1 Coríntios 1.18-25

Auxílio homilético

26/03/1995

Prédica: 1 Coríntios 1.18-25
Leituras: Isaías 12.1-6 e Lucas 15.1-3,11-32
Autor: Antônio Roberto Monteiro de Oliveira
Data Litúrgica: 4º Domingo da Quaresma
Data da Pregação: 26/03/1995
Proclamar Libertação - Volume: XX


1. Texto

V. 18: Pois a palavra da cruz é loucura para os que se perdem; para nós poder de Deus é.

V. 19: Pois está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios e a inteligência dos entendidos anularei.

V. 20: Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o questionador desta era? Será que Deus não fez enlouquecer a sabedoria deste mundo?

V. 21: Uma vez que a sabedoria de Deus o mundo não conheceu pela sabedoria Deus resolveu salvar pela loucura da pregação os que crêem.

V. 22: Porque os judeus pedem sinais e os gregos procuram sabedoria,

V. 23: Porém nós anunciamos a Cristo crucificado, para os judeus escândalo, para os gregos loucura.

V. 24: Porém para os escolhidos, quer judeus, quer gregos, Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus.

V. 25: Pois a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.

2. Forma

Uma leitura, mesmo superficial, mostra como é arbitrária a proposta de excluir do lecionário os vv. 19-21 do texto da pregação. A citação de Is 29.14 vem qualificar a palavra da cruz como palavra profética, em continuidade com a palavra dos profetas. Loucura é uma palavra-chave, é o eixo do v. 20 através da pergunta retórica que afirma que Deus fez enlouquecer a sabedoria do mundo e da mesma forma aponta para o v. 21, que afirma que Deus resolveu salvar os que crêem pela loucura da pregação. Manteremos, portanto, os vv. 19-21 neste recorte dentro do bloco que vai de 1.10 a 4.21, que tematiza o conflito de vários grupos e tendências dentro da comunidade. O texto tem, inclusive, uma forma de debate, discussão, controvérsia. Isso se percebe não somente pelo conteúdo polémico, a identificação das posições questionadas, mas sobretudo pelas perguntas retóricas do v. 20.
O assunto já é introduzido pelo v. 17b, onde o apóstolo afirma que entende sua missão em função da pregação em cujo centro esteja a cruz de Cristo e não a sabedoria humana. Os vv. 18-25 não contêm, portanto, uma reflexão teológica sistemática como a da Carta aos Romanos, mas encerram uma discussão polêmica, na qual Paulo se vê forçado a articular a conceptualidade da teologia da cruz (Conzelmann, ap. Ludwig Markert, in: Calwer Predigthilfen, Jahrgang 2B, p. 80).

3. Lugar

O apóstolo Paulo fala explicitamente em 1.11 que tinha chegado ao seu conhecimento o fato de haver desavenças na comunidade. Diversos partidos se formaram em torno do missionário de sua preferência. Havia o grupo de Paulo, o de Apoio, o de Cefas, e ainda o grupo daqueles que se julgavam cheios do Espírito Santo, portanto o grupo de Cristo. A influência gnóstica neste último grupo era bem perceptível. Crentes de que estavam já de posse do Espírito Santo, os pneumáticos presumiam que o eschaton já estava presente (4.8), desprezavam as coisas terrenas, acreditavam já ter ressuscitado, não esperando, portanto, uma ressurreição futura dos mortos. Insistiam em sua liberdade no Espírito. De posse do Espírito, consideravam o corpo livre. Esses pneumáticos integravam a minoria rica da comunidade. A maioria provinha das camadas inferiores (l .26-28).

Antes da redação desta carta já houvera uma carta anterior. Em 5.9 Paulo menciona uma carta na qual teria dito à comunidade para não ter contato com os imorais, e fora questionado sobre como isso seria possível naquela cidade portuária cheia de ofertas de diversão para os estrangeiros que para lá afluíam.

Portanto, Paulo está polemizando contra membros da comunidade que estavam valorizando demais a dimensão extática da comunidade, a sabedoria, em detrimento da mensagem da cruz. Queriam saber do Cristo ressurreto e glorificado, mas não do Jesus crucificado. Estavam convictos de que o caminho da salvação passa pela iniciação em certos mistérios da sabedoria e na posse do Espírito.

4. Palavra

A Palavra da cruz é loucura — esta deve ter sido a posição do grupo entusiasta em relação à pregação de Paulo. Loucura no sentido de que isso é um total contra-senso, contraria todas as aparências. Parece tolice. Dizer que Deus oferece salvação através da cruz de Cristo, e não através da linguagem de sabedoria, é loucura. Sem ainda entrar no mérito, o apóstolo afirma que em (orno dessa questão se decide vida e morte. A palavra é loucura para os que se perdem, para os que crêem, porém, é o poder de Deus. Então, a própria palavra da cruz faz a divisão no meio da comunidade, provoca uma reação diferente nas pessoas. A alguns ela parece loucura — são os que não acreditam nela. Para outros, os que crêem, ela é o poder de Deus para a salvação. Na tomada de decisão em relação a ela se realiza o julgamento escatológico.

