Com pesar, nos confrontamos com a notícia do falecimento do Sr.
Evelbauer no sábado, dia 25.09.04, no Rio de Janeiro.
Tive a oportunidade de conhecer melhor o Sr. Hermann no período
em que convivemos, na Diretoria do Conselho Sinodal do Sínodo
Sudeste, de julho/2002 a julho/2004, tendo ele como Presidente. Pessoa
lúcida, aguerrida, polêmica muitas vezes. Divergimos em
alguns pontos, porém sempre com respeito.
Foi na sua gestão que o planejamento sinodal se ocupou de constituir
várias comissões para melhorar a atuação,
entre elas, a área de Comunicação. O Sr. Hermann,
foi um dos primeiros a apoiar a criação do portal do Sínodo
Sudeste na Internet, pois ele desde cedo teve um envolvimento com as
questões da informática e antevia a necessidade deste
meio de comunicação - o portal www.luteranos.com.br.
Também na sua gestão, adotou-se nova forma de comunicação
com os conselheiros sinodais, conforme o Relatório à VII
Assembléia Sinodal 17 e 18 de maio de 2003 em Araras/RJ. "Até
2002, o contato entre os conselheiros só ocorria nas reuniões
plenárias e durante as assembléias sinodais. Procuramos
uma maneira de dar-lhes mais responsabilidade e mais motivação
para o exercício de suas funções. Além de
enviarmos aos conselheiros cópia das atas das reuniões
de diretoria, para que estivessem cientes do que acontece e para poderem
devidamente informar seus respectivos conselhos paroquiais, também
estamos canalizando nossas comunicações com as paróquias
através dos conselheiros. Com isto queremos estabelecer o fato
de não sermos uma estrutura piramidal - onde os de cima mandam
e os de baixo obedecem - e sim uma estrutura de rede, com nódulos
ligados entre si. Este novo modo ainda não está firmemente
implantado. Leva tempo as pessoas deixarem hábitos antigos e
adquirirem novos."
Acreditamos que uma das formas de homenagear o nosso ex-presidente
da Diretoria do Conselho Sinodal é transcrevendo suas falas,
suas idéias, por vezes críticas, mas necessárias
de serem relembradas, especialmente neste momento, já que neste
ano não teremos ele nos bastidores do Concílio da Igreja
em São Leopoldo/RS, defendendo o que pensava. Abaixo afirmações
que constam do seu Relatório à VIII -Assembléia
Sinodal em 15 e 16 de maio de 2004 em Campinas/SP.
"Há seis anos, os projetos dos concílios de
Cândido Rondon e Ivoti se tornaram realidade. A IECLB, Igreja
oriunda da fusão de quatro sínodos, se reorganizava em
18 sínodos. 13 deles se concentram numa área relativamente
pequena, compreendendo os três estados do sul. Estes sínodos
são entidades homogêneas, alguns deles até entre
si. Como são bastante homogêneos também os sínodos
da Amazônia e do Mato Grosso, e de certa forma também o
do Brasil Central. O sínodo Espírito Santo a Belém
é em sua parte mais importante, justamente o Espírito
Santo, o que mostra maior concentração de luteranos fora
do sul, e por isso também homogêneo; as capitais nordestinas
enxertadas neste sínodo mais cedo ou mais tarde deverão
ser desmembrados e dotados de outra estrutura. Resta então o
sínodo sudeste, situado na região mais densamente povoada
do Brasil, abrangendo as 3 maiores metrópoles e várias
outras metrópoles de mais de um milhão de habitantes.
A gama de suas paróquias / comunidades vai da "gigantesca"
Santo Amaro às minúsculas Funil e Resende; entre paróquias
metropolitanas encaixam-se paróquias predominantemente rurais.
Somos como a Suíça, país de 4 idiomas - só
que numa área muito maior, e que contém mais de um terço
da população brasileira. Os nossos idiomas não
são lingüísticos, são culturais. Num mesmo
invólucro estão o pujante paulista, o sofisticado paulistano,
o sólido mineiro, e o animado fluminense/carioca. Trazer união
e consenso para este universo diversificado não é uma
tarefa invejável, ela é dura e às vezes frustrante.
