1 Coríntios15.35-38

Auxílio Homilético

01/04/1988

Tema: Ressurreição: de que e para quê?

Explicação do tema:

Quando estamos diante de uma pessoa falecida muitos expressam: Aí está só o corpo; este não tem valor! O que importa é a alma e esta não morre!

Esta constatação pode levar ou ser um reflexo de um desprezo do corpo nas suas necessidades básicas, tais como alimentação, saúde e proteção.

A Bíblia não separa a pessoa humana em corpo e alma, nem desvaloriza as necessidades corporais diante das espirituais. Por isso lemos dentro dela: os corpos ressuscitarão!

Texto para a prédica: 1 Coríntios15.35-38

Autor: Wemer Brunken


l - Introdução

No convívio com. as pessoas no dia-a-dia dificilmente ouvimos alguém falar em ressurreição. É uma palavra que aparece muito na Bíblia, mas na boca do povo ela praticamente inexiste. Fala-se muito em viver. Sim! Viver praticamente toda pessoa quer. A não ser que a pessoa não veja mais sentido para viver, seja porque não tem emprego, ou não tem comida, ou não tem uma casa para morar, ou está desenganada na sua doença, ou os problemas são demais, ou já está com muita idade.

No Dicionário da Língua Portuguesa lemos a respeito da palavra ressuscitar: fazer ressurgir; chamar outra vez à vida; restaurar; renovar.
Assim ressurreição tem algo a ver com a vida de cada pessoa. Todos deveriam mostrar interesse pela ressurreição.

II - Vida só para a alma?

Seguidamente ouvimos falar que na morte o que continua a viver é a alma. O corpo é só o embrulho da alma. Na morte a alma vive - o corpo morre. Diante de tal afirmação, não se dá mais valor ao corpo. Ele será sepultado ou cremado e tudo acaba. A alma continua a viver.

Ill - Desprezar o corpo

Quem despreza o corpo como tal, pode incorrer num erro muito grave: ver o corpo como algo inferior e sem valor. Partindo desta afirmação, não se cuida da higiene, da alimentação e da saúde do corpo. O que importa é a vida da alma. Do corpo não há necessidade de cuidar. E mesmo que muitos cuidem do seu corpo, não sentem necessidade de olhar pelos corpos dos outros, que vegetam aos milhares pelo mundo, sem merecer o adjetivo vida.

IV - Corpo e alma formam uma unidade

Partindo da Bíblia constatamos que ela não separa o corpo da alma. Deus criou as suas criaturas como um todo. E este ser como um todo tem o seu valor neste mundo e na eternidade. Não se pode ver a vida plena só nesta vida e nem só na vida por vir. Vida plena existe quando se cuida do corpo aqui como se já pertencesse à vida eterna. Os corpos ressuscitarão! Como ter fé numa ressurreição apôs a morte se esta nova vida não é promovida em nosso meio?

V - O texto de 1 Coríntios 15.35-38

1. Contexto: Não podemos separar 1 Co 15.35-38 do todo do capitulo 15, que trata da ressurreição de Cristo e da ressurreição do corpo. O apóstolo Paulo passou adiante o que recebeu: que Cristo morreu e ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados (v. 17). Cristo ressuscitou - ele foi o primeiro a ressuscitar e os que são dele, vão ressuscitar (vv. 20-23). A morte já não tem mais a última palavra. Pela ressurreição de Jesus ela foi vencida. Mesmo ainda operando sobre a criação de Deus, pela fé em Cristo há esperança de vencer a morte. Graças a Deus que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo.

