2 Coríntios 8.1-15

Auxílio Homilético

01/03/1988

Tema: Pago para ter!

Explicação do tema:

Eu entrei na Igreja Evangélica porque no dia que eu preciso do pastor eu tenho. Eu pago um pouco mais, mas eu tenho.

O membro paga a contribuição para se omitir da tarefa para com a comunidade e receber assistência; por isso criam-se segundos pastorados para podar aumentar a assistência.

Uma paróquia contratou uma catequista e com isto os orientadores do ensino confirmatório só negaram (e os membros apoiaram) a dar o ensino confirmatório, porque agora estão pagando a catequista.

Qual o critério que norteia a comunidade/Igreja? É a acomodação ao sistema vigente ou a resistência ao sistema? Por que eu faço parte da comunidade: para pagar e ser servido ou para me organizar com os demais cristãos a fim de resistir melhor e transformar a sociedade?

A função da comunidade é de construir o reino, que acontece na Igreja, bem como em movimentos populares, sindicatos e partidos políticos. A função da comunidade é organizar e capacitar o cristão a ser mais eficaz na transformação do mundo, sendo somente de resistência e não de acomodação.

Qual a função da contribuição à Igreja, tendo em vista a transformação da sociedade em rumo ao reino de Deus?

Texto para a prédica: 2 Coríntios 8.1-15

Autor: Günter Wolff

l - Alguns casos concretos

- Um membro chegou na casa da pastora para conversar com ela e dizer que ele na verdade deveria receber de volta uma parte da contribuição paga no ano passado. Pois, havia pago a contribuição em janeiro. A pastora pergunta porquê. Ele diz que alguns pagaram apenas em dezembro e com isto ganharam juros e ele não. Além do mais os médicos sempre lhe dizem que não deve trabalhar no pesado, mas é agricultor e não tem outra salda. Além disso, não tem mais filhos em casa, em si não precisa mais da igreja por enquanto, somente quando ele ou a esposa morrerem. Por isso deveria receber ao menos uma parte de isenção da contribuição. Queria um abatimento.

- Outro membro diz para o leitor que realiza cultos na paróquia, que se fosse ele não faria os cultos no lugar do pastor, pois os leitores estão ajudando o pastor a ganhar o seu dinheiro mais fácil. Ele também não gosta dos leitores, pois paga a contribuição para ter um pastor nos cultos.

- É tradição em muitas paróquias que se um membro atinge 65 anos ele é isento da contribuição à igreja, independentemente de sua situação financeira. A grande discussão nas assembleias é se a isenção inicia após o dia do seu aniversário ou inicia no ano que completa 65 anos ou somente no ano seguinte, tendo ainda que contribuir no ano que completa 65 anos.

- Aí se levanta outro caso, o dos aposentados por invalidez. Eles querem ser isentos ou então querem ser considerados meios contribuintes. A meia contribuição, em muitas paróquias, vale também para viúvas, viúvos, mães solteiras e pessoas que não casam.

- Outra questão levantada na assembleia é o caso de duas famílias que moram na mesma casa. É o caso de muitos pequenos agricultores, em que o filho ou a filha casam e ficam morando na casa dos pais; alguns requerem então pagar somente uma contribuição.

- Um orientador de ensino confirmatório disse que ele já deu 25 anos de ensino confirmatório e por isso agora requer a isenção da contribuição. Isto que ele não é pobre.

- Um cardíaco, com medo de morrer logo, pediu a isenção da contribuição para a comunidade para poder com este dinheiro aprontar a sua sepultura e poupar para as despesas de seu enterro.

- Um dono de posto de gasolina (ele anda de Del Rey e a mulher com um Fusca) diz: A gente poderia contribuir mais para a igreja, mas tenho que contribuir para o Clube Aquático mensalmente Cz$ 80,00. Para a igreja já dou Cz$ 40,00 por mês, mas tenho ainda outros clubes aos quais pertenço: Clube Recreativo, Lions, etc. e estes também exigem contribuição. E a gente ainda se vê obrigado a dar coi-sas para o pessoal do interior que faz arrecadação no comércio para suas festas.

