1 Pedro 5.5b-11

Auxílio Homilético

22/06/1980

Prédica: 1 Pedro 5.5b-11
Autor: Edson Saes Ferreira
Data Litúrgica: 3º. Domingo após Trindade
Data da Pregação: 22/06/1980
Proclamar Libertação - Volume: V


I - Texto

V.5b: ... cingi-vos todos de humildade no trato de uns para com os outros, porque Deus resiste aos soberbos, contudo aos humildes concede graça.

V.6: Humilhai-vos, pois, sob a poderosa mão de Deus, para que ele vos exalte no tempo oportuno,

V.7: lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, pois ele tem cuidado de vós.

V.8: Sede sóbrios e vigilantes. O vosso inimigo, o diabo, anda à volta como um leão que ruge, à procura de alguém para devorar.

V.9: A ele resisti fortes na fé, sabendo que os mesmos sofrimentos ocorrem à vossa irmandade no mundo.

V.10: Mas o Deus de toda a graça, que vos chamou para a sua eterna glória em Cristo, ele mesmo aperfeiçoará, firmará, fundamentará a vós que tendes de sofrer um pouco.

V. l 1: A ele pertence o poder pelos séculos dos séculos. Amém.

II - Considerações exegéticas

Exortação à humildade e à vigilância

No Novo Testamento Grego de Nestle-Aland a nossa perícope tem a seguinte delimitação: vv.6 a 11. Há, dessa maneira, uma cesura entre os vv.5 e 6. É interessante notar que, na tradução de Almeida, é diferente a delimitação, ou seja, vv.5 a 11. A nossa sugestão é que seja usada a segunda parte do v.5.

Na presente perícope, a comunidade é exortada à obediência por causa da TAPEINOFROSYNÉ (humildade). Os traços da humildade e do servir marcam toda a Primeira Carta de Pedro (cf. 2.13,18,3.1,8). Com o uso de Pv 3.34, essa exortação é mais uma vez acentuada.

No Antigo Testamento, é marcante o fato de que Deus resiste aos soberbos e compadece-se dos humildes. A compreensão de Deus como Alto, Sublime (Is 51.15), também como Deus que se humilha e vai até a profundidade, é a condição que tornou possível à comunidade primitiva enxergar, na cruz de Cristo, a ação do Deus de Israel.

A bem-aventurança dos humildes, fracos e pobres é uma linha que atravessa grande parte do Novo Testamento (Mt 5.3ss; Lc 1.48ss; Jo 13.4ss; Rm 12.16; 1 Co 1.26ss; Tg 2.5 e outros mais).

A exortação que segue após o v.6 não tem mais como alvo certos grupos dentro da comunidade, mas quer atingir os crentes. A exortação também é feita, não mais para um procedimento humilde perante outros membros da comunidade, como o era no v.5, mas agora é para uma submissão humilde a Deus. As exortações quanto à humildade, à ansiedade, à sobriedade, à vigilância e à firmeza mostram nitidamente que a carta está chegando ao fim.

V.6: Este versículo fala sobre o humilhar-se sob a poderosa mão de Deus. Assim sendo, convém lembrarmos que a submissão ao juízo e a exaltação por parte do próprio Deus fazem parte de um testemunho bíblico que perpassa as Escrituras. A frase a poderosa mão de Deus é comum no Antigo Testamento e é usada, com maior frequência, a respeito da libertação do povo de Deus durante a escravidão no Egito. Assim é que podemos citar Ex 13.9; Dt 3.24;Dt 9.26. A ideia é que a poderosa mão de Deus está sobre o destino do seu povo, caso haja humildade e aceitação de sua condução.

A fé se sujeita, de maneira humilde, ao juízo divino, que foi tornado público na cruz de Jesus Cristo. Convém lembrar que não há graça de Deus quando não se aceita o juízo de Deus. Não é possível alguém esperar e aceitar auxílio e salvação se, ao mesmo tempo, tal pessoa não aceita o juízo de Deus. E necessário, portanto, dar razão a Deus em todo o seu agir, ou seja, humilhar-se sob a mão poderosa de Deus.

