1 Coríntios 15.50-58

Auxílio Homilético

06/04/1980

Prédica: 1 Coríntios 15.50-58
Autor: Helmut Burger
Data Litúrgica: Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 06/04/1980
Proclamar Libertação - Volume: V


I — Páscoa — uma festa de vários aspectos

1. Festa de natureza: No primeiro domingo após a primeira lua cheia na primavera do hemisfério norte, celebra-se uma festa em Israel e na cristandade. 50 dias antes do início da colheita (Pentecostes) há grande concentração na terra de Canaã com sacrifícios e holocaustos (Ex 34.18-20). Vestígios fortes de uma festa da natureza temos hoje na figura do coelho e do ovo da páscoa, símbolos da primavera no hemisfério norte. Curiosidade: Israel inicia a primavera no dia 24.03., enquanto que a Europa a inicia no dia 21.03. Em 1978 a lua cheia caiu em 23.03: para a Europa na primavera, para Israel ainda não. Consequência: a Europa festejou a Páscoa em 26.03. e Israel, em 30.04. (conforme a lua cheia de 24.04.). Normalmente, porém, judeus e cristãos celebram a páscoa no mesmo dia.

2. Festa da Páscoa: Páscoa significa poupança, no sentido de que Deus poupou o primogénito dos hebreus na 10a praga, no Egito (Ex 12.27). A este ser poupado correspondem, perdão, remissão, indulto, anistia. Para os cristãos a figura simbólica é Barrabás que foi poupado. O castigo atingiu Jesus.

3. Festa dos pães asmos: Não há tempo a perder para sair da escravidão e para entrar na liberdade de Deus (nem o tempo que o pão necessita para levedar Ex 12.34). Pão asmo é um pão feito de massa com fermento, mas que não recebeu o tempo de levedar, simbolizando a pressa e lembrando a libertação por Deus.

4. Primeiro dia da semana: Desde aquela páscoa de Jesus, em que ele ressuscitou no primeiro dia da semana, celebram-se todos os primeiros dias de semana como domingos (dias do Senhor), lembrando que Jesus é as primícias dos que dormem (1 Co 15.20).

Poderíamos dizer que Páscoa é primavera (celebração do que há de vir) é ser poupado (solução para a culpa humana), é libertação (chamado para a decisão), é ressurreição (uma nova opção de vida iniciada por Cristo).

II - O texto

1. Vejamos alguns vocábulos principais do texto:

V.50: Carne e sangue significa o terreno, o natural, a matéria, o humano, em contraposição ao celeste, espiritual, divino. Veja também Gl 1.16; Jo 1.13 e Mt 16.17. - Corrupção: No grego a palavra correspondente não tem este tom negativo. Podemos traduzir também por perecível, terreno, humano, sinónimo de carne e sangue. - Paulo defendera a tese de que primeiro foi criado o nosso corpo, depois a nossa alma, nosso espírito (v.46). Agora ele faz a trágica constatação de que este corpo não passa pela morte.

V.51: Mistério aponta para algo novo na reflexão humana. Um mistério é assunto exclusivo da fé. Não pode ser desvendado, só pode ser acreditado. Paulo anuncia algo que pode ser acreditado. - Seremos transformados: nesta palavra está a essência do que Paulo quer dizer neste texto. No original grego (ALLASSÕ) pensa-se em mudar, tornar diferente. Assim como somos, não há futuro para nós; devemos ser diferentes, ser transformados, ser mudados. O mesmo pensamento é expresso pelo revestir dos vv.53s.

V.58: O termo vão ocupa um lugar de destaque em todo o cap.15 (veja os vv.10,14 e 17; quanto ao conteúdo, também o v. 32) O vazio da vida humana parece ser o ponto de partida da reflexão de Paulo.

