2 Samuel 12.1-10,13-15

Auxílio Homilético

02/09/1990

Prédica: 2 Samuel 12.1-10,13-15
Autor: Valdir Steuernagel
Data Litúrgica: 11º. Domingo após Trindade
Data da Pregação: 02/09/1990
Proclamar Libertação - Volume: XV


l — Introduzindo o texto

O texto de 2 Samuel 12.1-lSa é um velho conhecido que nos coloca em contato com um dos mais antigos conflitos entre o trono e o profetismo em Israel. Esse conflito, sendo um evento quase isolado no tempo de Davi, passa a desempenhar um papel importante no futuro de Israel.

O texto nos introduz também na questão da sucessão ao trono de Davi, e o f az sob o signo da desgraça: Agora, pois, não se apartará a espada jamais da tua casa. . . (2 Sm 12.10a). Os acontecimentos posteriores, especialmente os que giram em torno de Absalão e da sua luta pelo poder, demonstram o quanto a casa de Davi passou a viver sob o signo da espada, desencadeando esta destruição, gerando morte e produzindo sofrimento.

O texto de 2 Sm 12.l-15a, enquanto iluminado quando lido à luz da relação entre trono e profetismo, deve também ser lido no contexto do processo da sucessão ao trono. O capítulo anterior, porém, é essencial para a compreensão do texto em pauta. O capítulo 11 aborda o adultério de Davi com Bate-Seba e a trama diabólica deste para, em primeira instância, encobrir o adultério/gravidez e, em segunda instância, tirar Urias, esposo de Bate-Seba, do seu caminho. Sem a compreensão deste capítulo, a parábola de Nata perde a sua força e clareza.

A sugestão do texto de prédica exclui os versículos 11 e 12 da perícope que vai dos versículos l-15a. Esta exclusão deve-se ao fato de que eles representam uma aparente repetição dos versículos 7-10. Por duas vezes, nos versículos 7b é 11, se anuncia a desgraça: Assim diz o Senhor. . . Hans J. Boecker (109) diz que os versículos l-15a não devem ter sido concebidos, originalmente, nestes termos, Qual tenha sido o texto original é discutível e não tem maior significado para o propósito da nossa prédica. Ademais, a seleção de versículos para o estabelecimento da perícope para este domingo já denota uma opção preferencial pelos versículos 7 a 10.

II — O profeta e a sua parábola

Havia numa cidade. . ., começa a dizer, aparentemente sem muitas pretensões, este corajoso profeta que parece não se aperceber de que está na presença do rei e de que a sua vida pode estar em risco.
Nata, em típico estilo profético, recebe do Senhor a indicação de que deve ir a Davi. Pela desenvoltura com que a parábola é contada, o profeta deixa transparecer que está absolutamente seguro da sua missão.
A parábola é simples e certeira. Há uma pessoa rica que, apesar de ter muitas ovelhas, rouba, inescrupulosamente, a única ovelha de um vizinho pobre, para poder receber bem a um viajante. O veredito do furioso e justo Davi, que no cargo de rei administrava a justiça, é curto, rápido e claro: ... o homem que fez isso deve ser morto (v. 5), e o pobre deve ter a sua ovelha restituída na proporção de quatro vezes mais (v. 5). O senso de justiça de Davi não admite que do pobre se tire o pouco que tem, deixando incólume a abundante riqueza do rico. Ele se recusa a aceitar esse exercício iníquo do poder em beneficio próprio, deixando de lado o princípio de que o uso do poder deve favorecer o pequeno, fraco, pobre e necessitado.

A parábola traz o seu significado no seu próprio bojo. O que Davi não suspeitava era que ele mesmo era o alvo da parábola. A aplicação de Nata não apenas surpreende a Davi, mas fulmina-o com um veredito certeiro: Tu és o homem (v. 7).

Dois aspectos podem ser destacados neste encontro do profeta com o rei:

a. A liberdade do profeta em confrontar o rei, questionando o seu pecado e o seu exercício de poder. Convém destacar que em Israel também o rei é pecador, e isso não é segredo (vide Voigt, 334).

b. O profeta se encarrega de chamar atenção para o fato de que Davi precisa brigar com o seu pecado. Voigt (334) diz que Davi não imaginava que o seu pecado viesse à tona. Urias, que de fato poderia denunciar o enredo, estava morto. A grandeza de Davi, no entanto, se revela no fato de que ele não questiona a fulminante acusação do profeta. Ele a aceita e está disposto a enfrentar o seu pecado, brigar com a sua culpa e buscar o perdão de Deus. A parábola atingiu o seu fim didático: provocar arrependimento e produzir reconciliação com Deus. (O Salmo 51 poderia ser lido no contexto deste propósito didático.)

