2 Coríntios 6.1-10

Auxílio Homilético

28/02/1982

Prédica: 2 Coríntios 6.1-10
Autor: Baldur van Kaick
Data Litúrgica: Domingo Invocavit
Data da Pregação: 28/02/1982
Proclamar Libertação - Volume: VII

 

I — Dois exemplos da vida de hoje

Quando eu era menina, meu pai mandava em mim; e meu pai era muito duro. Quando me tornei moça, logo casei. Pensei que casando me libertaria do jugo sob o qual vivia em casa. Mas no casamento o jugo foi pior ainda. Depois fiquei viúva e pensei que meu filho cuidaria de mim. Mas meu filho se mandou para a cidade e fiquei só no interior. -- Mas Deus não me deixou não: Deus não me abandonou nunca.

Ao lado deste exemplo, quero mencionar o que observo no dia a dia da vida. Há pessoas que querem uma sociedade e um mundo mais justo, mais fraterno — mas depois de expor suas ideias concluem desanimadas: Não adianta. Tudo vai continuar como está. A vida é assim mesmo. O jeito é deixar como está.

O primeiro exemplo mostra uma mulher que desde a infância vivou debaixo e um jugo: como filha, como esposa; e depois, como mãe, foi abandonada. Mas dentro daquela mulher havia uma força diferente. Uma força que não a deixava desanimar.

O segundo exemplo assinala que muitas pessoas são resignadas Deixaram de lutar. Paciência, dizem. Deus quer assim. E não Ia/cm mais nada.

II — Situação na vida do apóstolo

Acredito que deu para perceber, na leitura de 2 Co 6.1-10, que o apostolo Paulo fala neste texto de situações bastante difíceis de sua vida apostólica.

Em primeiro lugar, ele foi uma pessoa trabalhadora (v.5). Ao lado do trabalho missionário, que exigia muito dele (1Co 15.10), ainda fazia tendas (At 181-3; 1 Co 4.12), para não depender financeiramente de suas comunidades (1Ts 2.9). Foi uma pessoa muito atarefada (2Co 11.23).

Como todos os judeus e cristãos, conhecia tempos de jejum e vigília (v.5). A vida do apóstolo, sob muitos aspectos, era uma verdadeira luta.

Mas não apenas isto. No desempenho de seu trabalho missionário, como cooperador de Cristo (v.1), conheceu o que é a prisão (v.5; cf. 2Co 11.23), os açoites (v.5; 2Co 11,23), e tumultos (v.5) provocados por pessoas que instigavam o povo contra ele (cf. At 19.23-40). Sua vida foi bastante atribulada.

(No dia 28 de janeiro de 1981 foi espancado e preso pela polícia de Alvorada, município operário da Grande Porto Alegre, o estudante de teologia Daniel Jensen Seyenkulo, que veio da Libéria para completar seus estudos no Brasil. Ele aguardava o ônibus, quando foi abordado por três homens que diziam ser da polícia. Eles lhe pediram a pasta, em seguida um deles sacou o revólver de cano duplo enquanto o outro descia do Volkswagen branco e agredia Daniel com um soco na nuca. O terceiro imobilizou o estudante pelas mãos e arrancou a bolsa e a pasta de Daniel, jogando-as dentro do carro. Em meio a isso, Daniel levava socos na cabeça e barriga e era forçado a entrar no carro. Daniel foi levado para a Delegacia de Polícia, onde desceu arrastado, com a cabeça presa pelo braço de um dos seus seqüestradores. Na Delegacia foi interrogado, chamado de paraguaio e outro negrão e levado para uma cela. onde ficou durante 90 minutos até a chegada do reitor da Faculdade de Teologia. Informação IECLB, p.3 — O apóstolo Paulo enfrentou situações semelhantes várias vezes.)

Apesar de ser cooperador incansável de Cristo, veraz, honrado, conhecido (v.8), adversários o acusavam de impostor (v.8; cf. Mt 27.63; Jo 7.12), o tratavam com desdém (v.8) e fingiam não conhecê-lo (v.9).

O apóstolo, em todos os sentidos, não teve uma vida fácil. Trazia no corpo os sofrimentos e a morte de Jesus (2Co 4.10).

III — A força de Deus na vida do apóstolo

Mas o apóstolo Paulo tinha um recurso. E para este recurso ele apelava. Era o apoio de Deus. Ele contava com Deus, com o Espírito Santo (v.6), com o poder de Deus (v.7). Estava ligado a Deus através da sua graça (v.1).

E isto fazia dele uma pessoa pura (v.6; Fp 4.8), paciente (v.4), com amor verdadeiro no coração para dar (v.6). E uma pessoa armada também. Armada com a justiça de Deus, como arma tanto para atacar quanto para se defender (v.7). O apóstolo não estava desarmado.

Se o cristão se esquece de Deus, não está ligado a Deus, não tem a graça de Deus em sua vida, perde a força. Não luta mais. Não tom mais amizade para dar. Desanima nas privações, nas angústias e aflições (v 4). Torna-se um cristão e apóstolo censurável (v.3).

O apóstolo Paulo diz que muitas vezes foi castigado a ponto de parecer que morreria (v.9), mas ele não morria. De repente, Deus lhe dava vida nova (v.9), como um cacto que está sequinho, quase morto, e quando lhe põem um pouco de água, ganha vida de novo e se torna verde e bonito. Muitas vezes, Paulo estava profundamente triste, mas da ligação com Cristo brotava nova alegria em seu coração (v.10). Muitas vezes não possuía nada, mas enriquecia a muitos (v.10).