2. O texto: 1 Co 15.35-38 pergunta especificamente pela ressurreição dos mortos - que corpo receberão? Certamente havia os que negavam a ressurreição do corpo (veja vv. 12 ss.). Para os corfntios. que viviam na influência da filosofia grega, o ser era formado de corpo e alma. O corpo perece - não ressuscita. Só a alma sobrevive e não precisa ressuscitar. O corpo era visto como prisão da alma. Sendo a alma imortal, não há necessidade de uma ressurreição. Entretanto, pelo texto de Paulo não pode haver ressurreição sem corpo. Ele explica a sua afirmação não com palavras da filosofia, mas com um exemplo prático da natureza: o que é semeado só pode nascer, se morrer. Pensando no corpo humano: só sendo entregue à morte, é que poderás receber novo corpo, nova vida. Quem perde a sua vida, ganha-la-á (Jo 12.23-26). Todo este processo é obra criadora de Deus. Este que do nada criou o universo, vai criar um novo corpo para cada ser. Como será? O texto responde que o que é semeado, não é ainda o que há de ser, mas o simples grão, como de trigo, ou de qualquer outra semente. Mais adiante, no v. 50, é dito: carne e sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção. Portanto, o que vai ressuscitar pelo poder de Deus é diferente do que o corpo que o ser humano possui hoje.

e Certo é que Deus dará a cada um o corpo que lhe aprouver. Tudo será obra dele e não nossa. De nossa parte só podemos crer, confiar nesta obra criadora de Deus através da ressurreição.

VI - Meditação

O texto é previsto para o mês no qual está inserida a Páscoa. Lembramos a ressurreição de Cristo. Este ressurgiu para abrir o caminho da ressurreição para todos que a aceitam em fé. Tudo Deus fez pela humanidade. Sua obra é completa. E quem alimentar-se da palavra de Deus, terá a fé na ressurreição dos corpos, mesmo que não possa desvendar o segredo da ressurreição.

Mas como viver esta esperança na ressurreição dos corpos hoje? Podemos viver de um futuro que ainda não conseguimos alcançar? Como vemos o corpo que agora temos antes que haja ressurreição? Será que Deus só dá valor ao corpo ressuscitado e despreza o corpo terreno? Acreditamos que não podemos separar os dois corpos, apesar de serem diferentes. Na criação lemos que Deus viu que tudo que fizera era bom. Assim, também o corpo que deu aos seres humanos é bom. Mesmo depois da queda (Gn 3-4) Deus protegeu o corpo humano, quando colocou um sinal em Caim, para que ninguém o matasse (Gn 4.15). O próprio Jesus curou muitas pessoas de suas enfermidades corporais, ressuscitou mortos, guardando assim os seus corpos.

Pregando, portanto, a ressurreição de Cristo, que dá esperança para a nossa ressurreição, precisamos olhar para os corpos humanos hoje e aqui. Como estão estes corpos hoje? São um espelho da vida plena que vamos receber na ressurreição? Ou desprezamos estes corpos, vivendo só da esperança futura? Vivemos só espiritualmente (alma) e desprezamos a matéria (Corpo)? Se fazemos esta diferença, estamos fora da realidade bíblica, pois esta vê este corpo morrer para ressurgir novo corpo (semente e nova planta). Assim precisamos aprender a valorizar este corpo humano, que um dia será revestido do novo corpo.

Carlos Mesters diz no seu trabalho sobre a ressurreição: Crer na ressurreição nada tem a ver com a fuga ou alienação do mundo para o além-túmulo ou com um cristalizar-se em torno de um fato do passado que já se foi. O objetivo da fé na ressurreição não é colocado nem na eternidade do céu, nem na impenetrabilidade do passado, mas no futuro da terra sobre a qual foi fincada e está fincada ato hoje a cruz de Cristo. O fato do passado, testemunhado petos Apóstolos, é o fundamento. Mas sobre este fundamento está o prédio imenso da vida que não morre e renasce das cinzas da morte, antecipando o novo que aparece sob as mãos dos que nela acredita. (Deus, onde estás?, p. 206.)

