1 Coríntios 1.1-9

Auxílio Homilético

20/01/2008

Prédica: 1 Coríntios 1.1-9
Leituras: Isaías 49.1-7 e João 1.29-42
Autor: Antônio Carlos Ribeiro
Data Litúrgica: 2º. Domingo após Epifania
Data da Pregação: 20/01/2008
Proclamar Libertação - Volume: XXXII


1. Introdução

A poesia, a poesia verdadeira é sempre epifânica;
ela revela, e a beleza dela é isto.
A beleza não é o assunto... Em arte, a beleza não é do tema, é da forma. E se a beleza
está na forma, qualquer assunto me serve, qualquer coisa
é casa da poesia... Por isso é que a Bíblia e todas as escrituras sagradas de todas as religiões sobrevivem há
milênios, há séculos e séculos, por causa da linguagem. - 
Adélia Prado

A teologia da cruz exige incondicionalmente tanto a demitização como a interpretação
existencial; exige-as mais radicalmente do que o fazem a imagem do mundo e a
autocompreensão modernas, porque a cruz de Cristo volta-se constitucionalmente contra toda ilusão religiosa e remete o homem à sua humanidade.

Ernst Käsemann

Os textos bíblicos indicados para este domingo apontam caminhos de graça e esperança. No livro do profeta Isaías (49.1-19), o Dêutero-Isaías descreve o servo do Senhor como alguém chamado para animar seu povo a celebrar a própria história de caminhada com o Senhor, a manter viva a esperança de libertação do exílio, a descobrir sua vocação de inclusão dos gentios, a superar a condição de escravos e a preparar-se para o retorno à sua terra.

O Evangelho de João mostra o testemunho do Batista sobre Jesus e como este se submete ao batismo nas águas para assumir, em seguida, o ministério a que era chamado. Após ser chamado de Cordeiro de Deus, começa a ser seguido; os novos discípulos se entusiasmam e logo outro é incluído no grupo. A missão do anúncio da graça baseia-se em pessoas e em seu testemunho.

O texto da pregação, baseado no proêmio da primeira carta de Paulo aos Coríntios, mostra um Paulo que anuncia a graça à comunidade, desde o nascimento sustentada pela graça, comprometida com o testemunho do Cristo e à qual não faltam dons espirituais para a prestação desse serviço aos gentios. O elo comum entre os textos é o testemunho da fé como tarefa confiada a pessoas mantidas pela graça, compromissadas com seu anúncio e firmadas na fidelidade de Deus.

O auxílio homilético para essa perícope aparece pela quarta vez em Proclamar Libertação (V, XVI, XXVIII e agora). Nas três primeiras, mais de uma década separa uma da outra, fato que interfere na exegese e nos arrazoados de natureza pastoral. As outras variações ficam por conta da falta dos dois primeiros versículos numa abordagem e da elaboração do auxílio, levando em conta os versículos 4 a 9. O presente auxílio volta a considerar os versículos desde o início do capítulo.

2 Exegese

O texto discorre efetivamente sobre a graça de Deus. Desde a graça em si mesma, concedida a todos, até o sentimento próprio de quem a experimentou, gratidão, passando pela graça como saudação apostólica à comunidade de fé. Seguem algumas considerações exegéticas desse breve texto. Ao saudar a comunidade (v. 1-3), Paulo demonstra a consciência de também ter sido contemplado pela graça e que aquela comunidade também foi (v. 4), enfatizando que a graça se mostrou no enriquecimento humano e espiritual da comunidade (v. 5-6) e especialmente na profusão de dons distribuídos às pessoas daquela localidade (v. 7).

Paulo começa a carta apresentando-se como “chamado pela vontade de Deus para ser apóstolo de Jesus Cristo” (v. 1) e ao companheiro Sóstenes. A expressão diá thelêmatos Theóu explica as palavras iniciais klêtós apóstolos, como observa Barbaglio. Ele sente-se confiante pelo fato de que pessoas expressivas na comunidade de Jerusalém já haviam aceito e confirmado sua missão ao mundo gentio. Não aposta na ruptura e nem na afirmação pessoal, mas insiste em manter-se na comunhão da comunidade de fé.

