1 Reis 19.9-13a

Auxílio Homilético

22/08/1993

Prédica: 1 Reis 19.9-13a
Leituras: Romanos 9.1-5 e Mateus 14.22-33
Autor: Carlos A. Dreher
Data Litúrgica: 12º. Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 22/08/1993
Proclamar Libertação - Volume: XVIII


1. O tema do domingo

Tristeza, impotência, fracasso e frustração, tanto da parte da comunidade quanto daqueles que têm a tarefa de pregar-lhe a Palavra, parecem ser o tema deste 12° Domingo após Pentecostes. A comunidade dos discípulos, cujo barco é fustigado pelas ondas revoltas, vê Jesus vir ao seu encontro, caminhando por sobre as águas. Apavorada, porém, toma-o por um fantasma. Pedro consegue caminhar por sobre a água, até que o medo diante da força do vento o leva a submergir. Paulo sofre amargurado a frustração de ver seu povo fracassar na aceitação do Evangelho. Elias quer desistir, pois pensa estar sozinho em seu zelo por Javé. Seu povo sucumbiu diante de outros deuses.

Duas vezes, a angústia tem a ver com o povo de Deus, que se desvia do caminho que lhe é proposto. Outra vez, é a tempestade do mundo que mete medo e faz afundar.

É um tema sobre o qual talvez não se devesse apenas pregar. Bem mais o tema propõe uma reflexão pessoal sobre fracassos, frustrações, impotência e angústia. O texto de l Rs 19 me tem ajudado, muitas vezes, em momentos difíceis.

2. O ciclo de Elias

O texto proposto para a pregação nos remete ao profeta Elias. Figura lendária, repercute ainda intensamente no Novo Testamento (cf. Mt 11.14; 16.14; 17.3-4,10-13; 27.47-49; Mc 9.4s.,11-13; 15.35ss.; Lc 1.17; 4.25s.; Jo 1.21.25; Rm 11.2-4; Tg 5.17). Mesmo no Antigo Testamento, ainda ecoa além dos relatos sobre sua atuação (Ml 3.23s. = Almeida 4.5s.; 2 Cr 21.12ss.; cf. Eclo 48.1-11). Elias é, sem dúvida, ao lado de Moisés, a maior figura profética do passado.

Especificamente, as narrativas sobre Elias se encontram em l Rs 17-19; 21; 2 Rs 1-2. A última narrativa, 2 Rs 2.1-18, já é considerada parte integrante da tradição de Eliseu, embora seu assunto central seja a ascensão de Elias.

Interrompido duas vezes pelo tema da guerra contra os arameus (l Rs 20 e 22; cap. 22 contém também a interessante narrativa sobre o profeta Micaías, vv. 5-28), o Ciclo de Elias compõe-se de quatro blocos, a meu ver independentes: l Rs 17-18: Elias e a seca — Javé ou Baal; l Rs 19: Elias no Horebe; l Rs 21: A vinha de Nabote; l Rs 1.2-17: A consulta de Acazias.

A composição de l Rs 17-18 inclui uma série de narrativas menores, concatenadas entre si pela temática da seca. Aí se trava a luta dos deuses. A pergunta dramática: Quem é Deus, Javé ou Baal? perpassa o conjunto. 17.1-8 nos apresenta o anúncio da seca e a maravilhosa alimentação de Elias através dos corvos. 17.9-16, 17-24 nos apresentam duas narrativas relacionadas à viúva de Sarepta. 18.1-19 nos falam do confronto entre Elias e Acabe. 18.20-40 levam a disputa religiosa a seu desfecho na narrativa sobre Elias e os profetas de Baal no Carmelo. 18.41-46 encerram a composição, relatando o fim da seca com o retorno da chuva.

