1 Coríntios 10.1-13

Auxílio Homilético

03/08/1980

Prédica: 1 Coríntios 10.1-13
Autor: Lothar Hoch
Data Litúrgica: 9º. Domingo após Trindade
Data da Pregação: 03/08/1980
Proclamar Libertação - Volume: V


Julgo que a pregação deve levar em consideração três fatores, que constituem o tripé homilético: o texto, o pregador e a comunidade.

I - O texto

A perícope está no contexto da admoestação de Paulo contra a idolatria (o comer carne sacrificada a ídolos) e a falsa segurança (a questão dos fortes e dos fracos). 1 Co 10.1-13 constitui uma atualização ou interpretação de passagens do Antigo Testamento que visa dar ênfase à argumentação de Paulo. O apóstolo entende que a experiência do povo de Israel serve de exemplo, de advertência às gerações atuais.

Vv.l-4a: Aqui o termo chave é PANTES (todos). Todos estiveram sob a nuvem (Ex 13.21); todos atravessaram o mar (Ex 14.21 s); todos comeram do maná (Ex 16.4,14-18); todos beberam da mesma rocha (Ex 17.6).

A intenção parece ser a de colocar todos os israelitas no mesmo nível: todos passaram pela mesma situação, Deus assistiu-os indistintamente e mesmo assim todos pecaram (cf. Rm 3.23).

De acordo com a interpretação tipológica do AT (mais detalhes abaixo) o batismo cristão (v.2) não deve ser compreendido a partir do batismo em Moisés (a tradução de Almeida batismo com respeito a Moisés não é bem exata). Pelo contrário, o batismo em Moisés deve ser interpretado - como uma espécie de visão retrospectiva - a partir do batismo em Cristo.

Não é necessário que se procure, na atualização do texto, achar uma correspondência simbólica para todos os eventos que o apóstolo menciona: nuvem, mar, maná, pedra etc. Basta que se compreenda a linha mestra de sua argumentação que é a seguinte: a história de Israel serve de exemplo, de advertência à comunidade crista.

Vv.4b-6a: Estes constituem a interpretação propriamente dita dos eventos da história de Israel. O ponto de partida é a ideia da preexistência de Cristo (cf. Jo 1; Fp 2.6ss; Cl 1.13ss). Mas o termo chave para onde converge toda a interpretação paulina aparece no v.6: TYPOS (carimbo, modelo original, exemplo). Daí o termo tipologia, que merece ser examinado brevemente.

Sob tipologia entende-se o método hermenêutico de interpretação do AT, através do qual os personagens e os acontecimentos vetero-testamentários são considerados como prefiguração e antecipação de personagens e acontecimentos que haverão de suceder, após a vinda de Cristo.

Paulo se vale deste método para contrapor personagens centrais do AT como Adão e Moisés a Jesus Cristo, procurando demonstrar, de um lado, os traços semelhantes (tipo) e, de outro lado, os opostos (anti-tipo) entre eles (cf. Rm 5.12ss; 1Co 10.1ss; 2Co 3.7ss).

A tipologia se orienta por um conceito cíclico de história, onde tudo o que acontece é considerado uma repetição de ocorrências históricas do passado.

A interpretação tipológica em 1Co 10.1ss consiste no fato de Paulo descrever a situação da sua época, como sendo uma espécie de reedição daquela vivida pelos israelitas no deserto. A comunidade cristã em seu êxodo, em sua peregrinação pelo mundo, está sujeita às mesmas tentações que os filhos de Israel outrora. Convém que a comunidade de hoje tenha diante dos olhos o exemplo negativo da desobediência e da infidelidade dos israelitas para não incorrer nos mesmos erros (cf. Hb 3.7-13).

Vv.6b-11: Aqui predomina o imperativo ME (não). Não cobicemos as coisas más (v.6); não sejamos idólatras (v.7); não pratiquemos imoralidade (v.8); não ponhamos o Senhor a prova (v.9); não murmureis (v. 10). Note-se que a construção da frase Inclui sempre a formulação: como eles o fizeram. Com isto, se quer reforçar o sentido exemplar negativo do comportamento do antigo povo israelita. Nos vv.8-10 são narradas também as consequências funestas dos atos praticados.