O v.7 fala num entregar-se completamente a Deus, numa confiança plena, total. Isso acontecendo, o homem precisa deixar de se preocupar. Devemos lembrar que essa admoestação é feita num momento que está relacionado com a perseguição. Dentro do texto, temos a mensagem de que Deus não fica apático diante da situação em que vive aquele que nele confia. Não é dito que Deus realiza as aspirações, humanas, porém, que ele sabe, melhor do que ninguém, o que nos falta, e que ele cuidará de nós da melhor maneira possível.

Lançar sobre ele toda a nossa ansiedade não nos autoriza a nos sentarmos e não fazermos nada. A confiança e o esforço precisam andar juntos. O cristão confia, mas não deve ficar dormindo na rede e deixar o mundo rolar. Deve dedicar seu esforço e toda a sua capacidade para entender e fazer o que Deus está desejando.

V.8: A exortação à sobriedade já foi feita anteriormente em 1.13 e 4.7. Da mesma maneira que em 1 Ts 5.6, aqui ela também está ligada com a exortação à vigilância. Por que ficar vigilante? Porque o perigo que está ameaçando não é algo que vem do Senhor, mas do ANTÍDIKOS (diabo), inimigo.

ANTÍDIKOS (diabo) é o adversário num processo jurídico, o acusador; mas é também o inimigo, o adversário em geral. C) diabo faz uso da perseguição aos cristãos para fazê-los esmorecer, cair.

O leão que ruge poderia ser uma alusão ao SI 22.13. No entanto, para os cristãos da época, trata-se de um quadro bem conhecido e que mostra o perigo iminente. Os cristãos sabem que se trata do inimigo por excelência, daquele que está esperando que os cristãos neguem a Cristo nos momentos difíceis (no referido texto, na perseguição).

V.9: Os cristãos sabem da solidariedade no sofrimento, sabem que os mesmos sofrimentos atingem os irmãos espalhados pelo mundo. Justamente por saberem que outros passam pelo mesmo problema, é que se sentem fortificados e resistem de maneira resoluta. É possível dizer que, através dos sofrimentos, Deus pode mostrar detalhes preciosos da vida. Não esqueçamos, porém, que o sofrimento pode conduzir o homem à amargura, ao ressentimento e ao desespero, até mesmo arrancar dele a pouca fé que possuía. Porém, se o sofrimento é aceito com amor, com confiança, com a certeza de que a mão de Deus não abandona, então Deus pode aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar.

Os vv. 10 e 11 adicionam uma bênção. Os verbos aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar mostram o interesse da carta com relação aos que estão sendo perseguidos. Os cristãos são exortados a ficarem firmes e vigilantes. No entanto, a força para que isso aconteça deve ser buscada em Deus. Por isso, o texto é finalizado com uma doxologia.

III - Meditação

O texto mencionado é uma clássica referência e, até mesmo, um apeio à humildade, à confiança, à vigilância e à firmeza. O autor da carta fala sobre uma aplicação geral do dever da humildade; algo que deveria atingir a todos os crentes de uma comunidade, sem exceção.

Humildade. Até que ponto a minha vida expressa humildade? Até que ponto estou consciente da falta de humildade na minha vida? As mesmas perguntas poderiam ser feitas em relação ao todo da comunidade onde este texto servirá como base para uma mensagem.

A palavra humilde precisa de alguns esclarecimentos, pois, de certa maneira, seu sentido, no dia a dia não é o mesmo daquele usado nas Escrituras. Segundo a concepção bíblica, humilde é aquele que está convencido das suas limitações, dos seus pecados e não procura ocultá-los de Deus. Humilde não é aquele que se sente como sábio. O humilde não fomenta a ilusão de que não necessita de nada, não fomenta a ilusão de ser super-homem. Ser humilde é saber da existência de Deus/aceitar esse Deus e viver a partir da sua graça. É ser instrumento de Deus na construção do seu reino.

