1 Reis 17.8-16

Auxílio Homilético

12/11/2006

Prédica: 1 Reis 17.8-16
Leituras: Marcos 12.41-44 e Hebreus 9.24-28
Autor: Valdemar Witter
Data Litúrgica: Antepenúltimo Domingo do Ano Eclesiástico
Data da Pregação: 12/11/2006
Proclamar Libertação - Volume: XXXI

1. Informações preliminares

Como introdução ao primeiro livro dos Reis, o autor narra a última parte da história de Davi. Com a idade avançada de Davi, a monarquia de Israel precisa encarar o problema da sucessão ao trono. Davi unge Salomão, estabelecendo assim a dinastia davídica. A história do povo de Israel entra numa nova fase, a da sucessão monárquica, que vai desde o inicio do reinado de Salomão (970 a.C.) até a queda de Jerusalém (586 a.C.). O autor evidencia o interesse em destacar a personalidade do rei, sua inteligência e sabedoria, as riquezas acumuladas e as grandiosas construções, como, por exemplo, as muralhas do palácio real e o templo, santuário único de Israel, com sua relevância religiosa e cultural.

Em contraste com as esplêndidas realizações do reinado de Salomão, alguns aspectos pessoais ofuscam sua imagem: a conduta apóstata e pouco exemplar do rei e sua atitude permissiva ante a entrada em Israel de cultos pagãos e idólatras. Para consolidar o seu poder e em conformidade com os usos e costumes da época, Salomão estabeleceu acordos políticos e comer- ciais com nações vizinhas, tomando por esposas princesas estrangeiras (1 Rs
7.8; 11.1-3). Assim, chegou a ter muitas mulheres não-israelitas, “as quais queimaram incenso e sacrificaram a seus deuses” e, quando chegou a velhice, “suas mulheres lhe perverteram o coração para seguir outros deuses”, de modo que adorou ídolos e lhes erigiu santuários (1 Rs 11.4-8). A crise moral e religiosa em Israel foi se agravando. Portanto, o conflito de Elias tem como pano de fundo a questão moral, religiosa, política e social com a monarquia. Interessada em ampliar seu poder, foram feitas concessões de ordem religiosa e econômica, o que, por sua vez, trouxe tributos e opressão ao povo. Esses fardos extremamente onerosos geraram um clima de tensão, que não demorou a se alastrar por todo o país. Com essas desavenças também foi rompendo a frágil unidade política alcançada no reino (cf. 2 Sm 2.4; 5.1-3). Estabelecida a ruptura da unidade (1 Rs 12), o livro dos Reis aborda de modo paralelo as histórias de Judá e Israel (Norte x Sul), separadas e incapazes de superar a hostilidade mútua.

Dado o caráter narrativo dos livros de Reis, o autor procura mostrar especialmente a atitude dos profetas em momentos decisivos para a historia de Israel. Especial atenção é atribuída ao profeta Elias (1 Rs 17-2 Rs 1) e Elizeu (2 Rs 2.1-8,15; 13.14-20) – os dois grandes representantes do profetismo não-literário. O autor não se limita a recolher e transmitir a mensagem profética como tal, mas mostra os profetas em seu relacionamento com o acontecimento histórico.

2. Questões literárias

Entre os exegetas há um relativo consenso de que, à semelhança de Samuel e Crônicas, também Reis é uma única obra composta de dois volumes. Essa divisão do texto foi feita no século III a.C pelos tradutores da Septuaginta (LXX). Segundo essa linha de pensamento, o autor de Reis serviu-se de diversas fontes e também de um número desconhecido de narrativas contemporâneas relativas aos profetas. De modo explícito, o livro faz alusões a alguns documentos considerados perdidos hoje para a investigação histórica:

Livro da História de Salomão:1 Rs 11.41;

Livro da História dos Reis de Israel: 1 Rs 14.19;

Livro da História dos Reis de Judá: 1 Rs 14.29.

3. Mensagem do livro dos Reis

A história dos reinos de Judá e Israel é mostrada como uma série de fracassos, delitos e flagrantes de infidelidade ao Senhor, sendo os reis os principais responsáveis. O governo do povo de Deus havia sido confiado aos reis para que o exercessem com sabedoria, não com arbitrariedade e despotismo. Deveriam exercê-lo como autêntico serviço de liderança e proteção (1 Rs 12.7). Porém, os reis caíram na corrupção, na idolatria e levaram a nação à perda da liberdade e à depravação. No entanto, àqueles que conduziam o povo pelos caminhos da lei divina o Senhor abriu uma ampla porta de esperança (2 Rs 18.1-8,13-37; 19.1-20,11).

