1 Reis 19.(14-18) 19-21

Auxílio Homilético

19/07/1992

Prédica: 1 Reis 19.(14-18) 19-21
Leituras: Gálatas 5.1,13-25 e Lucas 9.51-62
Autor: Clemente João Freitag
Data Litúrgica: 6º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 19/07/1992
Proclamar Libertação - Volume: XVII


1. Palavras iniciais

A opção pela monarquia em Israel estruturou a vida do país nos moldes dos povos vizinhos. Cabendo ao rei a centralização de todo o poder e o rumo religioso a ser imitado. A busca e toda a conquista do monoteísmo seguiu sofrendo sérios reveses com a ascensão do reinado. Tanto assim, que apenas na área rural a fé monoteísta ainda era melhor cultivada e praticada. Já na cidade, a vida sob o reinado propiciava outras alternativas religiosas mais atraentes, como o culto a Baal. A marca do ser Povo de Deus valia e pesava como um rótulo. O conteúdo estava por demais adulterado. O culto a Javé vivia sendo sucateado.

Em resumo, a situação geral do país não era boa. Quanto mais piorava a vi da do povo, tanto maior era a necessidade de fazer experiências com outros deuses. Esta era a leitura corrente e aceita pela maioria. Poucos percebiam o inverso, ou seja, a íntima relação entre a desgraça ser igual ao culto ao dobrar os joelhos a Baal. A nação é o povo de Deus, já o culto é a Baal.

Nesta situação cresce também entre o povo de Deus um fenômeno religioso denominado profetismo. Seus representantes eram oriundos principalmente do setor agrário. Carregam consigo a marca da exclusividade do culto a Javé. Javé não admite a apostasia de seu povo. Cobravam assim da nação o compromisso assumido por seus pais e reafirmado por eles, ou seja, Javé é Deus de Israel.

Como os profetas não firmavam compromissos com outros deuses e homens, tornavam-se livres e ousados. Criticavam e questionavam o culto; criticavam a vida; questionavam a estrutura do povo e das autoridades constituídas. Lembravam que o projeto da libertação precisava ser executado com o povo de Deus. Mostravam que o atual momento sócio-político-religioso ainda não era o paraíso prometido por Deus. Cada situação da vida exigia nova ordem de fé e culto, sem com isto perder o cerne: Javé é o Deus de Israel. Igualmente o profeta aprendia lições humildes e duras em sua missão. Defrontava-se com a dureza e a falta de compreensão elo povo e das autoridades. O profeta chegava ao desânimo e a conclusão de que só ele fazia culto ao Deus da Aliança (l Rs 19).

2. Meditando

Dos textos de l Rs 19(14-18)19-21; Gl 5. l. 13-15 e Lc 9.51-62 extraímos o seguinte:

2.1. Liberdade: é uma das questões que permeiam as leituras indicadas para o 6° Domingo após Pentecostes. Liberdade para aceitar ou rejeitar o manto de Elias e suas consequências. Liberdade para negar o amor ao próximo e andar na carne ou no Espírito e praticar o amor ao próximo. Liberdade para o desconforto, a submissão do ser discípulo e urgência da pregação de Jesus ou subordinação às leis, costumes e aparências da época.

2.2. Os(as) escolhidas(os), suas ocupações, costumes, fraquezas e disposições mostram em miniatura as contradições da ação humana com o convite de Deus. Esta é outra questão que interliga os textos indicados para esta época da trindade. (Elias desanima: Só eu faço o culto a Deus!; Tiago e João querem fazer descer fogo do céu; a comunidade cristã, apesar de libertada para o Espírito, não ama o próximo como a si mesma; um morde e devora ao outro.)

2.3. A situação real do povo de Deus, da comunidade cristã ainda não é ideal. As ameaças do pecado, da morte e da lei confundem o indivíduo e toda a coletividade do ser Povo e Igreja de Deus. A apostasia segue sendo uma ameaça à exclusividade do culto de Deus.

3. Meditando adiante

Dos três textos indicados, l Rs 19.(14-18)19-21 é sugerido para ser preparado e servido como alimento de nossa fé e vida, neste período do 6° Domingo após Pentecostes. No meu entender, a perícope é enriquecida quando ampliada com os vv. 14-18 e emoldurada pelo atual contexto.

Uma vez que remonta a 2 Rs 2.1-13,21. Sem os vv. 14-18 e o contexto atual, perderíamos elementos importantes do plano de libertação criada por Deus e executado por suas criaturas. Um ou dois indivíduos escolhidos esquecem do resto radical das minorias no realizar do plano de Deus. Existem mais javistas, discípulos e crentes a Deus do que o profeta, do que Tiago e João e do que a comunidade de Gálatas. A ação, o plano de Deus, não está restrito ao profeta, vai além e o ultrapassa no tempo. Um segundo detalhe neste texto nos mostra o envolvimento do profeta com o ser todo de Israel, como povo sócio-político e não só religioso. Israel não é só religião. O profeta participa ativamente da vida política da nação.

