1 Coríntios 1.10-17

Auxílio Homilético

21/01/1996

Prédica: 1 Coríntios 1.10-17
Leituras: Isaías 9. 1b-4 e Mateus 4.12-23
Autor: Flávio Schmitt
Data Litúrgica: 3º Domingo após Epifania
Data da Pregação: 21/01/1996
Proclamar Libertação - Volume: XXI

Para nós, cada dia é uma solenidade.

Lembrem o objeto de nossas festas e vocês compreenderão minhas palavras.

A primeira destas festas é a Epifania. Ora, o que celebramos nesta festa?

Que Deus foi visto sobre a terra e que conversou com os homens (Br 3.38).

Que o Filho único de Deus, Deus ele mesmo, veio em nosso meio. (João Crisóstomo.)

1. Introdução

A comunicação é um dos maiores fenômenos deste final de milênio. No entanto, enquanto os meios aproximam, estreitam caminhos, as pessoas estão cada vez mais distantes umas das outras, divididas, desunidas, reduzidas a seus próprios guetos, grupos e concepções.

A Carta de Paulo aos Coríntios nos mostra o quanto o processo de uma comunicação saudável é importante para a unidade e integridade da vivência comunitária cristã.

2. O Texto

A passagem de l Co 1.10-17 está inserida num complexo maior da carta que inicia com 1.10 e termina em 4.21. A temática principal do complexo trata das facções na comunidade e do evangelho da cruz.

Depois da saudação (1.1-3) e do proêmio (1.4-9), Paulo começa a falar a respeito dos assuntos sobre os quais foi informado (1.10-17). Em seguida (1.18-2.16) aborda a questão da sabedoria, voltando novamente a tratar dos cismas na comunidade (3.1-17). Na sequência retoma o assunto da sabedoria (3.18-23). Por fim, o apóstolo elabora algumas conclusões práticas, adverte a comunidade com severas exortações e anuncia sua visita a Corinto (4.1-21).

2.1. Estrutura

V. 10: exortação.
Vv. 11-12: apresentação do motivo e tema.
V. 13: argumentação principal.
Vv. 14-16: a questão do Batismo.
V. 17: conclusão.

2.2. Escopo

Paulo é informado a respeito da divisão na comunidade. Relativiza seu ministério diante desse fato. Argumenta em prol da unidade procurando se ater aos argumentos que unem, congregam e são fundamentais para o evangelho anunciado.

2.3. A Comunidade de Corinto

A comunidade de Corinto foi fundada durante a segunda viagem missionária de Paulo. Portanto, trata-se de uma comunidade urbana. Conforme At 18, o apóstolo consegue fundar um primeiro núcleo após ser acolhido e encontrar trabalho na casa de Áqüila e Priscila. Paulo começa com a pregação na sinagoga. Porém somente encontra oposição e hostilidade dos judeus. O Batismo de Crispo, presidente da sinagoga (1.14), agrava a relação com os judeus a ponto de o apóstolo ser acusado perante o tribunal do procônsul Gálio.

Corinto era uma das metrópoles mais importantes da época. Havia sido reconstruída por ordem de Júlio César. Por sua localização geográfica e sua importância econômica e comercial, tornou-se sede do procônsul da província de Acaia (27 a.C). Na sua condição de cidade portuária ela se tornara lugar de encontro entre as nações do Oriente e Ocidente.

A maioria dos fiéis da comunidade são conquistados por Paulo através do mundo do trabalho. Trata-se de gente humilde, acostumada a enfrentar o dia-a-dia da vida de acordo com as condições reinantes no Império Romano (Meeks, pp. 79ss.).

Os cristãos de Corinto procuram compreender o evangelho a seu modo, com auxílio das categorias de compreensão de seu mundo. A pregação do evangelho no ambiente grego trouxe consigo o entusiasmo e os perigos que lhe são inerentes. Em Corinto teve início uma longa luta entre fé cristã e gnosticismo. É diante dessa tendência gnóstica que Paulo se vê coagido a refutar o entusiasmo da comunidade e reconduzi-la à realidade, destruindo ilusões e colocando os cristãos sob a cruz de Cristo.