Mas quando a gente pára e se pergunta se realmente estaria havendo
progresso, repentinamente vem um acontecimento como a festa dos 180
anos de Igreja Luterana no Brasil, em 1 e 2 de maio. Lá se encontraram
delegações de no mínimo 14 paróquias/comunidades,
treze obreiros pastores/as incluindo o pastor sinodal, 5 dos 8 integrantes
da diretoria sinodal - para não falar de nosso ilustre visitante,
o Pastor Presidente Dr. Walter Altmann. Vieram dos 4 cantos do sínodo,
venceram até 1.000 km de estrada, trouxeram 6 corais para embelezar
os festejos, que incluíam a inauguração do primeiro
busto de Lutero no Brasil, em frente à igreja de Nova Friburgo.
Para o culto festivo, a igreja era pequena. Ele foi deslocado para o
ambiente de um teatro no Country Clube. 510 cadeiras foram colocadas
- mas não eram suficientes; muita gente ficou de pé. Quando
ví à minha frente esta multidão em fraternal convívio,
tive pela primeira vez o sentimento forte de que a batalha que empreendemos
se mostrava vitoriosa. Habitantes das metrópoles, agricultores
dos campos, cidadãos de pequenas urbes, paulistanos, paulistas,
mineiros, fluminenses e cariocas lá estavam irmanados, festejando
como uma grande família; era um virtual milagre de Pentecostes:
as diferenças virtuais de linguagem desapareciam, todos se entendiam
e se amavam.
Pois em promover isto estava a tarefa mais nobre e urgente da
diretoria sinodal, e foi a isto que dedicamos em grande parte o trabalho
do ano que passou. Formamos e consolidamos os 4 núcleos sinodais
- UP de São Paulo, UP de Campinas, Núcleo RJ e Núcleo
MG. Os eventos ligados à formação serão
realizados separadamente nos núcleos, com currículo adaptado
às diferenças culturais entre eles. Isto já começou,
mesmo antes do estabelecimento formal dos núcleos, com o seminário
de lideranças de 2003. E como pudemos ver em Nova Friburgo, este
procedimento não divide e afasta os núcleos um do outro,
antes os irmana e aproxima.
Nem tudo, no entanto, é um mar de rosas. A recessão
econômica de nossos dias está pesando muito sobre nossas
paróquias. Muitas paróquias pequenas se vêem periodicamente
impossibilitadas de enviar o dízimo porque nada sobra depois
de paga a subsistência do pastor e as essenciais utilidades (água,
energia, telefone). Estão em andamento diálogos com as
paróquias afetadas, e a diretoria sinodal está buscando
caminhos para regularizar a situação. Se assim mesmo o
sínodo conseguiu cobrir as contribuições orçadas,
devemos isto à fidelidade das paróquias maiores e mais
fortes. Não devemos esquecer que em nosso sínodo as contribuições
individuais estão entre as mais altas da IECLB, situando-se em
média em torno de R$50,00 por contribu-inte/mês. Levando-se
em conta o número apreciável de idosos com aposentadorias
pequenas, é fácil ver que muitos membros contribuem mensalmente
com R$ 100,00 ou mais. Comparando-se isto com as contribuições
médias por membro dos sínodos do sul é fácil
ver que entre os lugares de alta densidade de luteranos e a nossa diáspora
existe uma má distribuição de taxação
quase tão vergonhosa quanto a má distribuição
de renda no seio da nação brasileira. Este fato já
foi por diversas vezes levantado em concílios e outros conclaves,
mas toda mexida que ao longo dos anos foi dada no sistema só
tem piorado o desnível - tal qual a aludida distribuição
de renda."
Além de perdermos um amigo, perdemos um luterano conhecedor
profundo das normas e regimentos da IECLB e muito atuante na sua comunidade,
na Paróquia Norte/RJ, no Núcleo Rio de Janeiro, no Sínodo
Sudeste e em toda a Igreja.
Que Deus o receba bem lá no céu.
Miltom de Oliveira
Coordenador da Comissão de Comunicação do Sínodo
Sudeste