2 Coríntios 1.18-22

Auxílio Homilético

20/12/1981

Quadro -1
Quadro - 2
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Prédica: 2 Coríntios 1.18-22
Autor: Ulrico Sperb
Data Litúrgica: 4º. Domingo de Advento
Data da Pregação: 20/12/1981
Proclamar Libertação - Volume: VII

 

l — Dizer sim e fazer sim — eis a questão!

1. Ao ler o texto logo me lembrei da frase: Plante que o João garante!

Foi o slogan do grande sim que o Governo deu à agricultura brasileira em inícios de 1980. No ano que se seguiu, porém, o governo disse não ao plantador de soja, ao criador de porcos, ao plantador de cebola, ao cultivador de maçãs, ao agricultor, enfim.

2. Também me lembrei da frase do Presidente: Hei de fazer a democracia, quer queiram quer não!

Foi o grande sim que o Governo disse à abertura e à democracia. No transcorrer do tempo, porém, disse não à democracia: quando interveio no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo; quando expulsou do Brasil o Padre Vito Miracapillo; quando invadiu a residência do pastor metodista Orvandil Barbosa, em Santa Maria; quando deteve o Prêmio Nobel da Paz, Adolfo Perez Esquivel; quando condenou o líder sindical Luiz Inácio da Silva; quando reprimiu com violência uma gree de soldados na Bahia; quando mostrou sua arbitrariedade em tantos e mais outros atos.

3. Igualmente me lembrei do grande sim que os países industrializados dizem aos países subdesenvolvidos. Mas na verdade estão dizendo não, ao explorarem estes países até às últimas reservas:

[Veja Quadros 1 e 2 em anexo)


(Já pensaram que seria do nosso planeta, se todas as pessoas do mundo consumissem tanta energia quanto os americanos?!)

Estatísticas extraídas de STRAHM, R. H. Überentwicklung — Unterentwicklung (trad.: Superdesenvolvimento — Subdesenvolvimento). 3a ed. 1978.

4. Infelizmente me lembrei dos muitos que dizem sim à fé cristã, mas gritam não: quando expulsam o pastor de sua comunidade, por este proclamar o evangelho da libertação dos poderes egoístas; quando convertem suas almas para Jesus Cristo, mas não cogitam em converter suas existências para o evangelho do amor ao próximo; quando usam a televisão mundial para projetarem sua pessoa e sua família e auferirem lucros exorbitantes em nome de Jesus Cristo; quando relutam, como dirigentes e autoridades eclesiásticas, em dar um testemunho claro da fé, escondendo-se atrás da desculpa da procura pela verdade.

II — O grande sim de Deus!

Não se sabe o verdadeiro conteúdo da acusação, mas o fato é que o apóstolo Paulo foi acusado de falar sim e não. Sua atuação seria duvidosa, sua pregação problemática. Paulo reage contra isto (vv.17s), mas de uma maneira bem breve, pois de imediato se volta ao grande sim de Cristo. Nele não há duplo sentido ou dúvida, tampouco segundas intenções. Ele é o sim claro e insofismável a todas as promessas de Deus.

O apóstolo não se interessa muito pelo juízo que se possa fazer sobre ele, desde que a majestade de sua pregação não seja contestada. Paulo e seus colegas não deformaram o Cristo. Com sinceridade e humildade pregaram o autêntico Cristo. Este Senhor Jesus Cristo é o ponto principal e a própria essência da pregação. Calvino conclui dos vv.20-22: Deve-se ressaltar que aqueles que não possuem o testemunho do Espírito Santo, não podem responder com 'amém' ao Senhor, quando este os conclamar à certeza da salvação. Por conseguinte, estes reivindicam falsamente o nome de cristãos.

Paulo, a princípio, defendeu o sim de sua pregação (v.18). Mas, de imediato, transforma e aprofunda este sim: o apóstolo em toda sua pregação se torna o portador do sim-Cristo (v. 19). (Diga-se, de passagem, que Silvano é o mesmo colega chamado Silas em At 18.5.)

Jesus Cristo é um puro e total sim, porque nele se concretizam todas as promessas de Deus. Aqui Paulo está pensando nas promissões messiânicas e salvíficas do Velho Testamento. Promissões estas que falam do Rei Salvador que virá, do estabelecimento do Reino de Deus e da renovação do povo de Deus (v.20a).