Apesar de estar redacionalmente conectado aos caps. precedentes (cf. vv. 1-3), l Rs 19 representa uma tradição independente. Seu tema é a peregrinação de Elias ao Horebe, o monte sagrado, e a revelação que ali recebe da parte de Javé. Um novo comissionamento e a vocação de Eliseu encerram o capítulo.

1 Rs 21 nos apresenta o caso do camponês Nabote, brutalmente assassinado para satisfazer os caprichos do rei. A utilização dos meios legais por parte da rainha Jezabel, para atingir o objetivo perverso de eliminar o camponês que atrapalha os anseios do rei, é descrita de uma maneira crua e realista. A intervenção de Elias (vv. 17-24), ainda que veemente, não escapa da impressão de ser tardia.

2 Rs 1.2-17 nos apresentam Elias na função de homem de Deus. Mais do que profeta, o texto vê em Elias uma figura intocável e capaz de levar à morte quem o desafia. A discussão religiosa entre a fé em Baal e a fé em Javé reaparece aqui como pano de fundo.

Observado o conjunto do ciclo, l Rs 19 tem aspectos bastante distintos em relação às demais narrativas. Nelas, Elias sempre se apresenta forte e vigoroso. É capaz de determinar a suspensão de chuva e orvalho (17.1). Faz milagres assombrosos, até mesmo o de ressuscitar uma pessoa morta (17.8-24). Enfrenta o rei com destemor (18.17s.; 21.17ss.). É capaz de evocar fogo do céu, tanto para consumir o holocausto (18.38) quanto para eliminar os que o afrontam (2 Rs 1.9ss.). l Rs 19, ao contrário, apresenta-o como um fracassado, angustiado, cheio de dúvidas e frustrações com relação à eficácia da fé que anuncia. É neste contexto que vamos encontrá-lo.

3. O pano de fundo histórico

Todos os textos do Ciclo de Elias situam a época de sua atuação no período da dinastia Omri, no Reino de Israel. Vejamos um pouco da conjuntura que o profe¬ta tem que enfrentar.

Diferente de Judá, onde sempre governou a dinastia davídica, o Reino de Israel passou por um revezamento quase que constante de monarcas de ascendência distinta. Na maioria dos casos, golpes palacianos marcaram a troca de governo. Desmembradas do reino de Jerusalém em 926 a.C., buscando escapar do jugo imposto por Salomão e que tendia a continuar sob seu filho Roboão, as tribos do norte fundaram um reino autônomo. Seu primeiro rei, Jeroboão I (926-907), foi sucedido por seu filho Nadabe, que não logrou manter o poder além de dois anos. Foi assassinado por Baasa, que assumiu o trono (906-883). Também o filho de Baasa, Ela, chegou a suceder o pai. Mas, igualmente, não ultrapassou o período de dois anos. Dinastias não logravam configurar-se, o que não precisa ser avaliado negativamente. Ainda havia forças populares capazes de interferir no processo sucessório.

Bem diferente é o que vai ocorrer a partir de 882 a.C. A disputa sucessória é sangrenta e envolve diversos pretendentes ao trono. É, finalmente, resolvida com a instalação da dinastia omrida, a primeira no norte, que terá duração de cerca de 40 anos. O relato de l Rs 16.8-22 nos dá os detalhes. O general Zinri assassina o rei Ela, assumindo o poder em seu lugar. Um curtíssimo reinado de sete dias lhe é suficiente para exterminar toda a família real. Nova revolta militar leva Zinri a cometer suicídio, incendiando o castelo real, no qual se encontra. Dois generais passam a disputar o poder, contando cada qual com apoio de parte do exército. Tibni é derrotado; Omri, o vencedor, é elevado ao trono, que passa a ocupar com mão de ferro. Será o primeiro rei a conseguir instaurar uma dinastia em Israel.

