A renúncia à violência e a valorização do amor ao próximo

Uma atitude nova

23/02/2019

Introdução

Prezada comunidade.
Vou começar novamente com dois fatos concretos como ilustração.

Dona Eliane conta no grupo da OASE que seu esposo é violento e injusto. A notícia corre como um rastilho de pólvora. O triste fato se torna conhecido por toda a comunidade; o marido/inimigo/violento começa a se conter. De forma surpreendente a vergonha toma conta daquele homem. Quando o fato se torna público, o marido aprende a viver de acordo com a regras básicas de civilidade, da renúncia à violência e da valorização da outra pessoa.

Outro fato: em escola pública do subúrbio, há uma gangue temida por causa de seus furtos e violência. Era a grande inimiga da comunidade. A diretora não se intimidou. Manteve o diálogo com o grupo. Cabe ressaltar que dois jovens da gangue queriam abandonar aquela vida, mas não tinham forças para tal. Um deles admite que não tem mais salvação! O que a diretora fez de especial? Num gesto ousado os colocou como seguranças da escola no recreio e nos intervalos. Sob os olhares de todos e fazendo o oposto do que costumavam fazer, modificaram seu comportamento no âmbito da escola. Desta forma confirmaram a teoria de que, quando não é possível erradicar a violência, canalizá la é o melhor caminho. Diminuiu a violência ao demonstrar amor ao inimigo. Naquela situação específica, por muito tempo, a polícia se pautara pela reciprocidade da violência, fazendo da gangue sua inimiga, com isto gerando mais violência. Ou seja, aqueles que deveriam zelar pela segurança, ao odiar o inimigo sistematicamente, reforçavam a espiral da violência.

Como reagimos

Observam psicólogos que uma pessoa que, por exemplo, sofreu uma situação de violência, pode não mais dormir à noite, ficando alerta e atenta aos barulhos da noite, sentindo medo de que a situação possa se repetir. Evita sair de casa, teme os olhares dos outros, teme que o agressor volte a qualquer momento, tem pesadelos com cenas de violência e a desconfiança domina a sua experiência no mundo. A vida fica bruscamente limitada, num estado de muito sofrimento e exaustão que pode durar alguns meses. (Artur Scarpato - http://psicoterapia.psc.br/)

Há pessoas que reagem com o olhar que fica oscilando entre expressões de desconfiança, vigilância e medo; a visão está geralmente sem foco, fica com a respiração superficial e rápida, o diafragma contraído, a postura puxada para cima, aumentando a pressão na cabeça e no peito.

Há ainda aquelas que reagem com violência, respondendo na mesma moeda a agressão sofrida. Pode também compensar sua resposta violenta com longos períodos de silêncio e mesmo isolamento.

Por que a pessoa cristã é orientada a não responder à altura às provocações que sofre? Por que não poder se vingar? Isso, afinal, faz tão bem para o ego...!

Novo posicionamento

O texto de Lucas que hoje abordamos é a continuação do que lemos no domingo passado. Na leitura que emoldurou a pregação da semana passada – que falou sobre RESSURREIÇÃO – o evangelista aponta para a necessidade de colocar os pés no chão e perceber que, apesar das contrariedades da vida, somos “suportados” por Deus. Temos as “bem-aventuranças” a nos alentar e os “ais” a nos admoestar. Na sequência vem o tema da vingança e amor ao próximo. Há clara indicação de que a pessoa que segue a Jesus vive sua vida de forma contrária à maioria. O cristianismo é necessariamente contracultural! Não se amolda a este século perverso e idólatra. Se não for assim, deve ser questionado, porque precisa apontar para Cristo e se amoldar a ele.

Há pelo menos quatro motivos para a renúncia à violência e para a valorização do amor ao próximo, mesmo sendo ele nosso inimigo. Os motivos são: imitação, recompensa escatológica, distinção e reciprocidade. Devemos somar a isto ainda e capacidade de perdoar.