- Outro membro reclama: se tem tão poucos cultos em alemão eu só pago a metade da contribuição; isto que ele é solteirão e só paga a metade, significa que quer pagar só um quarto.

II - Discutindo a questão

Os casos relatados no item anterior são reais, assim como o leitor provavelmente terá outros a acrescentar. Todos, quando falam da contribuição, dizem: pagar a contribuição; são poucos membros que dizem: dar a contribuição. Atrás da expressão está também o significado. Não raro membros, referindo-se à comunidade, dizem: a nossa sociedade. Por isso também o conceito de contribuição é encaixado no pagamento da mensalidade ou anuidade dos clubes e sociedades recreativas existentes por aí.

Podemos nos escandalizar ou achar trágico, mas a pergunta que nos vem é: quem tem culpa que a maioria dos membros pensa assim? Por que existe o conceito generalizado em nossas comunidades de que a gente paga a contribuição para ter um pastor quando se precisa? Não só ter um(a) pastor(a) quando se precisa, mas também, segundo um empresário, o pastor é nosso empregado e deve fazer e falar o que queremos.

Falando de pastor(a) lembramo-nos da crise em que a paróquia entra quando não tem pastor(a). O pastor(a), na verdade, não é mais que um cristão liberado de tempo integral para encaminhar os trabalhos da paróquia, mas parece que sem ele nada anda. É o problema da concentração de poder. O sacerdócio real dos crentes foi para o beleléu. Será?

Isto tudo converge, na verdade, para a compreensão de Igreja que existe. Eu faço parte de uma comunidade cristã para que e por quê? Por que e para que existe a comunidade cristã? Achar a resposta para estas perguntas parece ser difícil nesta sociedade cristã ocidental. Mas acho que no fundo a própria Igreja e seus pastores têm culpa que existe esta confusão na cabeça dos membros. Pois, em muitos casos a comunidade virou simplesmente um órgão de assistência religiosa. Pastores e comunidades em muitos casos também perderam o rumo e não sabem por que e para que estão aí. E para preencher o espaço e garantir a arrecadação financeira dá-se assistência religiosa e se perde o objetivo que é o Reino.

Seria até interessante fazer uma enquete na comunidade ou paróquia perguntando por que os membros pertencem à comunidade e para que serve a comunidade e por que contribuem financeiramente para a comunidade.

Tenho até a impressão de que a instituição igreja não está muito disposta a discutir a fundo a questão fundamental que ê o Reino de Deus, pois isto clarearia muitos conflitos, como, por ex., o envolvimento dos membros, comunidades e pastores na transformação deste mundo em direção ao Reino de Deus. Pois, o Reino não se constrói só na igreja, e sim, no dia-a-dia da vida. A função da Igreja é preparar membro e comunidade para a luta nos Movimentos Populares, Movimentos Específicos (mulheres, negros, índios), Sindicatos e Partidos Políticos. É no âmbito de todas as relações da vida que se dá a construção do Reino. A comunidade é a organização dos cristãos a partir da fé em Cristo para poderem melhor em conjunto e com mais força participar na construção do Reino. Isto levanta muitas incertezas, dúvidas e conflitos existentes que a comunidade como um todo certamente não está muito disposta a assumir. No máximo se pode falar na comunidade da responsabilidade social do cristão, mas como um adendo opcional.

Ver a contribuição financeira para a comunidade como uma das contribuições do cristão ao lado da contribuição concreta de luta e também financeira nos Movimentos Populares, Sindicato e Partido Político é algo que ainda não está muito claro na igreja, onde normalmente se restringe o Reino de Deus a atuação dentro dos próprios muros. Às vezes tenho a impressão que a Igreja como um todo perdeu de vista o objetivo principal e fundamental de sua existência, que é a participação ativa na construção do Reino. Talvez até não perdeu de vista, mas foi embrulhada pelos acontecimentos históricos e tenta levar uma existência fora da história (o que não é possível).

