1 João 5.1-5

Auxílio Homilético

13/04/1980

Prédica: 1 João 5.1-5
Autor: Peter Weigand
Data Litúrgica: Domingo Quasimodogeniti
Data da Pregação:13/04/1980
Proclamar Libertação - Volume: V


I — Observações gerais

A perícope sugerida faz parte do final da Primeira Carta de João. Para os exegetas, esta não é tanto uma carta, mas antes um tratado ou uma apologia. Faltam-lhe as características de uma carta, como endereço, autor, saudações, etc. O estilo de tratado é motivado pelo conteúdo antignóstico desta carta. O autor defende a posição correta dos cristãos na comunidade, criticando e condenando de maneira polémica a posição gnóstica. Esta nega que Jesus Cristo seja verdadeiro homem físico, considerando-o um corpo de espécie espiritual - docetismo. Em consequência, a gnose nega a matéria - o corpo - como um bem divino, que também faz parte da salvação. Por negar isso, também nega o pecado. Ou seja, segundo a posição gnóstica, os que seguem a Cristo já se separaram da matéria e, portanto, fazem parte de uma esfera espiritual, na qual não mais podem ser atingidos pelo pecado. A divulgação desta heresia (provavelmente por obra de ex-membros da comunidade dos primeiros cristãos - 2.19) tornou necessário este tratado apologético, com seu estilo parenético, no qual Jesus Cristo é confessado como verdadeiro homem - Deus encarnado, e as heresias da gnose são expostas como teorias do anticristo, falsa profecia, etc. (2.22 e 4.1).

Dentro dessa linha, o autor destaca no capítulo anterior que a fé precisa de ação, e que esta só pode ser o amor fraternal (4.7-21). Pode-se concluir: no amor ao irmão se reconhece quem pertence a Deus (observação: irmão não é só aquele que também é membro da comunidade; o termo próximo não existe na terminologia joanina). Concluindo o seu tratado, o autor torna a formular essa conclusão, na nossa perícope, ligando-a com uma confissão a Cristo, verdadeiro homem (Jesus !), e ampliando ainda mais a sua tese, com o elemento da fé neste Cristo (v.4). É a nossa fé que supera o mundo (v.4s); a nossa fé que confessa Jesus Cristo e que, como consequência, exerce o amor. O autor, provavelmente, pertencia a uma escola joanina. Seu trabalho foi escrito em torno do fim do séc. l, no leste. (Marxsen, p. 223)

II - Observações exegéticas

 V.1: Jesus é o Cristo - este é o credo cristológico mais simples e mais antigo dos primeiros cristãos. Normalmente, tal credo servia para o estabelecimento de um limite claro em relação a outros grupos religiosos da época. No nosso texto, esse credo recebe um acento bem determinado. O Cristo é o homem Jesus. Ou seja, não se trata de uma pessoa espiritual, como a gnose o entendeu. O que foi dito em 4.7 a respeito do amor, vale aqui para a fé; assim, fé e amor estão ligados um ao outro.

Nascido de Deus acentua mais uma vez que Deus, assim, se encarnou. Crer deve ser entendido aqui, segundo a terminologia joanina, mais no sentido de confirmar, ficar com a fé, ou permanecer neste Cristo.

V.2: De acordo com o credo, praticar o amor e os mandamentos é sinal de que se é filho de Deus. Para alguns, evidentemente, esta prática já se tornara desnecessária. Ser nascido de Deus, ser amado, tem como consequência que também se pratique o amor. Amar, aqui, não tem nada a ver com sentimentos entusiásticos, mas sublinha a ação responsável diante do irmão, diante do mundo (4.21).

V.3: Guardar os mandamentos não é difícil - para quem se sabe vinculado ao Cristo, verdadeiro homem. Para ele, guardar os mandamentos é uma realidade; ele é livre e supera (v.4) o mundo. Guardar não significa obedecer, no estilo casuístico; significa, isto sim, saber-se ligado à figuração histórica de Jesus, praticar aquilo que Jesus viveu, na sua vida, como exemplo (Jesus como mestre).

V.4: A fé e o amor que nascem de Deus vencem o mundo, porque Deus é o amor (4.8). Não é qualquer fé que vence o mundo; quem o vence é a nossa fé, que é a única (nossa fé, expressa no credo cio v.1).

V.5: É a fé em Jesus Cristo - também no Jesus histórico -que vence o mundo. Isto significa ser livre para agir e estar consciente de que, na fé dada por Jesus, a pessoa já participa no reino de Deus (escatologia presente). Esta consciência também faz com que os mandamentos não sejam penosos (o original grego usa BARYS = pesado; ou seja, eles perdem seu peso, tornam-se fáceis).

