1 Coríntios 1.1-9

Auxílio Homilético

19/01/2014

Prédica: 1 Coríntios 1.1-9
Leituras: Isaías 49.1-7 e João 1.29042
Autor: José Manuel Kowalska Prelicz
Data Litúrgica: 2º. Domingo após Epifania
Data da Pregação: 19/01/2014
Proclamar Libertação - Volume: XXXVIII

1. Introdução

Isaías lembra que o servo de Deus foi escolhido antes de seu nascimento para a ação e o testemunho. Foi escolhido não por suas próprias características, mas pelas ações que Deus realizará por intermédio dele, o escolhido/santificado. No Evangelho de João, vemos, por um lado, a escolha e a autenticação de Jesus pelo Pai, identificado através dos sinais que João Batista percebe nele, e, por outro lado, o início do colégio de discípulos ao redor de Jesus e a proclamação de Jesus como Messias.

Com a perícope destacada para a pregação, iniciamos a leitura semicontínua da primeira Carta aos Coríntios. Casualmente, a perícope ajusta-se aos textos de leitura, pois justamente no início de sua carta Paulo traz a temática do chamado, da separação e da santificação da comunidade destinatária da epístola.

Fica o grande desafio de trabalhar um texto mastigado diversas vezes, seja nessa delimitação ou com outros recortes. Interpretações dele encontram-se nos PL 5, 16, 21, 24, 28 e 32, além de ser base da prédica de Ernesto Schlieper no culto de encerramento da Assembleia Geral do Sínodo Evangélico Luterano Unido em 1963. Lembramos que todas essas contribuições estão acessíveis via Portal Luteranos. Quais as nuanças da segunda década do século 21? Qual é a prioridade agora? O que nos pede o contexto? Por que não mais em Advento e sim em Epifania? Faz diferença proclamar o texto no início do ano civil? Qual a característica a ressaltar?

2. Exegese

Na primeira Carta aos Coríntios, Paulo evita impor ou decretar. Pela via da argumentação Paulo procura convencer e conseguir adesão à sua visão. Não usa sua autoridade como forma de coação, mas a partir de Cristo procura mostrar o caminho a seguir. Enfatiza que é um mensageiro chamado e autorizado por Cristo e não um simples empregado da comunidade destinatária da carta. Assim, na perícope indicada, Jesus é lembrado direta ou indiretamente em cada versículo. Não é Paulo quem fala, mas Cristo que quer o bem de sua comunidade e através da perspectiva da cruz e do amor procura solucionar os conflitos. Paulo não argumenta com base em leis eclesiais ou imbuído do espírito humano de justiça. Também é interessante ressaltar que Paulo não se dirige simplesmente às lideranças, mas a todas as pessoas que integram a igreja de Deus que se reúne em Corinto. Da mesma forma, não é apenas à comunidade em Corinto que se dirige, mas à igreja de Deus que tem sua expressão em Corinto. Por isso, além das barreiras contextuais dos destinatários originais da epístola, sua leitura vale também para nós.

Na divisão costumeira das Bíblias, nós temos o prescrito ou proêmio nos versículos 1-3 e a ação de graças nos versículos 4 a 9, ambas as partes consideradas regulares em cartas antigas. Mas Paulo não reproduz simplesmente o formulário tradicional para iniciar a carta. Ele amplia o cabeçalho, incluindo a temática a ser trabalhada. Por isso podemos considerar essa parte como a chave hermenêutica de 1 Coríntios, principalmente o v. 4.

Aproveitamos a tradução própria de Brakemeier para fazer a comparação com a versão de Almeida (ARA) e da Linguagem de Hoje (NTLH). Observamos, em geral, que a versão de Almeida mostra-se mais adequada. NTLH adiciona “esta carta” (v. 1-2) e dá a entender que o deles e nosso refere-se a Senhor, enquanto Brakemeier considera que se refere a lugar. A NTLH substitui ou explica a palavra santificados como união com Cristo e a expressão chamados para ser santos como chamados para pertencer ao povo de Deus. Assim também procede no v. 5, quando o termo logos/palavra é convertido em dom de anunciar o evangelho e gnosis/conhecimento é traduzido como dom da sabedoria espiritual. Dessa forma, a NTLH faz uma leitura teológica sobre um texto de simples compreensão. Definitivamente, deve-se priorizar uma leitura bíblica que não seja a NTLH.

O v. 2 diz três coisas sobre a pessoa cristã e a comunidade de fé:

1 – Elas estão santificadas em Cristo. O verbo hagiazo significa colocar à parte para Deus.

2 – Cristãos e cristãs são pessoas kletois hagios, chamadas a ser santas, a ser parte do povo dedicado a Deus. A palavra santo descreve, em geral, uma coisa ou pessoa que foi dedicada à posse e ao serviço de Deus. A ideia inicial vem de separação. Nesse sentido, uma pessoa apartada deve mostrar com sua vida e caráter essa nova realidade.

3 – Ao ser santa, a pessoa cristã é incluída num grande grupo, que vai além da pequena comunidade de fé (pensando na IECLB, podemos dizer que também vai além da paróquia ou sínodo) ou da igreja instituição. Assim, nenhuma pessoa ou igreja tem a posse exclusiva de Cristo.