O que precisa ficar claro para o membro ê que a contribuição financeira é uma parte de sua contribuição para o Reino ao lado de seu engajamento concreto na luta de transformação da sociedade. A contribuição financeira é para libertar pessoas em tempo integral e parcial e facilitar a organização dos cristãos para poderem se engajar coletivamente como comunidade nos conflitos existentes da vida para superá-los. E que há coisas a fazer a curto, médio e longo prazo, mas nor-malmente ficamos nos objetivos a curto prazo e esquecemos os outros. Os casos relatados no início são resultados da falta de clareza dos objetivos da comunidade. Uma das questões que levou para esta confusão é o fato de não se estudar mais ou se estudar pouco na comunidade. A vida da comunidade se restringe a ritos e ofícios e falta o estudo planejado e articulado dentro da comunidade, tanto da Bíblia como das questões centrais da fé e do clarear das dúvidas. Quem não sabe não vê. Só vê quem sabe. Qual a formação teológica dos membros? Dois anos de ensino confirmatório, normalmente mal dado e de forma incompleta. Lembramos que na comunidade primitiva, para se entrar na comunidade cristã, era necessário dois a três anos de formação e de observação. E a formação era dirigida para ser capaz de enfrentar os conflitos, a perseguição e o martírio. Hoje é só olhar para as construções na comunidade. Há igrejas, pavilhões, centros comunitários, mas normalmente construídos para promoções e festas para arrecadar dinheiro, e não para a formação e capacitação dos membros. Na grande maioria dos prédios não há salas, nem quadro negro e nem material para o estudo.

Dentro da contribuição anual há ainda as coletas e festas de colheita onde a última fica para o caixa. No último concilio distrital um delegado reclamou que as coletas só vão para fora e não fica nada para a própria comunidade. Sobre as festas de colheita foi sugerido uma vez numa comunidade que o valor arrecadado poderia ir para os sem-terra acampados há um ano na beira da estrada, o que deu um grande bafafá na comunidade. Pois, o dinheiro é para nós membros é não para estes vagabundos à beira da estrada!

Ill - Ouvindo o texto bíblico

1. Introdução

A Segunda Carta aos Coríntios provavelmente foi escrita em 57 d.C. Paulo escreve a carta porque o seu relacionamento com a comunidade não estava bom e porque havia sérios conflitos internos e ataques à pessoa de Paulo. Paulo enviou Tito a Corinto com a carta e com o encargo rio fazer a coleta para a comunidade de Jerusalém iniciada há um ano atrás, ondo Paulo sugere colocar cada domingo uma quantia à parte, conforme as possibilidades de cada um, para ser enviada à comunidade de Jerusalém (1 Co 16.1-4).

A carta se divide em três partes:

1- 7 - O ministério de Paulo

8- 9 - Coleta para Jerusalém

10-13 - Defesa da autenticidade do ministério de Paulo

A coleta visa fortalecer a unidade da igreja entre judeus e gentílico-cristãos, onde um ajuda o outro na sobrevivência física, fortalecendo assim também a resistência. É a entreajuda dos pobres, em que os pobres ajudam os mais pobres.

2. A coleta na Bíblia

No AT as festas são o local para arrecadação do coleta, mas a partir do reinado servem para justificar o tributo ao Estado e justificam o sistema econômico vigente e a desigualdade social. Vendo textos descobrimos que as coletas se destinam para os pobres. Aí entra o ano de descanso da terra (Ex 23.10-11; Lv 19.10) que visa beneficiar o pobre e com isto denunciar as desigualdades sociais e a existência de empobrecidos e sem-terra. Em Dt 24.19-22 diz que as sobras que ficam no campo após a colheita devem ficar lá para o estrangeiro, o órfão e a viúva, com a lembrança de que os israelitas já foram escravos no Egito. Em Dt 26.12-15 já fala no dízimo que deve ser separado da colheita no terceiro ano e ser entregue ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva. Vemos que no AT a própria sobra da colheita no campo, o descanso da terra e o dízimo do terceiro ano devem ser destinados aos pobres. É uma forma de manter a unidade do povo, denunciar as injustiças sociais e ajudar o necessitado criado pelo sistema econômico.

