2 Reis 4.42-44

Auxílio Homilético

26/07/2015

Prédica: 2 Reis 4.42-44
Leituras: João 6.1-21e Efésios 3.14-21
Autor: Eloir Enio Weber
Data Litúrgica: 9º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 26/07/2015
Proclamar Libertação - Volume: XXXIX  

Pão para quem tem fome

1. Introdução

Transcrevo um poema de Maria Eduarda Gallo, aluna do 6º ano do Colégio Estadual Dom Pedro I, de Pitanga (PR). Esse poema foi classificado em primeiro lugar no 1º Concurso Literário “A arte de contar e poetizar o pão”, promovido em 2013 pela Secretaria Estadual de Ensino do Paraná.

O pão... que delícia!

O pão... que delícia!
Pão francês, pão caseiro,
De onde vem tanta delicadeza?
É claro que vem da natureza.

Quando acordo de manhã,
O cheiro doce do pão amanteigado
É a única coisa que me faz sair
Do meu colchão sossegado.

Mamãe está na cozinha.
Corro para ela e lhe dou um beijo.
O blaf, blaf da massa é do pão fresquinho.
Oba! Hoje tem pão de queijo!

O pão é sagrado mesmo,
É corpo de Jesus na comunhão;
Sendo assim o mais amado,
Alimenta a alma e o coração.

Há quem despreze o pão seco 
E muitas vezes é até jogado. 
Que pena, poderia ser moído
E assim muito bem aproveitado.

Não é fácil ter o pão de cada dia. 
Alguns não dão o devido valor
E sem pensar jogam fora, 
Sem ao menos ter temor.

Na casa do rico ou do pobre, 
Se tem pão a fome não vem. 
Ele é igualmente consumido,
Não importa o dinheiro que se tem.

A fome e a partilha do pão – esse é o tema que se apresenta para nós. Especialmente entre o texto do evangelho e o texto de pregação há uma aproximação temática. Em ambos os textos, pessoas têm sua fome saciada pela capacidade de repartir e compartilhar. O tema, assim, coloca-nos um compromisso com os mais necessitados e excluídos em nosso meio, para que, a partir da generosidade, recebam o alimento necessário.

2. Exegese

2.1 – Contexto histórico de 2 Reis

O livro de 2 Reis narra, em sua maior parte, o processo de declínio e queda do reinado do norte (Israel) e do reinado do sul (Judá), começando por sua liderança política e alcançando o povo. De forma geral, o livro ilustra que os líderes não conseguem promover o bem-estar do povo porque abandonaram a causa maior de Deus em prol de interesses próprios. Registra os últimos dias do reino dividido (Israel e Judá), antes que suas populações sejam levadas para cativeiro.
Trata-se de uma história de fracassos, na qual Deus encontra dificuldade para suscitar líderes de caráter, competência e compaixão pelo povo. A consequência disso é um povo que segue os líderes e espelha-se em suas atitudes. O resultado desse processo é uma sociedade com muita exploração, pobreza, fome e miséria humana.

2.2 – O profeta Eliseu

Eliseu surge a partir do contexto rural. Recebeu chamado e mentoria de Elias a fim de ser seu sucessor. Soube observar e absorver a sabedoria e obediência a Deus do seu mentor. Ambos lutaram contra o culto a Baal. A tarefa que perseguiram foi resgatar o povo da idolatria e levá-lo de volta a Deus.

Eliseu destaca-se pela quantidade de milagres descritos na Bíblia. Esses milagres sempre estavam alinhados com os problemas sociais e os dramas vividos por pessoas em uma época de pobreza e exploração. O seu método missionário consistia em aproximar-se das pessoas em suas reais necessidades e demonstrar o amor, a graça e a misericórdia de Deus. Denunciou falsos profetas e foi incansável em não receber recompensa e vantagens financeiras e materiais por seu trabalho.

