1 Tessalonicenses 4.13-14 (15-18)

Auxílio Homilético

10/11/1996

Prédica: 1 Tessalonicenses 4.13-14 (15-18)
Leituras: Amós 5.18-24 e Mateus 25.1-13
Autor: Roberto Natal Baptista
Data Litúrgica: Antepenúltimo Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 10/11/1996
Proclamar Libertação - Volume: XXI


1. Observações Preliminares

Os textos previstos para o fim do ano eclesiástico normalmente têm um peso escatológico. Nesta época, as indicações dos lecionários apontam para uma confrontação da comunidade com o fim dos tempos. Este ano não é diferente. Todos os três trechos previstos indicam essa direção.

Primeiro, é o texto do profeta Amos. Este trata especificamente do dia de Javé. No Antigo Testamento esta é uma expressão bem tipicamente profética (Jr 30.7; Jl 2.11; Sf 1.15). Este dia era entendido como um momento em que Javé interviria de maneira fantástica na história, derrotando os inimigos e dando a vitória ao seu povo. Também não podemos deixar de notar que a este dia acompanha o juízo, ou seja, também é uma vinda punitiva aos pecadores. A vinda de Javé é esperada e é temida.

O segundo texto, o de Mateus, não é diferente. Com a parábola das dez virgens que aguardam o noivo, a expectativa, o preparo e o juízo se mantêm. Aqui o tema é a parousia (vinda) do Senhor. Mt 25.1-13 apresenta uma parábola muito clara. São as comunidades cristãs que esperam o retorno do seu mestre. Devem, cada qual, estar vigiando, preparadas, com o óleo necessário para que as lâmpadas não se apaguem na escuridão. Devem estar constantemente na busca e na prática da justiça.

Antepenúltimo Domingo do Ano Eclesiástico. É tempo de refletir sobre a atuação da comunidade neste ano que se finda. É tempo de lembrar a esperança, a justiça e o juízo. É domingo escatológico. Quer nos animar para a vida. Quer que superemos a possibilidade da morte.

2. Vamos à Prédica

Queremos abordar aqui, primeiro, a realidade na qual se situava a comunidade cristã em Tessalônica. Mais adiante, pensaremos numa abordagem mais específica do texto.

2.1. A Realidade da Comunidade Cristã Tessalonicense

A cidade de Tessalônica foi fundada pouco depois do ano de 300 a. C. por um general de Alexandre Magno cuja esposa chamava-se Tessaloniké. Em 146 a.C. tornou-se província romana.

Na sua chamada segunda viagem missionária, em torno de 49, Paulo recebeu ajuda de Silvano (conhecido também como Silas, em At 17.1-10) e Timóteo (cf. l Ts 1.1-5; At 18.5). Tessalônica era uma cidade populosa. Sua população era bastante heterogênea. Os romanos a colonizaram com diversas etnias: ítalos, sírios, egípcios, judeus. A colônia judaica ali era muito forte. Paulo e seus amigos puderam sentir a forte pressão que os judeus dali fizeram contra a sua pregação.

Agora, há um outro fator religioso importante e que nos ajuda a compreender as dúvidas presentes na Igreja de Tessalônica. É o culto a Cabiros. Cabiros e o Cristo apocalíptico anunciado por Paulo têm suas semelhanças. Este culto se espalhou por diversas cidades do leste do Mediterrâneo, mas, em Tessalônica, Cabiros tornou-se herói.

Cabiros foi um herói mártir, assassinado por seus irmãos, enterrado como símbolo de poder real, envolto num pano de cor púrpura. Ele retorna à vida com seus poderes restaurados e pronto para socorrer os humildes e a cidade em particular. Atestam moedas do séc. III a.C. que Cabiros, jovem, com um martelo na mão e um chifre de bebida na outra, protegia Tessalônica da opressão militar.