O Concílio de Jerusalém (Gl 2.1-10) decidiu que as comunidades deveriam recolher uma coleta aos pobres de Jerusalém. Falam desta coleta os seguintes textos: Rm 15.25-27; 1 Co 16.1-4; 2 Co 8-9. Outra coleta feita em Jerusalém era a dos bens colocados em comum (At 2.42-47; 4.32-37) para a sobrevivência digna de todos a partir de uma proposta concreta do Reino esperado em breve. A coleta e a partilha dos bens da comunidade de Jerusalém era a prática da proposta do Reino, mas que não deu certo por ser uma sociedade de consumo e não de produção; tendo em vista a esperança iminente da volta de Cristo, não foi aperfeiçoada em uma sociedade coletiva de produção. Em vez de se apropriarem dos meios de produção para o trabalho coletivo, os vendiam para o consumo coletivo.

3. 2 Co 8.1-15

Lendo o texto cai em vista a palavra graça, que aparece cinco vezes. Aqui Pauto usa a palavra graça para designar salvação e coleta. Ele junta a salvação ao pão nosso de cada dia, os dois estão interligados, um depende do outro. Aqui aparentemente se trata de uma simples coleta, que na verdade atinge a fundo o ser cristão da comunidade. É a prática do amor a partir da fé que leva à salvação, salvação esta que provêm da graça de Deus. A graça recebida de Deus se transforma em graça dada aos cristãos de Jerusalém. No fundo a coleta dada é a gratidão pela graça recebida e que é revertida aos cristãos de Jerusalém.

Não era apenas uma simples coleta, mas era a unidade da Igreja que estava em jogo. Judeus e gentílico-cristãos numa mesma caminhada. Era a prática da teoria discutida no Concílio de Jerusalém. A abertura da missão para fora de Israel está sendo alicerçada e legitimada com esta coleta. Por que esta coleta à comunidade de Jerusalém? Dificuldades climáticas e econômicas empobreceram ainda mais a região da Palestina, além do mais o projeto da comunidade de consumo da igreja de Jerusalém estava falido. A igreja de Jerusalém era o resultado da proposta da socialização do consumo e não da socialização dos meios de produção, por causa da esperança iminente da volta de Cristo. Além de os integrantes da comunidade serem todos pobres, juntou-se a dificuldade da impossibilidade de uma sociedade coletiva apenas de consumo e não de produção coletiva em cima dos meios de produção coletivos. Juntou-se a isto a perseguição que ocorreu em Jerusalém, que dificultou a entrada de mais pessoas na comunidade e que criou a migração forçada de pessoas da comunidade para outras regiões.

Não só a comunidade de Jerusalém era pobre, e sim, as da Macedônia e Corinto também o eram. È a coleta dos pobres aos mais pobres para garantir a viabilização do projeto do Reino. Coleta é para criar igualdade (vv. 14-15) conforme a citação de Ex 16, onde o maná não podia ser acumulado, apenas se podia colher a cada dia o suficiente para um dia, isto para garantir a igualdade. Esta coleta é feita pela comunidade cristã que crê na ressurreição do corpo e esta fé não admite a fome, pobreza e desigualdade social. O importante é que a coleta não é feita na base da lei, e sim, pela graça do amor (v. 8). Assim, coleta é feita sempre por causa do amor aos pobres e com isto se denuncia a desigualdade social.

Assim, também, Jesus Cristo era rico e se tomou pobre (v. 9). O texto mostra que a postura económica é determinante na prática de Jesus. A prática de Jesus Cristo contêm uma proposta econômica onde os pobres determinam os rumos da economia. É só ver as palavras de Jesus Cristo aos ricos e às riquezas que devem estar a serviço dos pobres. Quer dizer: os pobres dão a linha econômica do país. Pois, a vida em abundância é determinada por um projeto econômico. Só há vida em abundância se há um projeto econômico igualitário (v. 13) e este é determinado e executado pelos pobres, que no caso da Palestina são os camponeses e trabalhadores escravos e estrangeiros no mundo grego e romano.