A carta é dirigida “à igreja de Deus que está em Corinto, aos santifica- dos em Cristo Jesus” (v. 2). Já aqui ele afirma a convicção de que Deus atua em todo lugar. Ele não está circunscrito aos limites de uma compreensão teológica e nem amarrado às históricas paredes do Templo de Jerusalém. Até na distante Corinto, situada fora da chamada Terra Santa, ele sustenta a vida da comunidade. Por essa razão, mesmo em outro lugar, a comunidade que se reúne em nome de Cristo é chamada a ser santa. Pelo Espírito é possível ser comunidade cristã e ser santa em todo lugar, deles e nosso, como deles e nosso é o mesmo Senhor Jesus Cristo. A igreja nasce de uma história que envolve Deus e o homem, segundo uma aliança firmada e uma parceria vivida fielmente.

O v. 3 traz a saudação à comunidade, baseada na graça, e lembra a livre dádiva de Deus aos homens através de Cristo. Esse proêmio, com a ação de graças, é próprio dos escritos paulinos bem como de cartas circulares, mas ele se atém obstinadamente às questões locais. A graça não aparece apenas na saudação, mas é um tema forte no texto.

Dar graças ou ações de graças é uma expressão sempre presente no início das cartas paulinas. Nesse caso, essas graças não são por algo que os coríntios fizeram por seus próprios esforços, mas pelo que a graça de Deus em Cristo realizou neles e por intermédio deles (v. 4-5). Mesmo a vida espiritual rica e poderosa na igreja de Corinto não surge pela intervenção de qualquer outro fator, mas é resultado da graça, observa Wendland. Ao dizer “Dou graças a meu Deus”, Paulo deixa transparecer sua emoção pessoal, integrando seu ensino pastoral à sua vida de seguidor de Cristo. Ele bem compreende que graça é dádiva, dom e presente de Deus. Só quem se sente agraciado nutre gratidão. Intuiu bem Lutero, ao ler Paulo, que “somos mendigos. Isso é certissimamente verdade!” Essa convicção de viver por graça cria espaço para o sentimento que se contrapõe a ressentimento, rebeldia e ingratidão.

O testemunho de Cristo é confirmado nos coríntios, porque aquilo que tanto os enleva, a graça, é um dom de Deus, pura gratuidade (v. 6). Veio do Verbo, de Deus, e encontrou boa receptividade entre eles. Por isso se confirmou neles (os fez cada vez mais firmes) e os tornou mais confiantes na vida a partir da graça, que assim foi enriquecida (v. 7). No entanto, a constatação de que os coríntios experimentam efetivamente a salvação suscita perguntas: O que você possui que não tenha sido recebido? E se foi recebido, por que orgulhar-se como se já fosse seu mesmo?

Essa compreensão da graça como dádiva permite que Paulo levante suspeitas pelo exagero e contraste, usando figuras de linguagem como hipérboles – “em tudo fostes enriquecidos nele, em toda a palavra e em todo o conhecimento; assim como o testemunho tem sido confirmado em vós” (v. 5-6)
– e antíteses – “de maneira que não vos falte nenhum dom, aguardando vós a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual também vos confirmará, para serdes irrepreensíveis” (v. 7-8). Como a dizer: é verdadeiro, está presente na comunidade, mas é dádiva. Por isso a mesma comunidade é também marcada pela imperfeição e incompletude. Uma postura de arrogância subjetiva de quem experimenta o carisma, exalta-se e se fecha em sua própria experiência; e erige a mesma como medida absoluta da verdade cristã, não encontra condescendência alguma por parte do apóstolo, lembra Barbaglio.

A recomendação é fruir do dom e aguardar com assídua expectativa (apekdéchesthai, v. 7). Amparada em Cristo, nenhuma acusação pode ser lançada contra a comunidade (v. 8). A irrepreensibilidade resulta da conjugação da pregação (logos), do conhecimento teológico (gnosis) e da maturidade pessoal (charisma), para lidar com situações complexas. Desse modo, a comunidade de Corinto é inserida na trama da história da salvação.

O v. 9 assevera a fidelidade de Deus. Ele manterá seu pacto, expresso na cruz de Cristo. A comunhão com Cristo não é apenas uma realidade futura, mas já presente por causa da comunidade, porque ao ser chamada, é vinda, lembra Wendland.

É fundamental observar que a intenção desse proêmio é admoestar para a vida na graça. A comunidade é orientada a abandonar o que nega a graça e agarrar-se a ela. Isso envolve decisão. A proposta de Paulo ao chamar a comunidade a viver pela graça não é ortodoxa, mas ortopráxica. A visão é pastoral. Ele crê e por isso quer que as pessoas se apeguem ao evangelho e tenham uma vida mais plena.