Até que ponto estou ciente e consciente de que Deus resiste aos soberbos? Até que ponto estou convencido de que os humildes são recompensados com provisões da graça divina? Como a comunidade que vai ouvir e participar da pregação entende essa questão sobre os soberbos e humildes?

É realidade na minha vida, como pastor, o humilhar-me sob a poderosa mão de Deus? Até que ponto tal experiência é vivencial no meu lar? Onde isso se manifesta dentro do corpo da comunidade, representado pelos diversos grupos de comunhão, oração, ação?

Faz parte da minha vida e da dos que me cercam o lançar sobre ele todas as ansiedades?

A ansiedade, a dúvida, a preocupação, sempre de novo, estão presentes. Ansiedade é até um dos grandes temas dos nossos dias. Até onde isso pode expressar falta de confiança em Deus? O autor da carta exorta acerca da vigilância e da firmeza. Cada pessoa comprometida com a causa de Jesus Cristo sabe do dever e da necessidade de vigiar, em obediência à ordem do próprio Jesus Cristo. Mas, saber é uma coisa, vivenciar o que a gente sabe, é outra coisa. Até que ponto vivenciamos isso? Até que ponto estamos alertas diante do leão que ruge, do inimigo?

O nosso texto fala na perseguição e na tentação de vacilar, que sempre podia estar presente. Hoje, praticamente, não temos perseguições como as que aconteceram na comunidade primitiva. No entanto, não é assim que passamos por momentos difíceis, momentos de verdadeira tentação, quando colocamos muitas coisas em dúvida? Não é assim que a vida de uma pessoa comprometida com Jesus Cristo experimenta um cair e levantar-se com certa frequência? Mesmo sabendo disso, é bom lembrar da palavra bíblica: ser sóbrio e vigilante. Ter isso em mente pode significar ajuda para não cair. Ter isso em mente pode significar não ter muitos abalos na fé.

... os mesmos sofrimentos ocorrem à vossa irmandade espalhada pelo mundo. Para mim é importante saber que não estou sozinho. Para mim é importante saber que Deus está presente, que outras pessoas estão comigo no mesmo barco. Isso me fortifica. Sinto que, para a comunidade, é importante compartilhar tal fato. Isso pode ser bom também para outros crentes.

Acho importante sempre de novo ser lembrado que é Deus que pode nos aperfeiçoar, firmar, fundamentar.

É bom poder levantar a voz para bendizer o Deus de toda a graça, o Deus que é capaz de realizar tudo quanto ficou delineado nas admoestações da mencionada perícope.

IV - Prédica

Quer me parecer que a prédica poderia tomar o rumo do aconselhamento referente à humildade e à vigilância. Nesse sentido, deve haver um maior esclarecimento sobre o que significa ser humilde. No contexto, diria que é importante lembrar que ser humilde não é ser capacho daqueles que estão acima da gente.

Vejo a importância de mostrar o caminho para que sempre de novo as pessoas saibam como se humilhar sob a poderosa mão de Deus. No campo da ansiedade, seria bom saber quais são as principais preocupações do grupo que participará da prédica.

O texto oportuniza falar sobre sofrimentos, dificuldades Oportuniza falar sobre a sobriedade e vigilância em relação à confiança que se deve ter em Deus.

Creio que o pregador terá que optar por algum aspecto do texto, algo que seja mais presente na sua comunidade.

V - Bibliografia

- ALLMEN, J. J. von. Vocabulário Bíblico. São Paulo, 1972.
- BARCLAY, W. Santiago, I y II Pedro. In: El Nuevo Testamento. Vol. 14. Buenos Aires, 1974.
- BARTH, G. A Primeira Epístola de Pedro. São Leopoldo, 1967.
- McNAB, A. As epístolas gerais de Pedro. In: O Novo Comentário da Bíblia. Vol. 3. São Paulo, 1976.


Autor(a): Edson Saes Ferreira
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 4º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Pedro I / Capitulo: 5 / Versículo Inicial: 5 / Versículo Final: 11
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1979 / Volume: 5
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18279
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