2.4. Divisão e Unidade

Para Paulo não há possibilidade de unidade na pluralidade quando a cansa teológica de ordem fundamental — loucura da cruz — está em jogo.

Os diferentes grupos mencionados no texto refletem, de certa forma, a ação missionária na comunidade. É possível que aos olhos da comunidade de Corinto a existência de diferentes grupos não seja sinônimo de cisão. Aliás, o próprio Paulo se dirige à comunidade como um todo, uma unidade. Ainda assim, aos olhos do apóstolo a situação da comunidade sinaliza desintegração ou, pelo menos, forte divisão.

Na origem de cada facção podemos identificar uma estreita conexão com o Batismo. Isso se evidencia na pergunta de Paulo: Fostes vós balizados em nome de Paulo? Aqui devemos levar em consideração que em Corinto o Batismo é entendido em analogia aos ritos de iniciação nas religiões dos mistérios. Nesses rituais se estabelece uma relação pessoal profunda entre o iniciado e o iniciador.

V. 10: Paulo começa exigindo unanimidade em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. É Jesus mesmo quem autoriza a exigência: que digais todos uma mesma coisa. A comunidade está dividida. Ainda que aparentemente se mostre unida, falta a consistência interior que lhe confere unidade. A unidade se expressa no mesmo entendimento das coisas e na mesma opinião.

VV. 11-12: Paulo foi convencido, foi-lhe demonstrado, por pessoas da casa de Cloé (empregados, escravos?), que sua intervenção é necessária em Corinto. Sobre Cloé, uma mulher, não há maiores detalhes no texto. Possivelmente os informantes são pessoas da comunidade, conhecidas de Paulo e dos coríntios.

No v. 12 o apóstolo se dirige à comunidade toda. A divisão é assunto de toda a comunidade. Paulo diz o que cada pessoa de Corinto está a dizer: Eu sou de Paulo, eu de Apoio, eu de Pedro, eu de Cristo.

Por um lado, é até natural que Paulo e Apoio sejam mencionados e lembrados pela comunidade. Afinal, eles pregaram e balizaram em Corinto. Como, porém, explicar a presença de Pedro nesta comunidade? E mais, como determinar o grupo de Cristo? Acaso não são cristãos os de Paulo, Apoio e Pedro?

No que diz respeito a Pedro, a hipótese mais provável é que cooperadores de Pedro tenham levado a tradição do apóstolo até Corinto, dando origem a um grupo seguidor. No entanto, entre os de Cristo devemos incluir aquelas pessoas da comunidade que não compactuam com a valorização e estima exage¬rada atribuída aos apóstolos pelos partidários de cada grupo. Os de Cristo não querem aderir ao partidarismo dos outros; orientam-se por Cristo. Aqui não se trata de uma facção propriamente dita. Trata-se de um grupo que não deseja ser orientado por uma autoridade apostólica.

C) v. 13 nos apresenta a reação de Paulo. Colocada a questão, o apóstolo reage ao que lhe foi informado fazendo três perguntas, cujas respostas são uni enfático não: Está Cristo dividido? Foi Paulo crucificado por vós? Fostes vós balizados em nome de Paulo?

Na primeira questão Paulo elabora sua concepção de Igreja como corpo de Cristo. A situação da comunidade é absurda. Onde a unidade da comunidade é dissolvida, ali o próprio Cristo está dividido (Brakemeier, p. 22).

A segunda pergunta evidencia quão absurdo é na comunidade o apego demasiado às autoridades. Cristo é que foi crucificado. Ele é o evangelho. Existe uma única Igreja da qual Cristo é o fundamento.

Na terceira pergunta Paulo esclarece que só existe o Batismo realizado em nome de Cristo, independentemente de quem o realiza. O Batismo também pode criar laços entre quem batiza e a pessoa batizada. Porém estes são secundários. O Batismo cria comunhão com Cristo. Por isso, não há razão para ver semelhan¬ça entre os mistagogos, possuidores de uma sabedoria misteriosa, e os apóstolos.