No tempo de César Otaviano Augusto (29 a. C.-14 d.C.) o culto a Cabiros é absorvido pela classe dominante. Cabiros é transformado num deus como os outros de Tessalônica, perdendo, assim, seu valor de contato com a classe mais pobre. A mensagem cristã chega neste período, período de frustração pela perda de seu herói popular. Neste contexto, enfim, surge uma mensagem de um novo e verdadeiro redentor. Não mais Cabiros, mas Jesus Cristo.

2.2. Considerações sobre o Texto

Podemos dividir esta primeira carta em duas partes. A primeira, os caps. l, 2 e 3, trata de situações da comunidade e dos evangelizadores. A segunda, caps. 4 e 5, contém orientações para uma vida comunitária. Paulo, Silvano e Timóteo esclarecem as dúvidas que os cristãos dali enviaram através de Timóteo. Num primeiro momento, respondem as perguntas da situação presente, quer dizer, questões da moral sexual, do matrimônio e da organização comunitária. Num segundo momento, respondem as questões referentes à vida futura, ou seja, à ressurreição e à parousia do Senhor. O texto da nossa prédica encontra-se no início deste segundo momento.

13 Finalmente, irmãos, não queremos que vocês ignorem
o que se refere aos que dormem, para que não estejam entristecidos como os outros, os que não têm esperança.
14 Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também, os que em Jesus dormem, Deus há de levá-los em sua companhia.
15 Porque isto declaramos a vocês, segundo a palavra do Senhor: nós, os que estivermos vivos até a vinda do Senhor, de forma alguma precederemos os que dormem.
16 Pois o próprio Senhor, ao sinal dado,
à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, descerá do céu. Então, os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro.
17 Logo em seguida, nós, os vivos que estivermos lá, juntamente com eles, seremos arrebatados nas nuvens para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos para sempre com o Senhor.
18 Portanto, consolem-se uns aos outros com essas palavras.

Paulo, Silvano e Timóteo esclareceram, inicialmente, as dúvidas referentes à moral e ao amor fraterno. Agora, eles vão entrar numa questão vital para uma comunidade perseguida: morte, ressurreição e parousia do Senhor. Estas questões aparecem com certeza em tempos de crise, quando vemos a nossa vida ameaçada.

Em tempos de crise, de perseguição, as respostas também apresentam uma particularidade: a simbologia, a metáfora. É preciso driblar a vigilância das autoridades. É preciso usar uma linguagem na qual os inimigos entendam somente aquilo que se deseja que entendam. A gente conhece bastante exemplos desses nas canções de Chico Buarque, Caetano Veloso e outros autores nos tempos da ditadura militar.

Os autores desta nossa epístola lançam mão do que alguns estudiosos chamam de apocalíptica. Na verdade, não temos aqui um género apocalíptico puro. Antes de tudo, o trecho estudado pertence ao gênero exortativo. Os autores escrevem este trecho esclarecendo as dúvidas da comunidade e tentando ainda espantar a tristeza e promover o ânimo durante esse período de enormes dificuldades.

l Ts 4.13-18 fala em vinda do Senhor, em sinal, em voz do arcanjo, em trombeta de Deus, em descida do céu, em ressurreição dos mortos, em arrebatamento sobre as nuvens nos ares. De onde vêm esses termos? O que será que os cristãos de Tessalônica imaginaram ao ler esta carta?

Os evangelizadores proclamam a parousia (vinda, chegada, presença) do Senhor Jesus. Não a parousia do imperador. Parousia tinha um sentido técnico, kclcria-se à visita de uma autoridade à cidade. Nesta ocasião um grupo de representantes saíam para fora da cidade ao encontro (apántesis) da autoridade para escoltá-la até o interior da cidade. No caso deste Senhor (Kyrios) não se tratava do imperador, mas sim do Kyrios Jesus.

É como se os autores quisessem dizer: não desanimem diante de perseguição! Não percam a esperança diante da possibilidade da morte! A vinda do Senhor não deverá nada a uma chegada de um importante imperador. Será muito mais gloriosa. Terá sinal de trombeta, da trombeta de Deus. Será anunciada por alguém mais importante do que um anjo; será um arcanjo. Este Jesus é muito mais importante do que qualquer imperador. Vamos resistir!