2. O texto, formulado em próprias palavras: A morte é o grande inimigo dos homens (v.26). Diante desta morte tudo perderia o sentido - se ela não fosse vencida. A vida consistiria em mero comer e beber (v.32). Neste pouco tempo que estamos na terra, não importaria como vivemos, se a morte é o fim. Mas a morte não será o fim. A vitória sobre ela já começou. Jesus já iniciou a ressurreição (w. 20 e 23). Se, porém, houvesse um simples viver de novo, uma prorrogação desta vida ou uma simples reencarnação, nada ainda teria acontecido Por isso Paulo conhece um mistério: seremos transformados. A antiga canção que sonhava com a derrota da morte - em Jesus Cristo ela se tornou realidade. Ele nos dá a vitória, nele a vida tem sentido. Nele a vida não é vazia.

III – Meditação

É comum ouvirmos, por ocasião de sepultamentos: Ninguém leva nada daqui (carne e sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção, v.50). Enquanto fizermos esta constatação em referência a outros (no enterro deles), tudo bem! Até somos capazes de sentir uma certa satisfação em ver que aqueles que aparentemente estavam vencendo na vida, também não são tão privilegiados como pareciam. Enquanto o fato de que ninguém leva nada for um consolo para os que nada têm, tudo bem! Até serve para desculpar o comodismo e a falta de responsabilidade.

Mas, no momento em que alguém descobre que tudo o que conseguiu alcançar, tudo o que conseguiu ser termina na sepultura, começam as tragédias da vida.

1. Uns começam a construir imensos mausoléus, monumentos desesperados a sua própria glória. Vejam os túmulos nos cemitérios!

2. Outros consolam-se com uma alma imortal, que leva os méritos a Deus.

3. Muitos agarram, sedentos, a teoria da reencarnação como possibilidade de driblar a morte.

4. Outros procuram se consolar, falando com os mortos, demonstrando a si mesmos que a morte não é o fim.

5. Outros se enganam a si próprios, mergulhando no trabalho, nos prazeres, na agitação do som e dos tóxicos, tentando esquecer a morte.

Ninguém leva nada daqui! Com esta constatação aparece o vazio da vida humana. Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens. (v. 19)

Enquanto escrevo estas linhas, vejo no Jornal NH, de 02.10.79, a seguinte nota: Suécia: O professor Lennar Levi assinalou...

Dois dos oito milhões de suecos têm sérios problemas psicológicos. Um de cada três suecos sofre de depressão, ansiedade ou insónia. Dois de cada quatro homens e três de cada quatro mulheres sofrem pelo menos um colapso nervoso antes dos 60 anos. Um de cada dez homens tem problemas de alcoolismo. Dois mil suecos por ano se suicidam e outros 20 mil tentam sem sucesso. Os partidos políticos, entretanto, não parecem muito interessados em levar adiante uma campanha para melhorar a saúde mental dos suecos. É muito difícil conseguir votos dizendo às pessoas que estão loucas, assinalou um dirigente político que pediu para não ser identificado.

A Suécia é país desenvolvido, o Brasil está em desenvolvimento. Já estamos perto da situação acima descrita. É fácil lamentar junto com o professor sueco. Será fácil, desenvolver lamúrias com pessoas do nosso tempo. O texto nos convida a refletir sobre a solução do problema. Paulo tem uma comunicação a fazer e um mistério a anunciar:

1. A comunicação: A derrota da morte começou! O que Isaías sonhava (v.54), o que Oséias cantava (v.55) teve seu início com Jesus Cristo. O primeiro homem (Cristo) ressuscitou. Esta comunicação não faz parte de nosso texto, mas deve ser dada. Com a ressurreição, Cristo iniciou a derrota da morte. Nossa ressurreição, é apenas uma questão de tempo. Ela ainda não aconteceu, como afirmavam erroneamente Himeneu e Fileto (2Tm 2.18). Mas Cristo nos torna partícipes de sua vitória (v.57).