De Omri (882-871) sabemos que edificou Samaria, cidade estrategicamente muito bem localizada, fora das rotas de conflito e cercada por uma cadeia de montanhas, que lhe permitia segurança eficiente contra eventuais contragolpes. Politicamente, buscou dar sustentação a seu governo com uma série de alianças externas e internas, no que foi seguido por seu filho Acabe. Externamente, abriu caminho para a Transjordânia, subjugando os moabitas. Através do casamento de seu filho Acabe com a princesa Jezabel, logrou manter ótimas relações com as cidades costeiras da Fenícia, o que lhe propiciava abertura comercial para o Mediterrâneo. Acabe (871-852) conseguiu, posteriormente, abrir o caminho para o sul, ao reatar relações com o Reino de Judá, através do casamento de sua filha Atália com o príncipe herdeiro Jeorão, filho do davidida Josafá. Para nordeste, os arameus representavam problemas. Guerras constantes contra eles marcaram o período (l Rs 20; 22). A rivalidade pôde, porém, ser interrompida, ao menos temporariamente, com as alianças que se fizeram necessárias para deter o avanço assírio sob Salmanesser III, em torno de 835 a.C. Isto permitia aos omridas relações comerciais e internacionais em todas as direções limítrofes de seu território.

Internamente, a política omrida consistiu em buscar sustentação junto a todas as camadas e tendências da população. Isso incluía os cananeus, isto é, a população não-javista do país. Em relação a estes, a política omrida consistiu em tolerância, e até mesmo assimilação do culto agrário a Baal. Isto não significou eliminação ou marginalização do javismo, como se poderia pensar a partir dos relatos do Ciclo de Rlias. Os filhos de Acabe, Acazias e Jorão, ainda têm elementos teofóricos tipicamente javistas em seus nomes. Ao menos pelos nomes de seus filhos, Acabe continua adorador de Javé.

O problema que se cria, porém, é o sincretismo. A população passa a ver Javé e Baal em pé de igualdade e, muitas vezes, chega a confundi-los. A pergunta de filias no Carmelo é que melhor o evidencia: Até quando mancareis para os dois lados? (l Rs 18.21). O povo não vê mais oposição entre Javé e Baal.

Do ponto de vista ideológico, Baal vai ganhando espaço. Seu culto representa melhor o esquema hierárquico da realeza e justifica mais claramente uma monarquia Icndente ao absolutismo (l Rs 21). O culto a Javé, em sua proposta de uma sociedade solidária e fraterna, vai perdendo lugar, por não encontrar espelho na sociedade.

Penso que seria reducionismo ver o conflito no Ciclo de Elias apenas como uma questão religiosa. A luta dos deuses — Javé e Baal — não se restringe ao espiritual. Tem também — e me parece até em primeiro plano — conotações econômicas e políticas muito fortes. Ó culto a Baal, tipicamente agrário, celebra o ciclo da natureza. A fecundidade, tanto na terra quanto na vida animal e humana, tem papel central. Importa garantir a fertilidade, a fim de promover a economia. Quanto mais produtos, tanto mais tributos, base para o comércio promovido pela corte.

Quanto mais crianças, tanto mais perspectivas de corvéia, trabalho forçado no exército e nas construções. Também na base popular o incremento da produção e o nas¬cimento de filhos são encarados como bênção. Nem sempre se consegue divisar os interesses do Estado.

Ora, o culto a Baal acentua a fecundidade ao promover em seu centro a prostituição cultual. Por outro lado, Baal é rei, como Omri ou Acabe. A partir daí, tal culto sustenta com maior eficácia os interesses reais, mantendo o povo feliz. O rei faz as vezes de mantenedor do culto, o que, por sua vez, lhe garante o direito ao tributo.

É neste contexto que Elias — Meu Deus é Javé, este é seu nome — proclama a seca (l Rs 17.1). Agora a eficácia dos deuses está em discussão. Quem garante a natureza? Javé ou Baal?

