.
Há situações em que o risco de "deixar correr
o barco" é nitidamente maior até mesmo do que o
risco de eventualmente exercer a disciplina de maneira injusta. Às
vezes não nos resta outra alternativa do que correr riscos.
Simplesmente não podemos furtar-nos de nossa responsabilidade
eclesial.
Contudo, o empenho pela justiça, pela verdade e pela compaixão
deve nutrir e guiar todos os procedimentos disciplinares. Os próprios
regulamentos podem e devem ser contextuais e, portanto, mutáveis.
Quem os pode mudar, porém, não é o indivíduo,
conforme as conveniências, mas sim a comunidade e a igreja,
através de seus órgãos constituídos. Ao
membro da IECLB cabe o direito e o dever de propor nas instâncias
apropriadas alterações regulamentares que julgar necessárias.
Segundo as normas vigentes, a IECLB se organiza em diretorias e conselhos,
assembléias e concílio. A esses cabe, no marco de normas
estabelecidas, a responsabilidade de velar pelo cumprimento dos regulamentos
e, se preciso, reformá-los.
Deus se comunica de maneira concreta, toma
forma, encarna no mundo relativo e passageiro. O veículo da
comunicação divina, por excelência, é Jesus
de Nazaré. Os olhos da fé o reconhecem como verdadeiro
ser humano, segundo a imagem de Deus, e como verdadeiro Deus. É
vontade de Deus que o seu santo amor se manifeste de maneira sensível
e experimentável pelos sentidos humanos.
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movimentos a serviço
da missão |
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que Deus realiza através da Igreja |
A IECLB pode agradecer a Deus pelos movimentos ou pelas
entidades que tem, ou seja, Missão Evangélica União
Cristã, Movimento Encontrão, Pastoral Popular Luterana,
Comunhão Martinho Lutero. Eles são manifestação
de vida, sinal da ação do Espírito Santo.
Movimentos sinalizam que algo na igreja está necessitado,
carente, insuficiente, negligenciado, esquecido ou simplesmente mal.
Eles são uma reação, uma tentativa de reforma
e complementação. Cabe à igreja olhar, escutar
e decodificar o recado que está sendo dado. Ela deve ter liberdade
e vontade de incorporar, de maneira crítica, criativa e responsável,
o novo que se apresenta. Nesse processo, certamente deverá
acontecer uma releitura da própria identidade confessional.
Certamente teremos de redescobrir a dimensão do Espírito
Santo, tanto em sua dimensão consoladora e sanadora, como admoestadora
e transformadora.
O movimento, por sua vez, deverá admitir ser ele mesmo questionado,
por parte da igreja e seus órgãos constituídos,
com vistas a sua identidade confessional, e estar disposto a reavaliar
permanentemente suas propostas. Também deve reconhecer e assumir
o seu lugar de entidade e movimento dentro e sob a igreja. Particular
cuidado deverá ter quando ele próprio se institucionaliza.
Não deve almejar ser "igreja dentro da Igreja". Tampouco
deve pretender assumir o papel de direção da igreja
arvorando-se o direito de decidir questões administrativas
da igreja, nem instrumentalizar as comunidades para finalidades exclusivas
do próprio movimento. Ao contrário, o movimento deve
entender-se como estando a serviço da igreja como um todo.
Será uma bênção somente à medida
em que servir, humildemente, por meio dos seus dons aprimorados, ao
testemunho e à missão que Deus realiza através
da igreja.
Esse convívio de ambos será tenso, quando o movimento
perder de vista o todo que é maior. Quando, porém, se
vê humildemente a própria limitação e se
prioriza o todo, desarmando cada parte o seu espírito, esse
processo poderá ser frutífero, tanto para a instituição
quanto para o movimento. Onde os espíritos estão armados,
o diabo está realizando a sua obra de polarização
e desintegração. E isso vai em prejuízo do testemunho
e da missão da Igreja.
Mas onde sopra o Espírito Santo, experimentamos liberdade
e humildade para nos dispormos ao diálogo e à busca
por novos instrumentos de leitura e releitura da Bíblia e dos
documentos confessionais da igreja. Não nos iludimos com a
possibilidade de descobrir uma única hermenêutica, capaz
de superar todas as nossas diferenças. Mas confiamos que o
Espírito Santo nos possa libertar para uma serena postura dialogal.
Ela será a condição para conscientizarmo-nos
do fato de que há hermenêuticas diferentes e para buscarmos,
em meio às diferenças, consensos suficientes para a
caminhada conjunta, numa mesma igreja e numa mesma família
ecumênica. Dessa maneira, a nossa força missionária
será revigorada num mundo pluralista. Sopre fortemente, Espírito
Santo!