A salvação, em primeiro lugar, não fica só no futuro, mas inicia já agora, e, em segundo lugar, salvação (vida integral) passa pelo econômico, é determinada de forma concreta pelas condições econômicas. Se a salvação já começa aqui e agora, então isto também significa ter um projeto econômico que defenda a igualdade das condições reais de vida. A postura em favor dos pobres é determinante em Jesus Cristo e na comunidade primitiva; isto faz parte do projeto de salvação de Deus. Deus se fez pessoa pobre, começando pelo nascimento; é a pobreza transformadora (v. 9). Se no v. 9 diz que pela sua pobreza vos tornásseis ricos, isso não quer dizer que vão ser donos individuais de muitos meios de produção, mas que a riqueza gerada pelo trabalho de todos os trabalhadores vai voltar para todos, para que haja igualdade.

As igrejas da Macedônia, além de serem muito pobres, estavam passando por muitas perseguições de judeus e gentios. Mesmo assim fizeram a coleta para garantir a construção do Reino, da qual a comunidade de Jerusalém participa. As igrejas da Macedônia eram tão pobres quanto a igreja de Jerusalém, mas a contribuição financeira era fundamental para garantir a continuidade dos cristãos de Jerusalém na participação da construção do Reino. Os mais pobres deram a maior quantidade em dinheiro. Isto mostra que o Reino já aqui presente, para ser de fato um sinal, necessita de demonstração prática, e esta se baseia na economia. Pois é a economia que determina as condições de vida e influencia a direção política que, por sua vez, dá legitimidade à economia. Assim a graça de Deus ê muito concreta, materializando-se em propostas econômicas vividas para que haja igualdade.

Para que esta proposta de fortalecimento da igreja vingue, é necessário boa administração (v. 21). Pois a boa administração da economia viabiliza concretamente o projeto de Deus. O econômico é a execução prática do evangelho pregado. A coleta é a resposta ao evangelho pregado. Quer dizer: a pregação do evangelho cria condições econômicas para viabilizar aquilo que o evangelho propõe - o Reino de Deus.

O texto mostra algo semelhante ao que hoje se passa com o Movimento Popular, onde pessoas pobres doam seu tempo e seu dinheiro para contribuir concretamente na luta em que estão inseridos. E muitos destes são cristãos convictos. Estes sabem que a luta no Movimento Popular faz parte da luta pelo Reino e sua justiça.

Hoje nas comunidades, pela fraca formação teológica, os membros tom dificuldade de compreender que devem contribuir para a Igreja e ainda trabalhar na pregação do evangelho (que se dá, na prática, tanto na Igreja quanto no Movimento Popular, Movimento Especifico, Sindicato e Partido Político, as cinco esferas do Reino).

Aqui no texto a coleta não é um mero dar após o culto, mas é a viabilização da unidade da Igreja e da proposta do Reino (através de uma prática econômica resultante da graça de Deus).

4. Flashes da proposta econômica da comunidade primitiva

A proposta da comunidade de Jerusalém não foi longe. Só foi possível enquanto os cristãos eram poucos em número e localizados em Jerusalém; em outros lugares esta experiência não foi exercitada. A refeição em comum foi aos poucos desaparecendo, a divisão de bens ficou diferente, não se vivia mais como uma grande família, cada um cuidou de sua propriedade particular e não se ofereciam mais os bens ao coletivo, somente a sobra ia para a comunidade, a oferta dos mais ricos virou esmola; assim ficaram sendo as comunidades primitivas com o correr do tempo. Assim apareceram as diferenças na Igreja pelo Império afora, e a igualdade virou a eterna desigualdade já reinante. Isto não significa que não houvesse resistência contra esta onda.

No século IV Basílio disse: Como é que arranjastes isto o que chamais vossa propriedade? Como é que os possuidores se tornaram ricos, senão tomando posse das coisas que pertencem a todos? Se todos tomassem apenas o que estritamente necessitam, deixando o resto aos outros, não haveria nem ricos nem pobres.

João Crisóstomo, no séc. IV, no sermão sobre Atos, disse: Por que é que se terão perdido estas tradições? Ricos e pobres poderíamos todos tirar proveito destes costumes piedosos e uns e outros sentiríamos o mesmo prazer em nos conformarmos cem eles. Os ricos não empobreceriam ao desprenderem-se de suas posses, e os pobres seriam enriquecidos.

