1.
Os radicalismos de direita estão de volta. Criam manchetes
as manifestações neo-nazistas na Alemanha. Mas também
em outras países, a exemplo da Itália, Espanha e outros,
crescem os grupos simpatizantes com a ideologia fascista propagadora
da discriminação racial. Nem mesmo o Brasil pode excluir-se.
Predominantemente negros, judeus e nordestinos tornam-se vítimas
da perseguição racista que recrudesce na sociedade.
2. A constatação dessa tendência nefasta faz
com que a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no
Brasil, por resolução de seu XVIII Concílio Geral,
leve a público a declaração de sua inconformidade
e o seu alerta. Compete à Igreja de Jesus Cristo, comprometida
com o serviço à vida e engajada em ampliar os espaços
da fé, da esperança e do amor, denunciar o que destrói
a paz e fere os direitos de Deus. Entre as grandes ameaças
da atualidade está, não por último, a obsessão
racista.
3. Certamente, o racismo não é novidade no Brasil.
Marca presença na história da Nação desde
os tempos em que o índio e o negro foram reduzidos à
condição de escravos. É bem verdade que a sociedade
brasileira jamais tem amargado conflitos racistas sangrentos análogos
aos que houve e ainda há na África do Sul e mesmo nos
Estados Unidos da América. Com alguma razão o Brasil
se orgulha de ser um país pluri-étnico, permitindo a
cada grupo a expressão de sua respectiva cultura. E todavia,
não deixam de ser realidade os sinais de racismo camuflado
ou aberto, submerso e ainda assim flagrante. Eles preocupam e exigem
a resistência.
4. Isto é particularmente verdade quando o racismo deixa de
ser ingênuo e se apóia numa teoria que supostamente o
justifica. É o que acontece não somente no sistema do
"apartheid" conhecido da África da Sul mas também
no neo-fascismo de nossos dias. Parte do pressuposto de uma hierarquia
das raças, enxerga na diferença uma ameaça, e
prega uma militância racial que costuma incluir a permissão
para a uso da violência. Boa parte dos conflitos armados da
atualidade, como aquele da Bósnia, tem ingredientes étnico-racistas.
A convivência pacífica das raças, etnias e culturas
se coloca mais uma vez como urgência a ser atendida.
5. Do ponto de vista cristão não há como justificar
racismo de qualquer tipo. Deus criou um mundo multiforme, em que cada
"peça" tem sua característica inconfundível.
Diversidade é a marca da criação. Mas é
uma diversidade na mesma dignidade. Nenhum ser humano, por pertencer
a outra raça, cultura ou sexo, é inferior ou menos valioso.
O propósito de Deus não está na segregação
de grupos e categorias humanas, e, sim, na complementação
de uns pelos outros e no serviço mútuo, usando cada
qual o dom que recebeu. Discriminação racial equivale
a desprezo ao Deus Criador, que moldou a criação assim
como a fez e que por amar a ela deu seu Filho Unigênito. Resulta
daí o compromisso com a meta da parceria fraternal entre raças,
povos e culturas.
6. É um compromisso válido para todos, independentemente
de seu credo. Baseia-se, não por último, no que é
óbvio: violência cria tão-somente violência.
Ódio é o início do assassinato. Opressão
provoca reação. Seja o radicalismo de direita, seja
o de esquerda, desde que preconizador de meios violentos e de brutal
dominação de uns sobre os outros, vai produzir o inferno
da guerra civil e uma "cultura da violência", em que
todos são vítimas potenciais. Cria-se um clima generalizado
de terror. O racismo é uma das forças que na história
humana responde por indizível sofrimento.
7. Entre as manifestações históricas do racismo,
o antisemitismo tem desempenhado papel especialmente hediondo. A profanação
de cemitérios judaicos em nossos dias e manifestações
correspondentes acusam o redespertar do espírito demoníaco
responsável pelo holocausto do povo judeu na Alemanha nazista.
Somente cegueira ou deliberada falsificação são
capazes de negar a historicidade deste genocídio e suas evidências.
Cristãos e judeus estão unidos pela fé no mesmo
Deus. Confessam-se ambos criaturas da bondade divina. Aplica-se ao
antisemitismo o que vale com respeito a todos os males: importa resistir
aos inícios.
8. Todas as formas de racismo têm causas. Elas podem ser de
ordem psíquica: pessoas de outras raças inspiram medo,
inveja, insegurança. Ou as causas são de natureza econômica.
Na Europa as manifestações racistas são especialmente
fortes em áreas com alto índice de desemprego. No Brasil
a onda da violência tem causas predominantemente sociais. O
empobrecimento, a miséria, a desintegração social
estão na origem dos seqüestros, dos arrastões,
do tráfico de drogas, dos assaltos. Mas em nosso País
as condições externas também poderão dar
origem a ideologias racistas ou facilitar-lhes a penetração.
Os extremismos se aproveitam da frustração das pessoas,
criam bodes expiatários e os expõem à agressão.
Nem sempre, porém, as causas do racismo podem ser claramente
identificadas. Residem também em valores transmitidos pela
educação, em determinadas experiências de vida
ou outros fatores. Seja como for, racismo permanece sendo um mal com
conseqüências extremamente perigosas para a sociedade e
a humanidade.
9. A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil
convida suas Comunidades e instituições, suas Igrejas-irmãs
e todos os segmentos da sociedade brasileira a combater as expressões
racistas que há em suas próprias fileiras. Parceria
fraternal entre raças, culturas e etnias também no Brasil
permanece sendo um alvo a perseguir, a despeito dos inegáveis
sucessos havidos no complexo processo de integração
das diferenças. Como cristãos e cidadãos temos
o dever de nos opor aos indícios do pensamento racista e de
colaborar na eliminação dos fatores que o produzem ou
oportunizam. Diz a Bíblia: "Viu Deus tudo quanto fizera,
e eis que era muito bom" (Gênesis 1.31). Proíbe-se
ao ser humano desprezar o que Deus revestiu de tamanha dignidade.
Porto Alegre, 9 de dezembro de 1992.
Documento IECLB Nº 18386/92.
Gottfried Brakemeier