Assim como nos vv.4b-6a tudo convergia para o termo TYPOS, assim também nesta unidade o v.11 constitui o centro da Interpretação, no qual ó empregada uma variante do mesmo termo grego. Aqui o caráter parenético se torna bem evidente: estas coisas aconteceram aos israelitas a título de exemplo e foram escritas para advertência nossa. A expectativa escatológica de um breve fim dos tempos, no v.11 (cf. 1Co 7.26,29), dá ênfase à argumentação paulina.

Vv.12 e 13: O v.12 adverte contra a falsa segurança. É oportuno lembrar a distinção de Lutero entre a securitas que se apoia unicamente em si mesma e a certitudo que confia em algo fora de si mesma, em Deus.

Através da tentação (v.13), da provação e do sofrimento se mostrará a verdadeira natureza daquele que julga estar em pé. Na crise a pessoa se mostra como ela é de fato. Deus, porém, é fiel em meio à crise. Na verdade, a provação parte dele mesmo. Ninguém conhece a medida da própria capacidade de suportar sofrimentos, ninguém conhece a própria força. Só Deus sabe quanto somos capazes de suportar. Ele saberá dosar o sofrimento de acordo com nossa capacidade.

II - O pregador

O pregador, mesmo aquele que pretender se manter fiel ao texto, sempre reflete na prédica traços da sua personalidade. Além disso, sua pregação espelha certos aspectos da situação existencial que está vivendo no momento. Talvez o pregador esteja vivendo uma fase muito equilibrada de sua vida, mas também pode ser que esteja em crise familiar, em dúvidas de fé, com problemas de saúde ou numa fase de questionamento do sentido do seu trabalho.

Dependendo da situação existencial em que se encontra o pregador e dependendo das características de sua personalidade o texto em questão poderá ser interpretado:

a) De uma forma mais moralista e legalista. Neste caso se dará ênfase aos vv.6-11 onde predomina o imperativo. Facilmente Deus será visto como um Deus impaciente, de chicote na mão ou até mesmo vingador - um Deus que não tolera tropeços humanos. Incorre-se daí facilmente no perigo de proclamar um esquema de olho por olho, dente por dente, pleiteando-se o fuzilamento de terroristas e outros elementos considerados nocivos à sociedade, para evitar que eles dêem mau exemplo aos outros.

b) Pode-se, também, cair no outro extremo e deixar completamente de lado os 11 primeiros versículos deste texto, pregando apenas sobre os dois últimos. Neste caso o perigo reside em se pregar um Deus por demais complacente, sendo o sofrimento e as Injustiças considerados como um plano seu para testar a fé dos crentes. Disto resultará uma pregação que incentiva a aceitação passiva do sofrimento e que sanciona a injustiça institucionalizada, como sendo vontade de Deus.

O pregador sempre fará bem se, ao preparar uma prédica, fizer uma pausa de reflexão e introspecção para tentar auscultar o seu estado de espírito e a maneira como este poderá refletir-se na sua pregação. Isto não representará nenhuma garantia de uma interpretação objetiva do texto, mas poderá evitar que se caia em extremos.

III - A comunidade

A comunidade é o alvo da pregação. Ela deve estar sempre diante dos olhos do pregador quando do preparo da prédica. Se o pregador imaginar que está sentado num banco da sua igreja ao lado dos membros da sua comunidade, ouvindo com os ouvidos destes a leitura do texto, que perguntas poderão surgir? Talvez se dirá: Não entendi nada pois a linguagem é muito difícil; porque Deus se agrada de uns e de outros não?; será que realmente merece castigo aquele que come e bebe e se diverte?; como Deus foi severo com os israelitas!; o texto diz que Deus ajuda a gente na hora do aperto, mas eu raramente sinto a sua ajuda.

Os ouvintes ouvem p texto através do filtro da situação que estão vivenciando no momento. Daí a importância de se perguntar se existem divergências internas na comunidade, que fatos recentes estão comovendo as pessoas do lugar e que problemas sociais os afligem.

Se o pregador conseguir detectar um pouco da situação da comunidade, estará em melhores condições de interpretar o texto de modo que fale ao ouvinte.

IV - A caminho da prédica

1Co 10.1-13 incentiva-nos a aprender das experiências de outros. TYPOS se constitui no termo chave desta perícope. TYPOS tem o significado de carimbo, matriz ou modelo original (deu origem à palavra tipografia) que, uma vez forjado em pedra ou metal, imprime a sua forma e se reproduz através de cópias

a) Com que tipo de pessoas nós convivemos?