No séc. VI, Gregório, o Grande, disse: Não é, de modo algum, bastante não roubar a propriedade dos outros; é errado conservar para si próprio a riqueza que Deus criou para todos. Aquele que não dá aos outros o que possui é um assassino; quando guarda para seu próprio uso o que proveria os pobres, pode dizer-se que está matando os que podiam ter vivido da sua abundância; quando repartimos com os que estão sofrendo, nós não damos o que nos pertence, mas o que pertence a eles. Isto não é um ato de misericórdia, mas o pagamento de uma dívida. Sobre este ponto Gregório e Marx concordam plenamente, pois todo capital é gerado peto trabalho e deve retornar ao que o gera.

IV - Reflexões para a pregação

O texto levanta duas questões que estão interligadas: a questão econômica dentro da Igreja e o sistema econômico vigente. A proposta que o texto apresenta é: pela graça de Deus a prática econômica interna da Igreja vai influenciar o sistema econômico vigente e transformá-lo. As comunidades praticam um sistema econômico que visa garantir vida integral a seus membros. As comunidades estão abertas para receber a todos que queiram aceitar a graça de Deus e viver esta graça concretamente (salvação). Quem norteia a vida é o evangelho do Reino. Esta vida interna da Igreja questiona o sistema econômico que determina o regime político que baixa a repressão na comunidade. Assim a prática concreta do evangelho se traduz num sistema econômico vivido na comunidade que garante a igualdade e com isto denuncia o sistema econômico quo vive da desigualdade. Assim a prática econômica da comunidade, que. é consequência da graça de Deus, questiona a prática econômica do Império que reage com a perseguição. Assim a Igreja não se baseia no sistema econômico do Importo, e sim, quer, por uma outra prática, mudá-lo para que haja igualdade. Esta prática econômica garante a unidade da Igreja e a sobrevivência dos seus membros.

É a partir da miséria que vem o impulso para acabar com ela. Isto mostra que os membros da comunidade, além de participar da pregação do evangelho, ainda contribuem para manter a unidade da Igreja e a vida dos seus membros. Além disto a pregação do evangelho traz perseguição e desestabilização econômica maior ainda. Nestas condições acontece a coleta para os pobres de Jerusalém. Não é apenas uma coleta de pobres para pobres. Esta coleta está embasada na igreja de Deus (ou melhor, é resultado da graça), que se traduz numa vivência nova que quer garantir a igualdade. A coleta visa garantir o projeto do Reino.

O texto coloca a contribuição para a Igreja como garantia de sobrevivência da própria Igreja, que tem um projeto concreto de transformação do mundo que inicia por sua própria prática econômica interna que, por sua vez, vem da graça de Deus. Assim a graça de Deus não é mera questão individual, mas passa do individual para o coletivo e vice-versa.

A partir das reflexões levantadas pela realidade de hoje e pelo texto, convêm questionar a prática econômica da Igreja hoje. Pois a Igreja hoje sofre um processo inverso da comunidade primitiva. Hoje a prática econômica da Igreja é igual ao do sistema econômico vigente desde o membro até à instituição Igreja e vice-versa A prática econômica interna da Igreja hoje não mais questiona o sistema econômico vigente, mas este foi assimilado por ela. Por isso o membro pensa e contribui financeiramente e na prática da vivência conforme os mandamentos do sistema econômico capitalista: paga para ter atendimento religioso e não mais entende o porquê da contribuição para a instituição (IECLB). Os membros vivem xingando esta contribuição que vai para fora, quer dizer, para a instituição nacional (IECLB). Não se vêem como parte integrante do todo da igreja e de sua proposta, que deveria ser o Reino. O sistema econômico capitalista corroeu as bases evan¬gélicas da proposta econômica da Igreja que, com sua prática, questiona o querer mudar o sistema econômico vigente. É a prática que traz a perseguição do regime político que recebe as ordens do sistema econômico. Hoje as comunidades não são mais perseguidas, pois estão inseridas na prática econômica capitalista. São ainda perseguidas pessoas individuais isoladas da prática normal da comunidade.

A contribuição financeira dos cristãos não mais visa gerar a igualdade econômica, mas visa a igualdade de atendimento religioso. O normal da IECLB ê a contribuição igual em quantidade de dinheiro e não conforme as posses (v. 11-12), baseado no argumento que todos são iguais, o que é uma mentira. Porque há patrões e trabalhadores na comunidade e mesmo as posses dos trabalhadores são diversas. Numa sociedade de classes não há igualdade.