Contudo, o rei não está preocupado com as disputas religiosas. Isto parece ser coisa para Elias e sua mulher, Jezabel. Enquanto ambos brigam entre si, o rei perse¬gue seus reais interesses. Em meio à seca, não está preocupado com Deus nem com o povo. Quer garantir seus cavalos e seus mulos (l Rs 18.5), ou seja, a base do exército e do comércio. Cavalos são fundamentais para o exército; mulos transportam cargas nas caravanas.

Em função disto, é fundamental desmascarar Baal e, com ele, o rei. Eliminando-se Baal e reestabelecendo a aliança com Javé, o domínio absolutista do rei decresce (cf. Dt. 17.14-20). Camponeses como Nabote terão seus direitos respeitados. Não serão mais tão duramente tributados para manter a corte e suas relações comerciais internacionais. Javé não admite faraós, nem mesmo travestidos de reis israelitas. Baal os consagra, além de destruir a solidariedade campesina com suas práticas cultuais devassas, que reduzem mulheres e homens a meros objetos.

Não obstante, o culto a Baal é sedutor. E é frustrante ver não apenas o rei, mas também a camada majoritária da população, também os empobrecidos, se renderem às suas graças. Não é difícil, em momentos assim, querer largar tudo com a justificativa: Só eu sobrei!

4. O texto para a pregação — l Rs 19.9-13a

4.1. Preliminares

O texto proposto para a pregação é um recorte. Assim como está indicado, não oferece elementos suficientes para a compreensão do que se passa e do que se quer anunciar. É mais um fragmento do que propriamente uma perícope.

Imagino que o recorte seja consequência das dificuldades que o capítulo apresenta. Na opinião dos comentaristas, l Rs 19.1-18 é resultado de diferentes revisões literárias. Diferentes assuntos se sobreporiam. De uma antiga lenda sobre uma peregrinação ao Horebe, o complexo teria sido acrescido da temática da fuga diante de Jezabel, do lamento de Elias, de uma teofania de Javé e de um anúncio de juízo sobre Israel. Os vv. 19-21 já perfazem outra perícope.

De fato, a ligação de l Rs 19 ao capítulo precedente não deixa de apresentar algumas contradições, l Rs 18 terminava com uma estrondosa vitória de Elias, melhor seria dizer, de Javé, sobre os profetas de Baal, não obstante o desfecho assustadoramente sangrento. Neste contexto, não deixa de ser estranha a atitude do profeta. Mesmo lendo o v. 3 com o texto massorético (E Elias viu, ao invés de E Elias temeu, como propõe a LXX juntamente com alguns manuscritos e outras versões), a fuga para salvar sua vida não combina com o profeta vitorioso e destemido dos capítulos anteriores. Também não se entende, na comparação dos capítulos, a frustração suicida de Elias no v. 4. Por que querer morrer, por não ser melhor do que seus pais, depois de haver enfrentado reis e profetas opositores com tanta eficiência e coragem?

Mais contraditória é a lamentação do profeta (vv. 10 e 14), se comparada com o capítulo precedente. Os filhos de Israel estavam reunidos no Carmelo e assistiram a disputa sacrificial, cujo desfecho foi favorável a Elias, l Rs 18.39 afirma enfaticamente que todo o povo reconheceu a soberania de Javé. Por que, então, agora a afirmação: Os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derrubaram os teus altares e mataram os teus profetas à espada; e eu fiquei sozinho...?

O equívoco parece residir em querer estabelecer uma conexão entre l Rs 19 e as narrativas permeadas pelo tema da seca em l Rs 17-18. No conjunto, o capítulo 19 deve ter mesmo vida independente. O tema da frustração de Elias é constante do v. 4 até o v. 14. O novo comissionamento nos vv. 15-17, mais a constatação da existência de sete mil fiéis, ajusta-se perfeitamente ao propósito da narrativa.