4.Texto e contexto

Julguei as informações anteriores importantes e necessárias para uma melhor compreensão da perícope no contexto maior dos livros dos Reis. Ao mesmo tempo, a análise maior já contém dados que poderão ser incluídos na pregação. A seguir, algumas informações sobre o texto e o contexto próximo.

1 Rs17.8ss apresenta um contraste entre Jezabel, que semeia a morte em Israel (1 Rs 18.4), e o profeta Elias, que dá a vida na Fenícia, a região de onde aquela rainha pagã provinha.

v. 8: A localização geográfica, Sarepta, era parte da Fenícia, situada a mais ou menos 15 km ao sul de Sidom. Era uma região que não estava sob o controle do rei Acabe.

v. 9: “Ordenei a uma mulher viúva que te sustente” (Almeida, ed. Bíblia de estudo, traduz por “que te dê comida”).

Percebe-se que, naquele momento dramático da vida do profeta, Elias estava fugindo da perseguição, estava se escondendo e nesse momento a mão de Deus se faz sentir. Primeiro manda que os pássaros levem o alimento milagrosamente para o servo (v. 6) e depois à mulher viúva. Aqui temos mais um aparente contraste – justamente uma mulher e viúva é que foi escolhida para dar guarida ao servo de Deus. Deus, em sua providência e misericórdia, age por graça e, ao mesmo tempo, ensina a solidariedade humana. Deus age de modo sobrenatural e por meio da natureza, também ensinando pássaros a servir, porém parece dar preferência a instrumentos humanos. Fazendo uma ponte para o NT, Deus colocou a mensagem do evangelho nas mãos dos fracos pregadores humanos para anunciar todas as coisas sobre a obra de Jesus Cristo, o que até anjos anelam perscrutar (1 Pe 1.10-12).

v. 12: “ O Senhor teu Deus”.

Essa mulher viúva não era uma israelita. Era uma pagã, pois não reconhecia o Deus de Elias como Senhor. Porém, sua obediência e a fé que revelou na promessa feita em nome do “Deus de Elias” (13.14) fez dela um instrumento de solidariedade e da misericórdia divina em relação ao profeta, bem como também o recipiente dos cuidados divinos com respeito a ela mesma e a seu filho. A conseqüência mais importante dessa atitude manifestou-se mais tarde na fé verdadeira na palavra de Deus (v. 24).

5. A caminho da pregação

A história veterotestamentária sobre a viúva de Sarepta (1 Rs17.8-16) e a história do evangelho (Mc 12.41-44) indicado como leitura para este domingo tem muitas semelhanças. A pergunta que surge é sobre as motivações que levaram essas mulheres a agirem dessa forma. O que motivou essa solidariedade e, até mais do que solidariedade, o que fez tornar o seu coração tão grande? O texto bíblico não explicita a razão pela qual, aproximando-se da morte, a viúva de Sarepta foi motivada a repartir até seus últimos alimentos. Foi uma atitude de desespero? Foi uma atitude de convicção? De qualquer forma, a viúva e seu filho corriam o risco de morrer de fome. Deve haver motivos. Vejamos: A viúva deu abrigo e comida a um profeta que precisava fugir por causa de sua profecia subversiva. Jezabel, a esposa de Acabe (1 Rs 16.31), seguidora das divindades sidônias, Baal e Asera, liderava um movimento que pretendia oficializar o culto a Baal, deus da chuva e da fertilidade.

Quando alguém ousava opor–se, ela recorria a medidas drásticas, matando inclusive os profetas (1 Rs 18.4,13). O profeta Elias tinha destituído publicamente o poder de Baal sobre a natureza (1 Rs 17.1). Reivindicou para o Deus de Israel o domínio sobre chuva e seca, sobre fertilidade e esterilidade.