III — A questão do poder e seus reflexos

O pecado de Davi tem nomes claros e reflete uma profunda ingratidão a Deus. Em nome de Deus o profeta o deixa evidente: Eu te ungi sobre Israel, e eu te livrei das mios de Saul, dei-te a casa de teu senhor, e as mulheres de teu senhor em teus braços, e também te dei a casa de Israel e de Judá, e, se isto fora pouco. . . (v. 8). Ë como se se dissesse: Para falar a verdade, Davi, você não precisava de Bate-Seba. Mas, a cobiça produz cegueira e obsessão.

A cobiça de Davi, que aparentemente se desenvolve num contexto de lazer indevido (vide 11.1-2), se materializa em adultério, desencadeia um assassinato e representa desprezo ao Senhor (v. 9). Esta cadeia pecaminosa, vista sob os olhos da lei, só tem um veredito, expresso pelo próprio Davi: Tão certo como vive o Senhor, o homem que fez isto deve ser morto (v. 5b).

Enquanto o pecado de Davi se chama adultério e assassinato, a questão central que a parábola aborda e que o caso de Davi levanta é a questão do poder (vide Buecker, 114). Enquanto, na linguagem do Antigo Testamento, Davi deveria ter ido à guerra com o seu exército (11.1), ele fica em casa e passeia no terraço. Enquanto, na linguagem da parábola, a pessoa rica e possuidora de muitas ovelhas deveria proteger o pobre e a sua propriedade, ela rouba do pobre e mantém incólume a sua propriedade. Enquanto Davi, como juiz sobre Israel, deveria respeitar o vínculo do matrimónio e preservar a vida, ele requisita para si a mulher alheia e encaminha Urias para a morte. E, a seguir, Davi usa do seu poder para encobrir o pecado anterior e cobre o seu reinado com a nuvem da morte. A justiça e o poder que deveriam ser usados em benefício do poder e para a promoção da vida são usados em benefício próprio, para encobrir o próprio pecado. É importante observar também que o adultério e o assassinato — uso desvirtuado do poder — representam desprezo ao Senhor (vs, 8-10). Em outras palavras, a forma como se exerce o poder, como se protege ou explora o mais fraco, como se trata o/a cônjuge do próximo, como se promove a vida ou a morte, tem uma profunda dimensão espiritual. E está bem claro de qual lado Deus está.

IV — A lei e a graça

O censo de justiça que caracteriza Davi transparece claramente na sua reação à parábola contada por Nata. Observe-se ainda que, quando confrontado com o fulminante diagnóstico do profeta - Tu és o homem (v. 7) - Davi não tenta escamotear o seu senso de justiça visando o benefício próprio. Reconhe-cendo a sua culpa, Davi se arrepende: Pequei contra o Senhor (v. 13).

Se o diagnóstico para o caso de Davi era a morte, conforme a sua própria interpretação, o arrependimento abre a porta para novas possibilidades.

Como disse Nata a Davi: Também o Senhor te perdoou o teu pecado; não morrerás (v. 13). Nata transmitiu a Davi a palavra de absolvição: não morrerás (v. 13). isto não significa, no entanto, que o pecado e as suas consequências se evaporem no ar sem deixar vestígios. Davi precisa enfrentar o fato de que o seu pecado provocou blasfémia contra o Senhor por parte dos inimigos do Senhor (v. 14). Com Hertzberg (258) se poderia dizer que entre Davi e o Senhor as cousas estão, pela graça, em ordem; mas o filho que te nasceu (v. 14) precisa morrer para que fique evidente como Deus reage diante do pecado, silenciando a boca grande dos malfeitores.