Imitar a Cristo

No sermão do monte Jesus chama seus ouvintes atentos a imitarem suas ações em várias áreas da vida. Pede que isso seja feito de tal forma que sejam reconhecidos como luz do mundo e sal da terra. Também na questão da vingança (seguido da questão do amor ao próximo, mesmo sendo seu inimigo!) fica estabelecido que se deve obedecer a Cristo. Para esta atitude o apóstolo Paulo usa o verbo mimetai, de onde também temos a palavra mímica. Imitar a Deus é a forma de agir de suas filhas e dos seus filhos amados (Efésios 5.1). E a igreja primitiva enalteceu o imitar àquele de quem se canta no hino cristológico:

Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus,
que, embora sendo Deus,
não considerou
que o ser igual a Deus
era algo a que devia apegar-se;
mas esvaziou-se a si mesmo,
vindo a ser servo,
tornando-se semelhante
aos homens. E, sendo encontrado
em forma humana,
humilhou-se a si mesmo
e foi obediente até a morte,
e morte de cruz! (Fp 2.5-8)

Ser misericordioso

O v.36 fala de misericórdia. Convida a sermos misericordiosos, sermos bons como Deus é bom. Isto não nos coloca à altura de Deus, mas espera de nós uma postura de filhas e filhos que aprendem diligentemente com seu pai. Ser misericordioso é seguir rumo à perfeição. Ser ‘perfeito’ não é um status alcançado (ou alcançável!), conforme expressa o termo grego. Tem, isso sim, sentido de finalidade, de objetivo, de meta, rumo e caminho. Aí está o nosso fim, em buscar a perfeição, através de atos e uma vida cheia de misericórdia, indo ao encontro do outro. E neste aprendizado há recompensa. Há recompensa escatológica, ou seja, um benefício futuro. Apocalipse fala em galardão, uma forma de recompensa na linguagem militar, de difícil compreensão para mim.

Distinção

Pelo fato de os seguidores de Cristo Jesus terem ao seu dispor a recompensa futura, nos distinguimos das demais pessoas. Isso pode significar tanto uma diferença ou qualidade distintiva, quanto uma nobreza de porte ou delicadeza. A distinção da pessoa cristã é o amor que, ao recusar a violência, testemunha que já é possível viver aqui aquilo que esperamos para a eternidade. O povo cristão se distingue por saber viver a vida eterna já aqui, de forma santa, diferente. Por que não resgatar em nossos dias, em nossas teologias (tantas vezes minadas pura e simplesmente de ideologias) o que se chamou de “justiça e não violência”?

A distinção é comparável à santificação. Dito de outra forma: as pessoas cristãs se distinguem pela busca e vivência da santidade. Na questão da vingança e do amor ao próximo olham para a ordenança: Sede santos porque eu sou santo. (1Pe 1.16) Ser santo é ser feliz, é estar em plena harmonia com Deus, comigo mesmo e com os outros. É algo simples como sempre buscar viver em paz, mas que tantas vezes complicamos.

Reciprocidade

Terminando nossa lista dos quatro motivos que nos convencem a renunciar a violência, temos a reciprocidade. Amar o inimigo e reagir à sua violência com bênção, com graça, aponta para o princípio da reciprocidade cristã – não do olho por olho, mas do olho pelo abraço e perdão. Deus não retribui, perdoa. Isto é trazer a imagem do que é celestial.

“Assim como tivemos a imagem do homem terreno, teremos também a imagem do homem celestial.” (1 Coríntios‬ ‭15.49‬ ‭NVI)‬‬ Na reflexão do Ap. Paulo, mesmo que ainda carreguemos a imagem da velha natureza, sem a salvação e sem os valores de Cristo Jesus; mesmo que semelhantes ao erro, podemos ser transformados pela graça de Cristo em novas criaturas. Espelhando a nova natureza de Cristo em nós, passamos a reproduzir a imagem perfeita de Deus em nossas mútuas relações. Isso é graça, não canso de repetir. Como tal – como novas criaturas – passamos a influenciar o mundo com novas ações, com o perdão.

Conclusão

É impossível levar a bom termo nossa reflexão sobre a renúncia à violência e a valorização do amor ao próximo sem lembrar da questão do perdão. Quando Jesus mencionou que devemos perdoar 70 x 7 não limitou o número, mas deu ao perdão uma abrangência universal e infinita (Mateus 18.22).

Tão fundamental é a abrangência do perdão que Jesus a coloca na oração dominical – perdoa assim como nós estamos dispostos a perdoar – e o repetimos sem que meditemos suficientemente nas nossas ações que contradizem o que pedimos. Perdoar é condição para receber perdão.

Querida comunidade, iniciemos pelo perdão, pela disposição em perdoar, para que nosso amor seja estabelecido de tal forma que renunciemos à violência como algo natural entre nós.

Amém.
 


Autor(a): Pr. Rolf Rieck
Âmbito: IECLB / Sinodo: Sudeste / Paróquia: Rio de Janeiro - Martin Luther (Centro-RJ)
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 6 / Versículo Inicial: 27 / Versículo Final: 38
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 51028
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