Friedrich Dobberahn afirma que “obrigar e dar comida a fugitivos e revolucionários era sempre perigoso. Os países palestinos de então tinham feito um acordo sobre a entrega mútua de fugitivos e desertores” (PRU, VV nº 17.138; Heltzer, p. 4s). A prontidão espontânea da viúva em repartir também o último punhado de farinha, o último resto de azeite estava, a meu ver, no contexto de um raciocínio crítico frente à estrutura de sua sociedade; seu raciocínio poderia ter sido mais ou menos este: “Não existe nenhuma carestia cujos efeitos catastróficos afetam da mesma maneira o rei, o nobre, o alto funcionário e o assalariado. Teria sempre o suficiente para todos, se todos fossem iguais” (PL XVI, p. 293, 1991).

Tomando essa linha de raciocínio por base, podemos acreditar que a viúva de Sarepta quer permanecer em suas convicções até diante da eminência da morte – o princípio da igualdade entre os pobres. Colocava as prioridades de maneira diferente do que era costume nos bairros mais nobres das metrópoles fenícias e na monarquia.

É uma opção de vida, pois o rei Acabe, durante a carestia geral que assolava seu país, preocupou-se antes com o bem-estar de seus cavalos (1 Rs
10.26) e mulas (1 Rs 1.33, 38, 44) do que com a sobrevivência de seu povo faminto no campo (1 Rs 18.5).

Nesse contexto, a função de Elias é confirmar que o evangelho praticado pela viúva tem a ver com a realidade do reino de Deus. O milagre acontece, pois onde Deus está, ali não tem falta (Dt. 2-7; Sl 145-15s). Ele devolverá a vida em toda a sua riqueza.

Uma outra possibilidade na pregação poderá concentrar-se mais nos acontecimentos em Sarepta. Nessa possibilidade, o foco não será tanto o confronto político entre a fé em Javé dos pobres e a religião estatal na capital Samaria (1 Rs 16.29ss), mas poderá ser tematizado o aspecto histórico – salvífico – do texto. Em Sarepta, uma viúva deu abrigo e comida a um revolucionário. Deu tudo, isto é, o último do que ainda possuía – repartir a últi- ma farinha e azeite entre Elias, seu filho e ela. Farinha e azeite – “a vasilha de farinha não se esvaziará, e a jarra de azeite não acabará, até o dia em que Javé enviar chuva sobre a face da terra” (1 Rs 17.14 – essa era uma cantiga popular muito antiga que Elias relembrou).

Três aspectos mais podem ser tematizados a partir dessa história da viúva de Sarepta: 1 – 0 seu desprendimento; 2 – A solidariedade; 3 – A partilha: azeite/farinha = pão.

6. Para atualização

Pão é o símbolo concreto das necessidades básicas das pessoas. Falando de pão, não podemos dividir ou separar as necessidades humanas em materiais e espirituais (aqui pode-se fazer referência às explicações de Martim Lutero sobre o significado da petição pelo “pão nosso de cada dia”). É um desafio aos cristãos e, conseqüentemente, às igrejas a partilha profunda das questões da vida. Partilhar e compartilhar é mais profundo do que servir. Abrange as dimensões do amor cristão, a saber: dar e receber; ter compaixão; sofrer junto com o necessitado. “Servir” pode parecer um pouco heróico, convertendo o necessitado em “objeto”. Por outro lado, o compartilhar faz-nos relembrar o doador de todas as coisas, que nos liberta para dar: “De graça recebestes, de graça daí” (Mt 10.8). Com tal diferenciação estamos cientes de que “compartilhar o pão” não exclui os aspectos da diaconia, antes os destaca. A partir do texto pode-se animar irmãos e irmãs à tarefa diaconal como resposta ao amor de Deus.

Enfocando o aspecto da solidariedade, em grupos, discutiram-se quais são hoje as barreiras que impedem que a comunidade de fé viva a solidariedade. O resultado da reflexão pode ser assim resumido: a agitação da vida moderna, os grupos de interesse fora da comunidade de fé, com os negócios e os clubes. Também barreiras de classes sociais e de partidos políticos que criam tensões dentro da comunidade. Outros obstáculos ainda citados: opor- tunidades de diversão e lazer; programas de televisão; encontros sociais (aniversários) e as programações de final de semana. Quanto a barreiras de solidariedade que já foram vencidas mencionaram-se, entre outros, os seguintes: a cooperação no trabalho da Associação de Pais de Excepcionais (APAE); celebrações por ocasião da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos; o Dia Mundial da Oração; engajamento em organizações humanitárias.