Algumas considerações mais. Esta vinda do Senhor, agora, difere do dia de Javé anunciado no Antigo Testamento. É preciso notar que não temos aqui nenhuma batalha. Nem se descrevem as tragédias narradas nos sinóticos (Mt 24; Mc 13 e Lc 21). Ao acontecer a vinda, o combate já se encerrou. É momento de glória, de paz. É momento que a gente deve aguardar sem medo, com alegria.

Além de tudo, o texto nos enche de esperança. Diante da desconhecida morte, os autores afirmam categóricos, como palavras do Senhor: há ressurreição para os que já dormem. Aqueles que ainda estiverem vivos no momento da parousia também participarão do encontro (apántesis).

3. A Celebração

A celebração é um lugar onde a gente se encontra. Quase nos esquecemos de que existem outros, outras. A disposição dos bancos. O altar. O púlpito. A figura solene do/a pastor/a. Tudo isso sugere que há dois mundos separados. De um lado, o oficiante. Do outro, a congregação. Quando perguntamos aos nossos membros com quem eles vêm se encontrar no domingo de manhã, quase sempre respondem: com Deus.

O momento da celebração devia propiciar mais do que essa impressão. Encontramo-nos com Deus, mas também com sua Palavra. Encontramo-nos com Jesus, mas também com os irmãos e irmãs. Deveríamos vir todos dispostos, dispostas a celebrar, a participar deste encontro. Quem sabe, este seja um bom momento para acordar os que dormem. Comecemos por nós, pastores e pastoras.

E num Antepenúltimo Domingo do Ano Eclesiástico? O que viemos celebrar? A morte que chega aos poucos, que está às portas? Queremos lembrar a morte como possibilidade para a vida. Queremos lembrar que na iminência da morte devemos cuidar da vida.

O texto da nossa prédica vem a calhar. Podemos usar várias abordagens. Uns, provavelmente, irão preferir falar e tentar descrever com detalhes como se darão essa vinda e esse encontro com Cristo. Outros, talvez, preferirão o embalo destes últimos dias do ano e discorrerão sobre a morte e o juízo, sobre a vigilância e o castigo. Acho que há possibilidades. Cada qual dará seu tratamento ao texto.

No entanto, gostaria de animar você a pensar positivamente. Não só no que se refere a uma vida futura, mas também à transformação do presente. O imperador será derrotado. O Senhor vencerá. Respeitando a porção maior do trecho proposto para a prédica, poderemos enfatizar a luta e a resistência contra os abusos dos impérios, tenham eles a cara que tiverem. A mensagem cristã diante da perseguição, da exclusão do cidadão na sociedade sempre nos animará à vitória. Sempre, também, deverá nos trazer uma proposta, uma forma de resistência até que alcancemos a vitória final.

4. Bibliografia

FERREIRA, Joel Antônio. Primeira Epístola aos Tessalonicenses; a Igreja Surge como Esperança dos Oprimidos. Petrópolis, Vozes; São Leopoldo, Sinodal; São Bernardo do Campo, Imprensa Metodista, 1991. (Comentário Bíblico).
KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo, Paulinas, 1982. (Nova Coleção Bíblica, 13).
MÍGUEZ, Néstor O. Para não Ficar sem Esperança: a Apocalíptica de Paulo em l Ts como Linguagem de Esperança.

RIBLA — Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana. Petrópolis, Vozes; São Leopoldo, Sinodal; São Bernardo do Campo, Imprensa Metodista, 1990. vol. 7.


Autor(a): Roberto Natal Baptista
Âmbito: IECLB
Testamento: Novo / Livro: Tessalonicenses I / Capitulo: 4 / Versículo Inicial: 13 / Versículo Final: 18
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1995 / Volume: 21
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14213
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