2.3 – O texto

O texto de 2 Reis 4.42-44 traz um personagem que faz um ato de partilha, motivado por Eliseu. O texto não destaca nenhuma informação relevante sobre esse personagem. Possivelmente é um camponês. Ele não tem nome. É chamado de ‘iysh, termo hebraico para homem, pessoa, alguém. Ele vem de uma localidade chamada Baal-salisa. Sua localização exata é difícil de definir. Há estudos que defendem tratar-se de um lugarejo próximo a Gilgal, no território da tribo de Efraim, provavelmente na “terra de Salisa”, pela qual Saul passou quando procurava as jumentas de seu pai (1Sm 9.4).

Eliseu é chamado no v. 42 de “homem de Deus”. A ele foi trazida a oferta dedicada a Deus, conforme a Lei das Primícias (Êx 23.19; Lv 2.12; Nm 15.21; Dt 18.4). Os primeiros frutos da colheita eram consagrados a Deus. Conforme a prescrição da lei (Lv 23.9-14), as primícias eram entregues aos sacerdotes.

Que a oferta seja trazida a Eliseu, isso mostra a desconfiança que as pessoas tinham nos sacerdotes estabelecidos pela “religiosidade oficial” numa época de corrupção religiosa e política. Quando a religiosidade oficial perde a confiabilidade, o povo resolve à sua maneira a relação com a divindade, bem como a sua espiritualidade.

O povo continua ritualizando a sua espiritualidade. A sua relação com Deus dá-se apesar do templo e fora dele. Nesse contexto, Eliseu era considerado verdadeiro representante da aliança do Senhor.

A oferta do homem era de 20 pães de cevada e espigas verdes. Para uma realidade de fome e colheitas muito fracas, essa oferta representava um sacrifício importante de sua parte. A oferta era fruto da devoção do homem a Deus e, também, do seu respeito e confiança em Eliseu.

Se fizermos uma comparação simples e direta com o texto de João 6.1-13, vamos perceber que cinco pães de cevada serviam de merenda para um menino. Talvez ninguém teria acusado o profeta se ele guardasse para si aquela doação. Mas Eliseu acreditava na divisão, na partilha. Ele não se considerava dono de uma oferta dedicada a Deus, que veio como doação pelas primícias, fruto da fé e do trabalho humano. Entendeu que aquilo deveria ser dividido, partilhado com quem estivesse necessitado.

Eliseu, então, ordenou a seu servo: Dá ao povo para que coma (v. 42). “O povo” provavelmente designava os mesmos “discípulos dos profetas” que Eliseu alimentara no texto anterior (2Rs 4.38-41). O servo (certamente de nome Geasi) estava cético e descrente diante da quantidade de alimento disponível e o número de comensais: Como hei de eu pôr isto diante de cem homens? (v. 43a). A reação dele é natural e compreensível. Ela nos remete ao que os discípulos de Jesus disseram antes que ele alimentasse milhares de pessoas com alguns pães e peixes (Mt 14.17; Mc 6.37; Jo 6.8).

O profeta Eliseu, sem argumentar, repete a ordem: Dá-o ao povo, para que coma (v. 43b). Além de repetir a ordem, ele acrescenta: … porque assim diz o Senhor: Comerão, e sobejará (v. 43c). A afirmação de Eliseu dá-nos a dimensão da fé no ato de repartir e compartilhar. A doação não é feita porque é um gesto bonito e socialmente aceitável, mas porque é motivada pela espiritualidade e confiança em Deus. O fato de que sobraria alguma coisa depois de todos terem se alimentado significava não só que todos comeriam, mas que todos comeriam até estar satisfeitos. A multidão comeu, satisfez-se e houve sobras – conforme a palavra do Senhor (v. 44b).

O texto não nos diz como o milagre foi realizado. Independentemente da forma como ele ocorreu, uma multidão foi alimentada a partir do gesto de fé de um homem cujo nome desconhecemos e da ação do profeta Eliseu em partilhar as dádivas das primícias da terra recebidas em ofertório. Assim, Deus demonstrou seu cuidado e proteção por aqueles que confiam nele. Ele o fez por meio da generosidade de Eliseu – um homem que não hesitou em partilhar o que tinha, fosse muito ou pouco.

