2 Timóteo 3.14-4.5

Auxílio Homilético

16/10/2016

 

Prédica: 2 Timóteo 3.14-4.5
Leituras: Gênesis 32.22-31 e Lucas 18.1-18
Autoria: Guilherme Lieven
Data Litúrgica: 22º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 16/10/2016
Proclamar Libertação - Volume: XL

Pregar o evangelho em meio à crise

1. Introdução

O texto indicado para a prédica no 22º Domingo após Pentecostes, 2 Timóteo 3.14-4.5, permite uma valorosa mensagem para as comunidades cristãs. Quando as primeiras comunidades cristãs procuraram estruturar-se como igreja de Jesus Cristo, foram necessárias perseverança, fidelidade e dedicação na divulgação do evangelho, além de discernimento entre o que ameaça e o que fortalece a comunidade. Em nosso tempo, a mesma mensagem convida-nos para o compromisso e a fidelidade na proclamação do evangelho e da ação salvífica de Jesus Cristo.

Na liturgia da palavra, a prédica será precedida da leitura de Gênesis 32. 22-31 e Lucas 18.1-18. A palavra em Gênesis comunica que nem tudo deu certo para Jacó. Mesmo que tenha recebido a bênção de Deus após a luta, sofreu um golpe, foi marcado e ficou manco. O texto e seu contexto apresentam um Jacó líder, perseverante, destemido, que usa a sua força e sabedoria para alcançar seus objetivos. Jacó viu Deus face a face, sobreviveu e permaneceu fiel a ele. É instigante nesse texto a visão do Deus que se revela a Jacó na luta e na bênção. Em Lucas 18.1-18, ouvimos que Deus atende nossas orações, mas nem sempre conforme nossas vontades, exigências e esperanças. A mensagem do texto ensina a perseverança e a determinação na busca dos objetivos. Inspira a atitude de colocar-se sempre em movimento. Porque Deus atende, ouve e, segundo a sua misericórdia e vontade, revela sua bênção.

Podemos preparar uma celebração e a mensagem no 22º Domingo após Pentecostes, permitindo que 2 Timóteo 3.14-4.5 conduza-nos e aponte o foco do serviço litúrgico, da proclamação e das reflexões.

2. Exegese

Os cristãos de Éfeso enfrentavam dificuldades. Conforme a Segunda Carta de Paulo a Timóteo, conviviam com falsas doutrinas, falsos ensinos sobre a ressurreição (2.18), fábulas e mitos. E nessa situação Timóteo é chamado e incentivado a pregar em meio à crise, a ser persistente, fiel, justo, qualificado para toda a obra, em especial para proclamar o evangelho a partir de sua fé em Jesus Cristo.

Timóteo nasceu em Listra na província da Galácia ou Gália da Ásia. Seu pai era grego e sua mãe judia, que se tornou cristã. Quando Paulo o encontrou, já era um discípulo dos apóstolos. Conhecia as Escrituras, os decretos dos apóstolos (At 16.4). Estudou sob a orientação de sua avó Loide e sua mãe Eunice (2Tm 1.5) e de Paulo aprendeu do evangelho. Timóteo participou das viagens missionárias de Paulo e da formação e do fortalecimento das primeiras comunidades cristãs. Foi um líder cristão, reconhecido em sua época. Pode ter sido o primeiro bispo de Éfeso. Era um jovem, líder da igreja, que recebeu a missão de pregar e ensinar numa comunidade em confl ito.

3.14 – Timóteo é chamado para retomar os fundamentos de seu aprendizado, que teve origem anterior à crise instalada. Permanecer firme no que aprendeu. O de quem, na Vulgata aparece a variação de que mestres. E, certamente, refere-se à sua avó, à sua mãe e Paulo.

3.15 – As sagradas letras são os livros dos profetas e outros da tradição judaica. Também é traduzida por Escrituras Sagradas. Desde criança, Timóteo conheceu os livros sagrados da tradição judaica. O conhecimento de Timóteo das letras sagradas, com a fé em Jesus Cristo, conferiu-lhe a sabedoria para comunicar a palavra que tem o poder da salvação.