Nos vv. 14-16 Paulo desenvolve o assunto do Batismo. Inicialmente dá graças a Deus pelo fato de ter balizado só algumas pessoas em Corinto. Ter balizado mais gente poderia ser um complicador a mais nesse momento. Paulo não quer ser confundido com um mistagogo. Pelo falo de ler balizado apenas Crispo, Gaio e a família de Estéfanas, o apóstolo está em condições de se distanciar de todos os grupos.

Por fim, no v. 17 Paulo mais uma vez diz a que veio. Sua missão não é balizar, criar grupos na comunidade, mas evangelizar. Nesta missão o apóstolo não quer ser substituído, tampouco delegar a tarefa a outros. Paulo cumpre sua função específica, deixando aos outros o que cada qual pode contribuir na causa de Cristo. Aqui torna-se necessário caracterizar novamente a pregação de Paulo. Ele anuncia o Cristo crucificado como o evangelho. Não prega a sabedoria do mundo, mas a loucura da cruz.

3. Pensando na Pregação

A partir de l e 2 Coríntios podemos perceber que as comunidades fundadas pelo apóstolo não são nenhum paraíso. Nelas há Ioda sorte de dificuldades, revelando a ambiguidade do que significa ser cristão e comunidade no início da era cristã. No entanto, graças aos desafios enfrentados por Paulo temos paradigmas, critérios de orientação e palavras para lidar com nossos próprios desafios, como cristãos e comunidades.

Para o/a pregador/a não apenas as palavras do texto são importantes. Importa aprender o jeito do apóstolo de lidar com a situação. Em primeiro lugar, Paulo não estabelece nenhuma relação ambígua com seus ouvintes. Não hesita em dizer o nome de quem informou e o que lhe foi informado. Mesmo assim, em momento algum personaliza a discussão. Em segundo lugar, Paulo enxerga mais do que a aparência, a superfície dos fatos. Assim como vai à raiz dos problemas, também aponta a raiz da solução.

Nesse sentido, cumpre interrogar: qual a natureza de nossos cismas? Procuro destacar três níveis que muitas vezes se sobrepõem numa mesma realidade.

a) Perspectiva geral: A geopolítica da terra nos revela um mundo dividido em blocos econômicos. Regiões, países e empresas se agrupam de acordo com seus próprios interesses. Neste ambiente os meios de comunicação desempenham um papel no processo de desinformação e na informação errada ou parcial. Em consequência, pessoas e vastos setores da sociedade ficam à margem dos benefícios econômicos e sociais da nova ordem mundial.

b) Nível eclesiástico: O que ocorre a nível de mundo se reflete na vida da Igreja. A pluralidade de igrejas e religiões reflete o quanto a autoridade humana impera na convivência entre as pessoas. A luta entre diferentes deuses protagonizada por seus missionários revela toda a nossa humanidade e parcialidade no trato das questões últimas da vida humana.

c) Comunidade local: É na comunidade local que experimentamos os cismas e suas consequências. Ninguém melhor do que a própria comunidade para falar das divisões que comprometem sua unidade e testemunho do Cristo. Também para a comunidade local vale a palavra: a unidade da Igreja só existe em Cristo. Partidos, pessoas, ideologias e classes devem se dobrar aos pés de Cristo.

Tanto uma falsa compreensão da autoridade humana como uma falsa concepção do evangelho e de Cristo subvertem a unidade cristã. Para Paulo importa que o Salvador continua sendo o Crucificado/Ressuscitado. O evangelho é a loucura da cruz.

A verdadeira epifania revela a presença do Salvador entre nós (Is 9.1-4). É desta intimidade de Deus com seu povo que brota a missão profética (Am 3.1-8). A radicalidade desta missão é assumida por Jesus (Mt 4.12-23).

4. Bibliografia

BRAKEMEIER, G. A Primeira Carta aos Coríntios. São Leopoldo, Faculdade de Teologia, 1973. (Polígrafo).
LOHSE, E. Introdução ao Novo Testamento. São Leopoldo, Sinodal, 1980.
MEEKS, W. Os Primeiros Cristãos Urbanos; o Mundo Social do Apóstolo Paulo. São Paulo, Paulinas, 1992.


Autor(a): Flávio Schmitt
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: 3º Domingo após Epifania
Testamento: Novo / Livro: Coríntios I / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 10 / Versículo Final: 17
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1995 / Volume: 21
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14208
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