2. O mistério: A ressurreição de Cristo nos atinge, seremos transformados. A palavra grega preferida para a designação de ressurgir, ressuscitar (p.ex.,15.4) é acordar, significando não um viver de novo ou um retornar ou voltar para a mesma vida, mas a mudança de uma situação: de um dormir passamos para um estar acordado. Portanto, ressurreição não é continuação ou prorrogação da vida, mas um novo capítulo da vida, que precisa ser alcançado.

O presente que estamos vivendo não é produto de nosso passado, mas é antecipação do futuro! Eu posso viver não a vida que meus pais me deram, mas a vida que Jesus me dá. Na gíria falamos da camiseta que vestimos, quando abraçamos não a nossa causa, mas a de um time ou grupo. Paulo convida para vestir, não a camiseta, mas sim o eterno, o imperecível, a transformação. Como posso, com a morte diante dos olhos, viver como se a morte não existisse mais? De maneira misteriosa, não compreensível, mas crível, Jesus me dá esta condição!

Ocorre-me um episódio que pode servir de exemplo: Em 1962, na Copa do Mundo, no jogo Brasil x Espanha, o Brasil perdeu o primeiro tempo por 2 x 0. No intervalo, o locutor de rádio comentava o desespero geral do povo brasileiro. No segundo tempo o Brasil se recuperou, vencendo o jogo por 3x2. Meses depois, vi o jogo no cinema (TV ainda não havia). Quando a Espanha fez seu primeiro gol, a plateia, no cinema, explodiu. No segundo gol, a polícia teve que intervir, tal foi a festa da plateia. Imaginem um estranho no público vendo o povo celebrar sua derrota! Mas ele entenderia, se lhe informassem o resultado final.

O comportamento da plateia, no cinema, seria como viver hoje a antecipação do futuro com a diferença de que no futebol a vitória foi conquistada pela garra dos jogadores (esforço humano, resultado de longos treinamentos e participação ativa da torcida), sendo que na nossa vida ela é presente de Cristo (sem antecedentes nossos - num piscar de olhos, v.52, sem condições nossas, mas pela transformação que Cristo opera).

Um outro exemplo para ilustrar a vivência do futuro: Um filme relata a aposta entre dois milionários. Um afirmava que, com um cheque de um milhão de libras esterlinas na mão, alguém poderia viver durante um mês, sem ter de cambiar o cheque. O outro apostou contra. Escolheram um homem e entregaram-lhe o cheque. Este se dirigiu ao banco que comprovou a autenticidade, mas não trocou o cheque, abrindo-lhe um crédito ilimitado. Com este crédito o homem passou tranquilo um mês, sem cambiar o cheque.

Vivendo do crédito do futuro - assim eu o entendo - posso viver firme, inabalável, e sempre abundante na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o meu trabalho não é em vão (v.58).

IV — Pregação

Cada alocução, por ocasião de um sepultamento, é uma pregação de Páscoa, com uma diferença fundamental: a comunidade é outra. A do sepultamento está atingida pela morte, a da Páscoa é influenciada pela alegria da festa. Mas a mensagem é a mesma. Por isso proponho falar sobre o texto, sob dois aspectos:

1. Páscoa! Uma boa oportunidade para falar sobre a morte, a tua e a minha! Nesta reflexão devemos ressaltar:

a) A morte como inimigo de tudo que é inerente a nós (nada levamos daqui).

b) Um homem já ressuscitou (Cristo)! - ele estabelece seu reino.

c) Seremos transformados! - poderemos participar do reino de Cristo.

2. Páscoa! Uma boa oportunidade para falar sobre a vida, a tua e a minha!
O que é vida? a) o acúmulo de experiências e conquistas humanas?

b) a antecipação das esperanças de uma nova vida em Cristo?

c) que é: viver agora, de posse de um futuro transformado?
- na família (falar com os filhos sobre isso)
- na atividade profissional (falar com colegas)
- no lazer, na aposentadoria.


Autor(a): Helmut Burger
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa

Testamento: Novo / Livro: Coríntios I / Capitulo: 15 / Versículo Inicial: 50 / Versículo Final: 58
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1980 / Volume: 5
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 13325
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