Neste caso, apenas os vv. 1-3 apresentariam problema, que consistiria na ligação redacional aos capítulos precedentes. A razão da frustração e da vontade de desistir de tudo, expressa pelo profeta, está suficientemente caracterizada nos vv. 10 e 14, no cerne da narrativa. Não é o medo da rainha, que nem sequer é aí mencionada, mas a frustração com o povo de Israel, que abandonou Javé e se voltou contra seus profetas, o motivo do lamento de Elias.

Assumo, pois, l Rs 19.4-18 como narrativa independente e avalio este contexto em função do texto proposto para a pregação. Para resolver a questão do recorte, proponho que se acrescente ao v. 9 a localização geográfica clara: Chegando ao Horebe, o monte de Deus, Elias entrou.... Além disso, por motivos que ainda indicarei mais adiante, leio o texto até o final do v. 13.

Se opto pela leitura e análise parcial do texto, é porque considero pedagogicamente acertado fixar-se no assunto central do capítulo: a frustração de Elias e a resposta de Deus. A abordagem de todo o capítulo obrigaria o pregador a enfocar também outros aspectos. Uma boa meditação sobre l Rs 19.1-18, elaborada por M. Weingärtner, pode ser encontrada no PL III, pp. 141ss.; e de l Rs 19.1-13a, escrita por C. Freitag, no PL XIV, pp. 185ss.

4.2. Estudo do texto

A frustração de Elias leva-o ao Horebe, o monte de Deus. Texto e contexto não permitem mais uma localização exata do monte. Aliás, as referências todas ao Horebe, contidas no AT, não o permitem. Mesmo a identificação com o Sinai, certamente correia, não nos ajuda. A sua localização na península do mesmo nome remonta ao séc. IV de nossa era. Os textos bíblicos sabem apenas dizer que está ao sul, muito distante (40 dias e 40 noites de caminhada, desde Berseba, l Rs 19.8).

Mais importante que a geografia é o fato de que Horebe/Sinai é o local da revelação de Javé. O texto fundamental de Êx 3, no qual se dá a revelação de Javé por excelência, mas além dele, Jz 5, Êx 19; 33; Dt 33, identificam o monte santo como o local revelador da presença de Deus. Num tempo em que a onipresença de Deus ainda não faz parte do ideário religioso das pessoas, o local de sua revelação é de suma importância. Isso, talvez, correspondesse hoje ao templo, no qual pela primeira vez se tomou consciência da fé. Até mesmo, para muitos, esta igreja, na qual estarei pregando no domingo em questão.

No texto, parece que se entende Javé como um Deus local. Para falar com Ele, é necessário peregrinar ao local de sua presença.

Por outro lado, este local remonta às origens da fé israelita. Foi ali que Moisés conheceu o Deus que vê, ouve, conhece o clamor e a aflição de seu povo e desce para livrá-lo (Êx 3.7s.). Foi ali que se estabeleceu a aliança entre Javé e seu povo (Êx 19.1ss.), dando-lhe a Sua lei, reveladora de Sua vontade (cf. Êx 24; 33).

Não é, pois, à toa que Elias vai ao Horebe. Ele vai em busca de seu Deus, no momento de sua frustração maior. Na volta às origens, há a esperança do desabafo e do reencontro de respostas.

No Horebe, o profeta passa a noite numa caverna. E ali lhe vem a palavra de Javé: Que fazes aqui, Elias? A pergunta do Onisciente soa retórica. Deus bem sabe por que Elias está ali. Mas é necessário que ele mesmo expresse a razão de sua busca por Deus.

As razões do profeta são múltiplas. Ao menos, elas têm múltiplas facetas. Ao seu zelo por Javé contrapõe-se o descaso do povo e a ameaça à sua vida.

Tenho sido muito zeloso por Javé, Deus dos Exércitos.