Mesters vê uma tensão entre o aqui e o que há de vir. Não separação, mas entrelaçamento. Partindo da ressurreição do corpo há necessidade de valorizar o corpo humano neste mundo. Vemos milhares de seres desprezando seus corpos pela bebida, pelas drogas. Outros milhares de seres gostariam de ter um corpo sadio, mas não podem consegui-lo, pois as estruturas não permitem higiene, alimentação, moradia e educação adequadas para todos. Vivendo, portanto, a ressurreição de Cristo e na fé a nossa ressurreição, vamos valorizar os corpos humanos, dando-lhes já aqui a possibilidade de vida melhor.

VII - Esquema para prédica

Introdução: Páscoa! Dia no qual relembramos a ressurreição de Jesus e na fé a nossa própria ressurreição. Mas como viver uma Páscoa feliz quando vemos milhares de corpos humanos sendo privados de viver bem?

1. Cristo ressuscitou: ele vive. Venceu a morte em todas as suas formas. Ele é a base da nossa fé e esperança.

2. Nossos corpos morrerão e ressuscitarão: em Cristo temos a esperança que nosso corpo corruptível será revestido de incorruptibilidade.

3. Valorizar os corpos humanos: como cristãos, que vivemos na esperança da ressurreição, valorizamos os corpos que Deus criou. Não só os nossos, mas estaremos junto daqueles que não têm esperança de uma ressurreição, porque seus corpos aqui são marginalizados e maltratados de todas as formas.

4. Vida plena: começa em parte aqui e se completará na ressurreição dos corpos para a eternidade.

VIII - Subsídios litúrgicos

1. Intróito: Jesus Cristo diz: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim, não morrerá, eternamente. (Jo 11.25-26.)

2. Confissão de pecados: Senhor, nosso Deus! Em ti está a esperança da ressurreição. Tu és vida e desejas que todos tenham vida em ti. Entretanto, confessamos nossas fraquezas, nossa falta de fé e esperança diante das múltiplas formas de morte neste mundo. A realidade que nos cerca nos afasta muitas vezes da verdadeira vida. Perdoa-nos por Jesus Cristo e fortalece-nos pelo poder do teu Espírito para sermos pessoas que vivem na esperança da ressurreição do corpo. Tem piedade de nós, Senhor!

3. Oração de coleta: Senhor! Louvamos-te e agradecemos-te pela esperança da ressurreição. Queremos neste encontro receber de tua palavra o impulso para a vida. Pois alimentando-nos da esperança da ressurreição do corpo, podemos receber forças para valorizar o corpo, que tu dás a todas as tuas criaturas neste mundo. Por Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. Amém.

4. Leituras: Isaías 26.16-19; João 11.20-27.

5. Oração final: Enaltecer a Deus pela ressurreição do corpo, pela esperança da vida plena junto a ele. Pedir para fortalecer-nos nesta fé. Pedir pela dignidade dos corpos de todos os seres humanos. Que possamos ajudar para que sempre mais pessoas possam ter seus corpos valorizados e assim viver melhor a esperança na ressurreição.

IX - Bibliografia

- ALVES, R. Creio na ressurreição do corpo. In: CEDI. 2. ed. Rio de Janeiro, 1984.
- MESTERS, C. Aprender da ressurreição. In: Círculos Bíblicos 33 a 36. 3. ed. Petrópolis, 1984.
- -—————— Deus, onde estás? 6. ed. Belo Horizonte, 1983

- ____Ser aluno do futuro de Deus. In: Círculos Bíblicos 37 a 40.2. ed Petrópolis, 1981.
- RUPPRECHT, W. 1 Co 15.35-44a. In: Calwer Predigthilfen. Stuttgart, 1969. v. 8.
- WEBER, B. 1 Co 15.35-39, 42b-44. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo, 1979. v. 5.
- WENDLAND, H. -D. Die Briefe an die Korinther. In: Das Neue Testament Deutsch. 7. ed. Gõttingen, 1954, v. 7.


Autor(a): Werner Brunken
Âmbito: IECLB
Testamento: Novo / Livro: Coríntios I / Capitulo: 15 / Versículo Inicial: 35 / Versículo Final: 38
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1987 / Volume: 13
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17884
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