Quando alguém caminha com Deus, tem a graça de Deus em fina vida, apesar de fraco e pequeno, caminha vitorioso e a vida de Cristo de manifesta em seu corpo (2 Co 4.10). Em uma vida marcada pelas dificuldades e perseguições, tal pessoa experimenta a força da ressurreição de Cristo.

IV — Animo e coragem para viver e lutar

Aquela mulher que, como filha e esposa, se encontra debaixo do um jugo, e depois, como mãe, foi abandonada pelo filho, estava ligada a Deus — como o apóstolo. E por isso ela tinha amizade para dar e rua uma mulher libertadora.

É por isso que o apóstolo recomenda aos cristãos no trecho de sua carta que lemos (v.1): Não deixem que se perca a graça de Deus que vocês já receberam. (A Bíblia na Linguagem de Hoje) A graça de Deus ajuda a resistir, é uma semente de esperança dentro de nós. É como a seiva das árvores. No inverno elas parecem mortas — mas na primavera brota nova vida delas.

Na vida dos cristãos há o dia em que foram alcançados pela graça de Deus (vv.2-3), lembra o apóstolo. Importante é não perdê-la: importante è deixá-la trabalhar.

Muitas vezes o cristão desanima. (Aqui poderão ser comenta¬do:, acontecimentos locais.) Mas ninguém precisa desanimar. O recurso que nós temos é Deus, sua graça. Vamos deixar que ela trabalhe em nós Assim vamos andar armados pela vida e não perder a coragem, a alegria e o amor não fingido na caminhada.

V — Conclusão

Na força e coragem que os vv. 4-10 transmitem a cristãos que estão vivendo o apostolado — e no apostolado necessitam de encorajamento e consolo — eu vi a atualidade de 2 Co 6.1-10. Foi essa coragem que também procurei transmitir na prédica que dei a partir deste texto.

O exemplo inicial, contado por Carlos Mesters em uma palestra e reproduzido por mim de memória, me ajudou a dar mais abrangência ao texto. O apóstolo, comentando sua vida apostólica, fala a todos os cristãos, não somente aos pastores.

Se o leitor quiser elaborar sua prédica dentro da concepção desenvolvida nesta meditação, poderá seguir os quatro passos apontados aqui:

a) Exemplos da vida de hoje.
b) Situações na vida do apóstolo.
c) A força de Deus na vida do apóstolo.
d) A graça de Deus: auxilio para resistir também em nossa caminhada.

A ênfase será outra se lermos o texto exclusivamente dentro de seu contexto histórico e encontrarmos seu escopo na defesa que o apóstolo faz de seu ministério.

VI — Subsídios litúrgicos

1. Confissão de pecados: Na presença de Deus nos lembramos de nossas falhas, fraquezas e imperfeições. Lembramo-nos da falta de amor em nossa convivência, da falta de coragem para viver os ensinamentos de Cristo. Enfim, diante de Deus reconhecemos que somos pecadores. Queremos agora, em silêncio, cada um fazer a sua confissão de pecados e pedir o perdão de Deus. — (Após a confissão silenciosa:) Senhor, perdoa-nos a falta de amor em nossa vida, a falta de coragem de viver o Evangelho, e por causa de Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor apaga toda a nossa transgressão. Que através dei ressurreição de teu Filho entre nova alegria e coragem em nossas vidas marcadas pela fraqueza e pela culpa. Tem piedade de nós, Senhor!

2. Oração de coleta: Pai Celeste, em nome de Jesus Cristo, teu Filho amado, e nosso Senhor, nós te pedimos que nos dês a presença do Espírito Santo para que possamos ser confortados, fortalecidos e corrigidos através da palavra de Deus que agora nos deixas ouvir. O Espírito Santo abra a nossa men¬te para que a semente da tua palavra caia em terra boa. Amém.

3. Assuntos para intercessão na oração final: que todos os membros da comunidade estejam comprometidos com o Evangelho e andem corajosos, alegres, armados pela vida — armados com o Evangelho, que è o poder de Deus: que o trabalho de pastores, obreiros, membros da comunidade na construção do Reino de Deus seja abençoado; por perseverança e paciência para todos os que estão trabalhando e lutando por um mundo melhor, e muitas vezes se encontram prestes a desanimar, pensando que não vale a pena lutar; que as pessoas que têm preocupações, ansiedades, desânimo na vida particular, familiar e profissional encontrem na palavra de Deus consolação e orientação.

VII — Bibliografia

- BORNKAMM, G. Paulus. Stuttgart, 1969.
- BOFF, L. O sofrimento que nasce da luta contra o sofrimento. In: Paixão de Cristo — Paixão do Mundo. Petrópolis, 1977.
- lECLB. Informação IECLB. Serviço de Informação e Documentação. Ano II. Janeiro e Fevereiro de 1981. Porto Alegre, 1981.
- LUETHI, W. Der Apostel. Der zweite Korintherbrief, ausgelegt für die Gemeinde. München, 1968.
- SCHELKLE. K. H. Segunda Epístola aos Coríntios. Petrópolis, 1967.


Autor(a): Baldur van Kaick
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Quaresma
Perfil do Domingo: 1º Domingo na Quaresma
Testamento: Novo / Livro: Coríntios II / Capitulo: 6 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 10
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1981 / Volume: 7
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14630
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