1 João 3.18-24

Auxílio Homilético

27/04/1997

Prédica: 1 João 3.18-24
Leituras: Atos 8.26-40 e João 15.1-8
Autor: Ricardo W. Rieth
Data Litúrgica: 5º. Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 27/04/1997
Proclamar Libertação - Volume: XXII

 

1. Observações Gerais acerca do Texto

A perícope pertence em seu contexto mais amplo a um trecho de l Jo (2.18-3.24) em que se vai mais a fundo na abordagem — agora explicitamente escatológica — daquilo que estava ocorrendo nas comunidades a partir da ação de anticristos que saíram de nosso meio, uma evidência de se estar na última hora (2.18s.).

Num primeiro bloco de versículos (18-22) destaca-se a contraposição das orações condicionais: se o nosso coração nos acusar (20) e se o coração não nos acusar (21), que representam as alternativas a serem discutidas. Além disso, há correspondência mútua entre tranquilizaremos o nosso coração (19) e temos confiança diante de Deus (21). Também é importante a antítese entre palavra-língua e fato-verdade (18), sendo que a referência a fato é retomada com fazemos diante dele o que lhe é agradável (22). Verdade, por sua vez, serve de elo de ligação entre os vv. 18 e 19, o que igualmente é feito pela expressão e nisto (19).

Num segundo bloco (23s.) é expresso o conteúdo do mandamento guardado por quem é da verdade. Há uma clara retomada do v. 3.11. O v. 24 será depois quase que integralmente incorporado a 4.13.

2. Interpretação

V. 18: Trata-se de uma resposta ao v. 17, onde se pergunta de maneira incisiva a respeito do que é coerente ou não com a situação de permanecer no amor de Deus. A ênfase da resposta recai no amor ativo, no qual palavra e ação concreta se conjugam. A identidade de quem é da verdade encontra sinal de reconhecimento no exercício concreto do amor.

V. 19: Será que o postulado no versículo anterior não acaba levando à insegurança? Falhar no exercício concreto do amor não leva a duvidar que se é da verdade? Será praticável o critério aqui estabelecido? A resposta a isso vem no final do versículo: perante ele tranquilizaremos nosso coração. O termo perante coloca a relação com Deus numa situação de tribunal. Estamos diante do tribunal de Deus e temos que responder pelo que fazemos. Tranquilizar, aqui, tem o sentido de convencer alguém muito nervoso, angustiado ou temeroso a se acalmar, pois não há razão para sentir-se assim. Já a palavra coração indica a parte do ser humano que toma decisões morais e hierarquiza valores.

V. 20: Ser maior do que o coração e conhecer todas as coisas é atributo de Deus já no Antigo Testamento (cf. 2 Cr 28.9). Deus olha dentro do coração das pessoas e conhece seus planos secretos melhor do que elas próprias.

Como aparece Deus nos vv. 19-21? Como um a) Deus rigoroso ou como um b) Deus misericordioso?

a) A ideia de um Deus julgador está presente no texto, especialmente no v. 19. Diante de Deus iremos convencer nosso coração acerca da importância das ações amorosas exigidas no v. 18. Precisamos refletir sobre como estaremos perante Deus, se já antes nosso coração nos condena porque fomos omissos na prática do amor. Deus trará à luz todos os pecados e castigará com base em sua onisciência. Apenas com uma consciência tranquila podemos suportar o olhar perscrutador de Deus e ir ao encontro de sua sentença punitiva.

b) A outra ideia acerca de Deus, como alguém misericordioso, é frontalmente oposta. Justamente a ênfase no mandamento do amor seria um sinal de que sua plena factibilidade é inalcançável. Um coração sacudido e preocupado não tem mais paz. A ele, portanto, dá-se a mensagem consoladora: podemos tranquilizar nosso coração, mesmo sentindo que fracassamos frente à exigência do mandamento do amor. Em verdade, é preciso que nos responsabilizemos diante de Deus, que nos deu esse mandamento (v. 23). Deus permanece sendo o juiz onisciente. Ele sempre será o maior. Porém, justamente por ser aquele que dá o mandamento, Deus olha para as pessoas a ele submetidas na medida de seu próprio amor. Olha para elas com misericórdia. Ele se antecipa à sentença de um coração atribulado com sua absolvição. Como conciliar aqui o conhecimento onisciente acerca do que há no coração das pessoas, que é peculiar a Deus? Deus em verdade conhece as falhas, mas pode considerá-las convenientemente segundo o discernimento que só ele possui. Ele vê a convicção básica, o sim por princípio que a pessoa interiormente diz ao mandamento. Deus também conhece nossas motivações e impulsos pré-conscientes da ação, os quais com frequência permanecem ocultos a nós quanto a sua abrangência. Ele conhece as pressões externas que sofremos. Só ele pode considerar corretamente a complexa vinculação de nossa personalidade na teia de relações sociais em que estamos inseridos.