Escopo: Somente crendo que o homem Jesus é o Cristo e filho de Deus, é que se pode vencer - mudar - o mundo e ser livre, praticar os mandamentos, os quais podem ser resumidos em: praticar o amor! Nós somos amados de uma maneira que supera o mundo, para que aconteça em nós o amor que torna o mundo diferente. (GOLLWITZER, H. Veraenderungen im Diesseits. 1973, p. 132, apud Kabitz, p. 48)

III - Reflexões

Deus mostrou o seu amor, tornando-se homem, verdadeiro homem, em Jesus Cristo. Este ato de solidariedade criou para nós a possibilidade de encontrarmos o próprio Deus. Deus mostrou-se solidário com a sua criatura. Jesus não era uma pessoa semi-divina nem um Deus semi-homem. É o que nos declara o credo, sem deixar qualquer dúvida. Com isso, é descrita a ação de Deus, mas não o seu ser. Nessa ação solidária, Deus ama o seu mundo. Nessa ação solidária, Deus faz com que, na fé, através de seu filho, nasça a sua comunidade - ou seja, os seus filhos. Este nascer aponta para o batismo. Mais do que isso, porém, o texto deixa bem claro que nós, nascidos de Deus, somos chamados a reagir com o mesmo amor. A solidariedade de Deus nos liberta para sermos também solidários (isto é o que significa amar) com os nossos irmãos. Os mandamentos nos mostram a maneira de amar. Não são condições, mas consequências lógicas da fé, que se baseia em Cristo Jesus homem. Amar, aqui, não tem nada a ver com sentimentalismo. Significa ação responsável diante do mundo, para torná-lo diferente. A solidariedade de Jesus se expressa no fato de ele quebrar as más estruturas humanas que prendem o homem. Ele sofreu junto com a criatura. Colocou-se ao lado do irmão que sofria falta de amor, tanto no sentido material (fome, doença, pobreza) quanto no emocional (tristeza, opressão, não aceitação, etc.). Pela ação do próprio Jesus está determinado e exemplificado o que significa amar. Quem se envolve com Jesus homem, não sente dificuldade em cumprir os mandamentos! Não seria essa afirmação excessivamente idealista? Neste ponto tenho minhas dúvidas.

Acho que é difícil cumprir os mandamentos, mesmo que eu queira reconhecer Jesus Cristo como meu Senhor, que dá destino à vida. Será que a nossa fé, ou a minha, vence o mundo, como fala o texto? Pensando numa comunidade normal, parece-me que aquela frase do v.2b deve ser sentida como estando fora da realidade humana. Contudo, considerando bem, o importante não é conseguir sucesso total, neste sentido; o que importa é fazer algo disso. Afinal, ao procurar guardar os mandamentos, sentimos que não o conseguimos. Isso nos faz sentir a necessidade de Cristo, que ama, perdoa e sempre renova (contritio cordis - contrição sincera, conforme Lutero). No entanto, é justamente neste reconhecimento que consiste a libertação, a prática do amor (também o irmão, o próximo, fica na mesma situação). Então, amar não é o cumprimento de uma lei divina. Amar é reconhecer a situação do irmão no mundo, é reconhecer, por exemplo, que também ele quer ser tratado com justiça, mas não é capaz de tratar os outros de maneira justa. Amar é, pois, consequência do amor de Deus, o qual reconhece, de uma maneira real e solidária, a situação e necessidade dos homens; consequência do amor que em Jesus se tornou homem sofredor, salvando o nosso mundo. E onde fica o simul iustus et peccator? Na fé, a pessoa nasce cada dia de novo, em Deus e no permanecer vinculado ao Jesus homem. Sua solidariedade me faz capaz de empreender novas tentativas de amor. Pensando em amar, me vêm à mente as explicações de Paulo (1Co 13.4-7). Vencer o mundo significa romper o esquema das más estruturas com aquele amor, ser subversivo contra a lei humana, contra os círculos viciosos da nossa realidade. Significa libertar, porque sei que somos libertados através de Jesus Cristo, filho de Deus.

IV - Atualização

Poder-se-ía dizer que nosso texto se localiza numa situação especial (reação ao gnosticismo), que hoje não é mais real Seria este o caso?

Nosso mundo parece não ter mais lugar para o Deus libertador. E isso, por causa de um grande engano. Nossa existência está dividida. De um lado, a vida do dia a dia; de outro, a vida ideal, de saudades, de utopias, da transcendência para a qual não há lugar aqui. Essa separação causa uma série de crises de identidades, tanto na vida particular quanto na vida pública. O nosso próprio empenho na igreja não sofreria disso, também? É o que se mostra na unilateralidade com que se acentua um Cristo exaltado (a linha evangelical) ou um Jesus somente homem (a linha sócio-política).

