Falar em alimentos produzidos com sementes transgências evoca
reações as mais diversas, desde a euforia diante do
avanço científico-tecnológico até o medo
de contaminação bacteriana do ambiente e da humanidade.
O que mais se lê e se ouve nos meios de comunicação
é que a produção de sementes transgênicas
traria grandes benefícios em termos de qualidade e quantidade
de produção, além da redução do
uso de inseticidas e herbicidas. Por isso dizem que a transgenia é
um processo irreversível.
Quem
está veiculando esse tipo de informação? São
em grande parte vozes ligadas a grandes empresas nacionais ou internacionais,
como a Monsanto, que dominam e manipulam a referida tecnologia ou
mesmo a monopolizam. O que as move em sua paixão de nos convencer?
Será que é o aumento de produção dos pequenos
agricultores, que talvez nem dinheiro suficiente tenham para comprar
tal semente? Será que é o aumento de produção
dos latifúndios nacionais, para poderem concorrer no mercado
internacional? Ou será que é o próprio lucro
das empresas multinacionais que produzem e monopolizam sementes transgências?
Mas também se ouvem vozes muito críticas, como, p.
ex., o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), a Carta
do IX Seminário Regional de Alternativas à Cultura do
Fumo - realizado pelas Dioceses de Santa Maria, Santa Cruz do Sul
e Cachoeira do Sul em cooperação com o Centro de Aconselhamento
ao Pequeno Agricultor da IECLB (CAPA) -, o Conselho Nacional de Igrejas
Cristãs (CONIC), o Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI)
e outros. Todas essas vozes alertam, com ênfases distintas,
p. ex.:
- que a tecnologia dos transgênicos representa altos riscos
previsíveis e imprevisíveis para o ambiente e a humanidade,
em especial aos agricultores e consumidores;
- que o controle sobre as sementes está sendo tirado das
mãos dos agricultores e passando para um pequeno grupo de empresas
transnacionais associadas à produção de agrotóxicos,
que passarão a ter controle total sobre as mesmas, aumentando
ainda mais a concentração da riqueza agrícola
nas mãos destas indústrias;
- que o produto agrícola não transgênico é
uma fonte certa de lucro. Infestando o mundo de produtos transgênicos,
os Estados Unidos pretendem ser o único (país) a oferecer
produtos limpos e se apropriar desta fatia do mercado internacional
na agricultura. (cf. referida carta do IX Seminário Regional)
Dentre os riscos que os alimentos transgênicos podem oferecer,
causa especial preocupação dos cientistas e da sociedade
civil em geral:
- a falta de estudos e pesquisas sobre os efeitos do plantio e consumo
de transgênicos;
- o aumento ou potencialização dos efeitos de substâncias
tóxicas naturalmente presentes nas plantas que tenham o seu
material genético manipulado;
- o aumento das alergias alimentares, por se tratar de novas proteínas
ou novos compostos;
- a possibilidade de se desenvolver resistência bacteriana,
pelo uso de genes marcadores na construção do organismo
geneticamente modificado que podem conferir resistência a antibióticos;
- o aumento de resíduos de agrotóxicos nos alimentos
e nas águas de abastecimento, pelo uso em muito maior quantidade
dessas substâncias em plantas resistentes às mesmas;
- além de uma série de danos ambientais que indiretamente
comprometerão a inocuidade (o que é inofensivo) dos
alimentos, como desenvolvimento de resistências em insetos e
plantas invasoras ou a contaminação genética
da flora silvestre através da dispersão destes genes.
(cf. circular do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor)
Essas e tantas outras vozes críticas e preocupadas bastam
para clamarmos, com o salmista, para os quatro ventos:
Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém,
o mundo e os que nele habitam. (Salmo 24.1)
A criação não é nossa propriedade. Não
podemos fazer com ela o que bem entendemos. Dono da criação
é Deus. Ele criou os seres humanos com a tarefa de cuidar,
guardar e cultivar a boa criação de Deus. Somos, portanto,
capatazes apenas e teremos que prestar contas diante do Criador. É
verdade que ele nos deu inteligência para criar e desenvolver
recursos novos que favorecem ou prejudicam esse cultivar. Critério
para qualquer pesquisa científica somente poderá ser
este: As inovações científicas e tecnológicas
servem à preservação e promoção
da vida humana, vegetal e natural? Enquanto persistirem dúvidas
a respeito, como acontece no caso dos transgênicos, essas descobertas
ainda deverão ser testadas, pesquisadas e aperfeiçoadas,
antes de serem colocadas em prática, com segurança e
responsabilidade para o bem comum.
Por isso registramos, com alegria e esperança, o fato de que
o juiz Antônio Souza Prudente, da 6ª Vara Federal de Brasília,
confirmou a suspensão do plantio de soja transgênica
(geneticamente modificada) no país até que seja feito
Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (cf. Zero Hora de 13/08/1999,
p. 28).
Conclamamos, portanto,
- que cientistas ouçam as perguntas levantadas e pesquisem
o assunto com responsabilidade;
- que os legisladores e governantes não se deixem pressionar
por interesses econômicos de empresas multinacionais, mas tenham
como objetivo maior a socialização das descobertas científicas
para que sirvam ao bem comum;
- que todo o povo assuma a sua responsabilidade de atalaia e vigia
para que a vida seja preservada e promovida.
Porto Alegre, 18 de agosto de
1999
Huberto Kirchheim