A contribuição financeira, que deveria ser resultado da graça de Deus, não visa mais garantir a unidade da Igreja na luta por igualdade econômica, o que supõe a superação do sistema econômico vigente pela prática diária de vida coletiva. A contribuição financeira visa o mero atendimento religioso individual em sua esmagadora maioria; não supõe mais a transformação do mundo em direção ao Reino.

Proponho que na pregação se analise a proposta e prática que aparecem no texto e se compare com a prática atual. Interessante seria antes fazer uma pesquisa sobre a compreensão da contribuição financeira para a igreja (coleta, festas, rifas, contribuição anual) e da compreensão de comunidade (por que faço parte da comunidade e qual o objetivo da comunidade).

V - Subsídios litúrgicos

1. Confissão de culpa: Ó Triúno Deus, em tua presença temos que confessar que temos muita dificuldade em construir contigo o teu Reino. Confessamos que confundimos a nossa contribuição para o teu Reino como sendo apenas a contribuição financeira que damos para a comunidade. Confessamos que, ao pagar a contribuição, achamos que não precisamos fazer mais nada. Confessamos que pagamos a contribuição financeira apenas para poder receber os serviços oferecidos pela comunidade em troca. Confessamos que pagamos para ter e não para servir ao Reino. Confessamos como comunidade que contribuímos para a comunidade para com isto não precisar fazer mais nada e exigir que sejamos servidos. Confessamos que pagamos a contribuição para com isto comprar a Deus. Confessamos que não estamos dispostos a dar a contribuição de toda a nossa vida e de tudo o que temos e somos a serviço do Reino. Por isto e tudo o mais que não temos coragem de dizer pedimos: Tem piedade de nós, Senhor!

2. Oração de coleta: Deus, ilumina a nossa mente para que a tua palavra possa penetrar em nós e nos libertar da mentalidade contrária ao teu evangelho. Faze com que tua palavra nos choque, nos desestabilize, para que possamos começar a pensar e agir diferente daqui para diante. Ilumina-nos para que a mensagem que vamos ouvir agora possa abrir uma nova porta para nós. Amém.

3. Leituras: AT - Dt 26.12-15; Evangelho, Mt 19.16-22 ou Lc 21.1-4

4. Assuntos para oração final: Orar pela Igreja toda para que possa, através de sua prática econômica, dar uma proposta de igualdade. Orar pela comunidade para que sua contribuição para o Reino seja o engajamento nas lutas do  povo pobre para que haja igualdade. Orar por cada membro para que sua contribuição não fique apenas no financeiro, mas para que o seu engajamento em favor do Reino aconteça de fato na vida diária. Orar para que a comunidade se engaje pelos doentes e lute para afastar as causas da doença que são fome, miséria, excesso de trabalho e exploração. Orar pelos velhos que com sua mísera aposentadoria não conseguem sobreviver e que nossa ajuda concreta se dê no apoio às entidades que lutam pelos e com os velhos. Orar pelas viúvas para que não sejam exploradas por membros da comunidade, e sim. que estes lutem com elas para conseguir uma vida integral. Orar petos menores carentes e abandonados no sentido de nós nos engajarmos para mudar as instituições, como FEBEM, que apenas criam marginais.

VI - Bibliografia

- Bíblia Sagrada. Petrópolis, 1985.
- LUXEMBURGO, R. O socialismo e as igrejas. Rio de Janeiro, 1980.
- LUETHI, W. Der Apostei. Muenchen, 1968.
- SCHWANTES, M. Apontamentos sobre as coletas em cultos de comunidades da IECLB. Polfgrafo, 1983.
- WENDLAND, H. - D. Der zweite Brief an die Korinther. In: Das Neue Testament Deutsch. Gottingen, 1976.


 


Autor(a): Günter Adolf Wolff
Âmbito: IECLB
Testamento: Novo / Livro: Coríntios II / Capitulo: 8 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 15
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1987 / Volume: 13
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17883
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