3.16 – Toda Escritura, inspirada por Deus, serve, é útil para ensinar a verdade, corrigir falhas e definir a maneira correta de viver. Os apóstolos ensinavam que as “Escrituras Sagradas”, as mensagens dos profetas, foram inspiradas pelo Espírito Santo e guiadas por Deus (2Pe 1.21). Timóteo é convencido de que a partir das Escrituras Sagradas, com a sua fé em Jesus Cristo, está pronto para ensinar a verdade, corrigir e discernir a maneira justa para as pessoas viverem. Ou, conforme outra tradução: Para educar na justiça.

3.17 – Para que o homem de Deus, ou em outra tradução, a melhor: O servo de Deus seja perfeito, preparado para servir, para boa a obra. O servir a Deus está relacionado com a maneira justa de viver.

4.1 – É uma admoestação diante, em nome de Deus e de Jesus Cristo e da sua obra de salvação que se completará. Tem a conotação de um ritual de confi ssão de fé, certamente já praticado nas comunidades.

4.2 – Pregar, insistir, admoestar, advertir, reprovar, aconselhar com paciência e ensino (com didática) são defi nições da tarefa, o ministério, transferido a Timóteo.

4.3 – Chegará o tempo em que não suportarão a sã doutrina. Conforme 1 Timóteo 6.3, a sã doutrina está relacionada com as palavras de Jesus Cristo, transmitidas pelo ensino com piedade. A sã doutrina não se baseia em preceitos das pessoas ou de seus costumes (Mc 7.7), mas naquela advogada pelo apóstolo Paulo, a boa-nova da graça de Deus (At 20.24). A doutrina de Jesus é a de quem o enviou, procede de Deus (Jo 7.16). A multidão ficou maravilhada com a doutrina que Jesus proferiu no monte (Mt 7.28). Encontramos a sã doutrina nos ensinamentos e na ação salvífica de Jesus. ... Mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos. Certamente esse é o conflito principal nas comunidades cristãs. Outra doutrina, ou ensinamentos, ou “verdades diferentes e contraditórias”, que agradam e encantam estão sendo ensinadas nas comunidades.

4.4 – Desviarão os ouvidos da verdade. Está em questão a negação do conteúdo da fé, dos ensinamentos dos apóstolos e da sã doutrina de Jesus Cristo. ... Entregavam-se às fábulas. As fábulas religiosas daquele tempo pertenciam à tradição oral. De origem oriental, os gregos e romanos usavam-nas para sedimentar verdades sobre a alma, a natureza humana, os costumes e criar novas tradições, contrárias à verdade do evangelho.

4.5 – Tu, porém... Retoma a admoestação. Reafirma o pedido a Timóteo para que desempenhe a sua tarefa de pregar, insistir, admoestar, advertir, reprovar, aconselhar. ...sê sóbrio em tudo, suporta o sofrimento, faz o trabalho de um anunciador do Evangelho. Aconselha e aponta para as consequências da fi delidade aos ensinamentos dos profetas e apóstolos e ao chamado para anunciar a sã doutrina de Jesus Cristo.

O conteúdo dos v. 3.14 a 4.1 prepara a defi nição da tarefa a ser assumida por Timóteo e destaca o seu currículo. Ele tem sabedoria, é justo, crê em Jesus Cristo, conhece as Sagradas Escrituras inspiradas por Deus, tem a confiança dos apóstolos. Está preparado para o ministério, para combater o bom combate. Portanto sua tarefa é proclamar a boa-nova do evangelho, a sã doutrina de Jesus Cristo, admoestar, insistir, aconselhar, fazendo isso com sobriedade, paciência e didática.

4.3-5 – Antecipam uma análise das consequências da ação em meio à oposição e aos opositores. Faz uma leitura do desafio. Renova a admoestação para desempenhar com zelo a tarefa e confirma o seu preparo e a sua fidelidade à sã doutrina, requisitos que garantem legitimidade para o seu ministério.