O texto em pauta nos confronta, simultaneamente, com o milagre da absolvição (Voigt, 336), as consequências pessoais e públicas do pecado e com a seriedade de Deus. Ao argumento de que uma criança inocente precisa morrer para pagar o pecado de um adulto, Boecker (113-114) diz que, na compreensão vétero-testamentária, o castigo não atinge a criança inocente mas ao culpado Davi. A desgraça que ocorre na família de Davi o atinge pessoalmente. A forma como Davi sofre pelo filho doente (12.15b ss) parece dar razão a Boecker. A inter-relação entre pecado, arrependimento, juízo e graça está, neste texto, em tensão. Enquanto a radicalidade da graça é iluminada pelo Novo Testamento é preciso não perder de vista que horrível cousa é cair nas mãos do Deus vivo (Hb 10.31). Graça sem senso de justiça tende a ser graça barata, e justiça sem a dimensão da graça e carente de misericórdia instaura o reino do terror.

V — Pautas para a prédica

Pregar sobre 2 Samuel 12.1-10,13-15a significa tocar na sensível mas estratégica questão da inter-relação entre poder e justiça e seu caráter profun¬damente espiritual.

Conforme vimos anteriormente, o senso de justiça de Davi, que exerce o poder em Israel, não admite que do pobre se tire o pouco que tem, deixando incólume a abundante riqueza do rico. Da mesma forma não se admite que Davi tire a mulher do próximo e encaminhe o marido traído à morte. Exploração, adultério, assassinato e exercício iníquo do poder em benefício próprio fazem parte de um mesmo padrão de desobediência a Deus e violentação do próximo. O resultado de um comportamento assim é sempre o próximo machucado e Deus sendo blasfemado. (Aqui se deveria dizer como exploração, adultério, desrespeito à vida e blasfêmia acontecem no Brasil de hoje.)

Pregar sobre 2 Samuel 12 significa, ainda, pregar sobre a conversão e o juízo, a graça e o sofrimento. Assim como Davi foi claramente confrontado por Nata, assim o texto nos confronta com o fato de que Deus quer a justiça e que esta mesma justiça é essencial para a promoção da vida de todos na sociedade. Onde quer que se exerça o poder em benefício próprio (em maior ou menor escala) e às custas do outro, ou não se respeite o vínculo do matrimónio e se cometa adultério, e onde quer que a vida alheia seja desrespeitada, maquinando-se a morte, lá o juízo de Deus paira sobre as nossas cabeças e a justiça de Deus nos convoca ao arrependimento.

Enquanto a nossa pregação deveria destacar que a possibilidade de arrependimento já é, em si, sinal de graça, a seriedade do pecado e da desobediência deveria ficar absolutamente clara. Diante de Deus não existe impunidade. O juízo, porém, não detém a última palavra. A mensagem da graça, que já emerge no encontro de Nata com Davi, é radicalizada no Novo Testamento. Por isso não podemos deixar de dizer, no sermão, que é possível e preciso começar de novo. A oportunidade para o novo começo, que emerge do arrependido encontro com Deus, põe a graça na ordem do dia e permite vislumbrar o futuro com esperança. Agora, o texto nega definitivamente a possibilidade da graça barata, e isso não pode deixar de ser abordado.

VI — Subsídios litúrgicos

A confissão de pecados poderia concentrar-se em três áreas: 1. O uso do poder em benefício próprio, destruindo o próximo. 2. A infidelidade matrimo¬nial e o consequente sofrimento que se traz para dentro do âmbito familiar. 3. O desrespeito para com a vida quando se usa o próximo para o nosso próprio benefício ou para encobrir o nosso próprio pecado.

A intercessão poderia concentrar-se nos mesmos motivos da confissão, introduzindo, porém, a súplica por oportunidade para arrependimento e espaço para o exercício da graça. Tanto a confissão como a intercessão deveriam extrapolar a dimensão pessoal e/ou familiar, incluindo o pecado social e coletivo e pedindo por graça para a nação.

VII — Bibliografia

- BOECKER, H. J. Meditação sobre 2 Samuel 12.1-10,13-14. In: HELD, Falkenroth. Hören und Fragen 4/2, Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag, 1976. p. 109-114.
- HERTZBERG, H. W, v. Die Samuelbücher. ATD, v. 10. Göttingen. Vandenhoeck & Ruprecht, 1973.
- VOIGT, G. Meditação sobre 2 Sm 12.1-10,13-14. In:Die lebendigen Steine. Göttingen. Vandenhoeck & Ruprecht, 1983.


 


Autor(a): Valdir Steuernagel
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 12º Domingo após Pentecostes
Testamento: Antigo / Livro: Samuel II / Capitulo: 12 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 10
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1989 / Volume: 15
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 13483
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