Apesar da expressão não se aplicar apenas ao âmbito religioso, ser zeloso nos faz lembrar, de imediato, a exigência pela adoração exclusiva de Javé. Ele mesmo se apresenta com essa expressão em Êx 20.5; 34.14; Dt 5.9 (cf. também Js 24.19). Javé é zeloso, isto é, ciumento, especialmente com relação à adoração de outros deuses por parte de seu povo. Na mesma direção parece estar a afirmação de Elias. Seu zelo tem a ver com dedicação, fervor, adoração exclusiva a este Javé, Deus dos Exércitos. Toda a sua luta e toda a sua pregação têm a ver com o primeiro mandamento e suas consequências. É deste zelo que falam os capítulos precedentes. Baal não pode subsistir ao lado de Javé. Javé é Deus único. Isto está expresso no próprio nome de Elias = Javé é meu Deus. Mas todo este zelo foi em vão, pensa Elias. Não surtiu efeito, não alcançou o povo de Israel.

Mas os israelitas abandonaram tua aliança.

Sinai/Horebe é o local sagrado, onde Javé firmou uma aliança com o seu povo (cf. especialmente Dt 5.2). De escravos tirados do Egito Deus fez o seu povo. Para que preservasse a liberdade, Deus lhe deu estatutos e diretrizes, entre as quais a de sua adoração exclusiva. Agora este povo te abandonou, diz Elias. Segue outro deus. Deixa-se escravizar novamente. Aqui, no Horebe, no lugar em que firmaste tua aliança, venho te declarar que teu povo te abandonou.

Derrubaram os teus altares.

O abandono da aliança não parece ser apenas renúncia à adoração exclusiva de Javé. Não se trata mais apenas de sincretismo o que está ocorrendo em Israel, na opinião do profeta. Se altares são derrubados, então Javé está totalmente esque¬cido. Não tem mais lugar, nem mesmo ao lado de Baal! Contudo, a única notícia de um altar derrubado se encontra na narrativa do Carmelo (l Rs 18.20ss.), na qual há a referência de que Elias restaura o altar de Javé, que estava em ruínas (v. 30). Trata-se de um exagero do profeta?

E mataram os teus profetas à espada.

l Rs 18.4,13 nos falam do assassinato de profetas a mando de Jezabel. Mas nos informam também que Obadias, mordomo real temente a Javé, escondeu cem profetas em dois grupos de cinquenta, sustentando-os com pão e água. De fato, no Carmelo Elias está sozinho. Mas, a julgar pela informação de Obadias, o profeta novamente exagera. Pinta o quadro mais feio do que realmente é. Neste sentido, também a afirmação de que ficou só poderia ser exagerada. Só eu fiquei, e procuram tirar-me a vida.

Do modo como Elias descreve a situação, o javismo está por um fio. Abandonaram u aliança, desistindo da adoração exclusiva a Javé. Derrubaram os altares, o que significa eliminar o seu culto. Mataram os profetas, o que equivale a exterminar a voz de Javé. O último elo é o próprio Elias. E ainda querem matá-lo! Se o conseguirem, Javé estará sozinho.

Seja tudo isso verdade, seja apenas resultado de negativismo da parte de Elias, seu lamento soa, num crescendo, como um prenúncio do fim. Acabou-se! Não há mais perspectivas! Arrasaram com Javé! O que resta não é mais do que um sopro. Já se apressam a eliminá-lo também.

Importante neste lamento é que o profeta não acusa o rei ou a rainha Jezabel por esta situação desoladora. Sua frustração é com o povo, os filhos de Israel. Não se trata apenas de um mau rei ou de uma má rainha, que se pudesse substituir, a fim de melhorar as coisas. Não. Trata-se de um desmoronamento da fé que perpassa tudo e todos. Não há mais futuro para o projeto de Deus, porque todos o abandonaram.

A reação de Javé é desnorteante. Talvez seja por isso que tantos comentaristas pensam em eliminar os vv. 9b-10, pretendendo vê-los como antecipação dos vv. 13b-14. Penso que os vv. 11-12 representam realmente na narrativa a reação de Javé ao lamento do profeta.