Observo, ainda, que o texto indica um traço hermenêutico a ser adotado por Timóteo, qual seja: comunicar a palavra, inspirada por Deus, a partir da sua fé em Jesus Cristo, da sua fé na ressurreição de Jesus. O conhecimento do evangelho e da Sagrada Escritura ao passar pelo centro da fé, Jesus Cristo, leva à verdade e à salvação. A fé em Jesus Cristo, os seus ensinamentos e a sua ação salvadora, somados a sabedoria, paciência, didática e fidelidade, auxiliam na interpretação da sã pregação e no discernimento da verdade.

3. Meditação

A nossa realidade é conflituosa. As comunidades cristãs formam-se e vivem a fé em Jesus Cristo em contextos de disputas e sofrimentos, vazios de certezas e de valores que assegurem justiça, caminhos, esperanças, sonhos, objetivos e horizontes novos. Os conteúdos da fé cristã, o evangelho e a vivência da fé em Jesus Cristo transitam na contramão do fluxo principal e imponente da sociedade. Não é estranha a percepção de que as comunidades fiéis ao evangelho enxugam gelo. Sua incidência humana, evangelizadora e missionária encontra-se invisível e, numa leitura racional, sem efeito. Assim como no tempo do chamado a Timóteo, em nosso tempo faz-se necessário perseverar na proclamação e na vivência da fé em Jesus Cristo para contrapor à crise.

A realidade exige constante busca pelo discernimento entre o que ameaça e o que fortalece a comunidade na vivência da fé e em sua missão. A Bíblia, a palavra de Deus, está perdendo a sua autoridade. Seu conteúdo e sua mensagem seguem diluídos em discursos, ritos e práticas religiosas não menos contraditórias e conflituosas, que legitimam um modo de vida que nega o evangelho. Em outro viés, comunicam verdades teológicas e interpretações bíblicas que representam, ou estão a serviço, de segmentos e movimentos cristãos, geralmente autoritários, fundamentalistas, que incidem na sociedade, legitimando disputas, exclusão e injustiças. O cenário é desolador. A pessoa, a sua dignidade religiosa, seus direitos fundamentais estão cada vez mais comprometidos.

Nessa crise, em meio à pluralidade de interesses religiosos, políticos, econômicos num palco hedonista, a palavra é manipulada e transformada em instrumento para legitimar fábulas, conteúdos de autoajuda e sistemas de desvirtuamento dos fins da estrutura social, com poder adulterador de valores comunitários e individuais que estão na contramão da vontade de Deus.

Nesse contexto, os fracos são incitados a eleger inimigos entre si e a abandonar o espelho, mesmo que turvo, para não ver a si mesmos, sua história, seus valores e sentido e, consequentemente, os sistemas que os escravizam e matam. Esses são traços da atual perigosa crise, que reside também nas comunidades cristãs. Nesse contexto e situação em conflito, as comunidades cristãs são chamadas para se fortalecer, caminhar na contramão, enxugar gelo e proclamar a boa-nova do evangelho, a sã doutrina de Jesus Cristo, admoestar, insistir, aconselhar. Inserir-se na crise com coragem, humildade, sobriedade, paciência e didática.

Em outra época, em realidade semelhante no século XVI, a reforma da igreja cristã, protagonizada por Martim Lutero, deu testemunho histórico da busca pelo retorno da sã doutrina de Jesus à boa-nova da graça de Deus. Martim Lutero afirmou: ... nossa doutrina e conduta não se baseiam em nós mesmos, e o que fazemos não por causa de nós, e sim, por causa de Cristo, o Senhor, de quem nos vêm todas as coisas e por cuja vontade pregamos, vivemos e sofremos. O movimento da Reforma moveu-se em direção ao retorno à palavra, à fé em Jesus Cristo e à cristologia. Necessitou da reelaboração da teologia da cruz, da justificação, da escatologia, da mediação e sacerdócio, também dos fundamentos da eclesiologia e da defesa da hermenêutica, cuja chave passou a ser Jesus Cristo, o próprio Cristo de Deus. Para Martim Lutero, toda a Bíblia deve ser interpretada a partir de Jesus Cristo, visando ao próprio Cristo. A comunidade cristã, chamada para dar testemunho do evangelho, está inserida na realidade confl ituosa em que as multidões estão vazias de sentido e descomprometidas com a dignidade humana e justiça.