3. Meditação

Pelo menos três aspectos do texto merecem, a meu ver, uma reflexão da nossa parte.

a) A confiabilidade da igreja: Vivemos em um país evangélico. Éramos um país católico. Essa afirmação parece ser equivocada em um primeiro momento. Mas, ao olharmos para o comportamento religioso das grandes massas, não é uma afirmação de todo esdrúxula.

Essa composição religiosa quebra um paradigma importante. A religiosidade ganha uma nova dinâmica. O poder deixa de estar em catedrais e passa a estar mais capilarizado em pequenas garagens, pontos de encontro. Apesar dos impérios evangélicos construídos nas últimas décadas, a tendência de momento são os pequenos movimentos religiosos.

A partir dos clérigos emana uma forma diferente de poder. Antes esse poder estava representado na ordenação sacerdotal que seguia a sucessão apostólica, no poder que tem a sua base na palavra de Jesus a Pedro. Hoje esse poder, em muitos casos, mostra-se com roupagem muito mais divina, mas com aspirações muito mais humanas. O sacerdote roga para si mesmo o poder do sagrado. E, para legitimar sua autoridade, ele argumenta com o poder do Espírito Santo.

Isso traz sérios riscos. Pois deixa a igreja exposta aos mais diferentes tipos de interesse. Na medida em que alguém cria uma igreja em uma garagem, necessariamente precisa “correr atrás” para, no mínimo, pagar o aluguel da peça alugada. E, como ninguém vive “do vento”, esse sacerdote vai precisar ganhar algo a mais para o seu sustento. Com isso, quanto mais “poder” ele conseguir demonstrar a seus fiéis, mais sucesso ele terá no empreendimento.

Aliás, sucesso e empreendimento são palavras fortemente ligadas ao mundo empresarial e que, na atualidade, são largamente aplicadas na igreja. A “clientela” precisa ser disputada. E as ferramentas que cada qual tem para essa forte disputa é a detenção do Espírito Santo. Nessa disputa por espaço, poder e dinheiro, cometem-se absurdos em nome de Deus. Vende-se algo que não há como entregar. Esse fato cria um comportamento diferente nas pessoas em relação à igreja. Vivemos um período em que a credibilidade eclesiástica está em baixa. Verdadeiras multidões na busca por resposta para a sua vida desiludiram-se com a igreja e a abandonam. Para se proteger dos abusos, as pessoas preferem viver a sua espiritualidade sem igreja.

Como IECLB, estamos inseridos neste mundo. Fazemos parte dele e nele precisamos proclamar a nossa fé, nosso jeito luterano de crer e confiar em Deus, nosso jeito de ser Igreja de Jesus Cristo.

A pergunta que emana do texto é: como resgatar a credibilidade eclesiástica? No texto, a pessoa que trouxe a sua oferta das primícias procurou o profeta Eliseu (não o templo) para oferecer a sua oferta a Deus. A religiosidade do templo havia perdido a confiabilidade. Os templos de hoje também são vistos como locais de exploração.

Fica este desafio: Como vamos resgatar a credibilidade eclesiástica?

b) A sustentabilidade da igreja: Tudo bem, precisamos resgatar a confiabilidade eclesiástica.

Mas como vamos nos sustentar? Se olharmos para a nossa realidade como IECLB, percebemos que uma boa parte das paróquias tem grandes dificuldades financeiras para a sua manutenção. A relação da fé com a sustentabilidade eclesiástica precisa ser trabalhada: fé, gratidão e compromisso. A doação desprendida, como resposta de gratidão a partir da fé, é um desafio para nós. Essa relação não se estabelece pela lei, mas pelo evangelho.

No texto bíblico em questão, uma pessoa trouxe as primícias como gesto de fé. Vejo muitas mãos e corações abertos para doar como parte da fé. Elas perceberam que parte daquilo que Deus já lhes deu anteriormente precisa ser dedicado ao serviço do evangelho. Pelo que percebo, essa lição foi muito bem aprendida por pessoas de mais idade. As gerações mais novas perguntam sobre as vantagens que terão ao contribuir financeiramente para a igreja.