V.20b significa o seguinte: as expressões por ele... por nosso intermédio designam o caráter do culto; a comunidade age e reza, mas justamente ao fazer isto, o próprio Cristo age nela e através dela.

Amém é um termo hebreu muito usado no culto da sinagoga. Passou para o NT e se mantém na linguagem litúrgica de todas as igrejas. Provém de um radical que implica a ideia de firmeza, de realidade. Amém significa verdade, verdadeiramente, certo, certamente; às vezes, corresponde a um simples e forte sim (2Co 1.20). Foi traduzido em grego por uma expressão que, por nossa vez, transformamos em assim seja, a qual perdeu o matiz de firmeza e verdade, característico da expressão hebraica.

Da linguagem do culto Paulo passa para a terminologia do Batismo (vv.21 e 22). O Batismo é a garantia para a veracidade da pregação. É o próprio Deus que estabelece a firmeza da relação entre Paulo (e seus colegas) e os coríntios (v.21).

O termo ungiu (unção) se relaciona com o Batismo. Por um lado, pode significar a unção através do Espírito Santo. Por outro, pode designar o uso da Igreja antiga, da unção com óleo após o ato do Batismo.

O Batismo é o selo (v.22), a garantia de que a pessoa batizada pertence ao povo de Deus que receberá a salvação. O selo de Deus é a marca da vida eterna, o sim inequívoco de Deus.

Paulo usa duas vezes a expressão penhor do Espírito (2 Co 1.22 e Ef 1.14). Com isso, vale-se de um termo comercial e jurídico de origem semítica. Mas, na verdade, quer expressar uma realidade altamente espiritual. O penhor (arras, aval, garantia) é um sinal antecipado, uma parte adiantada, do todo que será entregue mais tarde. Em nosso texto (vv.18-22) Paulo lembra a fidelidade de Deus que concretizou todas as promessas na pessoa de Jesus Cristo. Paulo declara: ... aquele que nos confirma convosco em Cristo, e nos ungiu, é Deus. Deus que imprimiu em nós o seu selo e coloca em nossos corações o penhor do Espírito. O Espírito Santo é o penhor, o sinal antecipado da plenitude que encontrará sua apoteose no dia da ressurreição de todos os crentes; então serão eliminados definitivamente o pecado e a morte. E Cristo deixam de ser o Senhor invisível e reinará à vista de todos.

Deus diz o seu grande sim em Jesus Cristo. E na Igreja faz, concretiza, realiza este sim. Pregação, culto e Batismo são o sim de Deus às pessoas de fé. Deus, Cristo e Espírito — lembra a forma trinitária. Notamos que Paulo usa uma linguagem litúrgica para provar que seu sim se baseia exclusivamente no sim de Deus à humanidade. Vemos, assim, que este texto quer demonstrar, destacar e confirmar o grande sim de Deus.

III — Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. (Mt 5.37)

Estamos no Quarto Domingo de Advento, a poucos dias do Natal. Nossa tarefa é pregar sobre este texto, que a princípio parece nada dizer com relação à época do ano. Na verdade, porém, é um texto que nos indica e leva em direção ao Natal:

— Natal é o grande sim de Deus à humanidade. A manjedoura e a cruz, aquilo que aconteceu entre as duas e o personagem que viveu estes acontecimentos, tudo isto demonstra o amor de Deus pela humanidade. O menino Jesus, deitado na manjedoura, é o sim de Deus.

— Este sim é firme e inabalável. Não deixa nenhuma sombra de dúvida. Não é um sim humano, no qual não se possa confiar. As pessoas dizem sim e fazem não (vide exemplos do item l). As pessoas dizem sim para um e não para outro. Deus diz e faz sim para todos.

— O Batismo é o sim, o sinal, o selo de Deus para conosco. A certeza disto e a fé nisto libertam de todas as forças do mal e dão coragem para dizer sim. Jesus diz (Mt 5.37) que devemos falar ou sim ou não, mas não deixar dúvidas ou ficar em dúvida. O Espírito Santo em nós nos dá coragem para vivermos nossa fé num mundo que não leva o sim de Deus a sério.

— O Quarto Domingo de Advento é uma oportunidade para nos prepararmos corretamente para a festa de Natal. No Natal começam a se concretizar as promessas de Deus. No culto de Natal somos chamados a dizer amém ao sim de Deus (v.20). Para podermos dizer amém temos que saber o que implica esta nossa resposta.