Seguindo na terceira trilha, Deus instrumentaliza um povo, um reino pagão para trazer os seus eleitos ao caminho da Aliança, sob duras lições. Conselhos e boas maneiras não mais impressionavam a fé, a vida do povo escolhido. Assim, catástrofes e duros reveses militares é que quebrariam, o vício da apostasia. Só no suor do Espírito e nas lágrimas da fé que a luz da santa Aliança voltava a ser aceita como indicador do caminho da libertação. Ainda dentro da perícope, na sequência da ação de Deus, que ultrapassa o indivíduo (Elias), é-nos relatada a escolha do sucessor. Eliseu, um sujeito dado ao trabalho coletivo. Poder-se-ia dizer que tinha a visão do todo, para com o povo de Deus. Neste relatar da escolha de Eliseu, daria para dizer que ele achou um tesouro no campo quando o estava arando. De alegria, promove uma festa. Convida o povo e se despede dos pais. De posse do tesouro, parte assim para sua nova missão. Arar a vida do povo de Deus, no campo sócio político-religioso. Neste arar não respeita propriedade do rei e nem a segurança religiosa do povo. Eliseu lia a vida, a história do povo sob o ponto de vista da Aliança: Javé é Deus em Israel.

Vivemos épocas, períodos de extrema dificuldade no que diz respeito ao sei Igreja de Jesus Cristo e ainda mais, como diferentes membros do corpo de Jesus Cristo. De um lado lutamos dentro das igrejas, não contra o mal em si, mas contra diferentes manifestações do Santo Espírito de Deus. Identificamos o maligno em cor rentes teológicas opostas ou diferenciadas e em igrejas irmãs. Achamos que a única linha teológica, único rito que prega a fala de Jesus é o nosso. Por isso, os outros precisam sofrer nosso ataque. Nesta perspectiva ficamos e exercitamos uma falsa luta religiosa. Desviando, corrompendo e perdendo a força missionária. Passando a servir novamente à carne. Dentro desta luta, que não é a luta de Deus, cansamos c desanimamos. Esquecendo de que diferentes igrejas, ritos, linhas teológicas e tradi coes não salvam e não são o Reino de Deus ainda. No máximo, são instrumentos para ensaios numa época. Ser cristão não é só pertencer a esta igreja ou corrente te¬ológica. A ação de Deus não se restringe só a tais contratempos e fatos. Enquanto isto ocorre no corpo de Jesus Cristo, o povo caminha a passos largos rumo a aposta sia. Pois esta luta e divisão interna da igreja não auxilia na fé nem no sofrimento diário da humanidade de Deus. Assim, também fomos e somos cooptados pela liberdade religiosa que o mundo capitalista proclama e exercita. Assim como a fé javista não dependeu só de Elias, mas também da ação de Deus, hoje o evangelho da morte e ressurreição de Jesus Cristo não depende tanto da ação da igreja dividida, mas principalmente do sopro e do agir livre do Santo Espírito de Deus que chama, congrega e transforma com ação dos sete mil que não dobraram os joelhos.

4. Subsídios litúrgicos

1. Oração de coleta: Senhor, tu nos enviastes para preparar-te morada nesta localidade por ocasião da tua ressurreição e o envio do Consolador. Pedimos-te, salva a vida da tua imagem para que, ao colocarmos as mãos no arado, sejamos aptos ao teu reino. Não desanimando, nem pedindo fogo do céu e, menos ainda, ser livres para a carne. Na certeza da unidade, é que clamamos. Amém.

2. Ato da confissão-penitência: Senhor, diante de pensamentos diferentes; de ações que escapam ao nosso controle; de manifestações ousadas e até incompreensíveis do Espírito de Cristo; diante dos miseráveis, famintos e perdidos; diante de novas formas e estruturas de testemunhos ousamos dizer Senhor queres que mande¬mos descer fogo do céu para os consumir? Senhor, no dia do Santo Batismo, nossos pais, padrinhos e madrinhas disseram; no dia da confirmação eu disse; no dia de testemunhar e ajudar na caridade nós como comunidade dissemos: Seguir-te-ei para onde quer que fores, e não vamos.
Senhor, dentro da comunidade mordemo-nos, devoramo-nos por opções políticas e teológicas diferentes, seguindo as obras da carne.
Senhor diante do nosso fracasso e da tua bondade chamamos e pedimos pelos frutos do Espírito, dizendo: Tem piedade de nós, Senhor. Amém.

3. Absolvição: Os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, andando no Espírito e assim herdarão o reino de Deus.

4. Oração final: Senhor, sabemos que a carne milita forte em nossa vida e na comunidade de tua Igreja, conforme confessamos neste culto. Neste encontro pedimos em especial pelos frutos do Espírito em nossa jornada. Assim preencha nosso coração com amor que age e transforma; nossos olhos, com alegria que renova força; nossa mente, com paz; nossas mãos, com bondade; nossos pés, com fidelidade; nossa crença, com liberdade; nosso viver transforma em servir, para assim não cair mais no jugo da escravidão. Amém.

5. Bibliografia

VON RAD, G. Teologia do AT. Vol. 11, São Paulo, ASTE, 1960.
MESTERS, C. Deus, onde estás? Belo Horizonte, Editora Vega, 1971.


Autor(a): Clemente João Freitag
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 6º Domingo após Pentecostes
Testamento: Antigo / Livro: Reis I / Capitulo: 19 / Versículo Inicial: 19 / Versículo Final: 21
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1991 / Volume: 17
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17986
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