Fica mais este desafio: Como vamos trabalhar a relação entre fé e dinheiro (bens materiais)?

c) Diaconia como projeto de missão: O texto bíblico no gesto de partilha promovido por Eliseu trouxe a temática da missão da igreja e sua relação com a diaconia. Para nós, como igreja que deseja ser cada vez mais urbana a fim de acompanhar o seu povo, fica um desafio a partir desse texto bíblico. A missão urbana necessita estar acompanhada da diaconia como serviço de fé, amor e acolhimento para as pessoas em sua real necessidade. É de vital importância que a missão urbana e a diaconia andem de mãos dadas. A diaconia não pode ser vista como mais um ministério, mas sim uma tarefa primordial de todos os cristãos (e da igreja), a partir da fé, de ir ao encontro daqueles que têm fome, que têm sua dignidade ameaçada, que estão à procura de pão. Nesse sentido, ainda precisamos caminhar e trilhar um bom caminho.

Fica mais este desafio: Como vamos trabalhar a relação de missão e diaconia?

4. Imagens para a prédica

Pão! Necessidade primeira do ser humano. Martim Lutero, na explicação da quarta petição do Pai-Nosso, soube dar um significado amplo e bonito ao pão. O pão leva o ser humano a cometer verdadeiras atrocidades. Ele causa disputas de espaço e poder. O pão em si é bênção. Jesus o multiplicou, ele mesmo se disse “o pão da vida”. A disputa em torno dele é que é lastimável. Muitos sofrem por sua falta, outros adoecem por ter demais e consumir demais.

A distribuição desigual do pão é resultado de nosso pecado humano: pecado social e individual. A falta de pão coloca em xeque a dignidade humana conquistada por Cristo na cruz.

No filme “Ensaio sobre a Cegueira”, um personagem diz: “Primeiro vamos alimentar todos, depois podemos falar de dignidade”. Por causa do pão pessoas são exploradas, corpos são vendidos, dignidade é ameaçada.

O profeta do Antigo Testamento Eliseu enfrentou a situação de pobreza, fome, exploração social. Em uma situação de falta de alimento, ele recebeu de uma pessoa sem nome (só sua origem é revelada) um gesto de fé e gratidão a Deus. Essa dádiva foi partilhada e saciou a fome de muitas pessoas. O problema não é a falta de alimento. Os vilões são a má distribuição e o desperdício.

Vivemos em um país que avançou muito nos últimos anos. Muitas pessoas recebem auxílios dos órgãos governamentais e têm o alimento diário. Milhares saíram da linha de pobreza absoluta. Falta ainda avançar muito para que todos tenham acesso aos meios de vida, a trabalho digno e aos meios de produção.

5. Subsídios litúrgicos

a) Poder-se-ia incentivar um café da manhã antes do culto. Cada família traria da sua casa algo para compartilhar na mesa. O culto iniciaria com o café e culminaria com a celebração da Ceia do Senhor. O tema da partilha poderia ser muito bem explorado a partir disso.

b) Ligada a essa primeira proposta, poder-se-ia vincular uma outra: fazer o café da manhã, conforme a ideia acima, e convidar pessoas necessitadas para tomar parte da celebração.

c) As famílias poderiam ser motivadas a trazer um pão de casa, que depois seria partilhado com pessoas necessitadas ou com alguma instituição diaconal/ social.

d) Hinos (HPD II): 425, 405, 407, 419, 381.

e) Para as crianças, tenho a sugestão de um pequeno vídeo (duração: 24:05 minutos), disponível no Youtube sob o título “Profeta Eliseu – o homem de Deus” (http://www.youtube.com/watch?v=NUYVA1XW9sk).

Bibliografia

BOSCH, David J. Missão Transformadora. 2. ed. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2007.
BRIGHT, J. História de Israel. 4. ed. São Paulo: Paulinas, 1980.
FOHRER, Georg. História da Religião de Israel. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 1993.


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Autor(a): Eloir Enio Weber
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 9º Domingo após Pentecostes
Testamento: Antigo / Livro: Reis II / Capitulo: 4 / Versículo Inicial: 42 / Versículo Final: 44
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2014 / Volume: 39
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 34407
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