Chamo-a desnorteante, porque não discute diretamente as dramáticas descrições da realidade que Elias lhe apresenta. Até parece que Javé não ouviu direito. Não entra no mérito do lamento de Elias. Faz bem outra coisa. Ordena-lhe:

Sai, e fica parado neste monte, diante de Javé.

E eis que Javé estava passando, diz o texto. Na sequência, temos um desfile de fenômenos naturais. Ainda não é Javé que passa. Poder-se-ia pensar que o que aí passa revela a sua presença. Mas, não!

Vem aí um forte vento, que fende montes e despedaça rochas diante de Javé. Mas Javé não está no vento.

Segue-se ao vento um terremoto. Mas Javé não está no terremoto.

E depois do terremoto, um fogo. Mas Javé não está no fogo.

Por que esta ênfase na ausência de Deus? Por que assinalar tantos fenômenos grandiosos e estrondosos, para apenas constatar que Deus não está neles? Por que Deus não passa logo? Afinal, Elias veio procurá-lo em seu desespero.

Talvez exatamente porque Elias o esteja procurando onde não se pode encontrá-lo. Não vejo outra razão para a figura. Deus não está na grandiosidade e no estardalhaço de vendaval, terremoto e fogo.

È necessário que se atente para o fato de que os grandes fenômenos naturais, no próprio Antigo Testamento, são reveladores da presença de Deus. Já no antigo texto de Jz. 5.4-5, Javé vem para a batalha em meio a tremores de terra, céus gotejantes e montes vacilantes. Êx 19.16-19 descrevem a presença de Javé sobre o Sinai com trovões e relâmpagos, nuvem espessa, clangor de trombeta, fogo e fumaça, tremor do monte. Sobre o Horebe, Moisés se depara com a sarça que arde em fogo, mas não se consome. Diante destes fenômenos, o povo treme assustado. Ele é temível, apavorante, sua presença é mortífera.

Agora Deus não está mais em meio a tudo isso. Não é encontrável nas coisas grandiosas. Talvez Baal seja reconhecível nelas. É o deus da natureza. É o deus do monarca absolutista. Sim, todos esses fenômenos são utilizados para descrever a teofania de Baal nos mitos cananeus. E é bem possível que tenham sido adotados por Israel para descrever a revelação de Javé.

Mas não é assim. Na verdade, o lugar da presença de Baal é o lugar da ausência de Javé. Não é ali que o verdadeiro Deus está.

Depois do fogo, um som de uma calmaria silenciosa.

A tradução não é fácil. Almeida traduz cicio tranquilo e suave. A Bíblia de Jerusalém propõe brisa suave. Nos comentários, encontro um silêncio audível, um sussurro suave e silencioso, o sopro do silêncio. Cativa-me também a brisa leve. Em todo caso, todas as propostas indicam um som ainda perceptível, um movimento quase não mais verificável. Um suspiro.

Não se diz desta brisa leve que Deus nela está. Diz-se apenas que, quando Elias a ouve, cobre seu rosto com o manto. Também não se diz que Javé não está nela. E é bom que seja assim. É importante que Deus continue a não ser identificado com fenômenos naturais ou de qualquer outro tipo.

Mas é depois de ouvir a brisa leve que Elias ouve a voz de Javé. Quando nada mais parece audível, a voz de Javé se faz ouvir.

Que fazes aqui, Elias? — A pergunta se repete. Na sequência da narrativa, Elias repetirá seu lamento, ao que receberá de Javé novo comissionamento, que soa como vento, terremoto e fogo (Hazael, Jeú e Eliseu, com suas espadas), acompanhado de uma esperança, tal qual brisa leve (os sete mil que não dobraram o joelho a Baal). Mas já aqui a narrativa poderia terminar.