A comunidade cristã acolhe as pessoas que conhecem as Escrituras e são fiéis à fé em Jesus Cristo e, simultaneamente, simpatizam com conteúdos que ajudam a viver e a abstrair vantagens no movimento expressivo e visível da sociedade em crise, onde as Escrituras Sagradas são úteis desde que não exijam compromisso, vínculos, comunhão, justiça e seguimento à ação salvadora de Deus em Jesus Cristo. Esse é o contexto da pregação do evangelho em atendimento ao chamado expresso em 2 Timóteo 4.14-4.5.

4. Imagens para a prédica

Sugiro incluir na pregação a imagem de trafegar na contramão. Chamar a atenção dos e das ouvintes de que viver o evangelho coloca a comunidade na contramão do fluxo maior da sociedade, da realidade e do contexto. Pode-se também usar a imagem do “secar gelo”, que corresponde ao insistir em pregar e viver o evangelho e não ver mudanças, mesmo com a fé na ação livre do Espírito Santo.

Sem a pretensão de dar uma aula sobre conhecimentos bíblicos, também seria importante solicitar a um grupo ou pessoa da comunidade para construir uma caixa em forma de Bíblia, semelhante a uma Bíblia. Mostrar aos ouvintes uma “bíblia vazia” em comparação à Bíblia com seus livros, que contêm a palavra de Deus. Essa dinâmica ajuda na pregação quando se abordar a questão da sã Escritura que ilumina a verdade, interpretada a partir da concepção de que Jesus Cristo é o centro da palavra.

Considero de grande importância incluir na pregação a dimensão individual do chamado a Timóteo, nesse caso à liderança, e simultaneamente a dimensão comunitária da vivência da fé e pregação do evangelho. Apresentar a comunidade como um corpo que se move ou a igreja de Jesus Cristo, visível e invisível, inserida na sociedade conflituosa. Deve-se evitar uma pregação que não identifi ca o conteúdo do evangelho, da ação salvífica de Deus em Jesus Cristo. 2 Timóteo 4.14-4.5 exige uma síntese dos valores, das dádivas, da ação de amor de Deus presentes na realidade conflituosa, em que as comunidades cristãs movem-se na contramão.

5. Subsídios litúrgicos

A celebração pode iniciar com um hino de exaltação ao amor de Deus.

Ajudaria muito colocar próximo ao altar um grupo para puxar vários panos em direção contrária, para simbolizar um conflito, uma disputa. E sem se referir à cena, fazer a saudação trinitária. A cena ajudará a comunicar o Deus de amor, que está presente na realidade em crise, conflituosa.

Incluir na confissão de pecados a tentação de viver e cultivar valores e ideias, acríticos à realidade controlada por poderes e valores, conteúdos, vozes e imagens que confundem e subvertem a verdade da salvação de Deus. Pedir perdão pela falta de fidelidade e coragem para mover-se na contramão do fluxo da sociedade violenta, vazia de valores da paz e da justiça.

No Kyrie, rogar pelos fracos escravizados pela manipulação da interpretação e pregação da palavra de Deus e dos conteúdos do evangelho. Rogar pelas multidões que caminham sem rumo, vazias de esperança e fé no verdadeiro evangelho de Jesus cristo.

Na oração do dia, referir-se ao contexto da comunidade, à sua fraqueza, à necessidade da proclamação do evangelho para movimentar-se e dar testemunho do amor, da presença e salvação de Deus.

Fazer as três leituras bíblicas. No momento das leituras, poder-se-ia avaliar a importância de colocar uma pessoa da comunidade nas imediações do altar com aquela caixa em forma de Bíblia nas mãos, encenando uma leitura.

A bênção e o envio precisam contemplar o desafio de retornar para casa e para o dia a dia fortalecido para viver a fé em Jesus Cristo, mesmo que não será fácil manter-se fiel ao evangelho e dar testemunho de sua fé.

Bibliografia

BAYER. Oswald. A teologia de Martim Lutero. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2007.

MERKEL. H. Die Pastoralbriefe. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1991.




 


Autor(a): Guilherme Lieven
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 22º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Timóteo II / Capitulo: 3 / Versículo Inicial: 14 / Versículo Final: 17
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2015 / Volume: 40
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 35206
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