Relativizando aqueles que se consideravam de posse do Espírito e, portanto, cheios de sabedoria, o apóstolo fundamenta essa afirmação em relação à palavra da cruz tomando uma referência do profeta Isaías 29.14. Através dela se afirma que Deus rejeitou a sabedoria dos descrentes. Assim é fundamentado por que Deus considera perdidos aqueles que rejeitam a palavra da cruz por julgá-la incompatível com a sabedoria humana ou pneumática.

As consequências da negação divina são manifestas por meio de três perguntas retóricas, também tomadas da tradição profética, isto é, Is 19.11 s.; 33.18 e 44.25. Parece que não, mas há uma evolução sutil nas perguntas (contra Markert, p. 82). Onde está o sábio — influência da filosofia grega? Onde está o escriba — influência judaica? Ambos designam este aeon marcado pela descrença, o mundo descrente, hostil a Deus, passageiro. Não há sábio, quer judeu, quer grego, que subsista perante Deus. Com mais uma pergunta que somente pode ser respondida com sim, Paulo afirma que Deus fez enlouquecer a sabedoria da descrença. A pregação da cruz revela a loucura do mundo.

Em sua sabedoria o mundo não conheceu a Deus. Não foi por simples deficiência, mas sim por uma rejeição consciente do conhecimento, foi uma tentativa do mundo de criar a sua própria sabedoria. Contudo, Deus não abandonou simplesmente o mundo (2 Co 5.19); seu amor foi maior do que a descrença. Ele decidiu escolher um novo meio de salvação em favor do mundo. O acesso a ele, porém, está vinculado exclusivamente à fé. A loucura da palavra da cruz, evidencia o juízo de Deus sobre a sabedoria do mundo.

Isso é esclarecido no exemplo dos judeus e gregos, que na perspectiva da história da salvação representam toda a humanidade. Comum aos dois grupos — ao homem natural — é a exigência de provas para a verdade divina. Os judeus exigem sinais de legitimação por parte de Deus. Os gregos buscam, por meio da razão humana, a sabedoria. A essas tentativas de se obter o conhecimento de Deus de maneira segura, Paulo contrapõe a pregação de Cristo como o crucificado, o que para os judeus é um escândalo, uma vergonha, expressão da maldição de Deus; e para os gregos, um absurdo. No cenário deste mundo rebelde Paulo se volta para aquele grupo dos que chegaram à fé pela palavra da cruz e confessam que ali encontraram a verdadeira sabedoria e força de Deus. Paradoxalmente, encontraram sabedoria e força de Deus exatamente na fraqueza e humilhação, segundo os critérios humanos. Somente quando a compreensão e poder humanos acabam na cruz é que a loucura de Deus pode ser reconhecida como sabedoria e a fraqueza de Deus pode ser reconhecida como força.

5. Meditação

Estamos chegando na Nova Era, a Era de Aquário, e estão florescendo e sendo amplamente divulgadas correntes filosóficas em muito semelhantes às do gnosticismo do século I, e isso com ampla aceitação nas classes média e alta. Segundo os new agers, salvação por meio da fé em Jesus crucificado é completo absurdo. Cada um deve salvar a si próprio, por meio de sucessivas reencarnações, afirmam eles. Afirmar que Deus está presente com os fracos e loucos de nossa sociedade e ali revela sua força e sabedoria é completo absurdo, é loucura. O fenômeno do movimento religioso e filosófico Nova Era, ainda algo não bem definido, vem mostrar como é atual a pregação do apóstolo Paulo para a nossa realidade hoje. No mundo capitalista selvagem a palavra da cruz é subversão pura, quando se entende que Deus quer salvar não somente dos pecados individuais, mas também das cruzes modernas e desnecessárias que o sistema quer impor à maioria de nosso povo.

Não se pode fugir da briga com a sabedoria moderna, tão útil em alguns momentos, tão destruidora em outros. A sabedoria moderna, evidente na informática, no desenvolvimento tecnológico, na manipulação genética, vem mostrar que conhecimento sem amor e fé não salva, antes mata. Enquanto alguns hospitais do País dispõem dos mais modernos recursos tecnológicos à disposição de poucos, o sistema de saúde é um dos mais precários do mundo. Doenças como a cólera continuam matando. Enquanto isso, os meios de comunicação iludem com os modernos recursos da realidade virtual. E o Cristo crucificado? Continua sendo enfeite de repartições públicas, onde se tomam decisões que eternizam a crucificação do povo.

6. Prédica

- Exemplo de sabedoria moderna — avanço tecnológico contrastando com atraso social, onde Cristo está crucificado. A efervescência de movimentos religiosos pneumáticos e gnósticos — Nova Era, hoje.

— O problema em Corinto.

— O problema em nossas comunidades hoje. Qual o Cristo que buscamos o glorificado ou o crucificado? O que há de loucura em nossas pregações'.' Como reagimos diante da loucura da pregação?

— Como confessar no lugar em que vivemos a presença de Deus na cruz; testemunhos de pessoas que na cruz encontraram Deus, na loucura de Deus encontraram sabedoria e na fraqueza de Deus encontraram força.


 


Autor(a): Antônio Roberto Monteiro de Oliveira
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Quaresma
Perfil do Domingo: 4º Domingo na Quaresma
Testamento: Novo / Livro: Coríntios I / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 18 / Versículo Final: 25
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1994 / Volume: 20
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 12952
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