O credo do nosso texto nos lembra que Jesus e Cristo são inseparáveis, que a nossa libertação acontece na dimensão vertical e na dimensão horizontal. (Cf. mais uma vez a citação de Gollwitzer.) Ao nosso redor ouvirmos frases como estas: Existe um só Deus? Mas, onde? Como? Religião é necessária? Para quem? Por que? São frases que já esqueceram o homem solidário Jesus, filho de Deus, que o colocaram fora da realidade cotidiana! O amor é entendido, hoje, mais como um sentimento de harmonia; mas, mesmo assim, é uma atitude esporádica. Na fábrica, no comércio, na política existem outras leis. O amor é mal entendido como um comportamento harmônico, suave, carinhoso, talvez também sexual - mas sem a busca do envolvimento real com a outra pessoa. Vivemos num dualismo semelhante ao do gnosticismo. O mundo real é duro, sem concessões; é preciso olhar para a frente, onde são enfrentados os problemas. Que frente? O mundo dos sentimentos, das saudades particulares, da paz e da auto-realização (e também Deus) é um conglomerado de sonhos irreais utópicos. Todos nós sofremos esta esquizofrenia. Exatamente aqui atinge-nos o credo do v.1, com suas consequências. De acordo com ele, é preciso lembrar que a realidade de Deus é tanto Jesus, quanto Cristo. Ë isso o que a fé confessa, e é nisso que ela se baseia, vencendo, assim, o dualismo apontado. Assim, consegue a fé ver toda a realidade do mundo e da própria existência. Onde se consegue ver toda a realidade do mundo, da própria e da outra pessoa, o amor entre irmãos não é sentimental, mas é luta. É a atitude que reconhece e analisa os problemas, e faz tentativas em favor do outro. É a atitude de ser solidário, sempre que necessário. É a atitude que engloba tanto a tolerância, quanto o ser durão contra estruturas injustas, opressi¬vas etc., dependendo das circunstâncias em questão.

É o amor que quer tornar o mundo melhor, no sentido do reino de Deus, que já começou. Nisto conhecemos ... (v.3) Assim, os mandamentos de Deus, de fato, não são pesados, porque o objetivo não é procurar cumpri-los, mas usá-los na fé, para vencer o mundo e suas más estruturas.

V - Quanto à prédica

Gostei muito daquela frase de Gollwitzer, citada acima. Penso que vale a pena desenvolvê-la na prédica, explicando a partir dela a solidariedade de Deus que se tornou homem, mostrando que a pessoa de Jesus é inseparável do Cristo Salvador e vice-versa (este é o credo). Não descreveria esta realidade em frases dogmáticas estáticas, mas explicaria como foi que Deus agiu e como é que ainda age. O amor de Deus ainda está em atividade! Em segundo lugar, gostaria de deixar bem claro que aquela ação de Deus nos torna diferentes e traz uma consequência para nós - a de amar o irmão. Neste ponto, procure-se exemplos reais do ambiente da comunidade, os quais demonstrem que amar é agir em favor do outro, mas não de forma sentimental. Exemplos possíveis:

- Uma assistência social que só faz campanhas, apenas coloca curativos nos ferimentos, mas não vai à raiz dos problemas. Não seria uma alternativa oferecer educação, orientação e a nossa ação solidária (por exemplo, o protesto), que seriam o início de uma cura real? Fazer assistência no salão paroquial ou nas casas das vilas?

- Desistir das festas da comunidade, nas quais sempre aparecem as mesmas panelinhas. Em vez disso, ir às ruas e casas, fazer festas que reúnam vizinhos, moradores da mesma rua, e que criem assim uma amizade real que pode ser conservada também na vida do dia a dia.

- Realizar cultos especiais que atinjam grupos que nunca aparecem na comunidade. O que poderia ser culto em favor do irmão?

- Incentivar aqueles que visitamos, para que também visitem os outros.

- Protestar contra filas no INPS ou contra a instalação de fábricas poluentes; e isto, como comunidade, no próprio local.

- Reunir casais e falar francamente sobre machismo, filiais e a moral dupla.

- Fazer menos cursos de croché e mais de higiene ou controle da natalidade.

- Patrocinar também, como comunidade, qualquer movimento além de suas fronteiras, que trabalhe em favor do outro, em áreas como ecologia, segurança no trânsito, lares para carentes, etc.

Cada qual há de encontrar uma série de possibilidades para explicar concretamente o amor em favor do outro, no ambiente da própria comunidade.

- Amor = agir realmente em favor do outro; aquele amor que transforma o mundo - e mesmo que seja, de momento, num simples detalhe; o amor que é subversivo, que rompe as más estruturas, os círculos viciosos e contagiosos; o amor que vence o mundo, conscientizando-o e tornando-o diferente.

Gostaria de sublinhar que só seremos capazes de um tal amor não egoísta, se estivermos certos da solidariedade de Deus em Jesus Cristo, o qual veio para libertar os homens, dando início ao seu reino, entre nós.

VI - Bibliografia

- BULTMANN, R. Die Johannesbriefe. Göttingen, 1967.
- HAUCK, F. Die Kirchenbriefe. 5a. ed, Göttingen, 1949.
- KABITZ, U. Meditação sobre l João 5.1-5. In: Predigtstudien. Vol. 2. Stuttgart, 1974.
- MARXSEN, W. Einleitung in das Neue Testament. 3a. ed., Gütersloh, 1964.
- SCHNEIDER, J. Die Kirchenbriefe. In: Das Neue Testament Deutsch. Vol. 10. Göttingen, 1967.


Autor(a): Peter Weigand
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 2º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: João I / Capitulo: 5 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 5
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1979 / Volume: 5
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18273
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