Na Igreja Antiga e na Idade Média privilegiou-se a ideia de um Deus rigoroso na interpretação desse texto. A noção de um Deus misericordioso passou a ocupar um lugar de destaque na exegese a partir de Lutero, que se viu motivado a priorizá-la, não por último, devido a sua trajetória existencial. Desde então, passando por Kierkegaard e até hoje, a maioria dos exegetas têm optado por esse modelo de interpretação. No que tange a Lutero, vale lembrar aqui sua clássica distinção entre o Deus oculto e o Deus revelado:

(...) a respeito do Deus — ou da vontade de Deus — que nos é pregado, revelado, oferecido e cultuado deve-se debater de outra maneira do que a respeito do Deus não-pregado, não-revelado, não-oferecido, não-cultuado. Portanto, na medida em que Deus se oculta e quer ser ignorado por nós, ele absolutamente não nos importa. (...) Portanto, devemos deixar de lado a Deus em sua majestade e natureza, pois assim nada temos a ver com ele e assim ele não quis que tenhamos a ver com ele. Mas na medida em que se vestiu e se revelou em sua palavra, pela qual se ofereceu a nós, temos a ver com ele. (...) Com efeito, é disso que trata o Deus pregado: que o pecado e a morte sejam tirados e nós sejamos salvos. (...) O Deus abscôndito em majestade, porém, não deplora nem abole a morte, mas opera vida, morte e tudo em nós. (Da Vontade Cativa, in: Obras Selecionadas, vol. 4, p. 101.)

A definição, se se trata de um Deus rigoroso ou misericordioso, deve ser dada a partir do contexto mais amplo de l Jo. Nesse sentido, a segunda opção parece ser a mais plausível. Acusar e tranquilizar o coração apontando para Deus que é maior corresponde à indicação dos pecados das pessoas cristãs e ao modo como são perdoados nos caps. l e 2. O perdão se fundamenta na confissão de pecados (1.9), na morte propiciatória de Jesus Cristo e em sua intercessão (2.1s.), e agora no agir de Deus, que é responsável por tudo isso e se volta completamente a nós em sua grandeza através de Jesus Cristo (3.20). Nisso está fundamentada a confiança na ação misericordiosa de Deus, afirmada num crescendo até chegar a seu sentido mais pleno com a palavra acerca de Deus, que é amor, no cap. 4.

V. 21: O juízo positivo do coração provém do fato de se saber da disposição de perdoar e da existência do amor de Deus. A confiança, apontada como característica das(os) filhas(os) de Deus no tempo da parúsia de Cristo (2.28), determina já agora a relação de quem crê com Deus.

V. 22: A confiança se exterioriza na súplica confiante, que não tem dúvida de ser atendida. Tal certeza incondicional remonta ao próprio Jesus, sendo indicada nos evangelhos sinóticos (cf. Mc 11.24/Mt 21.22; Mt 7.7-11/Lc 11.9-13; Mt 18.19) e em João (14.13s.; 15.7,16; 16.23s.,26). O paralelismo guardar os mandamentos e fazer diante dele o que é lhe agradável corresponde à convocação do v. 18 a que se ame de fato e de verdade. Fazê-lo não é condição para que as orações sejam ouvidas. Pela fé em Cristo as pessoas cristãs participam da coincidência existente entre a sua vontade e a do Pai (cf. Jo 8.28). O ouvir as orações se dá por essa concordância de vontades entre Jesus e o Pai, que é transferida às pessoas cristãs pelo seguir o exemplo de Jesus (cf. l Jo 2.6). Exagerando um pouco, pode-se dizer que guardar os mandamentos é quase idêntico ao conteúdo do pedido feito na oração. Guardar os mandamentos nada mais é senão tentar pôr a vontade de Deus, expressa no mandamento do amor, no centro da própria existência.

V. 23: O plural dos mandamentos (v. 22) é reduzido a apenas um, que, por sua vez, é formulado como duplo mandamento: crer em nome de seu Filho Jesus Cristo e amar uns aos outros. Nome se refere à pessoa daquele por meio de quem Deus se dirigiu à humanidade. Além disso, no próprio nome também está o anúncio do que é essencial naquilo que Jesus Cristo veio fazer (cf. Jo 17.6,26). l João coloca bem próximos o chamado à fé em Jesus como o Cristo e Filho de Deus e o chamado à observância do mandamento do amor. Isso devido a uma situação intracomunitária caracterizada pela divisão. A fé não é simplesmente apresentada como o amor, não se reduz ao amor entre irmãs e irmãos, mas tem sua própria realidade. Para o amor é importante que repouse na fé e seja consequência dela.