— Festejar Natal, portanto, não é algo superficial. É, muito mais. a hora de assumir a fé, de se libertar do eu, para deixar Cristo viver dentro de nós. É olhar o mundo com os olhos de Cristo. É falar com o outro com palavras de Cristo. É tratar o próximo com as mãos de Cristo.

— Advento não é só época de fazer faxina na casa, mas também è tempo de fazer faxina na alma. Limpar-se de todas as horas em que se disse sim, mas fez não (compare Mt 21.28-32, uma boa parábola para contar).

— Assim como Deus nos confirma, nos diz seu sim através de Cristo (v.21), assim também deve falar aos outros através de nós. A lesta de Natal nos leva ao testemunho, à ação. Natal para nós só é Natal, se através de nós alguém puder festejar o Natal. Levar o Natal para quem não tem Natal é um desafio neste Quarto Domingo de Advento. (Paulo levou o sim de Deus aos coríntios.) Lembro aqui a visita que o Pastor Roberto Vicente Cruz Themudo Lessa fez com um grupo de jovens à zona de meretrício por ocasião do Natal (vide bibliografia).

IV — Subsídios litúrgicos

1 . Confissão de pecados: Deus, nosso Pai. No Natal nos disseste sim. Autos de festejarmos o Natal deste ano, temos que confessar-te que não merecemos este teu sim. Tu nos disseste sim no Batismo e nós nos esquecemos dele. Tu nos dizes sim a cada culto e nós respondemos amém, mas durante a semana dizemos e fazemos não. Quase tudo que fazemos é uma negação a ti. Nós te negamos quando rejeitamos nosso semelhante. Por isso, hoje te confessamos todo nosso fracasso e te pedimos que não retires de nós o teu sim. Tem piedade de nós, Senhor!

2. Oração de coleta: Deus, nosso Pai. Antes de ouvirmos tua mensagem, pedimos que abras os nossos corações. Dá-nos a garantia de teu Santo Espírito, para que não fiquemos apenas na vontade de te dizer sim, mas que realmente o façamos. Através de Jesus Cristo nós te pedimos isto. Amém.

3. Oração final: Deus, nosso Pai. Hoje ouvimos sobre o grande sim que nos disseste através de Jesus Cristo. Nós te agradecemos porque podemos confiar cegamente em ti. Tu não falhas. Mas, Deus, nós vivemos num mundo cheio de falsas promessas. Não se pode confiar em quase ninguém. E, a bem da verdade, quase ninguém pode confiar em nós. Perdoa-nos e perdoa aos outros. De um modo especial te pedimos que perdoes os poderosos e governantes deste mundo, quando não cumprem o que prometem. Coloca neles a força de teu Espírito para que trabalhem pelo bem das pessoas. Pedimos-te por todos aqueles que durante esta semana não conseguem festejar o Natal alegremente, porque estão sós, abandonados, presos, doentes, de luto, famintos, sem ti, pois não te conhecerem. Ajudados para que, pelo menos para alguns destes, nos sejamos porta-vozes do Natal. Tudo isto te dizemos, pois estamos certos de que tu ouves nossa oração com todo imenso amor que nos dedicas. Amém.


V — Bibliografia

Sobre o texto:

- VON ALLMEN, J. J. Vocabulário Bíblico. 2a ed. São Paulo, 1972.
- CALVIN, J. Römerbrief und Korintherbriefe. In: —. Auslegung der Heiligen Schrift. Vol.16. Bielefeld, 1960.
- STAEHLIN, W. Meditação sobre 2 Coríntios 1.18-22. In: Predigthilfen. Vol.2. 3a ed. Kassel. 1968.
- WENDLAND, H. D. Die Briefe an die Korinther. In: Das Neue Testament Deutsch. Vol.7. 13a ed. Göttingen, 1972.

- Outra literatura:

- LESSA, R. V. C. T. Como será o Natal na zona de meretrício?. In: de Informação Pastoral Ano 5. Caderno 20. (Juiz de Fora) 1980.
- STRAHM, R. H. Überentwicklung — Unterentwicklung. 3a ed., 1978.


Autor(a): Ulrico Sperb
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Advento
Perfil do Domingo: 4º Domingo de Advento
Testamento: Novo / Livro: Coríntios II / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 18 / Versículo Final: 22
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1981 / Volume: 7
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14629
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