A ação de Deus em Cristo na vida é profundamente rica e enriquece- dora e não pode ser malbaratada egoisticamente. O cuidado a ser tomado é não desperdiçar a riqueza da graça em projetos menores, mantendo sempre um olhar abrangente. Um exemplo é a atitude de Lutero, que não se deixa usar ideologicamente e nem perde o senso crítico, por enxergar, “a partir de sua mensagem, a hora histórica de seu povo, ele vê a grandeza do presente divino e a tarefa de seu povo; ele, porém, também vê o aumento do abuso da liberdade evangélica, ele vê a ingratidão em relação ao bem confiado, ele vê o desprezo à palavra de Deus” (MARON, G. Luther und die ‘Germanisierung des Christentums’. Zeitschrift für Kirchengeschichte, 1983 (94):335). Só quem valoriza a graça estrutura sua vida e trabalho nela e sofre quando ela é desprezada.

3 Meditação: A graça que ilumina e compromete

A reflexão sobre o seguimento de Cristo (Nachfolge), de Dietrich Bonhoeffer, ainda hoje desperta a atenção. Seja pelo testemunho de sua vida, seja por conseguir mostrar a relação entre alegria e compromisso, seja pelo jogo de palavras com que expressou seu raciocínio:

A graça é cara porque apela para o seguimento,
é graça porque chama para o seguimento de Jesus Cristo;
é cara porque custa ao homem a vida, é graça porque somente dela recebe a vida; é cara porque condena o pecado, é graça porque justifica o pecador.
É uma graça cara sobretudo porque custou caro a Deus, porque lhe custou a vida de seu filho (fostes comprados por um alto preço) e porque o que custa caro a Deus não pode ser barato para nós.

Ao ler sobre a graça, que é o centro do testemunho da fé cristã, da confiança desse mistério a pessoas, confiantes apenas na promessa de ser mantidas na graça e que se comprometem com seu anúncio, firmadas apenas na fidelidade de Deus, damo-nos conta da densidade da missão do evangelho. Nos textos lidos, especialmente o da prédica, as pessoas abandonam-se por decisão pessoal à vontade de Deus. Isso não lhes é exigido, mas surge como uma extensão de seu seguimento. Exatamente aí residem seu valor e sua gratuidade. O valor é o do preço a ser pago para ser discípulo. A gratuidade é que o seguimento envolve sensibilidade, opção e decisão.

O seguimento também é ambivalente. Não cobra do seguidor os seus recursos, o seu trabalho, a doação de sua herança ou a sua dedicação absoluta. Cobra a sua vida. Isso é possível porque esse é o sentido que sua vida adquire pelo discipulado que diante dele qualquer sacrifício parece pequeno. A entrega de uma dessas coisas poderia parecer muito grande, mas se torna inexpressiva diante da entrega da vida. É o dilema do cristão que, pela fé, é senhor plenamente livre e, pelo amor, se faz servo. Mesmo que isso não lhe tenha sido exigido, ele assim faz por vontade.

O preço está associado aos conflitos que passa a assumir em consequência da radicalidade de sua decisão. Pode tornar-se alto e até insuportável, mas a possibilidade de corromper-se fica afastada, porque a pessoa está tão identificada com quem agiu de forma graciosa, que ela não pode agir de outro modo. Da mesma forma, vai ao encontro das pessoas, a destinar-lhes o mesmo tratamento gracioso. E mesmo em situações de muita dor, até pessoal, dispõe-se ao perdão. Para nele também se abandonar. E tornar a achar-se!

Essa mesma graça não minimiza, não nega o valor, não desperdiça significado autêntico. Mas dimensiona com generosidade, atribui valor e dispõe-se a mensurar. Não fecha questão com a aplicação de um raciocínio lógico e excludente, mas abre espaço à verdade legítima, além da que ele próprio professa.
Por último, porque também para Deus há preços a ser dimensionados e avaliados. Ao entrar na história humana pela encarnação, Deus dispôs-se ao dimensionamento e à avaliação, chamados de kénosis por Paulo. E é nessa condição que Jesus ama até o limite de doar a vida por aqueles a quem ama, para todo aquele que crê, como registrou a comunidade joanina da boca do próprio Jesus. Um amor includente do terceiro incluído, que não distingue A de não-A, para quem, por isso mesmo, a diferença de uma verdade pode ser outra verdade.