V. 24: Guardar os mandamentos, concentrados no duplo mandamento da fé e do amor, implica diretamente estar em íntima comunhão com Deus. Quem crê e ama permanece em Deus e Deus nele/a. Deus nos deu um mandamento, mas também nos dá o Espírito. O Espírito é o poder divino que nos torna possível guardar o duplo mandamento da fé e do amor.

3. Estrutura para a Prédica

I— Amar de fato e de verdade

Eis o desafio apresentado no texto e que se impõe diariamente às pessoas cristãs. Como se conjuga o verbo amar em nosso cotidiano: na família, no casal, na comunidade cristã, na rua, no ambiente de trabalho, etc.? Da boca para fora ou a partir do coração (de fato e de verdade)?

II — O coração acusa

Saber que é preciso amar de fato e de verdade não é igual a amar de fato e de verdade. Está aí o grande dilema da vida cristã: não conseguir ser e fazer o que Deus quer que sejamos e façamos. Repetidamente descobrimos o quanto erramos e pecamos, até mesmo quando agimos com as melhores intenções. Estar consciente disso pode ser terrível, pode levar aos piores caminhos, que geralmente findam no desespero ou na resignação.

III— O coração tranquilizado

Deus conhece nosso dilema muito bem. Afinal de contas, ele é maior do que o nosso coração e conhece todas as coisas. Ele nos dá o Espírito para mostrar que está do nosso lado, que é solidário conosco, para que não acabemos no desespero ou na resignação.

IV — O duplo mandamento 1: crer

Mediante o seu Espírito, Deus aponta para seu duplo mandamento: crer no nome de Jesus Cristo e amar uns aos outros. O nome de Jesus Cristo o identifica e ao mesmo tempo expressa sua obra de Messias e Salvador prometido. Em Jesus Cristo se revela a misericórdia de Deus para com as pessoas. Ele assume com radicalidade os mandamentos do Pai. Pela fé em Jesus Cristo, apesar de nossas falhas e pecado, participamos da plena justiça que ele praticou e nos comprometemos a vivê-la diariamente. Nosso coração ainda nos acusa, mas não de modo a desesperarmos ou resignarmos. Pela cruz e ressurreição de Jesus Cristo tranquilizamos nosso coração perante Deus. A partir da cruz e na esperança da ressurreição passamos a guardar o duplo mandamento.

V — O duplo mandamento 2: amar

Que é preciso amar uns aos outros, isso já sabemos. Mas como? A pessoa cristã e a comunidade devem perguntar-se como viver a segunda parte do mandamento: a) em seu próprio meio; b) em relação aos de fora. A essa altura, ficar apenas no discurso é amar da boca para fora (v. 18). É preciso buscar e dizer claramente como, na situação de cada pessoa e comunidade, se ama de fato e de verdade. Com isso, voltamos ao desafio do ponto I. Em outras palavras: de que maneira se articula nossa fé no nome de Jesus Cristo na vida diária? Como relacionar coerentemente a primeira e a segunda parte do duplo mandamento, que em si são indissociáveis?

VI — Pedir com confiança

Nesse sentido, o texto dá uma sugestão preciosa. Com base na confiança que temos diante de Deus, devemos pedir. É certo que vamos receber! Por quê? Porque pedimos sob o Espírito dado por Deus, pedimos em consonância com a vontade divina, pedimos com a mente e o coração no duplo mandamento da fé e do amor. Neste ponto é importante questionar ideias equivocadas que muitos têm em relação à oração. Não se trata de algo mágico, de uma negociata com Deus, de um toma-lá-dá-cá. Não é o caso, como diz o pastor neopentecostal Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, que, se alguém pedir, Deus é obrigado a dar. Já que prometeu, então está obrigado a dar. Deus não está obrigado a coisa alguma! Ele atende nossas orações porque nos ama e nos dá seu Espírito, a fim de pedirmos conforme pede quem está em comunhão com ele.

4. Bibliografia

KLAUCK, Hans-Josef. Der erste Johannesbrief. Zürich, Benziger; Neukirchcn-Vluyn, Neukirchener, 1991. 363 p. (Evangelisch-katholischer Kommentar zum Neuen Testament, XXIII/1).
LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas; Vol. 4: Debates e Controvérsias, II. São Leopoldo, Sinodal; Porto Alegre, Concórdia, 1993.
WENGST, Klaus. Der erste, zweite und dritte Brief des Johannes. Gütersloh, Gerd Mohn; Würzburg, Echter, 1978. 261 p. (Ökumenischer Taschenbuch-Kommentar zum Neuen Testament, 16).


Autor(a): Ricardo Willy Rieth
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 5º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: João I / Capitulo: 3 / Versículo Inicial: 18 / Versículo Final: 24
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1996 / Volume: 22
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17659
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