O escopo da perícope parece sempre apontar para a esperança. Elias, perseguido por causa da sua missão, é protegido e orientado por Deus; a viúva tem o azeite e a farinha reabastecidos; o filho morto da viúva é revivido; a seca será superada pela chuva. “O Senhor fará chover sobre a terra” (v. 14). Não é teologia do consolo, mas a fé e a esperança ativa capaz de motivar para atitudes positivas e transformadoras. É um texto que nos conscientiza do poder transformador e libertador que a fé, presenteada por Deus, nos possibilita.

7. Subsídios litúrgicos

– Saudação e acolhida

– Hino

– Invocação trinitária: “Em Deus, cuja palavra eu exalto, neste Deus ponho a minha confiança e nada temerei” (Sl 56.4)

– Confissão de pecados: Senhor, aproximamo-nos de ti com os corações entristecidos, porque vemos tantos sinais de violência ao nosso redor. Presenciamos as injustiças e a falta de amor nas relações das pessoas. Ao mesmo tempo, confessamos que tão pouco fazemos para mudar a realidade. Confessamos nossa culpa e pedimos perdão por nossos erros e omissões. A passividade e a tentação que, freqüentemente, nos rodeia, às vezes tem nos vencido. Dá-nos forças e orientação para um maior envolvimento em inicia- tivas dentro e fora da igreja, que se empenham a favor da vida e contra todos os sinais contrários à vida. Inquieta-nos e ajuda-nos a sair da passivi- dade. A ti, Senhor, clamamos: Tem, Senhor, piedade!

– Absolvição: 2 Pe 3.9 ou Is 60.1

– Oração de oferta: Senhor, agradecemos que aqui tu nos reúnes mais uma vez como tua comunidade. Queremos ser comunidade viva e atuante. Agradecemos que tu enviaste os profetas para anunciar. Agradecemos que tu enviaste pessoas simples, humildes e pobres que deram grandes testemunhos e exemplos de vida. Agradecemos que tu acolhes todos os que te procuram sinceramente. Pedimos: Aquieta-nos agora. Aquieta nossos corações e mentes para que possamos ouvir e entender a tua Palavra. Por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.

– 1ª leitura: Hebreus 9.24-28

– Hino: “Pela Palavra de Deus, saberemos por onde andar, Ela é luz e verdade, precisamos acreditar”.

– 2ª leitura: Marcos 12.41-44

– Hino

– Prédica: 1 Rs 17.8-16

– Confissão de fé

– Hino

– Intercessão: É importante deixar tempo para intercessões espontâneas da comunidade. Que as pessoas presentes possam colocar diante de Deus suas angústias, suas preocupações, suas dores, bem como suas alegrias, agradecimentos e esperanças. Alguns assuntos para a intercessão:

– pedir por sua igreja, pelas lideranças locais, sinodais e nacional;

– pedir pela paz e pela solidariedade entre pessoas e comunidades;

– pedir por novas relações de justiça entre pessoas, sociedade e mundo;

– pedir por harmonia e entendimento nas famílias, escolas e comunidades;

– pedir por educação, emprego e saúde;

– pedir por consolo a doentes e enlutados;

– por governantes bons e honestos, que coloquem as causas coletivas acima de interesses particulares e egoístas;

– agradecer pela vida;

– agradecer pela família, pela igreja/comunidade e convívio fraterno;

– agradecer por que Deus continua a enviar mensageiros para anunciar o evangelho e denunciar o que não corresponde ao plano criador de Deus e ao plano salvífico de Cristo;

– agradecer pelos muitos dons semeados por Deus;

– agradecer pelas graças recebidas e pela esperança renovadora e transformadora da fé.

– Pai-Nosso

– Bênção

– Hino

– Envio


BIBLIOGRAFIA

BAUER, Johannes B. Dicionário de Teologia Bíblica. São Paulo: Loyola, 1978.

BRAKEMEIER, Gottfried. Tesouros em Vasos de Barro. Blumenau: Editora Otto Kuhr, 1999.

HOMBURG, Klaus. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1979.

DOBBERAHN, Friedrich E. Proclamar Libertação XVI, São Leopoldo: Sinodal, 1990.

SCOTT, R.B.Y. Os Profetas de Israel. São Paulo: Aste, 1968.

WOLFF, H.W. Bíblia Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1978.

 


Autor(a): Valdemar Witter
Âmbito: IECLB
Testamento: Antigo / Livro: Reis I / Capitulo: 17 / Versículo Inicial: 8 / Versículo Final: 16
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2005 / Volume: 31
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 23674
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