A distinção entre caro e barato não resulta da aplicação de um raciocínio, frente ao qual uma condição é aceita ou rejeitada. Caro e barato podem ser mensurados pelo muito amor ou pelo pouco amor. Por vezes, a vida farta e exuberante não é valorizada em si mesma e torna-se barata. Até descartável. Outras vezes, a vida frágil, em condições difíceis, que se mescla à morte de tão Severina, torna-se preciosa. O valor é dado pelos que amam.
Ao celebrar a Epifania do Senhor, lembremos que trazer à luz é revelar, mostrar, anunciar. É assim que a comunidade olha para a criança levada ao templo e, por isso, trazida à luz. Ao viver pela graça, a comunidade cristã revela: Eis o mistério da salvação!

4 Imagens para a prédica

A comunidade é convidada a refletir sobre a Epifania, pensando no impacto das imagens abaixo:

Uma primeira imagem a comunicar, inclusive do ponto de vista afetivo, é ter claro que não se exige que o gesto seja grandiloqüente. Pode ser um gesto simples, tirado do cotidiano. Um exemplo é o da criança que acordou de manhã bem cedo, foi ao quarto dos pais e perguntou: Vocês não vão levantar? Ao que o pai indagou: Por quê? O dia já amanheceu? O menino respondeu intrépido: Já! As coisas já têm cor!

Uma segunda imagem para refletir sobre a Epifania e o impacto de trazer à luz é a atitude que as pessoas tomam após levantar-se: abrir as cor- tinas e as janelas da casa, sobretudo dos dormitórios, para deixar a luz clarear e aquecer os cômodos e para o vento arejar o ambiente.

Uma terceira imagem é aquela da perplexidade. Quando estamos perplexos, sentimo-nos perturbados como se estivéssemos andando numa floresta perigosa. De repente, cai a noite e somos tomados pela angústia. Surgem muitas perguntas: O que fazer? Continuar em meio às trevas? Ou aguardar o amanhecer?

5 Subsídios litúrgicos

Saudação

A saudação pode ser feita pelo celebrante ainda com as luzes do templo e as velas apagadas.
Chamar a comunidade para refletir sobre a Epifania do Senhor, quando Jesus é trazido ao Templo. Ao pensar nas crianças, às quais em muitas ocasiões não se dá a devida atenção, o dirigente anuncia que elas vão trazer uma saudação a todos os que se reúnem para a celebração.
Em seguida, as crianças entram, as luzes e as velas do altar são acesas e elas dão as boas-vindas a todas as pessoas, com abraços e beijos.
Após o gesto, o celebrante comenta: Assim Deus nos quer acolher neste lugar para a celebração, afetivamente. Sintam-se acolhidos e acolhidas com esse autêntico gesto de amor!

Confissão de pecados:

Estamos aqui, Senhor, para trazer à luz as nossas faltas, nossos equívocos e nossas mazelas! Não suportamos mais guardá-los em nosso interior. Recebe o que vem de nossa escuridão existencial e preenche-nos com a tua luz, que vence as trevas, ilumina nossos sentimentos e intenções e dá-nos o calor necessário para viver em comunhão.
Ajuda-nos, confiantes em teu amor e graça, a viver na esperança, em tua presença e sob os teus cuidados. Tem piedade de nós, Senhor!

Oração do dia:

Graças, Senhor, pela vida que nos dás! Pois cada manhã nos brindas com o presente da vida e nos dás a possibilidade de começar novamente. Sabemos que estás nos acompanhando até nas provas mais duras e nos abres novas portas a desafios e experiências. Com tua ajuda podemos transformar este mundo num jardim cheio de árvores e flores formosas, com gente que respeita, que valoriza, que ama e se arrisca pelo outro. Louvamos-te porque grandes são tua presença, tua ajuda e tua bondade! Amém. (Selah)

Oração final:

Para este momento, a comunidade é convidada, após a oração de despedida, o Pai-Nosso e a bênção, a cantar o hino “Em nossa escuridão”, em cânone.

Em nossa escuridão, acende esse fogo
que não apaga não, que não apaga não! Em nossa escuridão!


Bibliografia

BARBAGLIO, Giuseppe. As cartas de Paulo (I). Trad. José Maria de Almeida. São Paulo: Loyola, 1989.

WENDLAND, Heinz-Dietrich. Le Letteri ai Corinti. Trad. de Gianfranco Forza. Brescia: Paidéia, 1976.

 


 


Autor(a): Antônio Carlos Ribeiro
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: 2º Domingo após Epifania
Testamento: Novo / Livro: Coríntios I / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 9
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2007 / Volume: 32
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18562
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Quando eu sofro, eu não sofro sozinho. Comigo sofrem Cristo e todos os cristãos. Assim, outros carregam a minha carga e a sua força é também a minha força.
Martim Lutero
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