O exemplo de advertência do povo de Israel em sentido-coletivo pode ser aplicado à convivência social entre indivíduos. Muitos pais advertem seus filhos sobre o perigo das más companhias. Diz-se, então, que com certo tipo de gente não se deve manter contato. Verdade é que cada pessoa, através da sua formação e da sua personalidade, é uma espécie de matriz que tem influência sobre as pessoas ao seu redor. O exemplo dos pais é determinante para a formação da personalidade e da fé da criança. Daí o ditado: filho de onça sempre saí pintado.

Cada pessoa é, sempre e em qualquer circunstância, um exemplo de advertência no sentido negativo, ou um exemplo positivo a ser imitado.

Para muitos pais, porém, não é a bondade ou a maldade o critério para aconselhar seus filhos quanto a companhia. Muitos pais se orientam mais por valores económicos e perguntam, antes de tudo, pelo status social e pelo prestígio ou até mesmo pela cor da pele das pessoas A pergunta peio bom exemplo, neste caso cede lugar à discriminação social ou racial.

Jesus não se retraiu do mundo Ele entrou no mundo em todos os seus níveis e frequentou até círculos considerados os mais baixos da sua época.

b) Que tipo de pessoa somos?

Cada pessoa deve julgar, ela própria, o que é capaz de suportar em termos de tentação. Somos fortes a ponto de podermos nos expor, como Jesus, aos mais sérios perigos sem que nossa fé e a nossa integridade psíquica fiquem ameaçadas?

Há pessoas que ss afundam no vício e continuam achando que poderiam, se quisessem, deixá-lo a qualquer hora. Quando vêem é tarde demais. O que pensa estar em pé veja que não caia!' Mostrar fraqueza, reconhecer limitações próprias e demonstrar medo, porém, não ó bem aceito em nossa sociedade machista. Mas que tipo da pessoas somos, bem no íntimo?

c) Em que tipo de sociedade vivemos?

Até que ponto o cristão pode participar das convenções e rituais da sociedade e desfrutar de seus benefícios e seduções (por exemplo da sociedade de consumo), sem correr o perigo de compactuar com o mundo ou tornar-se seu escravo? O contexto, é bom lembrar-nos, fala da idolatria.

Quem julga ser um indivíduo livre que está vivendo de acordo com a sua vocação e que está seguindo seus próprios ideais, enfim, quem julga estar vivendo a sua própria vida talvez não esteja se apercebendo de que, de uma forma bem sutil, está sendo levado por outros caminhos pelos ditames da época, pelos valores duma sociedade capitalista de consumo, pela pressa e pela consequente falta de reflexão.

Que exemplos estamos imitando, que valores nos orientam, quais são nossas normas? Estamos vivendo nós mesmos ou estamos sendo vividos? Somos, pelo menos em parte, senhores de nossa vida ou somos marionetes na mão de uma estrutura de sociedade que nos manipula sem o sabermos?

A crise que certas sociedades estão vivendo e que está desmascarando seu way of life poderá servir-nos de advertência

d) Quem é nosso Deus?

Deus é Senhor também na tentação. Mesmo que nós, em meio à tentação, acharmos que estamos longe de Deus, ele está perto de nós. Ele permanece fiel a nós, mesmo que nós nos tornemos infiéis a ele.

A fé no senhorio de Deus, porém, não nos isenta de procurarmos nós também ser senhores sobre a tentação. A fé no senhorio e na fieldade de Deus nos dá alento na luta e na esperança de que os senhores e ídolos deste mundo não terão a última palavra.

V - Bibliografia

- BULTMANN, R. Ursprung und Sinn der Typologie als hermeneutische Methode. In: Theologische Literaturzeitung. Ano 75. N9 4/5 Abril/Maio 1950.
- CONZELMANN, H. Der 1. Korintherbrief. Göttingen, 1969.
- WITTRAM, H. / HEUE, R. Meditação sobre l Coríntios 10.1-13. In: Predigtstudien. Vol.2/2. Stuttgart, 1974.


Autor(a): Lothar Carlos Hoch
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 10º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Coríntios I / Capitulo: 10 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 13
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1979 / Volume: 5
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18284
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