As palavras santificado e santo são palavras gregas relacionadas com o tema da santidade, que perpassa as Escrituras. A santidade é prática e conforma (com-forma / dá forma ou adéqua) todos os aspectos na vida dos santos. É a mesma conceituação do povo de Israel como povo pertencente a Deus de forma especial e única, fazendo-o diferente de todos os outros povos que moravam ao redor, diferente em práticas e lugares. No Novo Testamento, a igreja é chamada para ser diferente diante da cultura em que se encontra submersa. Lembramos o alerta de Brakemeier de que santos ou santificados “não designa o moralmente perfeito, e sim o que pertence a Deus”.

Paulo dá atenção à graça divina em Cristo. Isso foi feito, pois talvez pensasse que seus interlocutores perderam o foco. Esqueceram que são primeiramente objetos da gratuidade divina. Pois as pessoas que creem em Cristo são as que realmente estão em Cristo, tendo suas vidas firmadas em Deus através de Cristo.

No v. 3, é lembrada a saudação graça e paz, que Paulo utiliza como programa, desenvolvido nos v. 4 a 9. A graça e a paz trazem um novo estado de relacionamento com Deus, que renova as relações humanas a partir da relação que Deus restaurou consigo mesmo. Por isso a constante lembrança de Cristo como aquele que possibilita a permanência da graça e paz. Os seres humanos não conseguem ser donos desses bens espirituais, mas, ao recebê-los de Deus, são transformados e, ao mesmo tempo, transformam seu contexto e suas relações.

No v. 4, Paulo agradece a Deus pela graça que foi dada à comunidade. Conforme Brakemeier, “a lembrança da obra de Deus bem como a gratidão por ela merecem absoluta prioridade. Toda pregação cristã seria vã se não partisse do que Deus fez”. Assim fez o apóstolo, lembrando a igreja das coisas que Deus tem feito por ela.

O testemunho de Cristo em Corinto trouxe à comunidade uma grande diversidade e abundância de dons, que Paulo vê como uma riqueza. A comunidade de Corinto não é somente chamada para a santidade, mas também equipada de forma completa para a tarefa. Ela recebeu a graça (charis) de Deus (v. 4) e foi enriquecida em Cristo com palavra e conhecimento (logos e gnosis – v. 5). O testemunho de Cristo (martyrion) foi fortalecido em seu meio (v. 6), e a comunidade recebeu uma variedade de dons (charisma – v. 7).

3. Meditação

Primeiramente, Paulo observa a obra de Deus, descobrindo motivos de gratidão. Depois considera necessária uma crítica, até ferrenha, quando a comunidade não atua em conformidade com Cristo. A teologia aplicada de Paulo não permite o desprezo pelo obrar divino, ainda que os resultados humanos sejam falhos ou necessitem de correção. Paulo, depois da crítica, procura lembrar que a fé implica um compromisso que leva as pessoas ao aperfeiçoamento contínuo das relações, seja na conduta ou na vivência do evangelho anteriormente anunciado.

Na ação de graças (v. 4-9), Paulo lembra que a promessa divina fez-se realidade. Agora, com o dom outorgado livremente e sem merecimento, as pessoas cristãs estão equipadas para a vida. Os dons que as pessoas têm e que não merecem sequer ter ou conseguir por méritos próprios são dons de Deus. As pessoas têm os mesmos em custódia. O uso dos dons deve ser regido pelo desejo divino, pela glória divina, para ser instrumentos a serviço de Deus. Com os dons entregues por vontade divina, as pessoas podem suportar dificuldades, ser obedientes, sofrer e até morrer para o pecado. Podem também esperar o tempo necessário para o fim, o qual virá, pois o tempo é de expectativa.

Ao terminar o texto da perícope, Paulo argumenta com a perspectiva escatológica e sua função pedagógica. No Dia do Senhor, veremos a provisoriedade daquilo que aos olhos humanos é importante e saberemos o que realmente persiste. Com a promessa de Deus, a comunidade de fé persiste e será preservada até o fim. Mantendo-se na comunhão com Cristo, não se esquecerá de que está num processo de transição.

Paulo enfatiza o chamado divino e sua previsão. De certa forma, Deus mesmo sabe que somos chamados a uma vida santa em meio a uma sociedade e cultura não santas. Da mesma forma que Jesus se fez carne em meio ao mundo pecador, assim também a igreja é chamada a refletir a luz da diferença gerada em Cristo. Por isso a mensagem de Paulo tem sentido neste tempo de Epifania.

A relação entre a igreja de Corinto e a igreja de nossos contextos (espacial e temporal) é estreita. Observam-se similitudes: foi chamada por Deus para sua existência; recebeu dons em grande quantidade; é desafiada para a lealdade a Deus de forma moral e intelectual; está comprometida com a verdade pregada no evangelho de Jesus; as vidas são sinais num contexto majoritariamente contrário ao evangelho. Tudo isso leva, por um lado, a manter a fidelidade a Cristo e, por outro, a reavaliar atitudes e posicionamentos a partir do presente divino.