A repetição da pergunta tem novamente caráter retórico. Em si, Elias já tem a resposta. Deus não está no grandioso, no pragmático, na estatística crescente, no sucesso da missão, na vitória constante. Está talvez na brisa leve, ou até mesmo além dela. Na sarça, tão pequena e insignificante, no chão de agricultura, tão santo que se tem que tirar as sandálias para pisá-lo; em meio aos escravos no Egito, frágeis, massacrados, impotentes; na manjedoura; entre os meninos condenados à morte por Herodes; na fraqueza de Paulo; na cruz de Jesus.

É bem possível que não seja a resposta que gostaríamos de ouvir em nossas frustrações. Mas o caminho de Deus é este: sempre o caminho de baixo. Ali onde ninguém crê que Ele esteja, ali onde tudo parece ser fracasso, ali Ele está. Graças a isso, a fé continua teimosamente a crer e a esperar contra toda a esperança.

Elias voltou, apesar de Acabe, Jezabel e Baal ainda estarem lá. A História de Israel continuou, com novos fracassos e frustrações, mas sempre com a presença de Deus. Os discípulos de Emaús voltaram a Jerusalém, apesar de os poderes da Cruz ainda estarem todos lá: Pilatos e os sacerdotes. Por que haveríamos nós, na América Latina, de desistir depois destes 500 anos e tantos mais de fracassos?

5. Pensando na pregação

Ouvi, certa vez, uma história que se conta a respeito de Lutero. Um pastor teria procurado por ele, para falar de suas frustrações como pregador. Tinha a sensação de que tudo o que falava soava vazio. Sentia-se inútil e inóquo. A comunidade parecia não reagir ao que falava. A palavra parecia voltar vazia. O que deveria fazer? Lutero teria respondido: Continue a pregar.

Penso que a história faz jus ao texto, e também à nossa condição de pregadores, catequistas, diáconos, formadores. Faz jus também as frustrações de tantas e tantas pessoas que trabalham, lutam e se esforçam em diferentes âmbitos da vida, buscando melhorá-la, dignificá-la, transformá-la.

Numa sociedade marcada pela corrupção, onde não se vêem mais perspectivas para o futuro, valores e esperanças se vão perdendo. Não são poucas as vezes em que se ouve mais alguém dizer: Eu também vou deixar de ser burro!, numa clara menção de que vai se deixar tragar pelo individualismo consumista e acumulador. Que se danem os outros! Vou largar tudo! Do mesmo não adiantam honestidade, solidariedade, participação, fraternidade, fé!
Também hoje Baal vai vencendo. Também hoje a cruz mata a esperança. Também hoje a comunidade e o pregador têm vontade de desistir. Ë para dentro desta situação que o texto quer falar ao pregador e à comunidade.

Seria importante arrolar na pregação um bom número destas frustrações. Penso que se deveria, mais do que nunca, ter um ouvido aberto para as frustrações da comunidade, tanto a religiosa quanto a social. Seria oportuno dar voz a estas frustrações, tal qual são formuladas pelas pessoas. E, é claro, dever-se-ia juntar também as de quem prega.

A historia de Elias, com sua vontade de desistir, viria num segundo passo. Ë muito bom contar, também na Bíblia, com um anti-herói assim. As fraquezas de Elias ajudam a suportar as minhas. A brisa leve me ajuda a ter esperança.

Fundamental parece ser mostrar o Deus da fraqueza, o Deus da Cruz. Não numa dimensão conformista, mas numa Teologia da Cruz autêntica, tomando a fraqueza como ponto de partida para a esperança. Sem dúvida, isso não é fácil. Mas a prédica não faria jus ao texto, se voltasse a prometer sucesso e vitória. O caminho de Deus é outro. Por isso é que ainda temos esperança.


Autor(a): Carlos A. Dreher
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 12º Domingo após Pentecostes
Testamento: Antigo / Livro: Reis I / Capitulo: 19 / Versículo Inicial: 9 / Versículo Final: 13
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1992 / Volume: 18
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 13536
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