Nas diversas instâncias eclesiais, geralmente se esquece de ver o lado positivo. Por que olhar só o negativo? Ao fazer avaliações, as críticas são muito maiores do que os pontos positivos. Deve-se aprender com o apóstolo a primeiro lembrar o positivo e depois, a partir desse fundamento, olhar o que precisa ser modificado. É preciso ir além dos problemas encontrados. Lembrar que as pessoas são chamadas a ser santas (não somente os coríntios, mas nós também) pela relação de Cristo com elas. Pode-se partir de uma visão antropológica negativa, mas sem os remorsos. Justamente o contrário, reconhecendo essa realidade como dada e modificada por Jesus Cristo. Aqui Paulo aponta para o extra nos, para Deus mesmo, que nos nutre e sustenta em Cristo.

Encontra-se, por outro lado, o perigo de pensar que se possui o monopólio da atenção divina. Nossos problemas e preocupações podem parecer muito importantes para nós e por isso mesmo também muito importantes para Deus. Porém não só Deus é muito maior do que os nossos problemas, mas a igreja de Cristo se estende além das fronteiras da comunidade local, paróquia, sínodo ou igreja-instituição.

É preciso encontrar um equilíbrio, pois as pessoas e sua santidade são um trabalho em processo. É o velho “já, mas ainda não”. Temos que ter muito cuidado com a tendência de pensar que os cristãos, dentro das comunidades, são produtos prontos. Reconhecer que ainda não somos perfeitos ou completos, mas que já fomos chamados e encorajados a crescer a cada dia, transformando nossas palavras e expectativas, conformando-as segundo Cristo. Como comunidade em processo não está em plena forma, devemos crescer e procurar tornar-nos irrepreensíveis no Dia do Senhor. É como L. S. Thorton diz que os cristãos são saints-in-the-making (santos-em-produção).

4. Imagens para a prédica

As crianças pequenas, quando viajam, não têm noção de tempo. Vivem perguntando: “Já chegamos?”. Assim como quando sabem que está por vir o seu aniversário, sempre perguntam: “Já é o dia?”. O mesmo acontece com o Natal ou outra festa importante para elas.

Foi feito uma experiência em que crianças de diversas idades eram questionadas se preferiam um pouco de chocolate agora ou muito chocolate depois. Quanto mais nova a criança, mas fácil era prever que ela ia querer o “pouco”, pois não podia entender quando viria o “depois” para ganhar o “muito”. Assim também os cristãos aparentemente não podem esperar o processo todo completar-se, chegar o Dia do Senhor para ter o muito mais.

Quais as formas com as quais nos conformamos com Cristo hoje? Como vivemos comunidade de fé? Quais são os sinais? Talvez nossas orações e agradecimentos, nossos cantos e partilhas. Pode ser o momento de parar e refletir como comunidade se não perdemos o foco.

Quais são os exercícios que elaboramos como comunidade para conformar-nos com Cristo? Que ações concretas são executadas? Que dimensões do ministério de Cristo devem ser mais exercidas para adequar-nos? Ainda não alcançamos o alvo, não estamos vivendo no Dia do Senhor, por isso devemos continuar detendo e eliminando aquilo que for repreensível.

5. Subsídios litúrgicos

Sugiro modificar a ordem litúrgica para ter o Glória ou outro hino de louvor a Deus antes da Confissão de pecados. Assim, a comunidade experimentará na prática aquilo que Paulo escreveu. Mostrar primeiro a graça de Deus, depois aprofundar-nos nos erros.

Podem-se usar como Confissão de fé as explicações do Catecismo Menor ao Credo Apostólico. Justamente é um texto que procura relacionar o individual com o coletivo e, ao mesmo tempo, a imerecida graça de Deus às pessoas cristãs.

Incluir na Oração geral da igreja grupos que são excluídos por não ser considerados santos o sufi ciente para participar do culto junto com a comunidade. Perguntar quais são as pessoas que colocamos à margem, de forma consciente ou inconsciente, quando oramos. É o momento de dar a visibilidade que Cristo deu. Por outro lado, pensar gestos concretos, sinais visíveis da conformidade em Cristo da comunidade. Isso até pode ser um estímulo para o Ofertório, com pessoas diferentes do habitual levando as ofertas ao altar ou até mesmo indicando um destino local da oferta diferente do costumeiro e que ajude a relacionar a comunidade com projetos que procurem conformar-se com Cristo.

Bibliografia

BARCLAY, William. I y II Corintios. Buenos Aires: Ediciones La Aurora, 1973.
BRAKEMEIER, Gottfried. A Primeira Carta do Apóstolo Paulo à Comunidade de Corinto. São Leopoldo: Sinodal, 2008.
PETERSON, Dwight. Commentary on 1 Corinthians 1:1-9. Disponível em: Acesso em: 30 mai. 2013.


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Autor(a): José Manuel Kowalska Prelicz
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: 2º Domingo após Epifania
Testamento: Novo / Livro: Coríntios I / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 9
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2013 / Volume: 38
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 29807
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